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O passado murmura nas ruas de Guimarães, o futuro ressoa no Mucho Flow - o contraste de dois mundos inseparáveis | Reportagem Completa
Zack Borzone, o vocalista dos YHWH Nailgun | Foto: João Octávio Peixoto Nos grupos de amigos alargados, é raro encontrar um consenso que una todos em torno das mesmas melodias. No meu, não é exceção. Há quem se encante com o Vodafone Paredes de Coura e Primavera Sound Porto, e quem se perca nos horizontes do Waking Life ou do Draaimolen — dois universos que raramente se cruzam. Uma vez por ano, porém, dá-se o milagre: a comunhão acontece, fiel e luminosa, no bonito Mucho Flow.
A cidade medieval de Guimarães, que nesta altura do ano se cobre de folhas amarelas, vê as árvores despirem-se e o frio entranhar-se nas suas paredes de pedra, criando o cenário perfeito para o regresso a esta terra que parece vestir-se a rigor para o Halloween.
CCVF, uma das casas que recebeu o Mucho Flow | Foto: João Octávio Peixoto
E, voltando ao que realmente nos trouxe ao berço de Portugal, esse contraste musical a que o Mucho Flow já nos habituou continua a atrair públicos dos mais diversos espectros sonoros, projetando o futuro no presente — e este ano não foi exceção.
Durante três dias, o festival foi palco de descobertas, de consagrações há muito anunciadas, de estreias entusiasmantes e de inquietações criativas. Aqui, não há cabeças de cartaz — algo que o próprio grafismo do cartaz deixa claro — apenas palcos que se moldam a cada som, conduzindo-nos numa deriva pelas várias salas e ruas que unem as coordenadas da cidade.
Dia 0 - Quinta-feira, 30 de outubro
Quinta-feira. O peso da semana ainda faz-se sentir, e a noite, apressada, cai cedo sobre a cidade. No ar, o frio anuncia o princípio do inverno, e há algo de melancólico na forma como o dia se despede. Ao contrário do ano passado, a sexta-feira não guardará o tão ansiado feriado — e por isso, este “dia zero” carrega um sabor agridoce.
Por um lado, o amanhã traz consigo o regresso à rotina, como se nada tivesse acontecido, por outro, o presente pede entrega. O cartaz ergue nomes que exigem presença, atenção e corpo inteiro.
Sassy 009 Entre eles — Sassy 009, nome que ecoa como promessa e a antecipar o seu disco 'Dreamer +' a ser editado no próximo ano. A indie pop da norueguesa Sunniva Lindgård traz camadas de DIY tornando-se um projeto bem pessoal. No palco montado em cima do grande palco do auditório do Centro Cultural Vila Flor (CCVF), estava Sunniva com o seu hoodie meio desleixado acompanhada pela sua voz e o seu baixo, enquanto na bateria estava Elias Tafjord e nos teclados/sintetizadores estava acompanhada por Markus Anskau. A voz melancólica de Sassy 009 flutuava sobre batidas firmes e ritmadas, mas nem isso bastou para incendiar a sala — preenchida, sim, mas longe de estar cheia. Aqui e ali, alguns corpos deixavam-se embalar, cabeças moviam-se num leve transe, mas o momento nunca chegou a tocar o verdadeiro nirvana.
Sassy 009 vista pelo público | Foto: João Octávio Peixoto
Grande parte da setlist revelou-se inédita para o público, possivelmente composta por temas ainda por editar. Ainda assim, foi possível ouvir faixas como “Are You Still a Lover”, “Wannabee” ou a contagiante “Maybe on Summer”. Entre as mais aguardadas estava “Tell Me”, o recente single partilhado com Blood Orange e incluído no novo disco, mas Sassy 009 acabou por deixar o tema fora do alinhamento da noite. Mesmo sem alcançar momentos de euforia coletiva, Sassy 009 conseguiu criar um ambiente imersivo, envolto em melancolia e eletrónica pulsante. Entre temas ainda por editar e momentos de pura delicadeza vocal, a artista norueguesa mostrou por que continua a ser uma das vozes mais singulares da cena alternativa. O público, embora contido, pareceu partilhar da mesma curiosidade — a de descobrir, ao vivo, o rumo que o novo disco irá tomar. Uma atuação breve, mas intensa, que deixou no ar a sensação de que o melhor ainda está para vir.
Vista lateral do CCVF em Sassy 009 | Foto: João Octávio Peixoto
HiTech O Mucho Flow já nos habituou a apresentar cartazes repletos de nomes que passam despercebidos ao público menos atento mas é precisamente essa curadoria que convida à descoberta e à surpresa. Um desses casos — e um dos nomes que mais aguardávamos nesta edição — foi o trio HiTech. O horário de atuação, quinta-feira à 1h da manhã, acabou por não beneficiar a experiência, admito, mas ainda assim resultou numa das performances mais enérgicas e envolventes do grupo de DJs, produtores e rappers. O trio — King Milo, Milf Melly e 47Chops — entrou em palco com uma energia contagiante, prontos para fazer dançar até quem, poucas horas depois, teria de enfrentar o despertador das nove da manhã. Os ritmos frenéticos e as batidas cruas, mas irresistivelmente dançáveis, do ghettotech — esse som eletrónico nascido nos subúrbios de Detroit no início dos anos 2000 — incendiaram a sala e puseram em movimento as poucas centenas que resistiram ao avançar da madrugada. Editado a 23 de Maio deste ano, 'HONEYPAQQ Vol.1' foi o mote para o regresso a Portugal depois de uma passagem no OUT.FEST em 2023.
King Milo dos HiTech | Foto: João Octávio Peixoto
Com malhas como “SPANK!” e “TAKE YO PANTIES OFF” — esta última adornada pela voz etérea de Georgie Riley —, o trio transformou a sala numa celebração pura, onde ninguém conteve o sorriso. A energia era tão contagiante que, a certa altura, um dos membros desceu até à frente do público, partilhando, entre gargalhadas e cumplicidade, a sua garrafa com o líquido dos deuses. Já levados por esse impulso, houve espaço para twerks, movimentos atrevidos e improvisos de dança que se espalhavam pelo espaço, transportando-nos para as intensas e vibrantes festas underground de Detroit, sentindo cada batida pulsar tanto no chão da sala do CCVF como no peito. Por entre este festão, ainda ecoou “Paper Planes” de M.I.A., e, num instante, até os poucos céticos da sala se deixaram levar, entregando-se por completo à energia contagiante dos HiTech. Queríamos mais: mais calor, mais suor, mais corpos a vibrar juntos, e um horário diferente que nos permitisse sentir cada BPM pulsar nas veias e dançar lado a lado com eles até que a madrugada desaparecesse.
HiTech num ângulo do meio da plateia | Foto: João Octávio Peixoto
Quando a noite finalmente se despediu do CCVF, ficou no ar a sensação de que o primeiro dia do Mucho Flow tinha cumprido o seu papel: surpreender, desafiar e deixar-nos com vontade de mais. Entre a introspeção melancólica de Sassy 009 ao caos luminoso dos HiTech, o festival voltou a provar que o risco é a sua maior força.
Dia 1 - Sexta-feira, 31 de outubro
Ainda nos encontrávamos na ressaca da noite zero do Mucho Flow, e o dia de trabalho parecia arrastar-se num compasso lento. Aqui e ali houve tempo para recuperar forças — forças essas que já estavam reservadas para o segundo dia do festival.
Chegámos à garagem do Teatro Jordão quando Lauren Duffus já se encontrava em palco, e uma das primeiras coisas que se fez notar foi a clara melhoria da acústica da sala, agora totalmente coberta por longas cortinas pretas que lhe davam um ar mais íntimo e envolvente.
TRACEY Quase se pode falar em duas partes bem distintas na performance de TRACEY. Para quem aterra pela primeira vez na página de Spotify do duo londrino, é fácil criar expectativas de uma sessão clubbing pronta para fazer suar e perder o público no jogo de luzes. Mas não foi bem assim. A primeira metade do concerto revelou-se surpreendentemente contida — uma introdução sóbria e melancólica, com temas como “Take Care” e “When I Choose To Be Here With You”, canções quase confessionais que pareciam sussurrar mais do que gritar.
TRACEY numa visão do meio da plateia | Foto: João Octávio Peixoto
A temperatura da sala mantinha-se fria, e os espaços vazios entre corpos ainda se faziam sentir na pele. O público parecia observar mais do que viver. Mas para os mais desatentos, a segunda parte de TRACEY foi uma reviravolta total. O duo trocou o minimalismo pela energia bruta, virando o disco — literalmente — e trazendo à superfície a pulsação clubbing que muitos esperavam. Foi aí que “Sex Life”, o tema que incendiou pistas de dança durante o verão, assumiu o protagonismo passando também por "Sleazy". Com ecos de um dubstep renascido e batidas atrevidas, o subsolo do Teatro Jordão transformou-se num verdadeiro clube noturno — luzes a pulsar, corpos finalmente em movimento, e uma sensação coletiva de libertação. Quando o último som se dissipou na penumbra da garagem, ficou um silêncio curioso . TRACEY tinham deixado o público entre o fascínio e a confusão, como quem sai de uma viagem que muda de rota a meio, mas acaba por chegar a um destino inesperadamente certo. O duo despediu-se sem grandes gestos, mas com a certeza de ter deixado marca: entre o intimismo frágil do início e a libertação clubbing do final, construíram um arco que mais do que um concerto, foi uma metamorfose.
TRACEY | Foto: João Octávio Peixoto
Infinity Knives + Brian Ennals Quem esteve na edição do ano passado lembra-se bem dos Two Angry Blackmen — não só um dos concertos mais intensos do Mucho Flow, mas também um dos grandes momentos de 2024. Este ano, o produtor Infinity Knives e o rapper Brian Ennals fizeram-me reviver, ainda que de forma diferente, essa mesma energia crua e incendiária. Na bagagem traziam 'A City Drowned in God’s Black Tears', o disco lançado este ano. A atuação começou de forma densa, quase cinematográfica — batidas graves que pareciam subir do chão, samples que se misturavam com ruído, e a voz de Brian Ennals a cortar o ar como uma lâmina. A cadência das rimas era crua, urgente, carregada de ironia e raiva, mas também de uma lucidez desconcertante. Ao fundo, Infinity Knives manipulava os controladores e o teclado com gestos precisos, alternando entre o caos e o controlo absoluto. As paredes da garagem vibravam, e o público, ainda estático nos primeiros minutos, começou a ceder à intensidade — cabeças a abanar, corpos a balançar, olhares a procurar cumplicidade.
Infinity Knives | Foto: João Octávio Peixoto
O rap de Brian Ennals era um murro ritmado, e a eletrónica de Infinity Knives dava-lhe corpo — uma arquitetura sonora que oscilava entre o sagrado e o apocalíptico. Cada faixa soava como uma declaração, um protesto, uma catarse. Durante o concerto, foram ouvidos temas do álbum mais recente da dupla, 'A City Drowned in God’s Black Tears' — por exemplo “The Iron Wall” e “Sometimes, Papi Chulo” —, que serviram de eixo à sua performance. Neste registo, a crítica política surge com toda a força: Na letra de “The Iron Wall”, apontam-se nomes como Benjamin Netanyahu e Donald Trump («Netanyahu is the new Hitler», «Donald Trump – you a rapist and you know it») e realçam-se as questões do imperialismo, da guerra e da violência sistémica. Ao longo do set, essas referências foram intercaladas com batidas eletrónicas, momentos de catarses rítmica e instantes de introspeção. A performance não foi só musical — foi também política, provocadora e consciente.
Brian Ennals num ângulo do meio da plateia | Foto: João Octávio Peixoto
O 2º dia do Mucho Flow trouxe-nos primeiro a metamorfose clubbing e emocional de TRACEY, depois a descarga política e incandescente de Infinity Knives + Brian Ennals, que transformou a garagem do Teatro Jordão num epicentro de ritmo e manifesto. À saída, ainda com o corpo a vibrar e as luzes a piscar na memória, percebia-se nos rostos um misto de exaustão feliz e leve incredulidade. O festival seguia em frente — e nós, com ele — prontos para mais um mergulho no desconhecido.
Dia 2 - Sábado, 01 de novembro
O Mucho Flow nunca se deixou por reger por rótulos musicais, e diria que este ano foi um desses anos que tal foi mais saliente. Contudo, este último dia do festival trouxe-nos uma dose extra de rock, nas suas mais variáveis vertentes.
YHWH Nailgun Há uns dias, o algoritmo do Instragram levou-me até a um vídeo partilhado por Joe Talbot, vocalista e figura magnética dos Idles, onde se via um registo live dos YHWH Nailgun. Talbot escrevia por cima — “blew my tiny mind. Go dig ’em live, you won’t regret it.” — e aquela frase ficou a ecoar. A curiosidade acendeu-se no instante. E assim que chegámos ao Mucho Flow, fomos escavar esse som ao vivo. Entre luzes pulsantes e ruído a rasgar o ar, testemunhámos mais uma das estreias do festival. Vieram carregados do seu primeiro disco, '45 Pounds', e deixaram-no cair no palco como quem lança uma granada sonora. Os YHWH Nailgun confirmaram essa energia inquieta que atravessava todo o festival. Bastou o alinhamento das luzes no Teatro Jordão para que o ar da sala ganhasse uma espécie de tensão elétrica, como se alguém estivesse a carregar uma mola invisível. Quando a banda entrou, não houve apresentação nem cerimónia — apenas um jorro de som que cortou o silêncio como uma lâmina quente no frio do outono.
Zack Borzone, vocalista dos YHWH Nailgun | Foto: João Octávio Peixoto
A bateria, liderada por Sam Pickard, foi o primeiro corpo a ganhar forma: golpes secos, repetidos, quase mecânicos, que funcionavam como um farol dentro da tempestade sonora que se aproximava. Por cima disso, linhas de guitarra e sintetizador surgiam e desapareciam como vultos — nunca totalmente definidas, sempre prestes a escapar. Havia momentos em que o palco parecia mais um laboratório do que um espaço de performance, com cada músico a explorar o limite entre ruído, groove e colapso. Zack Borzone, vocalista do grupo, movia-se como se estivesse a travar uma luta invisível com o próprio ar, lançando a voz para o teto do teatro como um sinal de emergência. Não era apenas cantar — era exorcizar. Cada frase nascia da garganta como se viesse acompanhada de luz estroboscópica. A intensidade não era teatral; era física, quase táctil, como se o som empurrasse o público alguns centímetros para trás.
Sam Pickard dos YHWH Nailgun | Foto: João Octávio Peixoto
Quando chegou “Sickle Walk”, o ambiente mudou de repente. O público foi puxado para dentro daquela espiral de ruído controlado, uma espécie de redemoinho que parecia nascer do chão. As paredes do teatro vibraram com um grave que não se ouvia tanto quanto se sentia no estômago. A música avançava sem dar espaço para pensar, apenas para sentir — como se cada camada fosse uma porta que se abria para um túnel ainda mais fundo. A música foi se dissipando, mas a vibração permaneceu, como se cada pessoa levasse consigo um fragmento daquele tumulto luminoso. Foi um daqueles concertos que não se esgota no momento — continua a acompanhar-nos, silenciosamente, enquanto caminhamos para fora da sala e voltamos à noite fria do exterior da CCVF.
Visão de palco do meio da plateia durante YHWH Nailgun | Foto: João Octávio Peixoto
These New Puritans O Mucho Flow sempre se caracterizou por trazer os headLiners de amanhã, mas houve um nome que fugiu a essa regra: os These New Puritans. A banda britânica conta já com uma extensão discografia, datada desde 2008 com 'Beat Pyramid', e agora em 2025 trouxeram-nos o muito aclamado, o incrível 'Crooked Wings'. Quando entraram em palco, trouxeram consigo uma gravidade silenciosa que alterou imediatamente o ar da sala. A luz baixa recortava a figura de Jack Barnett, quase imóvel, como se estivesse a medir o espaço antes de o deixar vibrar. Os primeiros acordes ergueram-se devagar, num cruzamento de vibrafone, eletrónica espessa e um piano que ressoava como uma muralha antiga atravessada por corrente elétrica. A voz grave abriu caminho por entre as camadas metálicas e pulsantes, criando um ambiente que oscilava entre o cerimonial e o futurista.
Jack Barnett dos These New Puritans| Foto: João Octávio Peixoto
O público, que até então se distribuía em murmúrios e passos soltos, rapidamente foi absorvido pela atmosfera. Alguns mantinham-se imóveis, como se tivessem sido apanhados pela intensidade hipnótica de “Industrial Love Song”; outros fechavam os olhos, deixando que os sinos, as máquinas e o piano os arrastassem para dentro de um lugar que parecia existir algures entre ruínas antigas e laboratórios luminosos. Quando “Bells” ecoou pelo espaço, houve uma espécie de respiração coletiva — um momento em que todos perceberam que estavam diante de algo meticulosamente construído, mas emocionalmente bruto. No final, ninguém aplaudiu de imediato; houve, primeiro, um silêncio denso, como se fosse preciso regressar ao corpo antes de bater palmas. E só depois, lentamente, veio a ovação, de um concerto.
These New Puritans | Foto: João Octávio Peixoto
O último dia do Mucho Flow terminou como um eco prolongado do próprio festival: feito de contrastes que dificilmente poderiam coexistir noutro lugar. Depois do caos luminoso dos YHWH Nailgun e da solenidade futurista dos These New Puritans, a cidade parecia respirar de outra forma. As ruas húmidas refletiam as luzes como pequenas veias a pulsar no centro histórico, e o público dispersava-se devagar ainda a tentar decifrar o que tinha ouvido.
Havia nos rostos uma mistura de exaustão feliz e silêncio partilhado, como se cada pessoa carregasse consigo uma parte do festival. E foi nesse intervalo entre o silencio da cidade e a noite fria, enquanto caminhava pela calçada em direção ao São Mamede para gastar os últimos cartuchos, que me veio um possível título para esta reportagem - O passado murmura nas ruas de Guimarães, o futuro ressoa no Mucho Flow: o contraste de dois mundos inseparáveis.
Texto: Luis Silva Fotografia: João Octávio Peixoto - joctaviop (Instagram) // Fotos Oficiais Mucho Flow
Mucho Flow ~ Fantasmas à solta, distorção ao máximo e viva o Mucho Flow - Part2 | Reportagem Completa
PAPAYA | Foto: João Octávio Peixoto Estávamos no último dia do festival vimaranense Mucho Flow, os monstros musicais que tiveram uma aparição na noite de Halloween, parece que ficaram a pairar pela cidade de Guimarães, revelando-se uma vez mais nas diversas salas que acolheram estas criaturas.
Uma das criaturas que mais queríamos presenciar era Clarissa Connelly, que infelizmente no dia anterior tinha cancelado a sua presença na 11ª presença do Mucho Flow.
Sábado ~ 2 de Novembro
Assim, o bonito palco do Teatro Jordão apenas acolheu Bianca Scout. Entramos na sala escura, sendo praticamente impercetível os degraus que nos levou aos nossos assentos. A artista encontrava-se sozinha na imensa escuridão, apenas acompanhada de uma guitarra carregada de reverb. No centro tinha um set de touchpads e na outra ponta do palco, um piano de cauda.
Bianca Scout | Foto: João Octávio Peixoto Quem olha para o seu mais recente disco, 'Pattern Damage', conseguia desvendar parte do que iria presenciar ali, não fosse Bianca Scout artista formada em dança contemporânea. Para a cima do palco traz toda essa valência cruzando a vertente musical com a vertente artística, oferecendo uma espetáculo avant-garde, imprevisível e delicado. A dark pop da artista foi encantando a sala muito bem composta, e acompanhada pelos seus movimentos que chegaram a entranhar-se público adentro, foi hipnotizando cada corpo presente.
Saímos do Teatro Jordão pesados, um pouco sonolentos até, após a experiência imersiva e de pura tranquila que Bianca Scoutt nos trouxe. À porta do bonito teatro, foram-se juntando centenas de pessoas que iam demonstrando esse mesmo agrado e leveza, outras iam ja descendo até à cave, para assistirem a uma mudança abrupta de registo.
PAPAYA | Foto: João Octávio Peixoto Quem deu o mote para os altos decibéis, foi o regresso dos PAPAYA. A banda da casa, que regressa para editar o seu novo disco com nome, 'Nove / IX'. O super trio formado pelo baterista Ricardo Martins, Óscar Silva de Jibóia no baixo, e Bráulio Amado, designer gráfico que tem colaborado com o Mucho Flow, nas vozes e na guitarra. A banda entrou a rasgar, ferindo alguns ouvidos desprotegidos, sendo visível em grande parte da plateia o uso do earplugs, algo que a cultura musical em Portugal está cada vez mais a ambientar-se. A narrativa em português sobreposta pelo punk, noise era definida pelas linhas de baixo certas a bateria incertas e tresloucadas, onde a guitarra coloria a cave com uma casa ainda a meio gás. Talvez porque seria um final de tarde/inicio onde a cena punk ia ser bem audível, muitas das centenas de pessoas que davam forma ao Mucho Flow, iam-se resguardando.
A banda que se seguiu não se contentou com menos e trouxe para cima do palco uma camada musical ainda mais estrondosa. A banda de quatro elementos vinda diretamente do Reino Unido, UNIVERSITY, veio com toda a pujança, fazendo a sua estreia em solo nacional, como não seria de esperar, no Mucho Flow. Ainda sem nenhum disco editado, a banda de hardcore e punk trouxe malhas como "Egypt Tune" ou "Notre Dame Made Out of Flesh". A energia da banda não foi o suficiente para acender o rastilho de uma sala que se juntou para ouvir os jovens talentosos. Para isso não beneficiou o som estridente e caótico expelido pelas colunas devido à fraca acústica que a cave do Teatro Jordão tem, tornando-se por vezes quase impercetível qualquer palavra debitada Zak Bowker e cada riff tocado.
UNIVERSITY | Foto: João Octávio Peixoto Fazendo lembrar musicalmente And So i Watch You From a Far com uma pitada de FILDAR, a energia jovem e rebelde bem característicos da cena punk de onde vem, a banda foi colocando estes pequenos percalços que são alheios de lado para uma performance consistente, deixando no ar como seria ver o quarteto num cenário em que os altos decibéis e vozes a arrebatar pelas costuras sejam bem percetíveis, e ai talvez verem uma sala a fervilhar.
Quem conseguiu de facto atiçar o tal rastilho independente da envolvência que tinham, foi a dupla que se seguiu. Não fosse o nome já explicativo por si só, Angry Blackmen fecharam esta dose de distorção ao máximo numa serie de bpms diferentes. O som até parecia mais alto que os concertos anteriores, e mesmo com os earplugs afogados nos nossos ouvidos a raiva expelida na voz e nos beats da dupla de Chicago era palpável. Acabamos de editar o muito bem cotado 'The Legend of ABM', o concerto de Quentin Branch e Brian Warren foi em crescendo de forma abrupta contagiando muito rapidamente a multidão que encheu praticamente o espaço de betão armado. Irrequietos, o duo sugou de cada um de nós a energia sendo bem visível ver toda a sala a saltar e e a arrebentar em moche ainda tinha o concerto praticamente começado. Interventivos, agressivos na forma como cuspiam as palavras agarrando pelos colarinhos cada rima que debitavam, as centenas de pessoas iam balançando ao som de músicas como 'Stanley Kubrik', 'Sabotage' ou 'GRIND'.
Angry Blackmen | Foto: João Octávio Peixoto Por entre corpos húmidos e quentes, deparamo-nos com um corpo corpulento bem suado a vir contra nós, percebemos então que a dupla já se encontrava dentro do vulcão em erupção, não impedindo ainda assim de pregar a sua mensagem anti-sistema e reflexões sobre a vivência de ser negro numa das sociedades mais conturbadas. A ligação entre os Angry Blackmen e o público era audível transformando aquele sinergia em gritos vindos de um lado do palco e do outro: "angry" ... "blackmen".
Estamos no final do ano, por isso é certo dizer que tínhamos assistido a um dos melhor e mais intensos concertos de 2024, e nem mesmo a tal acústica deficiente da sala, conseguiu mudar este rumo.
Tinham sido 3 concertos de distorção ao máximo, entre regressos, estreias e confirmações, tínhamos saído da cave do Teatro Jordão de barriga cheia.
Terminamos esta 11ª edição do Mucho Flow já no Centro Cultural de Vila Flor, com 33EMYBW acompanhada pelos visuais alucinogénios de Joey Holder, e um dos nomes mais esperados por muitos, a dupla Snow Strippers que abriu a pista de dança para o que a noite ainda tinha para oferecer.
33EMYBW and Joey Holder | Foto: João Octávio Peixoto Texto: Luis Silva Fotografia: João Octávio Peixoto - joctaviop (Instagram) // Fotos Oficiais Mucho Flow
Mucho Flow ~ o festival que invoca os novos monstros musicais numa trilha sonora arrepiante - Part1 | Reportagem Completa
Quinta-feira ~ 31 de Outubro
Ano após ano, há muitas coisas que mudam, as playlists que ecoavam nos nossos ouvidos no ano anterior, rejuvenescem de forma orgânica, os discos que rodávamos passam a estar no fundo da estante e bandas que vimos, ficam esquecidas na memória. Pode haver muita coisa que muda, mas há uma coisa que decerto não muda, a minha presença em mais uma edição do Mucho Flow, mesmo após ter deixado a cidade onde o evento se realiza há mais de 3 anos.
Dia das Bruxas, 31 de outubro, as camadas de tecidos que trazíamos no corpo eram consideravelmente reduzidas tendo como ponto de referências as edições passadas, sendo quase já uma memória palpável o frio tão característico da cidade de Guimarães por esta altura.
O fluxo assombrado de automóveis que presenciamos na viagem Porto -> Guimarães fez-nos perder o pontapé de saída musical desta 11ª edição com o projeto de Rita Silva, um dos nomes em maior ascensão na cena eletrónica portuguesa.
Rita Silva abriu a 11ª edição do Mucho Flow 24' | Foto: João Octávio Peixoto
Subimos a avenida já sombria e aterrorizada pelas dezenas de árvores que se debruçavam sobre a estrada de calçada, até chegarmos ao bonito edifício do Centro Cultural Vila Flor (CCVF), sala que iria albergar este primeiro dia. À porta da sala começavam-se a acumular centenas de pessoas, fazendo tempo para um dos projetos que mais ansiávamos ouvir neste primeiro dia.
Pouco antes da hora marcada, percorremos o corredor de alcatifa gasta pelos muitos pés que já a pisaram, até ao interior do auditório principal do CCVF, e à semelhança de anos anteriores, deparamo-nos com o palco daquela sala a receber centenas de pessoas. Praticamente em cima da hora marcada, entra o trio Ebbb.
Ebbb pela visão do público | Foto: João Octávio Peixoto
Pouco, ou mesmo nada, conhecíamos do conjunto britânico, mas durante o nosso trabalho de casa foi um dos nossos destaques auditivos. Munidos pela bateria de Scott MacDonald, de um conjunto de sintetizadores liderados pelo produtor Lev Ceylan e pela voz de Will Rowland, a banda cria um som único e peculiar na cena eletrónico, graças muito ao tom vocal de Rowland, fazendo lembrar Noah Lennox dos Animal Collective/Panda Bear. Na bateria Scott transpirava ritmo, sendo ele o único responsável por toda a percursão ouvida em concerto, desde o bit que marcava os bpms até à caixa de ritmos que entrelaçava batidas, tornando-se um dos poucos de entretenimento daquele espetáculo.
A voz angelical carregada de reverb contrastava de uma forma equilibrada com o experimentalismo eletrónico. Foram tocadas faixas como “Himmel”, “Torn” ou “Swarn”, todas vindas diretamente do seu primeiro e único trabalho discográfico até ao momento, ‘All At Once’, editado este ano pela conhecida editora Ninja Tunes, fazendo prometer um futuro risinho para o trio.
Ebbb em estreia em Portugal no Mucho Flow 24' | Foto: João Octávio Peixoto
Ebbb deram o mote perfeito do que o Mucho Flow representa atualmente no panorama musical dos festivais em Portugal, destacando-se cada vez mais como um embrião para novos projetos internacionais carregados de talento.
Após o término de Ebbb, houve uma avalanche de pessoas a sair porta fora, fazendo a habitual pausa técnica para recarregar energias com aquela cerveja bem fresca. À nossa volta era bem evidente que aquele primeiro dia mais reduzido do Mucho Flow tinha atraído muitos mais visitantes que edições anteriores, muito por culpa do feriado que se iria registar no dia seguinte.
Entre conversas, começou-se a ouvir os altos decibéis expelidos pela porta aberta do CCVF, como a convidar novamente toda aquela moldura humana. Lá dentro começava a dupla oriunda da Coreia do Sul, HYPNOSIS THERAPY, formada pelo produtor Jflow e o rapper JJANGYOU, este, apresentava-se com a t-shirt da seleção nacional com o seu nome estampado e o número 82. Na cabeça, trazia uma máscara de um diabo fazendo jus a época festiva que se estava a viver naquele dia. Pensado ou não, parecia que o inferno tinha subido a terra com a entrada deste duo, entrando a rasgar pelos nossos ouvidos dentro.
O sul coreano JJANGYOU e o produtor Jflow no Mucho Flow 24' | Foto: João Octávio Peixoto
Acabados de editar o seu novo disco ‘RAW SURVIVAL’, o bass disparados em nossa direção era tal, que sentimos o chão tremer a cada batida, fazendo levantar os pés ao ritmo tresloucado a que JJANGYOU debitava o seu coreano. Epilético fazendo quilómetros dentro dos poucos metros quadrados que o palco tinha, a sua energia foi contagiante levando a sala praticamente cheia, à loucura. Corpos dançantes, cabeças soltas e pés irrequietos, todos os presentes estavam perplexos com a energia punk rebelde que tinham trazido.
Com uma interação constante e viciante, houve espaço para moches, hall of death, bem, praticamente tudo que um concerto pode ter, os HYPNOSIS THERAPY trouxeram. Entre malhas como “Don’t Stop”, “Blaze” ou “Die Die”, apesar de títulos de língua inglesa, as engraçadas e genuínas interações linguísticas que JJANGYOU tinha connosco, era com o seu simples e (muito) básico inglês, conquistando-nos com as suas rimas na língua materna. A verdade é que não contava em escrever tanto sobre este set, mas a maneira como fomos apanhados despercebidos pela atuação desta dupla coreana, mereciam um destaque, e entre muitos concertos nas pernas, este decerto não sairá tão cedo da nossa memória.
HYPNOSIS THERAPY no Mucho Flow 24' | Foto: João Octávio Peixoto
A terminar a noite, não nos desviamos muito do palco, dando uma pausa técnica às pernas na primeira fila de cadeiras do auditório da sala principal do CCVF. Começavam as primeiras filas a preencher-se para o concerto de um dos nomes mais esperados da noite, Bassvictim.
O duo composto pelo produtor Henry Clateman e a vocalista Maria Manow tem apenas editado um disco, ‘Basspunk’ editado pela sua própria editora, mas já coletam dezenas de milhares de audições nas plataformas, conseguindo levar uma pequena base de fãs portugueses ao Mucho Flow. Logo nos primeiros decibéis debitados por Henry, estávamos perante um projeto que vai voar a partir daquele momento. Musicalmente o duo é arrebatador com um jogo de luzes a acompanhar os acelerados bpms de hyperpop.
Os primeiros minutos conseguiram aquecer ainda mais a estranha quente noite de novembro, mas não demorou muito à presença física e vocal de Maria deitar por chão a grande produção musical da outra metade. Os vocais estavam todos pré-gravados, como foi audível em “Air on a G String”, “L-ON-D-ON” ou “Curse is Lifted”, deixando praticamente à deriva praticamente a sua imagem que deambulava de um lado do palco para o outro. As poucas vezes que a voz da cantora era percetível, desafinava constantemente, com a voz mostrar-se pouca lúcida. Por cima da sua performance, Maria chegou a interromper o seu set por diversas vezes queixando-se ora das luzes ora do fumo, quebrando a energia que aqui e ali ia ganhando força graças ao contínuo debitar de batidas bem dançáveis pela outra metade.
O duo Bassvictim no Mucho Flow 24' | Foto: João Octávio Peixoto
Com um início bem prometedor levando a sala praticamente toda a dançar nos primeiros minutos, a atuação de Bassvictim ficou marcada pela pouca vontade de Maria que aos poucos começou a contagiar os presentes, pelo lado menos positivo, registando-se uma casa bem mais nua no final da atuação do duo londrino.
Nos anos que já fazemos reportagem, não nos lembramos de um 1º dia tão forte, havendo já aqui nestas palavras escritas, sérios candidatos a concerto do festival, deixando água na boca para o que o Mucho Flow nos teria ainda a oferecer.
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Sexta-feira ~ 1 de Novembro
O segundo dia do Mucho Flow arrancou mais cedo, como era esperado, com o bonito auditório no Teatro Jordão a receber FRANKIE e a egípcia Nadah El Shazly. A verdade é que só conseguimos chegar ao Teatro Jordão para o segundo ato, nas galerias do Teatro, num contraste não só arquitetónico, passando da viagem ao passado para a modernidade bruta que as vigas de betão e os detalhes metálicos dão à sala do rés-do-chão, como também musical. Anastasia Coope foi nome a estrear esta sala nesta 11ª edição.
A artista norte-americana apresentou-se a solo, acompanhada pela sua guitarra, um computador que lhe iria auxiliar nos sons pré-gravados e com um modulador de voz. Vestia um vestido simples, sem muitas cerimónias, enquanto a sala ainda desnutrida de pessoas começou a receber os primeiros acordes da guitarra de Anastasia. Consigo trouxe o seu disco de estreia, ‘Darning Woman’, sim, mais um disco de estreia, não estivéssemos a falar do Mucho Flow.
Anastasia Coope vista pelo público | Foto: João Octávio Peixoto
A delicadeza e simplicidade de arranjos não só musicais como também vocais, desvendando todo o falsete angelical de Anastasia, ia encantado a sala com o seu freak folk, podemos chamar assim ao experimentalismo rendilhado com acordes simples de guitarra, como foi audível em faixas como “Woke Up and No feet” ou “Sorghum”. A sala foi-se compondo cada vez mais, e cada pessoa que se deparava com aquela voz e figura serena, ficava petrificada a apreciar tal simplicidade musical, no entanto constantemente interrompidos pelos constantes finais abruptos em todas as músicas que tocava, tornando um pouco confuso toda a narrativa. É verdade que as músicas de ‘Darning Woman’ foram construídas dessa maneira, mas ao vivo acabou por se tornar um pouco confuso parecendo que o trabalho ficou por terminar.
Anastasia Coope acompanhada pela sua guitarra | Foto: João Octávio Peixoto
A certo ponto do concerto, talvez nem 30 minutos do seu começo, pergunta ao público que horas eram, e percebendo (ou não) as horas que uma das pessoas que formavam a simpática plateia lhe dissera, abandona a sala sem muito palavreado deixando todos nós num burburinho, quase como fosse um reflexo da performance ao longo do final da tarde. Com um belo disco editado este ano, e com poucos live bem interessantes e bonitos, tivemos um misto de sentimentos com o concerto de Anastasia Coope, querendo acreditar que nada passou de um mal-entendido.
A noite estava bem cerrada embora o relógio marcava 20:00 horas, faltando ainda algum tempo para o próximo concerto. Já com a barriga a dar horas, infiltramo-nos pelas ruas estreias de pedra, iluminadas levemente pelos candeeiros de rua que andavam praticamente de mãos dadas com o riacho que percorria a cidade de Guimarães. No final destas ruelas, encontramos um ponto já de paragem obrigatória, a tasca bem conhecida e parada no tempo, o Tio Júlio. Pedimos as já conhecidas bifanas e uns finos, enquanto a conversa era intercalada com uma dentada e um gole. Reflexo do bom tempo que se fez sentir, foi a pequena esplanada que a conhecida tasca montou.
Depois de barriga cheia, voltamos a perder-nos no caminho sombrio que nos levou novamente às galarias do Teatro Jordão. De fundo já era audível as rimas e batidas lentas do projeto de Florence Sinclair. Mas uma das grandes razões para muita gente ter aparecido em força neste 2º dia, foi a banda que se seguia, os Still House Plants. A banda trouxe a Guimarães o seu 3º e aclamado disco ‘If I don’t make it, I love u’.
Florence Sinclair no Mucho Flow 24' | Foto: João Octávio Peixoto
O trio formado por Finlay Clark, multi-instrumentalista, David Kennedy na bateria e Jéssica Hickie-Kallenbach na voz trouxe elementos sonoros que aparentemente não habitam no mesmo universo; debitando spoken-word genuíno sobre camadas ‘loopícas’, conjunto de acordes rítmicos desarranjados, oscilando ora pelo free-jazz dramático ora pelo rock repentino. No sentido mais literal da palavra rock, todo e qualquer som ouvido pela sala muito bem composta era tocada, desde as batidas solidas e rítmicas (por vezes não tão rítmicas) da bateria, até ao cruzamento entre o dedilhar e riffs de guitarra passando pela forma como Jéssica expõe e entoa a sua voz grave e teatral.
A relação da banda em cima do palco era palpável, tocando e talvez improvisando (?), por tal desconstrução que fazem da música como a conhecemos sem nunca se perderem uns dos outros. “Sticky”, “MMM” ou “More Boy” foram algumas tocadas do seu mais recente disco. Já as tinham apresentado dias antes na Galeria Zé dos Bois. Uma atuação imprescindível para amantes da música no seu estado mais puro, mas para ouvidos não tão treinados (podemos dizer assim?) poderá ser de mais difícil interpretação.
O dia 2º estava encerrado naquela sala, e era vez de subir parte da avenida Dom Afonso Henriques, até ao CCVF.
Lá dentro já se fazia ouvir o forte violoncelo de Mabe Fratti, nome artístico de María Belén Fratti Sierra que trouxe a Portugal o seu novo disco ‘Sentir Que No Sabes’. Não conhecia muito o trabalho da violoncelista da Guatemala, mas após uma escuta ao de leve, percebi claramente que este trabalho que ela nos trouxe revelou o seu lado mais rockeiro deixando o seu lado mais erudito à porta.
O trio Mabe Fratti visto pelo público | Foto: João Octávio Peixoto
O trio, de facto, conseguiu transportar toda aquela imponência que um som de um violoncelo em raiva pode trazer, para cima do palco, introduzindo no meu vocabulário algo que lhe chamara post-rock erudito. O fuzz da guitarra intercalava com o fuzz do violoncelo, sim, também nunca tinha ouvido tal. A verdade é que esta combinação de sons acompanhado pela bateria bem ritmada proporcionou-nos um autêntico espetáculo auditivo brutal, cru, enquanto a doce voz espanhola de María contrastava com tudo aquilo que estávamos a assistir, pregando as centenas de pessoas ao chão do palco do auditório do Centro Cultural Vila Flor.
Se o Mucho Flow nos proporciona a descoberta de artistas concerto após concerto, este de Mabe Fratti é decerto um daqueles nomes que levaremos connosco.
Mabe Fratti, a violoncelista da Guatemala | Foto: João Octávio Peixoto
O nome que se seguiu neste cardápio musical veio de uma nova geração de MCs londrinos, proliferando na cena rap underground do UK, veio a Guimarães com o seu novo e disco de estreia, ’40.’ Apresentou-se em palco com um hooddie a cobrir-lhe grande parte do rosto dando uma dose de misticismo, caminhando de uma ponta a outra do palco acompanhado pelas pelo seu sotaque londrino bem carregado. Por detrás dele eram disparados um jogo de lasers que rasgava por entre o publico oferecendo uma experiência visual ainda não vivida pelas centenas de pessoas.
Não sabemos se por falta de comunicação, mas o que se tinha experienciado em Anastasia Coope voltou-se a viver com o rapper atuar por uns míseros 20 min, despedindo-se do palco apenas com o “thank you”, deixando para trás uma plateia confusa, esperando por um retorno que acabou por não acontecer.
Após a despedida conturbada de Jawnino, poderemos dizer assim, apenas nos restava afogar as magoas no que restava da noite, no Teatro São Mamede, último palco deste circuito de descobertas músicas. Alex Wilcox foi um dos momentos altos não só do clubbing mas também do próprio Mucho Flow, com uma performance arrebatadora, atitude punk, a dar-se muito de si para uma plateia que estava faminta de dançar e que vou o artista residente em Berlim, a trazer uma autêntica rave scene ao bonito teatro.
A noite seguiu dentro com Crystallmess, e a fechar o 2º dia do Mucho Flow, Violet que continuou a dar corda às centenas de pessoas que permaneceram na pista de dança até às 6h da matina.
Texto: Luis Silva Fotografia: João Octávio Peixoto - joctaviop (Instagram) // Fotos Oficiais Mucho Flow
10 anos a festejar o futuro [Parte 2] - Mucho Flow 2023 | Reportagem Completa
Spencer Martin e Jack Martin dos Lunch Money Life, num dos melhores momentos, quiçá o mais incrível | mais fotos clicar aqui Acordei com as pernas ainda doridas da noite longa, mas nada que me fizesse recuar do dia longo que me estava a aguardar. Poderia pensar que naquele sábado a chuva daria algumas tréguas, mas não, na verdade sentia-se ainda mais as baixas temperaturas a recair sobre as ruas labirínticas do centro da cidade de Guimarães.
Este último dia começa mais cedo na blackbox do Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG), único concerto naquela sala, a receber a prata da casa, Tormenta, projeto que junta dois dos mais notáveis músicos nacionais: o baterista Ricardo Martins e o guitarrista Filho da Mãe. Para cima do palco a dupla traz ainda Jibóia para adicionar uma camada extra de poderio musical.
Radie Peat dos Lankum, um dos bons destaques do último dia | mais fotos clicar aqui Se leram as nossas 6 sugestões para este Mucho Flow, saberiam que às 18:15h, a meio da Avenida Don Afonso Henriques, Lucinda Chua estaria a atuar no auditório do Teatro Jordão. A artista britânica trouxe o seu primeiro LP, ‘YIAN’, para o bonito palco. Para quem lê a frase anterior até pode parecer que a multi-instrumentista é uma novata nestas andanças, mas a verdade é que a artista tem acompanhando ao vivo a bem conhecida FKA Twigs dando-lhe muita experiência por esses palcos mundo fora. Alternando entre o subtil piano e misterioso como foi possível ouvir em “Echo” ou “An Avalanche”, passando para o seu instrumento de eleição, o violoncelo, como foi possível ouvir em “Until I Fall” ou “Meditations on a Place”, carregado de uma boa dose de reverb, deambulando por entre o experimental, soando por vezes um pouco mais caótico do que aquilo que poderia prever, mas sem deixar o seu peso certo de emoção e introspeção, acompanhado sempre pela sua voz incrivelmente afinada. Uma artista que com apenas um disco editado, irão decerto começar a ouvi-la mais vezes.
Este dia 4 de novembro foi na verdade o dia que mais nos cativou, sendo a que maior parte dos nomes que sugerimos na tal lista de concertos a não perder, pertenciam em grande maioria ao último dia do festival vimaranense. Uns atrás dos outros, foi a vez de Contour a entrar em palco, desta vez no piso térreo do Teatro Jordão onde permanecemos até depois das 23h.
Khari Lucas é conhecido artisticamente como Contour | mais fotos clicar aqui Sempre com o relógio bem marcado, os concertos iam começando à hora marcada não deixando espaço para qualquer atraso. Os ponteiros marcaram 20:15H, Khari Lucas aka Countour subiu ao palco, sozinho, começando a debitar os seus poemas cobertos por uma camada que caminhavam lado a lado entre o jazz e o R&B. Mostrou-se sempre muito sereno, atento, com um olhar bastante cativante e fixo para as centenas de pessoas que começaram a encher aquela cena coberta de cimento de cima a baixo, dificultando por vezes a acústica, mas sem nunca perder a magia sonora.
“Crowded Afternoon”, “At All” ou “Teach Prayer” foram algumas de que que o artista britânico nos presenteou, todas retiradas do seu mais recente disco editado o ano passado, ‘Onwards!’. Em “Teach Prayer” ainda houve espaço para um pequeno discurso de apoio ao povo palestino que neste momento é vítima de uma guerra aparentemente sem fim, ouvindo palavras de apoio mútuo deste lado, sendo um dos mais momentos emotivos que o festival teve - “Say a prayer for the young sailing away, sailing away”.
Contour em estreia no Mucho Flow e em Guimarães | mais fotos clicar aqui Sem nunca perder a compostura, muito sério, sem mostrar qualquer emoção facial e por muitos momentos cantando num único tom, foi perdendo aqui e ali o público que timidamente lhe retribuíam um caloroso afeto. Uma atuação solida, sem grandes espaços para deslumbres, mas trazendo momentos narrativos bem bonitos e melódicos apoiados no seu talento, perspetivando um bom futuro para Contour.
Tivemos uma pequena folga para voltar a carregar energias no nosso canto favorito da cidade de Guimarães, o Tio Júlio. Um copinho de vinho tinto foi o que me foi servido para aquecer o meu coração naquela noite fria e chuvosa. Na verdade, o que realmente veio aquecer foi a próxima atuação, uma atuação que ninguém estaria à espera, quer dizer, nós de certo modo já contávamos com a explosão sentida nas garagens do Teatro Jordão. Os responsáveis? Lunch Money Life.
Lunch Money Life criaram um dos pontos altos do Mucho Flow em 2023 | mais fotos clicar aqui A banda formada por um conjunto de 5 elementos, transporta para cima do palco toda a pujança (e mais alguma) que um concerto deve realmente ter. Munidos por dois sets composto por circuitos elétricos interligados por dezenas de fios, com toda uma conjugação de efeitos, pedais e elementos que elevaram a sua atuação ao expoente.
Não são rock, nem são jazz, não são metal nem trap, ou se calhar são isto tudo e mais alguma coisa. Lunch Money Life entraram em palco e sabiam para onde queriam guiar a sala muito bem composta por volta das 21:15h. Com uma energia contagiante e uma dimensão musical a fazer jus a toda aquela expressão corporal diabólica, entregaram-nos um dos melhores e mais interessantes concertos, que na verdade já não víamos há algum tempo. Sempre com uma atitude punk, rebelde, cada elemento oferecia um pouco de si naquela performance musical como foi possível ver e ouvir em “Jimmy J Sunset”, “Mother” ou “New Herdsmen”.
Spencer Martin dos Lunch Money Life a felicitar o público | mais fotos clicar aqui Praticamente 90% da sua atuação foi um caos organizado carregado de adrenalina, quanto aos outros 10%? Foi dedicado à angelical “In Jesus Name”, que por entre todo aquela chuva pesada, veio a acalmar e trazer uma boa dose de fé com uma balada grandiosa contrastando bem com todo o resto do concerto. A banda despediu-se sob discos de vinil do seu mais recente disco, ‘The God Phone’, e t-shirts a sobrevoar as nossas cabeças largando uma das maiores demostrações de amor e carinho do publico que vimos nesta edição, com toda a gente em êxtase e ainda a tentar assimilar toda aquela loucura musical.
Antes da garagem fechar e todos aqueles corpos se movimentarem para outra paragem, vieram os Lankum, banda que estreou a música tradicional irlandesa no festival Mucho Flow. Um mundo completamente diferente e oposto de Lunch Money Life, no qual foi possível sentir na cara o vento e a maresia dos campos verdejantes irlandeses. Uma viagem ao passado, talvez mesmo chegando a tempos medievais, sentido aqui e ali uma rutura no tempo onde era possível ouvir uma leve dose de experimentalismo por entre toda aquela música tradicional celta.
Marcou muitos pontos o folk dos Lankum | mais fotos clicar aqui Todos os 5 elementos se apresentaram sentados com uma panóplia diversa de instrumentos como violino, gaita de fole, pífaro ou acordeão dando uma dimensão ritual a toda aquela experiência, acompanhado pelas vozes em uníssono parecendo por vezes que estávamos a presenciar um ritual qualquer. O Mucho Flow sempre se diferenciou dos demais por arriscar a trazer aquilo que vamos ouvir amanhã, criando tendências sem rótulos ou sem seguir qualquer referência, mas também se destaca por arriscar a trazer diversos musicais a um só ponto, e o concerto de Lankum são uma prova viva disso com o publico a corresponder da melhor maneira possível.
Parecia já se fazer tarde, o sol escuro está sobrevoava o céu há bastantes horas e o corpo começava a ressentir-se da agitada noite anterior, mas nada nos demovia do que ainda o festival nos tinha para oferecer, voltando à bonita sala do Centro Cultural Vila Flor (CCVF).
Fui para Abyss X, muita expectativa foi criada à volta da figura relevante no ecossistema feminista perante uma sala muito bem composta. A verdade é que pouco tivemos de presenciar para tal expectativa tivesse sido destruída devido a todo o seu ego que a artista demonstrou durante a atuação.
Muita pompa de Abyss X | mais fotos clicar aqui Sem qualquer empatia criada com o público e constantemente mostrando o seu desagrado com a equipa ora do som, ora da luz, foi quebrando muitas vezes momentos de dança que poderiam estar a entranhar-se pelos nossos corpos, deixando a sala a menos de metade já na parte final da sua atuação.
O melhor veio com Aïsha Devi. Após reconquistar o público que se tinha perdido anteriormente, a artista soltou a pista de dança que começou a aquecer os ouvidos e corpos das centenas pessoas que ainda tinham uma noite toda pela frente.
Aïsha Devi a dar-se a conhecer em Portugal | mais fotos clicar aqui Continuei o percurso musical até ao São Mamede para o incrível Evian Christ. O artista explodiu com qualquer expectativa que alguém tivesse criado. Claramente ganhou o prémio de melhor jogo de luzes, muita culpa pela instalação que levou para cima do palco formada por material translucido que se deixava atravessar por diversas luzes refletindo para toda a sala um tsunami de cor.
O Mucho Flow acabou assim de compor mais uma bela melodia de histórias, que fazem deste festival ímpar no panorama musical português, trazendo ate à Cidade-Berço gente não só de todo o país mas também um pouco por todo o mundo, carimbando cada vez mais a sua importância em criar tendências musicais ditando aquilo que ouviremos num futuro muito próximo.
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O olhar sempre muito introspetivo e curioso do público | mais fotos clicar aqui
Texto: Luís Silva Fotografia: Jorge Nicolau
10 anos a festejar o futuro [Parte 1] - Mucho Flow 2023 | Reportagem Completa
A dupla Lost Girls formada por Håvard Volden e Jenny Hval | mais fotos clicar aqui 10 anos são um número redondo que merecem ser festejados de uma maneira especial, uma celebração que deve ser vivida com todos aqueles que gostamos e que desejamos que continuem a festejar connosco década após década. Foi o que aconteceu em Guimarães nos passados dias 2, 3 e 4 de outubro com mais um regresso ao único Mucho Flow. O festival celebrou os 10 anos, mas quem recebeu a prenda de aniversário fomos nós, contemplados por mais um dia de festival, mais bandas e mais palcos. À primeira vista e olhando para os muitos dos nomes confirmados, talvez nenhum possa ter ficado na retina, mas é aí que entra a experiência toda de vida do festival vimaranense, que estão há 10 anos a festejar o futuro e a prever aquilo que vamos ouvir amanhã.
A grande adesão de público tem sido constante durante os 10 anos de existência | mais fotos clicar aqui Mucho Flow, quinta-feira, ainda a ressacar do feriado do 1 de outubro, foi o plano perfeito para este serão após um dia difícil de chuva e frio. Parti do Porto por entre o diluvio que se fez sentir por toda a A3, em direção a Guimarães, debaixo daquele cenário sombrio e por vezes assustador. Assim que estacionei o carro, subi logo a avenida Dom Afonso Henriques calcando a calçada molhada e escorregadia em passo apressado. Cheguei ao Centro Cultural Vila Flor (CCVF), sala que recebeu as primeiras atuações desta edição.
Entrei com o rosto molhado, sem saber ao certo se da chuva ou do suor. Depararei-me com uma sala em completo silêncio a olhar para uma tela gigante, como se aquelas centenas de seres vivos estivessem hipnotizados. Perante eles estavam uma instalação co-congeminada por Jonathan Uliel Saldanha, o coletivo Lunar Ring e os investigadores Gonçalo Guiomar e Zach Mainen. O conjunto dá-se pelo nome Atavic Forest e cruza as novas tecnologias, materiais orgânicos e reatividade. Ao público, foi sugerido que permanecessem numa área delimitada pelo surrounding sound system para uma maior imersividade na experiência audiovisual. Por detrás destas irrepetíveis experiências visuais, está uma máquina de Inteligência Artificial que através de uma série de sensores de movimento e de resposta a estímulos adutivos, ia-se formando e deformando perante os nossos olhos. Uma viagem microscópica, no qual era audível as texturas que eram narradas pelas mais de 100 000 combinações possíveis, deixando-nos completamente vidrados e transportando-nos para um mundo psicadélico, quase como se tivéssemos sobre efeitos alucinogénios provocado por uma pastilha qualquer.
A instalação Atavic Forest | mais fotos clicar aqui Depois de quase uma hora em estado hipnose, acordei para a pop intimista de pablopablo. O artista espanhol que é um dos mais recentes fenómenos da música do país vizinho, veio até ao foyer do Grande Auditório do CCVF, um novo espaço no festival que convidou as pessoas a sentarem-se ora nos sofás, ora no chão ou até mesmo a ficarem de pé, criando um ambiente bem caseiro. Filho do conhecido Jorge Draxler e vencedor de já 2 Grammys Latinos com contribuições na bem conhecida “Tocarte” de C. Tangana, trouxe a Guimarães o seu mais recente e auto-intitulado disco de estreia, ‘pablopablo’. Entrou pelas costas do público soltando os primeiros aplausos, embora ainda bastante tímidos. Encaminhando-se diretamente para o seu teclado largando as primeiras notas de “Fuego”, o seu single no qual se apresentou aos conhecidos COLORS SHOW. Alternando entre a guitarra elétrica e as teclas, a voz poderosa de Pablo foi conquistando o público que aos poucos foram se libertando mais, mostrando cada vez mais afeto ao músico espanhol.
O ambiente no concerto de pablopablo | mais fotos clicar aqui “Azul Zafiro”, “Otra Vida” foram dois dos muitos bonitos momentos que o concerto de pablopablo teve, mostrando toda a sua versatilidade musical, com momentos pop mais doces e acústicos transitando gradualmente (outras vez nem tanto) para acordes mais eletrónicos entre distorções e autotune, deixando os que conhecem menos o trabalho do jovem artista, surpreendidos pela amplitude musical que percorre. Podemos ver como algo positivo, porque de facto Pablo Draxler é bom em todos os registos, mas é verdade que também parece que o espanhol ainda se está a encontrar com a sua entidade musical. Após uma hora de concerto, e com um português muito bem falado, vou poder dizer no futuro: “Vi a 1ª vez pablopablo no Mucho Flow” – o futuro é muito sorridente para o rapaz prodígio nascido em Madrid. Terminou assim um dia que serviu de arranque de uma edição histórica. Seria difícil começar melhor na verdade, atuações intimistas perfeitas para uma quinta-feira chuvosa e fria, guardando assim energias para os dois dias intensos que ainda iria viver.
O prodígio espanhol pablopablo | mais fotos clicar aqui Na sexta-feira o dia começava bem cedo, com Canadian Rifles a abrir o palco Blackbox do Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG), substituição de última hora que vieram tomar o lugar de Bengal Chemicals. A verdade é que para quem faz as típicas 8 horas diárias de trabalho, como é o meu caso, torna-se difícil acompanhar toda esta oferta.
Um dos nomes que mais esperava para ver, tendo sido um dos nomes que mais despendi a ouvi-lo, foi Daniel Blumberg. O ex. Yuck, banda que liderou nos seus anos mais jovens, tocou num novo palco nunca antes usado no Mucho Flow, o auditório do bonito Teatro Jordão.
Cheguei passavam já poucos minutos do início. Subi as escadas em direção à ausência de luz, chegando aos balcões do teatro no piso superior dando para ter uma visão bem macro de toda a envolvência que a atuação de Daniel estava a causar na sala praticamente lotada. Todo aquele vazio era apenas interrompido por um único foco de luz que passava rente à cabeça de Daniel, completamente descentrado do músico, criando um certo desconforto ocular para quem assistia.
Daniel Blumberg num ambiente intrigante | mais fotos clicar aqui O foco de luz poderia ser uma analogia para todo o concerto do compositor inglês. Praticamente desprovido de instrumentos, todas aquelas horas de música ouvidas em casa, foram em vão. ‘GUT’, o disco no qual trouxe muito para cima de palco, foi completamente desconstruído trazendo uma componente muito experimental e por vezes quase de improvisação. As melodias harmónicas do piano, elemento central do seu trabalho, foi inexistente dando lugar ao noise sendo por vezes muito difícil de identificar qualquer melodia. Uma performance é o que talvez poderíamos dizer da passagem de Daniel Blumberg, deitando por terra qualquer peça musical com doces harmonias, salvando-se apenas o poderio vocal de que é provido.
O festival vimaranense convida todos os festivaleiros não só a descobrir os futuros fenómenos da cena musical, mas também a descobrir a própria cidade, com um roteiro que se entranha por diversos pontos da cidade berço. Após termos deixado o auditório do Teatro Jordão deixei-me perder pelas ruelas estreitas e escuras, passando por candeeiros a meio gás, pisando o piso de pedra molhado, dobrando e desdobrando esquinas até encontrarmos no canto, o bem conhecido Tio Júlio. Fiz uma paragem na icónica tasca vimaranense para recuperar forças para o resto da noite, com a simpatia tasqueira do costume.
Miguel Pedro nas garagens do Teatro Jordão | mais fotos clicar aqui Pelo caminho ficou Miguel Pedro, um dos fundadores de Mão Morta que trouxe até às garagens do Teatro Jordão o instrumentalismo cruzado com sons que a Mãe-Natureza nos traz, um pouco o espelho daquilo que era sentido e ouvido por todo o Norte: chuva e muito vento.
Fiz o tal caminho, agora de volta às garagens do Teatro Jordão, a tempo de ver Evita Manji. A dream-pop imatura da artista grega entrou devagar, ainda com a sala a começar a compor-se, mas rapidamente começou a entrar noutro registo digno das melhores raves. Classificar como dream-pop à música da artista é na verdade bastante redutor, porque na verdade pende mais para os lados do clubbing, trap, do que para os lados do shoegaze no qual estamos mais habituados a associar esta nominação.
Uma das estreias sonantes: Evita Manji | mais fotos clicar aqui A imaturidade que falei não o escrevo de uma forma pejorativa, mas de facto ao pisar o palco foi sentido uma certa distância não só perante o público, mas também com a própria música, muito apática em contraste com os BPMs bem acelerados. De facto, a produção debitada pelo soundsystem era brutal e dificilmente deixou alguém de pé assente na terra, mostrando a qualidade acima da média da grega, havendo mesmo quem diga que a artista está a reinventar a tendência pop. Agora é só esperar que o futuro o diga.
Do caos ameno de Evita Manji passei para o duo norueguês, Lost Girls. O duo que junta Jenny Hval e Håvard Volden, vestidas a rigor com dois fatos com uns tamanhos bem acima, repartiram uma mesa onde se sentaram quase como estivessem a dar uma palestra.
A dupla Lost Girls na sua estreia em Guimarães | mais fotos clicar aqui A spokenword de Jenny com a sua voz angelical, mesmo que fosse em norueguês, persenti que nos queria transmitir algo. ‘Selvutsletter’ foi o disco em destaque, com a guitarra de Volden em músicas como “With the Other Hand” ou “Ruins”, não esquecendo as introspetivas “World on Fire” ou “June 1996”, como bons exemplos de uma pop doce, dançável, nórdica ou mesmo enigmática, características bem vincadas daquele povo que foi audível durante a quase 1h de concerto.
Se os dois momentos que presenciamos na garagem interpretadas pela Evita Manji e pelas Lost Girls foi de calmaria, o mesmo não se pode dizer após ter subido a avenida em direção até ao backstage do auditório grande do CCVF ~ um turbilhão de luz e som correu na nossa direção sem pedir qualquer licença.
A atuação dos Heith no são Mamede | mais fotos clicar aqui Heith foi o primeiro a pisar o palco, mas foi com Amnesia Scanner que a coisa ficou séria. Por entre luzes intermitentes e o strobe no máximo, a dupla finlandesa entrou já a conhecer os cantos à casa, após ter passado pelo Mucho Flow no ano de 2019. Com mensagens em ritmo acelerado a passar por entre as luzes, acompanhavam o ritmo acelerado, não havendo uma vivalma naquele espaço que não estivesse a dançar. Diabólicos, intensos e caóticos foi assim a passagem arrasadora desta dupla, trazendo para Guimarães o seu ‘STROBE.RIP’ editado este ano.
Foram sensivelmente duas horas a fervilhar no CCVF, aquecendo para o clubbing que teria muitas mais horas pela frente. Percorremos quase metade da cidade para chegar até ao último espaço do dia, o São Mamede CAE. Já sem bem noção das horas que iam rodando no nosso relógio, dançamos ao som do dubstep, do techno proveniente do UK ou mesmo do idm de LCY, sem esquecer de OK Williams, um dos novos nomes em ascensão da nova geração de Djs oriundos do Reino Unido, residente da conhecida NTS. Para fechar a noite, já perdido na pista de dança, dançei até horas tardias ao som da conhecida por nós, King Kami, terminado assim o 2º, longo, intenso e chuvoso dia de Mucho Flow.
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O olhar sempre muito introspetivo e curioso do público | mais fotos clicar aqui
Texto: Luís Silva Fotografia: Jorge Nicolau
6 concertos a não perder no Mucho Flow 2023
A tónica é sempre a mesma: a aventura nas novas sonoridades e a descoberta dos artistas que vão marcar presença regular nas nossas audições dos próximos meses, até ao próximo Mucho Flow. Assim se caracteriza o Mucho Flow sendo que essa tendência veio para ficar. Em 2023 alcança um marco especial, a edição que vai acontecer em muito em breve ficará conhecida por Mucho Flow 10 years. Vai contar com um dia extra, o festival passa a 3 dias - 2, 3 e 4 de novembro. Vai alargar-se a outras expressões artísticas pela primeira vez e propondo um formato mais crítico sobre curadoria, cruzando música nas suas formas mais inovadoras, tão arriscadas quanto delicadas, com plásticas, instalações AV e conversas.
Este ano, a organização do festival candidatou-se ao Programa de Apoio a Projetos da Direção-Geral das Artes, na área da Programação, tendo concorrido ao patamar de 45 mil euros e visto aprovado um apoio de 35 mil euros. Além deste apoio, o evento conta com o habitual apoio e financiamento por parte do Município de Guimarães. Até agora o apoio da câmara era o único. O evento irá decorrer em vários palcos da cidade de Guimarães entre os dias 2 e 4 de novembro. Os bilhetes para o Mucho Flow 10 years estão à venda por 55 euros para os três dias. O bilhete para quinta-feira custa 10 euros, enquanto os diários para sexta-feira e sábado custam 30 euros cada.
Analisado o cartaz eis 6 concertos a não perder no Mucho Flow
pablopablo - 2 de Novembro
De terras vizinhas chega-nos uma das vozes mais interessantes do último ano por aqueles lados, pablopablo. O projeto de Pablo Dexter já foi merecedor de 2 Grammys Latinos pela sua contribuição em ‘Tocarte’ de C. Tangana. Estou a destacar um artista que conta apenas com um disco lançado, ‘pablopablo’ editado este ano, que por entre batidas bem delineadas, um pop suave e delicado, liderado sempre pelo seu falsete inigualável, tem conquistado Espanha. Conta já com uma passagem pelos conhecido ‘COLORS SHOW’ com o seu single “Fuego”, atuação disponível online para espreitar um pouco daquilo que nos poderá trazer à cidade berço.
↦ Alinhamento dia 2 + Atavic Forest Live AV W/ Jonathan Uliel Saldanha & LSRU + pablopablo
Daniel Blumberg - 3 de Novembro
Daniel Blumberg de todos os artistas confirmados para esta edição foi o que mais me fez pregar ouvidos em toda a sua discografia. O artista visual, músico, compositor, voz de bandas como Yuck ou Cajun Dance Party, é enigmático, introspetivo, cru, profundo. Completamente distanciado dos seus projetos juvenis, o artista agora com outra maturidade traz-nos peças musicais entre a orquestração e o experimentalismo. ‘GUT’, o seu disco lançado este ano é uma prova viva disso. Munido de uma voz inconfundível e poderosa, o artista londrino traz a sua narrativa sombria para palco dia 3 de novembro.
Lost Girls - 3 de Novembro
Lost Girls é o projeto do duo norueguês que junta Jenny Hval e Håvard Volden, uma dupla que entrelaçam os seus talentos individuais para criar uma composição musical bem peculiar. A voz pop de Jenny intercalada com o seu spokenword ouvido aqui e ali, aliado com o instrumentalista experimental de Volden criam uma fusão pop bem dançável, ora transportando-nos por vezes para a cena pop 90’s ora para uma paisagem idílica no meio das montanhas numa espécie de ritual espiritual. Ao Mucho Flow a dupla norueguesa traz ‘Selvutsletter’, o seu disco mais recente que ao longo de 8 faixas divaga por esta panóplia de sentimentos, prometendo um concerto com diferentes momentos a não perder.
↦ Alinhamento dia 3 + Amnesia Scanner + Bengal Chemicals + Daniel Blumberg + Evita Manji + Heigh + King Kami + LCY + Lost Girls + Miguel Pedro + OK Williams
Countour - 4 de Novembro
Foi um dos projetos que mais me chamou a atenção nesta 10ª edição do Mucho Flow. Nada conhecia (nem sequer ouvido falar) do projeto de Khari Lucas, mas bastou ouvir a primeira faixa do seu mais recente disco ‘Onwards!’ para ficar de ouvidos agarrados ao seu 2º longa duração. Todo o disco é um mood que nos transporta para uma atmosfera reconfortante através do seu jazz desconstruído e de loops vocais, fazendo lembrar os vocais de Frank Ocean no seu ‘Blonde’, e que se vão repetindo ao longo de todo o disco. Ao vivo estamos curiosos de como vai samplar tantos layers de sons e batidas, que decerto nos deixarão agarrados.
Lucinda Chua - 4 de Novembro
O The Guardian destacou Lucinda Chua como uma das artistas a seguir nos próximos anos, o headLiner destaca a artista londrina como um dos concertos a não perder nesta 10ª edição do Mucho Flow. A cantora, compositora, produtora, multi-instrumentalista e outrora violoncelista de FKA Twigs, faz jus da sua capacidade vocal e do seu talento com o violoncelo, pincelando com camadas de efeitos eletrónicos criando um ambient pop, intimista. O seu disco lançado este ano pela conhecida 4AD, ‘Yian’, vai ser apresentado dia 4 de novembro.
Lunch Money Life - 4 de Novembro
Música apocalíptica, é assim que os próprios Lunch Money Life descrevem a sua música. Deambulando entre o math rock, post-posk e o jazz, este quinteto vai-nos trazer o seu disco lançado este ano ‘The God Phone’. Bastou-me ver a sua atuação no dia dedicado ao jazz do Boiler Room Festival, para saber que este será um dos grandes concertos do festival. Energéticos, caóticos, fazendo-se munir de diversos elementos físicos em palco e com uma dimensão auditiva brutal, prometem surpreender (ou não) todos nós.
↦ Alinhamento de dia 4 + Abysss X + Aïsha Devi + Contour + DJ Lynce + Emma dj + Evian Christ + Lankum + Lucinda Chua + Lunch Money Life + Tormenta
Texto: Luís Silva
Mucho Flow 2022: 4 nomes a não perder
No ano passado voltamos a um dos nossos festivais urbanos favoritos, o Mucho Flow numa das nossas cidades favoritas e históricas, a cidade de Guimarães. O festival contou com a presença de bandas como Giant Swan ou Anna B Savage. Podem reviver toda a edição aqui: Mucho Flow: A curta distância entre a histórica Guimarães e a modernidade sonora
O Mucho Flow caracteriza-se por um festival que cria tendências, um festival que se encontra à frente de todos os outros e que marca a diferença por trazer diversas estreias a Portugal, e de nomes que darão que falar daqui a muitos poucos anos. Querem exemplos? Destacamos então nomes como Black Midi, Nite Jewel ou Iceage, só para mencionar alguns. Por essa razão, porque não queremos que percam nada, reunimos aqui 4 nomes que não devem (definitivamente) perder nesta edição.
Dia 1. - 4.11.22
George Riley
O festival vimaranense mostra-se sempre muito eclético, sem nunca se deixar definir por um grupo restrito de rótulos musicais, trazendo sempre grandes promessas dos mais variáveis espectros musicais - George Riley veio amplificar esse espectro.
A artista é uma das vozes em maior ascendência do R&B britânico, trazendo algumas influencias do seu país para o seu seio musical como o trip-hop, o pop ou o jazz, transformando a sua música em peças deliciosas de ouvir cheias de sensualidade.
'Running In Waves' é o novo disco acabado de ser editado pela artista que conta com músicas imprescindíveis como a contagiante "Jealousy", "Delusion", "Time" entre muitas outras.
dia 4, às 19:15 no Teatro Jordão, Guimarães
Slauson Malone 1
Slauson Malone 1 é o alter ego de Jasper Marsalis, artista visual e musical que leva muito das suas artes performativas para a sala de espetáculo, muito devido à sua veia artista bem vincada. Alias, Marsalis, pode ser encontrado na Contemporary Art Library como pintor, escultor, trazendo toda a criatividade para a sua música.
O artista de Los Angeles não é bem jazz nem é bem hip-hop. Marsalis é a sua própria arte que desde 2019 nos trouxe dois discos, o mais recente, de 2020, o brilhante ‘Vergangenheitsbewältigung (Crater Speak)’. Recomendamos a audição integra deste disco, destacando a emotiva "The Wake Pt. 3 & 2 (see page 87, 58, and 48)" com um dedilhar delicioso de uma guitarra como pano de fundo acompanhado ora por sintetizadores delicados ora por um lindo conjunto de sopros, fazendo-se acompanhar por um auto-tune fazendo lembrar a voz de Frank Ocean.
Slauson Malone 1 foi definitivamente uma das grandes e boas descobertas que o Mucho Flow nos irá trazer
dia 4, às 20:15 no Teatro Jordão, Guimarães
Dia 2. - 5.11.22
III Considered
Nos últimos anos temo-nos apaixonado pela cena jazz londrina, com nomes como Sons of Kemet, Nubya Garcia, Ezra Collective entre muitos outros. Pois bem, se estes nomes vos dizem alguma coisa, III Considered tem de começar a rodar nos vossos ouvidos.
O trio composto pelo baixista Liran Donin, pelo saxofonista Idris Rahman e pelo produtor e baterista Emre Ramazanoglu, começaram a todo o gás gravando mais de 10 discos desde a sua fundação, em 2017. Sim, 12 discos, para ser mais especifico, que este trio entre sessões ao vivo de improvisação, e outros nem tanto, conseguiram materializar num curto espaço de tempo. O mais recente intitula-se de 'Liminal Space'.
Tendo muitas vezes como personagem principal o saxofone, é ainda acompanhado por aquela tresloucada bateria jazzy e por linhas de baixo montando todo o esqueleto desta formação. Os III Considered oferecem assim uma dinâmica ao vivo com muito de punk, cheias de energia, suor e improviso.
dia 5, às 21:30 no Teatro Jordão, Guimarães
Jockstrap
Quem se encontra por dentro da cena post-punk britânica pode talvez já ter ouvido falar desta banda, Jockstrap. Não propriamente pelo aspecto musical, até porque em pouco tocam uma na outra, mas porque metade da banda é integrante de uma das bandas do momento, os Black Country, New Road. Falamos da violinista, Georgia Ellery. A outra metade, Taylor Skye, conheceu na prestigiada, Guildhall School of Music & Drama.
A combinação da bonita voz de Georgia e do seu arranjo de cordas com a produção eletrónica de Taylor, trouxeram-nos este ano um dos disco do ano, 'I Love You Jennifer B'. Toca ao de leve no jazz, passando pelo grime, chegando mesmo a batidas de dubstep fazendo-se sempre ouvir um grupo de cordas bem lá no fundo oferendo uma dimensão musical brutal a este duo. Não parece fazer muito sentido? Pois bem, o melhor é mesmo decifrarem pelos vossos próprios ouvidos, o nascer de uma banda que dará que falar em muito pouco tempo. Mais uma vez, uma aposta do Mucho Flow, que sabemos nós que está ganha.
dia 5, às 22:45 no CC Vila Flor, Guimarães
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