Pessoas trans em projeto da Nasa: No Brasil me desrespeitam; nos EUA faço satélite
(Imagem: Vivian Miranda é pesquisadora da Universidade do Arizona. Arquivo pessoal)
Em conversa com a Universa UOL, a carioca Vivian Miranda conta um pouco de sua história como a única brasileira trans em um projeto com a Nasa em que desenvolve um foguete avaliado em US$ 3,5 bilhões (R$ 13 bilhões). É também a primeira pessoa trans a fazer pós-doutorado em astrofísica na Universidade do Arizona, onde estuda atualmente.
Vivian passou a transicionar a partir de 2016: gradativamente. Até mudar de nome. Na época, fazia o pós-doutorado na Universidade da Pensilvânia - sim, ela fez dois pós docs. Um ano depois, foi conversar com o chefe do departamento de física, onde estudava, sobre sua identidade de gênero. "Falei que queria mudar meu nome e usar o banheiro correspondente à quem eu sou. Ele disse que não tinha problema algum e que iria providenciar a sinalização adequada e discretamente conversar com meus colegas de trabalho", conta Vivian.
A astrofísica compara a visão das universidades americanas com o assunto à maneira como se fala do tema da identidade de gênero no Brasil - chamado de "ideologia" e de "doutrinação ideológica" pelo presidente Jair Bolsonaro. "Há o discurso de que a academia brasileira é ideologizada, de que lidar com transexualidade e abrir caminho para pesquisadores e professoras trans é uma patologia brasileira. A maneira como fui tratada nos Estados Unidos mostra que o respeitar pessoas trans é só uma questão de civilização."
Leia um pouco do relato de Vivian à Universa:
"Fiz a graduação e o mestrado em física na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) de 2003 a 2010. Na época, ainda me chamava Vinicius. Não é um problema para mim falar do meu nome de registro. Tenho muito orgulho do que fiz como Vinicius; mas esse tempo passou. Hoje me chamo Vivian, sou pesquisadora do departamento de astrofísica da Universidade do Arizona, e única brasileira em um projeto com a Nasa para construção de um satélite. Ele se chama WFirst, tem previsão de lançamento para 2025 e deve ficar cinco anos no espaço, em um ponto localizado atrás da Lua, capturando imagens. Eu faço estudos que simulam como o satélite pode ter mais potencial de descobertas. Integro um grupo de pesquisa liderado pelo físico Adam Riess, ganhador do Nobel de 2011.
Desde criança eu tinha consciência de que queria mudar de gênero.
Em 2016, comecei minha transição social gradual. Primeiro nos arredores de casa, expandindo pouco a pouco para meu bairro. Eu ia devagar, com roupas neutras e maquiagem leve. Às vezes um batom. Tudo planejado. No trabalho eu chegava com uma maquiagem leve, deixava as pessoas olharem e depois ficava alguns dias sem maquiagem nenhuma. Aí usava um brinco, tudo com delicadeza e cuidado.
Minha abertura para a academia como um todo também ocorreu em dezembro de 2017, numa séria de e-mails para colaboradores e alunos mais próximos. O diretor do departamento de física da Universidade da Pensilvânia, quando soube, colocou cartazes nos banheiros dizendo que cada um usaria o sanitário de acordo com sua autoidentificação.
("Ninguém jamais ousou opinar sobre a velocidade e a intensidade da minha transição", diz Vivian sobre tratamento dos colegas americanes)
Todes me apoiaram, desejaram felicidades na nova caminhada e continuaram a conversar e a trabalhar comigo normalmente. Ninguém jamais ousou opinar sobre a velocidade e a intensidade da minha transição. Esta era uma decisão pessoal e o papel deles era respeitar minha identidade gênero. Em junho de 2018, seis meses após minha abertura para academia, eu já era tratada como Vivian 100% do tempo, sem qualquer erro ou deslize.
"Colegas no Brasil me deixaram desconfortável"
No Brasil, tudo foi mais difícil. Ans pesquisadores com es quais trabalhava ficaram muito surpreses e externaram esse sentimento de um modo que me deixou desconfortável. Hoje em dia todes me apoiam abertamente, mas é importante enfatizar a diferença do tratamento inicial com relação ao que ocorreu nos Estados Unidos... Fiz concursos em universidades brasileiras e meu nome social não foi respeitado nos documentos.
Em fevereiro de 2019 eu participei de um concurso para a Universidade de Duke, nos Estados Unidos, e o tratamento foi o oposto. Eu fui entrevistada por mais de vinte professores, mas apenas uma única pessoa do RH tinha acesso ao meu nome de registro. Para todos os efeitos, o nome da candidata era Vivian Miranda e ponto final.
Matheusa, estudante da Uerj desaparecida foi assassinada em favela da Zona Norte do Rio
Investigações mostram que Matheusa Passarelli foi assassinada ao entrar no Morro do 18. Polícia investiga se jovem, sumida desde domingo (29), teria sido queimada por traficantes.
A Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA) da Polícia Civil do Rio concluiu que a estudante Matheusa Passarelli, que estava desaparecida desde 29 de abril, foi assassinada.
De acordo com as investigações, a aluna da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), de 21 anos, trans não-binária, foi morta por integrantes de uma facção criminosa ao entrar no Morro do 18, em Água Santa, na Zona Norte do Rio. O motivo do crime ainda é investigado.
A policia consideram que há "fortes indícios" de que o corpo do estudante tenha sido queimado.
Neste domingo (6), o irmão dela escreveu um desabafo em uma rede social sobre a morte da estudante de artes visuais. No texto, ele diz que Matheusa, foi "executada".
"A angústia se transformou no trabalho compartilhado de encontrar a pessoa que mais amei e acompanhei durante a vida. Infelizmente as últimas informações que chegaram até nós e até a instituição pública que está desenvolvendo o processo de investigação demonstram diferentes faces da crueldade a qual estamos submetidos", escreveu.
A jovem estava desaparecida desde a madrugada de domingo (29), após deixar uma festa de aniversário na Rua Cruz e Souza, no bairro do Encantado, Zona Norte carioca.
A última informação chegada ao Disque Denúncia dizia que Matheusa havia sido vista por volta das 19h30 daquele domingo, em Piedade, também na Zona Norte do Rio. A jovem vestia, na ocasião, bermuda, camiseta e chinelo.
Após cerca de quatro dias após o desaparecimento, o Portal dos Desaparecidos divulgou um cartaz pedindo informações a respeito da localização da estudante.
Os investigadores dizem que a morte de Matheusa aconteceu por volta das 2h30 de domingo.
Gol tem primeira comissária de bordo trans do Brasil
A empresa Gol inovou ao trazer uma comissária de bordo transgênero em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, nesta quinta-feira (08), durante o voo número 1020 que fazia o eixo São Paulo-Rio de Janeiro, no qual apresentava uma tripulação totalmente feminina.
De acordo com a Gol, Nicole Cavalcante, de 34 anos, é a primeira mulher trans no Brasil no cargo que exerce há oito anos. Há quatro anos se descobriu trans após passar por uma crise de depressão. Passou por um tratamento durante três anos, período no qual decidiu afastar-se do trabalho, e há seis meses retornou já com a nova imagem.
“Antes de voltar a voar, trabalhei internamente [na área administrativa] porque estava trocando a minha documentação. A empresa ainda estava meio sem saber como fazer porque era o primeiro caso, mas foi tudo feito da melhor forma”, disse ela em entrevista ao UOL.
Além de Nicole, outras duas mulheres trans exercem funções na companhia aérea, porém, não como comissárias. “Quem não sabe da minha história nem percebe. Para quem sabe eu sou super bem aceita”, contou.
Apesar da conquista, Nicole reconhece que o mercado de trabalho não é tão solícito para as pessoas transgêneros. “A gente tem qualificação profissional e capacidade para exercer qualquer profissão. Só que, infelizmente, o preconceito das pessoas acaba deixando a gente de lado”, lamentou.
Universidade Federal do Sul da Bahia terá cota para estudantes trans e travestis
A Universidade Federal do Sul da Bahia anunciou no último mês que terá uma cota para estudantes trans dentre as 280 vagas em graduações. O ingresso é para o segundo semestre letivo de 2018.
A criação das cotas segue o a motivação e o modelo de outras reservas de vagas, como para indígenas e quilombolas, quando não há representatividade entre os selecionados. Cada um dos grupos tem direito a uma vaga em cada colégio universitário.
O processo é para a Área Básica de Ingresso das Licenciaturas Interdisciplinares de 1º ciclo da Rede Anísio Teixeira de Colégios Universitários. Vão desde a área como Licenciatura interdisciplinar em Artes e suas tecnologias; em Cicências Humanas e Sociais e suas Tecnologias; em Matemática e Computação e suas Tecnologias.
Os colégios universitários estão em Ilhéus, Itabuna, Ibicaraí, Coaraci, Teixeira de Freitas, Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália e Itamaraju. Para conseguir ingressar no acesso reservado, é preciso ter realizado o Exame Nacional do Ensino Médio de 2017 ou 2016.
As inscrições serão efetuadas exclusivamente no site da UFSB, entre os dias 22 e 26 de março. O início das aulas está previsto para o dia 04 de junho.
"Não sou homem nem mulher e tenho 7 namorados", conta trans não-binário
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Juno diz se sentir uma figura ambígua, que gosta de ter peito e barba
Sem se identificar totalmente como homem ou mulher, o escritor ou a escritora Juno Cipolla --que gosta que o tratamento que lhe dão seja no feminino e no masculino-- conta como se descobriu um transgênero não-binário, há três anos. Em meio a mudanças físicas e emocionais, Juno diz ser uma figura ambígua, que gosta de ter peito e barba. Aos 25 anos, tem uma rede afetiva com 7 namorados trans. A seguir, Juno relata sua trajetória.
"Eu fui designado (a) mulher quando eu nasci, isso é, como viram que eu tinha uma vagina, disseram que eu era mulher. Na infância, não tinha essa noção de gênero, só sei que de alguma forma me identificava com algo que não era o feminino estereotipado e projetava em mim uma figura considerada masculina. Gostava de brincar com os carrinhos dos meus irmãos mais velhos e ser o personagem masculino nas brincadeiras, mas também tinha muitas bonecas.
Eu sentia que algo estava fora, não conseguia me encaixar em um lugar, mas como me diziam que eu tinha que ser mulher, eu tentei ser uma na adolescência. Comecei a sair com um grupo de amigas que ia para a balada, se maquiava e usava vestido. Entrei na onda e passei a imitar tudo o que elas faziam, mas não gostava, aquilo me bloqueava. Apesar do desconforto, eu não questionava, não sabia que podia ser de outro jeito.
Uma namorada ajudou com seus desejos
Demorou bastante tempo para eu descobrir que eu era trans, porque eu nunca quis ser homem e nunca me senti um, mas também não me reconhecia como mulher. Houve dois momentos centrais para eu começar a entender tudo isso. O primeiro foi quando eu conheci a Ana, minha ex-namorada.
Ao perceber que eu não era uma mulher cisgênero [que se identifica com seu gênero de nascença], ela me dava sinais e me incentivava a fazer coisas que até então eu não tinha coragem, como a vontade de ter barba. Ao tratar os meus desejos com naturalidade, ela despertou em mim um questionamento sobre quem eu era.
“Tem gente que não é homem nem mulher, é isso que eu sou”
O segundo momento foi quando eu reencontrei um amigo de infância nas redes sociais e soube que ele tinha se descoberto transgênero não-binário [que não se identifica com o masculino ou feminino]. A gente começou a conversar, ele me colocou em grupos no Facebook sobre o assunto e na hora bateu, eu falei: ‘Tem gente que não é homem nem mulher, é isso que eu sou’.
Eu sempre achei que fosse menina porque me falavam isso, mas a partir do momento que tive consciência de que muitas coisas que eu fazia era porque me mandavam e não porque eu acreditava, eu passei a ver outras maneiras de existência, como ser uma mulher com barba ou um homem que se depila. Eu não tenho gênero, o que eu vivo da minha transição tem a ver com quem eu sou como pessoa e com as minhas relações no mundo.
Testosterona e as transformações
Eu me afirmar como trans não-binário me ajudou a lidar com questões que eu tinha dificuldade. Hoje, gosto de me maquiar, fazer as unhas e estou aprendendo a usar salto alto. No guarda-roupa, tenho peças masculinas e femininas, visto o que bonito e confortável. Não me depilo mais, para mim meu corpo faz muito mais sentido tendo pelos.
Desde a transição, tenho passado por muitas transformações. Como gosto que me tratem no feminino e no masculino, adotei o nome social Juno, por ser neutro e por manter o apelido Ju, do meu nome de registro.
Homem, mulher, ‘viado’ e até travesti
Também tenho vivido várias mudanças físicas. Há dois anos, comecei a tomar testosterona: meus pelos cresceram, minha voz engrossou, meus seios e bunda diminuíram, estou mais forte e parei de menstruar. Quero parar com a injeção antes de chegar a uma aparência masculina, porque não quero ser homem. Na verdade, o que eu quero mesmo é que o mundo não associe minha imagem a um homem nem a uma mulher.
Me sinto uma figura ambígua, gosto de ter vagina e nunca quis ter pênis. O corpo é muito mais versátil do que ter esses dois órgãos. Na sociedade, já fui lida de várias maneiras: homem, mulher, ‘viado’ e até travesti.
Preconceito e medo de estupro
Já sofri preconceito dentro do próprio meio trans, onde tem gente que diz que quem é trans não-binário não é transgênero de verdade. Existe aquela pressão de que você sempre tem que escolher um lado. Sofro julgamento porque não me encaixo em um gênero.
Nunca sofri agressão física, mas a agressão verbal existe. Quando saio pelo centro da cidade, algumas pessoas me xingam e perguntam se eu quero ter relações sexuais. Tenho medo que alguém descubra que eu não tenho um pênis e resolva me estuprar.
Revelação para os pais
Demorei para contar aos meus pais sobre minha condição. Sem coragem para enfrentá-los, escrevi um post no Facebook fazendo a revelação. Eles leram o texto e me chamaram para conversar. Minha mãe perguntou se eu queria ser homem, eu respondi que não. Ela afirmou que meu visual estava agressivo e que ela não entendia. Meu pai me alertou que eu sofreria bastante, mas disse que me apoiaria.
Minha mãe acredita que só vou ser feliz casando com um homem e tendo filhos. Ela tem um pouco de vergonha de ter uma filha trans, porque acha que errou em algum ponto da minha criação. Eu me ofendo quando ela fala isso, pois não entendo como ela pode achar que eu sou um erro.
Até hoje eu explico que não quero ser homem, mas quero me sentir mais confortável comigo. Eu me sinto bem do jeito que sou e estou feliz com as minhas escolhas. Nós duas estamos fazendo terapia e nossa relação está melhorando.
Tenho 7 namorados
Ao me descobrir trans não-binário, eu me encontrei em muitos aspectos da minha vida que eram uma bagunça: um deles foi na minha sexualidade. Houve uma época em que achei que fosse ‘sapatão’, que ia casar com uma mulher e ter uma relação única. Hoje, sou bissexual, panssexual, pois eu me atraio por pessoas, independentemente de gênero, e demissexual, por que sinto atração depois de desenvolver algum tipo de vínculo ou confiança.
Há dois anos, desenvolvi uma rede afetiva e tenho 7 namorados transgêneros. Às vezes, saímos eu, um dos meus namorados e o namorado dele. É ótimo, fazemos tudo que um casal faz, vamos ao cinema, ao restaurante. Relacionamento romântico não está necessariamente ligado a sexo. Eu já cheguei a transar com quatro pessoas, mas também acontece de namorar alguém e não ter relações sexuais.
Ter essa rede afetiva se encaixa muito bem nesse momento em que sou uma pessoa com um corpo e uma vida que não são considerados padrão. Minha transição começou quando eu me descobri trans não-binário e percebi que não era 100% homem nem 100% mulher. Foi um estado que eu entrei e o qual considero que é para sempre, não tem um ponto final onde eu quero chegar”.
Alerta de ironia no título do texto! Primeiramente trans de mentira existe sim. Trans de mentira são as pessoas cis que fazem papel de trans na mídia. De resto, todo mundo que se identifica como trans é trans de verdade.
Me identifico socialmente como uma pessoa negra transfeminina, socialmente porque é só na sociedade que eu preciso ter um crachá me identificando, porque eu comigo mesma sou só a Luci. Eu preciso me identificar socialmente como negra, trans, transfeminina, não binária, pansexual, assexual fluida e mais um monte de coisa porque só assim que eu tenho a possibilidade de lutar pelos direitos que me ainda não me deram, de apontar as violências que me perseguem. Além disso foi só me identificando que consegui entender uma tonelada de coisas que eu sentia e vivia. Que isso fique BEM escuro, entendido?
E eu não estou fingindo, eu sou trans e não binária, mas fora da sociedade eu não sinto a necessidade de me dar um gênero, nem uma sexualidade, nem um nome certas horas. Não quero ter que pensar se o que eu estou vestindo vai me deixar feminina ou não, se alguém vai me identificar como feminina ou não e se isso vai me dar margem pra apanhar ou ser vítima de transfobia nas ruas.
Esses tempos tive muuuuuitos questionamentos na minha cabeça e muuuuita ideia rolando. E, ainda bem, todas tiveram conclusões. Por isso vou deixar a caixa alta pra vocês nunca esquecerem isso: SE QUESTIONEM, O TEMPO TODO, TUDO, TODOS, INCUINDO VOCÊ.
É só assim que a gente se liberta da ignorância, da intolerância, da falta de conhecimento, pensando, formando opinião própria. E hoje, estava aqui eu linda indo tomar banho, quando me deparo com o espelho e vejo uma PESSOA linda e amei pela primeira vez meu corpo, completamente. Foi a primeira vez que me senti realmente e totalmente livre e também a primeira vez que entendi o que eu tenho que fazer pra ser trans de verdade:
Primeiro passo: Deixar de só repetir discursos, mas entende-los e aplicá-los
Entender o que as palavras, frases e conceitos que a gente vive repetindo realmente significam e ficar passando elas na sua mente até fazerem sentido pra você: “Roupas não tem gênero” “Trans não é sobre modificar seu corpo ou estilo de vida” “Não binárie não é sobre ter uma aparência andrógina” “Sou trans, mas sou alguém além disso” “Gênero é uma construção social” “Nem toda pessoa trans quer modificar seu corpo” e etc.
Não adianta nada só ler a frase, tem que entender, tem que aplicar principalmente em você. Tudo muda ao seu redor quando você se posiciona, quando você forma seu pensamento crítico e principalmente quando você foge de ser um dicionário pronto e vira uma pessoa locutora de suas vivências.
Eu não to nada afim de forçar em mim uma “femininilidade” padrão cisheteronormativa seja nas roupas, cabelo e etc (até porque ser feminina não é sobre isso). Isso acontece dentro de casa, e penso que isso também devia continuar nas ruas em todo lugar. Não quero mais me esconder em polos de masculinidade ou feminilidade, roupas, maquiagem ou acessórios, quero usar o que der na telha, sair com a roupa que eu tiver afim.
Quando eu me vejo nua no espelho eu sinto algo faltando em mim, os seios desenvolvidos. Mas quando eu não to pensando nisso, eu não sinto falta de nada. Eu me questiono muito sobre isso, e realmente cheguei a conclusão de que ter ou não ter não é tão importante assim. Quando eu quiser, um sutiã vai preencher isso. Eu sou muito adepta de preservar o natural das coisas em mim, e isso me leva a pensar que se eu sempre tivesse morando sem ter contato com essa normatividade cisgênera e a ditadura dos (cis)gêneros, talvez o peito nunca fosse mesmo importante.
Até o dia que tive a ideia desse texto, eu nunca havia parado pra pensar que eu, mesmo falando coisas do tipo “coisas femininas e masculinas não existem, são coisas” “a coisa só tem gênero quando tá no seu corpo”, eu percebi que eu não colocava um brinco porque eu queria usá-lo pra ficar bonito, eu colocava pra me deixar mais encaixada nessa ideia de feminino que o mundo tem. E percebi um nova prisão, a do esteriótipo padrão cishetero feminino. E pensei “eu não doei minhas coisas que me deixavam desconfortáveis pra agora ficar desconfortável com outras coisas que eram pra me libertar”.
Passo dois: Entender realmente o que é ser trans
Feito o passo um, agora você vai conseguir entender um pouco além. Mais uma vez, não se limite a só repetir o que tá escrito aqui, mas entenda isso e aplique isso.
Ser trans na sociedade, é subverter uma informação quase pétrea cisgênera-hétero. Então não espere nada menos que retaliação. É quando não cair na prostituição, saber se virar por que não tem emprego. É ter que ralar bem mais que uma pessoa cis pra ter acesso a educação básica. É saber que as possibilidades de se relacionar afetivamente com alguém que não te esconde, que não te faz sentir mal por ser trans, que te respeita é quase como ganhar na loteria. É viver receosa com as notícias e os dados de estatísticas de transfobia e morte, então prepare-se para sentir o medo, a todo tempo. É acordar e ir dormir lutando o tempo todo contra o CIStema e a favor da sua sanidade. É ter a noção que tudo pra gente é mais difícil de conseguir, sempre a base de por favores, constrangimentos sociais. É saber que quem tá do seu lado a todo tempo te apoiando, vai sofrer também de muita coisa que você passa. É perceber finalmente que não somos doentes, nem pessoas fracas, mas é que nos tornam doentes, nos deixam cansades.
Tem uma tal disforia e você tem que saber quem ela realmente é. Algumas pessoas (to aprendendo hoje também) confundem o sentido dessa palavra com o Transtorno Dismórfico Corporal que é “um transtorno psicológico muito grave no qual uma pessoa se torna excessivamente obsessiva com algum aspecto da aparência física, a nível de se tornar extremamente depressiva”. A real disforia é um “sentimento de não-pertencimento/inadequação a um determinado gênero causado por uma falha em cumprir as expectativas de uma norma social perversa, que opera no sentido de deslegitimar corpos não-cisgêneros. A sensação, por exemplo, de que possuir determinados genitais deslegitima seu gênero pode ser um exemplo de disforia.” PORTANTO, ter disforia é algo totalmente plausível para nós pessoas trans que somos castras e induzidas o tempo todo a nos adequar ou readequar nossos corpos a natureza física dos corpos cisgêneros, ou seja, a nos submeter a processos que nos deixem com a cara e corpo de pessoas cis. É importante você se questionar porque isso pode ser o fim da guerra contra a sua disforia. Nós pessoas trans, assim como pessoas cis somos um pacotinho cheio de características corporais. O corpo cis e o corpo trans não funcionam ou tem mesma forma natural, e o certo não é que a gente se enquadre ou defina um padrão pra ambos seguirem, o certo é deixar que cada corpo seja o que é.
Chamam também de transição, o movimento que você faz quando tira o véu que te cobriram com um gênero que não tem muito a ver com sua própria (e sempre a mais importante) identificação. Transicionar não tem que significar que você tem que passar por um processo de hormonização, nem de cirurgias. Significa um processo de reconhecimento, de entendimento da sua trans-identidade.
Atenção, fiscal de gênero passando aqui no texto pra te falar o que é o policiamento de identidade. “É uma prática discriminatória de policiar a identidade sexual ou de gênero de outras pessoas, quando alguém diz que a identidade (ou a forma de se identificar) de outras pessoas está errada. Quem pratica policiamento de identidade vê, como questão de honra, obedecimento à natureza, moralidade, “normalidade sexual” e afins, que uma pessoa tenha expressão de gênero compatível com a sua identidade ou gênero designado. Também conta como policiamento exigir certas coisas na transição de pessoas trans, especialmente invalidando a identidade delas caso contrário. Questionar a validade das escolhas de nome e pronome/desinência de tratamento das pessoas trans.” Daí acontece a invalidação: a “prática discriminatória de dizer para alguém que o gênero ou a orientação da pessoa não existe ou não é válido. ”
Ah e não vamos esquecer a tal passabilidade. Passabilidade significa "passar-se por", e no meio trans isso significa, “se passar” por um homem ou mulher cisgênero. E nesse pacote da passabilidade vem as frases disfarçadas de elogios (mas que não são): "nossa, mas ninguém nunca diria que você é trans", "você engana bem, viu?", "você parece muito com uma mulher/homem!".
A pressão social acontece de várias formas para que você seja passável. Mas, um segredinho, nem todas pessoas trans tem a intenção de se parecer a alguém cis, e algumas outras não tem a informação pra entender que elas não precisam se submeter a isso. Mas a sociedade faz de tudo pra que você se enquadre em coisas que ela consegue absorver, e ser trans não se enquadra nisso. Não é certo acreditar que a transexualidade está relacionada basicamente a quanto a pessoa se parece cisgênera. Se cria uma expectativa muito grande sobre quem devíamos ser, mas não é obrigade a se submeter a nada disso. Se você for sempre aquilo que esperam de você e nunca o que você espera de você, ou nunca quem você quer ser, não adianta, o conforto não vai vir, a felicidade não vai existir. É também, preciso que todo mundo saiba que nem toda pessoa trans tem dinheiro ou recursos ou o desejo de passar por cirurgias e procedimentos estéticos.
Passo três: Entender o mundo que te cerca
É de vital importância que você entenda através de observação e questionamentos o mundo que te cerca. NINGUÉM vai ter a propriedade de falar 100% sobre como o mundo te trata, só você, então pare um tempo e reflita sobre tudo que te acontece. Você pode saber porque ele oprime mulheres, pessoas negras, gordas, fora dos padrões normativos, diverso-funcionais, LGBTI+, mas você ainda tem que ir além disso, tem que entender porque você passa com as pessoas e na sociedade a maioria das situações que você passa. Debata com outras pessoas também pra te darem outras ideias. Além de tudo, conversas assim de autodescobertas são poderosíssimas e super interessantes.
O mundo que te cerca te dá um pouco de tudo para preencher algumas de suas dúvidas, mas ainda há uma imensa cortina que você vai ter que sozinhe retirar pra não se manter na ignorância e não ser mais um fantoche. Por isso, aprenda com você mesme, tudo que puder.
Evitar depender que outras pessoas reconheçam quem você é, ou o seu gênero, às vezes, nos tira um peso das costas. Não que você não tenha o direito de reivindicar seu gênero pra sociedade, você tem e se puder, faça isso. O que quero dizer é, não espere dos outros isso. Não crie essa expectativa, porque isso vai, novamente te deixar prese naquela expectativa cisheteronormativa que ninguém (nem pessoas cis-heteras) querem e conseguem se encaixar ou vão se encaixar totalmente, e isso uma hora isso vai te decepcionar muito.
Você não precisa se formatar a algo pra ser reconhecide não. Nem usar tal roupa, ou fazer tal coisa pra alguém te tratar de alguma forma que você se reconhece. Por mais prazeroso que seja o reconhecimento de alguém de quem você é,. Você se reconhecer já deve ser importante e suficiente (porque chegar nesse ponto é um privilégio) enquanto a sociedade não atualiza suas regrinhas.
Entender que a identidade é SUA e que só você pode entendê-la mais que ninguém e também reconhecê-la mais que ninguém é de vital importância.
Citações do texto: http://rexistencianaobinaria.tumblr.com/post/152515575208/glossário-termos-sobre-gêneros-sexualidades
Letícia Lanz, psicanalista: "Crianças sofrem intenso terrorismo de gênero"
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"Sou contra o gênero enquanto sistema de separação e hierarquização das pessoas. É graças ao gênero que a mulher ganha 30% menos que o homem e é tratada como inferior", diz psicanalista
Fiz a transição aos 50 anos, casada e depois de enfartar. Continuo com a mesma esposa, tenho três filhos e três netos — dos quais sou pai e avô, e não mãe e avó. Não nasci no corpo errado, mas sim na sociedade errada. Não sou homem, nem mulher, nem trans. Sou Letícia Lanz. A construção de mim mesma.”
Conte algo que não sei
O gênero foi criado na revolução agrícola, quando o homem passa a ser sedentário, observa seu rebanho e descobre que é o ato sexual que causa a reprodução. Antes, quando eram nômades, a mulher inchava, de repente nascia um bebê e achavam que era algo divino. A partir daí, o homem subjuga a mulher, que passa a ser propriedade dele. Os papéis de gênero foram muito separados até o início do século XX e hoje não são tanto: você encontra mulher em todas as funções que eram tipicamente masculinas. A questão é: para que serve gênero hoje, então?
E para que serve?
Gênero existe porque a sociedade organiza pessoas em torno de padrões de comportamento. Não existe um vínculo natural entre o sexo de nascimento e o exercício desses papéis. O processo aqui é o de identificação. Na loja de brinquedos você vê a distinção bem clara: de menina e de menino. Por ali você já vê todo um sistema de organização social que determina aquilo. Por que o brinquedo do menino é a arma, o caminhão e o jogo de inteligência, enquanto o da menina é a maquiagem, o fogãozinho e a maquininha de lavar roupa? A criança sofre um terrorismo de gênero muito intenso.
Você é a favor da extinção do gênero?
Sim. Hoje, existem hospitais que fazem a besteira de tratar crianças trans de sete anos com bloqueador de hormônio. Isso serve para atender à família, não à criança. Porque é problemática para a sociedade uma criança que não se enquadra nos papéis. São poucas as mães que se negam a dar um rótulo para a criança trans. É claro que é possível a criança nova já se identificar com outro gênero, mas não é para rotular. Cada pessoa tem que ter o direito de ser o que é.
E quem deseja se enquadrar no papel de gênero com o qual se identifica?
Aí é a vontade dela. Administrar seu corpo é seu direito. Eu tenho seios, por exemplo. Isso faz com que eu tenha uma imagem de mim mesma muito mais sólida. Mas eu poderia ter os seios e continuar a agir como homem, se eu quisesse. O problema é que há uma mitologia de que órgão genital define gênero e, até dentro do gueto transgênero, acredita-se que, se você fizer cirurgia e virar 100% homem ou 100% mulher, vai se enquadrar. Não vai. E esse é um dos motivos pelos quais eu luto tanto contra gênero: porque o enquadramento de gênero é um princípio jurídico; precisa constar no documento de identidade. Para mudar de nome, tem que entrar na Justiça, é uma tragédia. Na sociedade, quem fere o dispositivo binário de gênero é punido, pois é visto como delinquente ou como doente.
Você se identifica com o gênero feminino, mas é a favor da extinção do gênero. Como funciona essa questão?
Sou contra o gênero enquanto sistema de separação e hierarquização das pessoas. É graças ao gênero que a mulher ganha 30% menos que o homem e é tratada como inferior. Porém, o gênero enquanto categoria com a qual a pessoa se identifica é perfeitamente viável. Ele não pode é trazer toda uma carga social que, por exemplo, impede a mulher de abortar porque não é dona do corpo dela, enquanto o homem é. As pessoas me perguntam: se você é tão contra gênero, por que você vive como mulher? Eu respondo: porque eu tenho imaginação.
Pai faz festa de batizado para filho transgênero apresentar novo nome para família no ES
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Miguel Rosário, de 24 anos, contou que era homem transgênero em março deste ano. Festa de batizado organizada pelo pai tinha nome do jovem no bolo.
Revisão do texto: Luci
A fala de Marco Antônio, de 50 anos, ainda se confunde. Pronunciar o nome escolhido pelo filho, Miguel, ainda não é algo automático. Há apenas cinco meses, o jovem, contou para a família que é um homem transgênero.
Para surpresa de Miguel, a reação de Marco, na época, foi organizar uma festa de batizado para reforçar a nova identidade do filho. O nome, que ainda exige certo esforço para ser dito com naturalidade, estava grafado no topo do bolo. "Era um bolo de aceitação, de apoio", conta o pai.
Miguel tem 24 anos e nunca se sentiu confortável com o corpo. Na infância, demorou a entender por que era diferente do irmão mais novo.
“Eu sempre sonhei de estar andando de bicicleta sem camisa, e sempre sonhei que eu era um menino e tinha barba. Algumas vezes, quando acordei, fui direto para o espelho me olhar, e quando eu via que era um sonho, aquilo acabava com o meu dia”, contou.
O sofrimento do filho foi acompanhado de perto pelo pai. Marco conta que, por muitas vezes, viu o filho se esconder embaixo das cobertas, mesmo quando lá fora o sol estava à pino. A família, entretanto, sempre acreditou que Miguel era homossexual, já que ele tinha uma namorada.
Foi só em março deste ano que o jovem, que sempre se vestiu com roupas consideradas masculinas e usou cabelo mais curto, contou aos pais que era um homem transgênero.
O nome, Miguel, ele já usava entre os amigos. Mas a família ainda ia precisar se adaptar. Depois de 24 anos chamando o jovem por um outro nome, o pai se viu questionando o novo nome, mas foi rapidamente convencido.
“Perguntei ‘Porque Miguel?’. Ele falou: ‘Esse nome já me segue desde cedo’. Pensei comigo ‘Miguel é o nome de um anjo. Tem Miguel, Gabriel e Rafael’. Falei ‘Tá, bom. Um anjo na família, né?’”, lembrou Marco.
Passados os primeiros momentos depois da descoberta, a reação do pai surpreendeu o filho. “No momento que eu achava que ele ia estar em luto, ele organizou uma festa para mim. A reação dele foi convidar o restante da família e fazer um batizado, com o meu nome social no bolo”, contou Miguel.
Para o pai, a explicação para a festa é simples. “Porque batizado? Porque estava nascendo um Miguel na família. O Miguel chegou na família. Era um bolo de aceitação, de apoio. [...] Se a própria família não apoiar, quem vai apoiar?”, disse Marco.
A felicidade foi tanta, conta Miguel, que as lembranças daquele dia são limitadas. “Sabe quando você está tão feliz que parece que apaga da sua memória? Eu lembro que eu passei o dia todo rindo. Eu só ria”, lembrou o jovem.
Após a entrevista ao G1, Miguel contou que o pai fez uma reunião com a família, avisando que havia registrado na agenda do celular o número do filho com o nome dele. De acordo com Miguel, o pai orientou o resto da família a fazer o mesmo, e se comprometeu a se esforçar ainda mais para tratá-lo sempre no masculino.
Neste Dia dos Pais, Miguel reforça que a atitude positiva de Marco só faz aumentar a admiração por ele. “Eu costumo dizer que meu pai nasceu para ser pai. Ele é o cara que eu olho e que eu quero ser igual. Ele me ensinou o que é ser homem. Eu quero ser um pai como o meu pai”, disse Miguel.
Tamanho amor já está marcado na pele. No ombro direito, Miguel carrega a tatuagem “Meu Marco”, em homenagem ao pai.
Descobertas e adaptação
A nova realidade, uma novidade tanto para o filho quanto para o pai, fica mais fácil de ser encarada com todas as informações necessárias. A própria psicóloga que atende Miguel foi quem explicou a Marco Antônio o que exatamente o filho sentia.
“A psicóloga falou ‘Se eu te botar um vestido, um salto alto e um batom, e mandar você desfilar na rua, você vai se sentir bem? Não vai.’ É isso que o Miguel tá passando.”, reproduziu Marco.
A família também passou a buscar informações na internet e, segundo Miguel, sempre que o pai assiste a uma reportagem sobre transgêneros, avisa o filho sobre as novidades e conquistas dessa parte da população.
“Quando saiu uma reportagem falando sobre a possibilidade de colocar o nome social no CPF, ele me falou. Ele me ajuda no que ele puder”, contou Miguel.
Hormonização e transição
Miguel acredita que será mais fácil para a família tratá-lo pelo nome assim que começar a adquirir características masculinas.
Para isso, nos próximos meses, ele vai começar o processo de hormonização, que é o ato de injetar hormônios, sob supervisão médica, para mudar algumas características corporais.
“Procurei o Hospital Universitário (Hucam), lá tem um ambulatório especializado em diversidade de gênero, e a minha primeira consulta foi esse mês. Eu vou fazer alguns exames e retornar lá no mês que vem. A partir desses exames, vou começar com os hormônios”, explicou.
Outra mudança que Miguel deseja realizar em breve é a retirada das mamas. “É o que mais quero. Na verdade, já estou pensando em formas de juntar dinheiro para fazer a cirurgia”, contou.
Ainda ansioso pelas mudanças que estão por vir, Miguel tem uma certeza: a de que o pai estará ao seu lado sempre. “Quando eu penso no meu pai, eu penso que ele é uma pessoa que não vai embora. Eu sou um pedaço dele”, disse.