Desague.
Ontem, eu chorei.
Voltei para casa e me sentei na beira da cama como quem chega ao fim de si. Tirei os sapatos sem cuidado, desabotoei o sutiã como quem desarma a última defesa e desmoronei. Chorei sem pudor, até o nariz escorrer e manchar a blusa de seda comprada em promoção — ironia barata para um colapso caro. Chorei até a cabeça latejar, até o mundo embaçar e os lenços se acumularem no chão como provas de um crime que ninguém investigaria. Não foi um choro educado nem contido, foi o choro que rasga o corpo porque ficou tempo demais esperando.
Chorei por todos os dias em que estive ocupada demais, cansada demais, endurecida demais para sentir. Por todas as vezes em que me silenciei, me abandonei, me tratei como algo secundário. Meu Eu voltou em forma de espelho cruel quando os outros fizeram comigo exatamente o que eu já havia feito comigo mesma.
Chorei pelo que me foi arrancado, pelo que pedi e não veio, pelo que conquistei e entreguei em troca de migalhas, saindo vazia, gasta, exaurida. Há um ponto em que a linguagem falha e a única coisa possível é o choro.
Chorei pelas crianças largadas no meio do caminho: meninos abandonados pelos pais, meninas esquecidas pelas mães. Adultos que não sabem amar indo embora e chamando isso de destino.
Chorei porque tive um lindo menininho quando ainda me sentia una menina, porque fui mãe sem mapa, sem colo, sem saber. Porque quis meu pai de um jeito que doía no osso. Chorei porque feri e porque fui ferida. Porque a dor não aceita atalhos: ela precisa chegar ao fundo para acordar quem a carrega. Chorei porque era tarde demais e porque, paradoxalmente, era exatamente a hora.
Minha alma sabia o que eu fingia não saber, ela sempre soube. Foi um choro espiritual, daqueles que libertam e devastam no mesmo gesto. Entre soluços, senti algo se abrindo: uma fresta de liberdade, dolorosa, inegociável. Ontem, eu chorei por cada instante da minha vida. E nada disso foi em vão.
- Aquarius, 1998












