"What Do I Think?" – Hamilton Leithauser no Outsite Mouco: uma experiência a repetir “A 1000 Times” | Reportagem completa
Hamilton Leithauser finalmente em nome próprio no Porto | mais fotos clicar aqui Hamilton Leithauser, artista norte-americano com procedência em Washington e vivência atual em Nova Iorque, entrou para o meu léxico musical em “contramão” ao resto do pessoal. A maioria reconhece-o como o audacioso vocalista dos The Walkmen entre 2000 e 2013, já eu só o passei a seguir mais afirmativamente com o debute da sua carreira em nome próprio na sequência do hiato da banda.
No formato a solo reapareceu com ‘Black Hours’, álbum de estreiaem 2014 e que contém temas sonantes como "I Don’t Need Anyone" ou "11 O’Clock Friday Night". Seguiram-se momentos fortes e emocionantes como, por exemplo, "A 1000 Times" ou "Isabella", temas inseridos, respetivamente, nos álbuns ‘I Had a Dream That You Were Mine’ de 2016 (resultante de uma maravilhosa parceria com Rostam Batmanglij) e ‘The Loves of Your Life’ de 2020.
Este ano Leithauser regressou às edições discográficas com ‘This Side of the Island’, no passado mês de março. Este é o seu motivo para vir à Velha Europa para uma digressão que começou na passada quinta-feira em Lisboa. Aproveitei a segunda data, ocorrida no Porto na passada noite de Halloween (31 de outubro) no Outsite Mouco, para conhecer auditivamente ao vivo estas novas canções. Uma ocasião indispensável num concerto esgotado com meses de antecedência.
Hamilton Leithauser voz e expressão sempre efusivas | mais fotos clicar aqui Nos dias antecedentes aproveitei para relembrar os meus encontros festivaleiros com Hamilton, na sua versão a solo em 2014 no Vodafone Paredes de Coura e em 2017 no NOS Primavera Sound. Já em 2023, também em Coura, teve lugar uma catarse introspetiva com o seu coletivo The Walkmen entretanto ressurgidos. Durante a performance a memória do artista estava incerta na sua interação com o púbico quando e aonde tinha já estado pelo norte…
Antes do grande momento da noite a primeira parte foi pontificada por uma atuação de Jo Alice. A cantautora nasceu em Faro, pai de origem francesa e mãe anglo-irlandesa. Passou a sua juventude entre o sul de Portugal e a costa oeste da Irlanda e essa multiculturalidade permitiu-a dominar vários idiomas fluentemente. Já em 2017 começou a sua carreira musical em Los Angeles.
Jo Alice na sua estreia no Porto | mais fotos clicar aqui Esta artista algarvia fez a sua entrada a solo e logo nos primeiros instantes que a sua voz ecoou deu para perceber a sua belíssima voz no tema de entrada em “Something”. Além de cantar também tocou guitarra.
Para o segundo tema, “That’s No Way”, já contou com a companhia de parceiro na bateria, neste caso foi Stephen Patterson. Ele que foi o produtor do primeiro LP de Jo. Atualmente é o baterista que acompanha Hamilton Leithauser por isso também o vimos mais tarde em palco.
Nesta sua primeira vez no Porto Jo, apresentou-se com saltos bem altíssimos, demonstrou um estilo ligeiramente a fazer lembrar Julien Baker.
Stephen Patterson na bateria | mais fotos clicar aqui Já com a sala praticamente lotada, atuou durante 30 minutos, deixou um belíssimo cartão-de-visita da sua valia. "Que agradável surpresa" frase dita por alguém do público numa das pausas entre canções causou-lhe um sorriso bem corado. Efetivamente assim o foi.
A noite de Jo foi bem especial pois contou logo, na primeira fila, com uma amiga que já não via há imenso tempo. Certamente o terrível transito que encontrou será uma memória que se desfazerá.
“Não costumo falar muito em palco por isso estar a correr bem” afirmou Alice já na fase final da sua atuação. Terminou a solo, já sem Patterson, tendo interpretado “One Of Those” e “Ne Me Quite Pas”, a única que cantou em francês.
Jo Alice, uma algarvia de gema | mais fotos clicar aqui A voz de Hamilton Leithauser tem qualquer coisa que me deixa intrigado e fascinado, é aquele tom de rouquidão incerta e profunda com aquele timbre tipicamente de quem vive na América do Norte. Agora num concerto em nome próprio e numa sala fechada a experiência prometia ser amplificada a um patamar diferenciado. Ele contou com a sua banda: Stephen Patterson na bateria, Matt Oliver na guitarra e Gregory Roberts no baixo. Um trio de músicos oriundo do Texas, nos Estados Unidos da América.
“Happy Halloween” disse Hamilton logo de entrada precisamente nas suas primeiras palavras, logo aí expressou-se como um bom norte-americano o faria. Efetivamente esta tradição tem muita força no seu país. Também não deixou de dizer que era um “prazer estar de volta ao Porto”.
Perspetiva do palco em noite lotada | mais fotos clicar aqui "Fist of Flowers" e "Ocean Roar" abriram o concerto no Outsite Mouco. Duas do mais recente álbum ‘This Side of the Island’. Dos 9 temas que compõem este registo discográfico foram interpretadas 7, além da faixa que dá nome ao disco, as outras foram: "What Do I Think?", "Knockin' Heart", "Off the Beach" e “Happy Lights”.
Fãs famintos e deliciados na frontline, desta vez sem "fosso" para os fotógrafos, por isso literalmente colados ao palco mesmo debaixo do olhar do músico norte-americano. Notei a presença de bastantes fãs femininas a deleitarem-se com as canções cantando-as ponto a ponto.
Leithauser utilizou duas guitarras: uma “com marcas de guerra” já notoriamente muito utilizada e também outra bastante charmosa da marca Rickenbacker. Ele que esteve extremamente conversador, fornecendo vários antecedentes e histórias sobre diversos temas.
Hamilton Leithauser também um mestre da guitarra | mais fotos clicar aqui Por exemplo, na introdução a "In a Black Out" afirmou ser um “música obscura” adequada para o Halloween. Disse também que os seus filhos já não querem a sua companhia na famosa tradição Trick or Treats (doçura ou travessuras traduzindo para português). Este tema faz parte de ‘I Had a Dream That You Were Mine’, o álbum que produziu com Rostam e que foi editado em setembro de 2016. Disco bastante abordado, obviamente o ponto áureo de toda atuação surgiu com uma canção deste registo, nomeadamente “A 1000 Times”. Foi fascinante ouvir este incrível tema tendo sido interpretado de forma bem generosa vocalmente por Hamilton, não é um tema fácil, e cantado a plenas vozes pelos fãs. Evidência da sua importância: foi o mais filmado da noite.
A setlist foi quase igual à do concerto de Lisboa. No Porto tivemos direito a "You Ain't That Young Kid", um tema que não era tocado há bastante tempo.
Em"The Bride's Dad" houve também direito a contexto, de forma resumida, Leithauser explicou que foi inspirada numa situação real vivenciada de perto por si num casamento. O pai da noiva não fora convidado, apareceu no "copo de água", tendo sido expulso após ter protagonizado uma cena musical em que estava totalmente bêbado.
Hamilton Leithauser sempre muito gestual | mais fotos clicar aqui O concerto foi assim, repleto de contexto aos temas por parte de Hamilton Leithauser de maneira bastante descontraída. A última introdução levou o músico a recuar até à sua juventude. Aos seus 16 anos: em roupa interior ia de piscina em piscina em Washington. Nesses percursos seguia no seu carro bêbado, ao ser parado pela polícia teve a fortuna de safar-se de ser multado.
Num encore absolutamente requisitado terminou com “Happy Lights” e “Room For Forgiveness”. Fiquei com a sensação de que poderia ver Hamilton Leithauser ao vivo 1000 vezes e não ficaria entediado em nenhuma das ocasiões. A única pena da noite foi não terem interpretado “Alexandra” e que até estava na setlist.
Reportagem fotográfica completa: Clicar Aqui
Matt Oliver na guitarra | mais fotos clicar aqui Texto: Edgar Silva
Fotografia: Nuno Coelho @ iam_noizze (Instagram)














