TANGER,
DESTE LADO NÃO SE ESCONDE QUEM SE É
Do meu último reduto europeu, a cidade espanhola de tarifa , entrava expectante num ferryboat da Frs lines com destino à minha primeira experiência em África,. Tanger, as portas escancaradas de Marrocos, com os olhos fixos em nós, os europeus.
Em 45 minutos atravessava o mar mediterrâneo e na minha mochila trazia apenas uma garrafa de água gelada e muito espaço para carregar as cores, os cheiros e o misticismo deste país. Com alguma sorte,talvez também a possibilidade de encontrar ali recantos autênticos, crus e sem filtros para turistas. Claro que, quando vais em excursão, num “One day tour” não podes esperar muito,, ou melhor, no máximo quase nada. Felizmente enganei-me pois tanger está mesmo ali à nossa frente, autêntica , de cara deslavada, descalça na rua e sorrindo orgulhosamente de braços abertos para nos receber.
Entramos nas ruas em direção ao Kasbah, a fortaleza da cidade, orientados pelo guia local, Rasheed um expert nestas andanças, hábil comunicador e um poliglota, que nunca saiu de Marrocos. Um Clássico. Aqui, nesta zona do casco antigo, rompiam as paredes brancas, rematadas grosseiramente com cores azuis e amarelas, intercaladas por portas de madeira, adornadas com metais e cores vibrantes. Vislumbrava-se aquilo que eu procurava trazer na minha mochila. À Medida que percorríamos o labirinto de Tanger, as portas iam-se mostrando diferentes umas das outras e saltavam à vista vasos coloridos repousando nas janelas indiscretas, repletos de flores e plantas, cujos perfumes emolduravam a rua, entranhando-se no ar quente que nos atravessava como uma lança.
Rasheed pouco falava, talvez soubesse que a esta hora, Tânger dispensava tradutor.
Deambulamos por ali mais alguns minutos e cruzávamo-nos agora com mais frequência com as gentes locais. Estes, Indiferentes, olhavam para nós sem grande importância, claro, éramos apenas mais uns estrangeiros que espreitavam curiosos para dentro das suas casas escancaradas e rapidamente se davam conta que ali a história era outra, Tanger não se assemelha à maioria das nossas cidades, Tanger é mais pobre, suja e mais confusa mas tanger também se sabe fazer bela à sua maneira Lá no alto, na zona privilegiada, há um rei que a quer mudar rapidamente, usando para isso uma massiva construção de habitações sociais. Mas cá em baixo, a cidade parece não ter grande pressa em mudar os seus hábitos. Tanger é Tanger, crua, sagaz, fervilhante, antiga e malandra, tanger está na rua e não esconde quem é .
Recordo uma parede pintada com palavras árabes em cor verde. Pensei que fossem graffittis, ou outro tipo de arte urbana, mas não eram, rasheed não falou sobre isso, mas soube depois que se tratavam de mensagens radicais islâmicas que se propagam em silêncio pela cidade quando a noite cai. Caiu-me a ficha, tanger é também dura e sombria, um farol para os desventurados, capaz de transformar jovens inocentes em mártires sem nada a perder.
Chegávamos depois à Medina onde as ruas respiram o frenesim das lojas e bazares. Enquanto passava por mim um tuareg com um macaco ao ombro, Rasheed fazia sinal ao grupo e foi glorioso no seu discurso. Avisou-nos que nesta zona de compras seríamos assolados por inúmeros vendedores que tudo fariam para nos impingir algo, por isso, não devíamos vacilar, o truque era escolher bem e regatear o preço sem perdão. Depois, apontou para as “duas melhores” lojas da cidade, e seguimo-lo sem sabermos que o nosso guia nos levava primeiro para a loja da sua mãe, depois para a loja da sua sogra, e por fim para o doce regozijo da sua própria comissão. É o sentido tangeríano a vir ao de cima, rasheed como todos os vendedores de rua que nos apanhavam nas redes finas da Medina, era um verdadeiro mestre da sua arte. Após uma hora de compras, regateios e outras tantas tentativas de venda, o grupo reunia-se de novo em volta de rasheed para terminar a jornada. Até à entrada no bus fomos perseguidos pelos vendedores da Medina que em último lance trocavam o “isto custa 100 dihrams” pelo “quanto me dás por isto? Toma leva, dá o que tens!”
Tanger ficava para trás, Rasheed sorria orgulhoso e eu trazia a mochila recheada. Deixava apenas o espaço para regressar um dia.