A moça de aparência comum caminha com pressa pela calçada de uma rua movimentada do centro da cidade. Chega ao edifício com quinze minutos de antecedência e chama o elevador. Enquanto espera, ela tira o celular do bolso da bolsa preta que imita couro para dar uma olhada no instagram na tentativa de evitar contato visual com desconhecidos que trabalham no mesmo edifício. Pelo que parece uma eternidade, ela ouve um apito. Não tinha percebido que o elevador tinha chegado. Sem bloquear a tela do celular, entra com os desconhecidos de seu prédio, encosta-se em uma das laterais e retorna a olhar a rede social. O elevador apita mais uma vez, ela olha ao redor e percebe que está sozinha. A porta se abre, ela bloqueia o celular e sai. Ao entrar no escritório, dá bom dia à recepcionista, mal olhando-a. Antes de ir se sentar à sua mesa de trabalho, a moça para para pegar um café. Enquanto bebe do líquido escuro e amargo, abre o celular para passar o tempo. Não percebe a vistosa caneca nova, vermelha, no escorredor ao lado da cafeteira. Também não sentiu a brisa que saía da janela aberta, não apreciou o vapor saindo do copo, nem sentiu a nova fragância saindo do difusor de ar. Entre curtidas e comentários, seu café acaba. Hora de trabalhar. Ela vai até sua mesa, desejando bom dia aos colegas de trabalho. Senta, liga o computador, suspira e dá início às tarefas do dia. Entre uma pausa e outra, sempre acompanhadas de curtidas, comentários e rolagens infindáveis no feed, seu dia acaba sem ela perceber que a atendente do restaurante onde sempre almoça estava ausente. Também não notou a veia pulsante na testa de seu chefe depois de sair de uma reunião com o conselho executivo e lhe responder um “boa tarde” mal humorado, nem as bochechas coradas do rapaz do departamento pessoal ao receber um elogio seu. Em sua tentativa de apressar os intervalos de ócio, onde sai do mundo real e adentra o virtual, a moça de aparência comum não percebe que ao fazê-lo, entra em um transe. Um transe que não lhe permite notar as diferenças diárias que fazem da vida algo impermanente. Os detalhes escapam-lhe. E assim passam-se todos os dias de todas as semanas do ano quando, por fim, chega dezembro. “O ano passou muito rápido”, diz. “Não vi o tempo passar”, pensa. Realmente.