Gosto da hora em que a noite fica mais silenciosa.
Quando o relógio perde a importância, as mensagens cessam, e ninguém exige nada de mim.
É nesse instante que me encontro.
Descalça.
Os cabelos soltos.
A pele ainda guardando o calor do banho.
Caminho devagar pelo apartamento, taça na mão, como se a madrugada me pertencesse.
E talvez pertença.
Há algo de perigosamente bonito em sentir-se desejável mesmo sem ser observada.
Sem olhares.
Sem palavras.
Sem testemunhas.
Apenas eu.
E a consciência de cada detalhe.
Da curva dos meus ombros refletida no espelho. Do tecido escorregando pela pele. Do arrepio inesperado que surge quando um pensamento atravessa minha mente.
Então paro por um instante.
Observo meu reflexo.
E sorrio.
Porque algumas noites não despertam saudade.
Não despertam lembranças.
Despertam algo muito mais difícil de explicar.
Uma fome tranquila.
Um desejo elegante.
Uma vontade sem destino.
Como uma chama que dança em silêncio, sem consumir nada, mas tornando tudo mais quente ao redor.
Inclusive eu...









