Basta de romantizar o que nos destrói, chega de querer levar luz a algo que há muito já é a consolidação das trevas. A nova visão nasce do respeito consigo mesmo, da percepção de que egoísmo verdadeiro é o abdicar totalmente de si. Aceitamos o fato de que somos a personificação das dualidades existentes no universo. Anjos e Demônios, facetas distintas de uma mesma moeda banhada em carne e osso. Eis a Gênesis do agora! Não quero mais seguir o caminho fácil de apontar no outro o que incomoda, muito menos desejo continuar caminhando de braços dados com o que me arrasta rumo ao esgoto. Faço por mim para assim poder servir realmente pro todo. Nunca consegui compreender esta espécie de rito de sacrifício que a vida nos cobra. Eu estou ciente desta distância gigantesca entre o que eu e você enxergamos aqui, diante dos fatos que são moldados conforme nosso ângulo de recepção da história. Não há vilão nem mocinho, apenas seres confusos buscando entendimento numa estrada que inebria. Nossos parâmetros não são nada confiáveis, precisamos nos dar conta disto. Esta é a nossa novela diária. Alternamo-nos entre acertos e falhas, num ir e vir de capítulos que apenas expõem a nossa frágil humanidade. Aquela que hoje escolho ser empático, esta que é o meu manifesto. Aqui opto por ser receptivo a ideia de que a verdade é uma nuvem de algodão, uma espécie de astro lunar que pode receber luz em apenas uma de suas faces sempre. Apegar-se a teimosia de não considerar o outro lado é um erro que nos apequena, mais uma dúbia questão que nos faz minoria dentro de uma aparente maioria que nunca é palpável. Ponho-me nesta linha tênue de entendimento, me equilibrando no difícil que é conciliar teoria e prática, discurso e ação. Ali embaixo sempre há um abismo que nos chama, onde o som ecoa voraz ao reverberar nossa voz por todas as camadas de realidade existentes. O mundo é um cão bravo, as vezes com direito a placa de aviso e tudo mais. São muitas as respostas para o que na maioria das vezes aconteceu apenas por desatenção, por equívoco de principiantes na arte da vida. Foi. E agora abro mão de buscar descrever minhas razões, de aparentemente tentar explicar coisas que nunca são realmente justificáveis. Já não importa. Remexer no estrume só piora, já dizia o velho ditado. Perdão. Talvez isso seja fruto unicamente da insegurança, desta lamentável constatação de que estamos todos ficando incapazes de relevar e amar de verdade o outro. Todos. Pobre de nós que jogamos nas palavras o peso de expressar este outro lado, todo aquele rebuliço interno que nos faz singular e que é plano de fundo para algo em constante expansão aqui dentro. Falta entendimento, sobram coisas insignificantes. Mas entender, no entanto, não é exatamente o caminho a ser perseguido. Por vezes a razão é incapaz de desfazer o enigma, é insuficiente num universo onde o que de fato concluímos é que quase nada faz sentido. A verdadeira compreensão nasce da passividade, de uma rota à esquerda onde escutar sem blindagem já é o muito feito. Ali estamos nós, notando que o pingo escuro é ínfimo diante de nossas intenções amarelas... Conscientes de que o outro é nós. De que há uma infinidade de expressões que independente de nosso apreço continuarão a existir, pois não se exclui a sua necessidade nesta grande máquina. Somos errantes e a culpa nos aprisiona. O pouco que está em nossas mãos é tão somente o esforço de não deixar tudo virar câncer, de lutar para que o ódio e o rancor não continuem a nos corroer, e acima de tudo para notar que o que permanece de verdade sempre são os bons momentos vividos. Fica o afeto que chega daquele abraço apertado quando tudo entrou em colapso. Este é o meu manifesto amarelo.