CONTO 00 – Conhece a sensação do desencontro?
Em algum momento da vida você já tentou prender a respiração em baixo d’água até não poder mais? Conhece aquela sensação em que parece que seu peito vai explodir e que seu cérebro vai escorrer pelos ouvidos? Então, é como me senti durante os anos como pré-vestibulanda de medicina.
Na verdade, nem sempre foi assim. No primeiro ano era como ter borboletas no estômago todos os dias, tudo era ansiedade. Era um estado de “espero que chegue logo “ misturado com “ meu deus do céu está chegando “. Mas, naquele momento, tudo era claro e objetivo: estudar e ser aprovada, fim. Porém aprendi que, sobretudo na Medicina, a vida é feita de desencontros e eu me desencontrei com a aprovação ( algumas vezes ) durante o caminho.
Reprovada. E então prendi a respiração. No segundo ano, foi como sair de um desses brinquedos de parques de diversão itinerantes em que você apenas roda, roda e roda sem parar. Sentia-me desorientada e nauseada a maior parte do tempo. Afinal, sempre fui uma boa aluna, não excepcional ou impressionante, mas daquelas que se sentam na primeira carteira, fazem toda a lição de casa e dão o máximo de si.
O peso de estar “perdendo “ mais um ano, de estar ficando para trás na linha do tempo que nos é imposta goela abaixo : ensino médio – faculdade – emprego - casamento - filhos , já se fazia presente em meus ombros. Enquanto muitos colegas comemoravam o início da vida universitária, eu reentrava no ensino médio, mais uma vez. Bom, o segundo ano passou rápido como retirar um esparadrapo. Em um dia eu estava em Fevereiro no cursinho e no outro reprovada ( de novo ).
O terceiro ano... Sabe aqueles milésimos de segundos em que já está insuportável ficar embaixo d’água e você olha pra cima e vê o céu todo embaçado pela água e a superfície parece tão distante? Passei o terceiro ano inteiro de cursinho revivendo esses milésimos de segundos e me convencendo de que se mantivesse o foco, continuasse estudando com tudo que havia de força dentro de mim eu iria (enfim ) subir a superfície.
Bom, não foi tão simples. Porque prestar vestibular não é só ter que lidar com a dificuldade da prova, com a concorrência absurda, com o fato de ser humanamente impossível você ser excelente em todas as matérias, você tem que lidar com as pessoas e, meus amigos, as pessoas são difíceis. Porque as vezes ( na maioria das vezes ) é difícil convencer as pessoas que é assim mesmo, que pode não ser de primeira, que você “ só estudar “ é muita coisa e que por mais que você esteja em 1000º de 50 vagas, ainda assim é seu sonho ali. E você esta lutando. Lutando com a matemática, com aquele professor que não sabe explicar a matéria direito, com aquele grupinho da sala que não para de atrapalhar a aula, com aquele parente chato que só te coloca para baixo, com você mesmo. COM VOCÊ MESMO. Não saberia quantificar quantas vezes chorei no travesseiro porque muitas vezes tive a certeza que não conseguiria que não seria capaz, que eu realmente não tinha nascido para aquilo.
Mas, vocês podem pensar: porque é tão importante convencer as pessoas que vale a pena continuar tentando? Oras, porque o que eu mais pensei durante todo o terceiro ano foi: o que eu vou dizer para os meus pais, parentes, namorado e amigos que eu falhei de novo e que bem provavelmente eu ficaria presa para sempre no ensino médio?
No fim, as provas terminaram. Era 2016, e eu havia me formado no ensino médio em 2012 e enquanto alguns dos meus colegas iniciavam seu último ano de graduação eu era então reprovada novamente. Foi estranho porque ao fim do segundo ano conquanto eu tivesse ficado em uma colocação “ ok “, chorei feito criança com a saída dos resultados negativos. Já ao fim daquele ( terrível ) terceiro ano – que inclusive devo acrescentar que de tão absurdamente horrível eu interrompi o cursinho no começo de outubro e completei o semestre estudando em casa - senti uma tristeza sem precedentes daquelas em que nem nos permitimos chorar.
Chequei minha posição. Guardei o último ar que me sobrava nos pulmões e me matriculei novamente no cursinho. Porque no final das contas, se tinha algo que eu repudiava mais do que permanecer mais um ano no cursinho era me imaginar em uma vida em que eu não fosse médica.
Era terça – feira, 01/ 03/16 , me sentei pela última vez em uma sala de cursinho. Lembro que me espremi em uma cadeira de braço pequena em uma sala gigante com mais ou menos 300 alunos, infinitamente mais intimidadora do que meu antigo cursinho com seus 30 e tantos. Sentei junto com outras três centenas de vestibulandos de medicina para assistir um vídeo motivacional com vários ex-alunos aprovados em grandes universidades em colocações que eu jamais sonhei. Eu os vi chorando, gritando após ver a lista de aprovados e senti inveja. Isso mesmo meus amigos, inveja daquelas bem feias, e nem era do “USP/UFSCAR/UNESP/UNICAMP/UNIFESP “ estampados em suas testas, ou suas colocações entre os 10 primeiros, era inveja da liberdade. Inveja de poder escapar do ensino médio, de não precisar evitar amigos/parentes /vizinhos e suas perguntas inconvenientemente naturais : “ e ai , deu? “ , “ será que esse ano vai dar ? “, “ em que ano ( da graduação ) você está ? “ ou “ o que está fazendo da vida ? “; Inveja da certeza do que farão nos próximos seis dias, seis meses ou seis anos.
E então o começo do fim ( ou do novo começo ), 02/03/16 sai os convocados para dar interesse por vaga em uma das dez melhores universidades federais do país. Minha única opção no ENEM. E lá estava meu nome, 3º lugar de 4 vagas. Coloquei na cabeça que não havia motivo para comemorar antes que eu nome estivesse em uma lista cujo o título fosse “ APROVADOS”.
Dia 04/03/16, o dia em que recuperei meu fôlego, o dia em que subi a superfície. Não há muito o que dizer sobre esse dia, apenas vou terminar da mesma maneira que comecei : Em algum momento da vida você já esteve com muita, muita, muita sede mesmo por muito tempo no sol quente e bebeu um gole de água bem gelada? Conhece a sensação de alívio que é a água descendo pela garganta, como se até respirar ficasse mais fácil? Então, o que eu senti nesse dia foi melhor do que isso.