Relato sobre a vivência da Matinta
E às vezes a gente escutava aquele “apito”, bem fininho... eu tinha medo. Eu vim pra cá morar com meu pai, sozinha, porque perdi minha mãe muito cedo. Dependendo da altura do “apito” a gente podia saber se ela tava perto ou longe. Alguns diziam que quando o apito era fraquinho era porque ela tava distante, mas os moradores mais antigos já diziam que era o contrário, quanto mais fino, mais perto ela tava.
Alguns moradores diziam que a Matinta eram aquelas pessoas mais antigas da região, bem antigas mesmo, que gostavam muito daquelas orações estranhas, e que principalmente fumavam bastante tabaco. Elas que se transformavam em Matinta. Eles diziam que era uma mulher com o cabelo todo pra frente, que saia assombrando as pessoas de madrugada.
Quando ouviam ela apitar, eles diziam “vem buscar o tabaco aqui, Matinta”. Algumas vezes, eles diziam “Vem buscar açúcar”, “Vem buscar café”, que assim quando alguém aparecia no outro dia, pela manhã, pedindo uma dessas coisas, eles costumavam dizer que essa pessoa era a Matinta que tava apitando de noite.
Algumas pessoas diziam que, quem se transformava em Matinta, geralmente gostava de viver isolado, e nunca te olhava nos olhos, tipo assim como tô olhando pra ti, elas sempre andavam com a cabeça baixa, também. A gente já morava isolado aqui quando era mato, as pessoas que viravam Matinta viviam mais isoladas ainda, geralmente na beira dos rios.
Ainda vive uma mulher aqui no Murinin, eu não sei o nome dela, mas dizem que ela sim, virava a Matinta.
Informante: Maria Luiza Rodrigues
Idade: 67 anos (vive há 60 anos no local)
Localidade: Distrito de Benfica (Benevides)