O frio esquenta meu corpo.
O copo de vinho que tomo todas as noites
esquenta meu corpo.
Lá fora, cinco graus.
Sob os lençóis, meu corpo vai se despindo,
pois o calor aumenta
e se derrama por mim.
A janela embaçada esconde a cidade,
mas não os pensamentos
que insistem em atravessar a madrugada.
O vinho desce lento,
a noite passa devagar,
e eu me permito sentir cada segundo
como quem saboreia um segredo.
Há uma estranha beleza
em estar sozinha diante do inverno.
O frio me cerca,
mas não me alcança.
Porque existe um calor silencioso
percorrendo minha pele,
ocupando espaços que o vinho sozinho
não seria capaz de preencher.
Então me entrego à noite.
À taça quase vazia.
Ao silêncio do quarto.
À dança das sombras no teto.
E por um instante,
não sei dizer se é o vinho,
a saudade
ou algum desejo sem nome
que aquece tanto assim.













