Mucho Flow: Mucho do futuro musical passa por aqui | Entrevista
Durante 2 longos anos o Mucho Flow esteve numa espécie de banho-maria extremamente desejoso de voltar a calcorrear as bonitas ruas de Guimarães. Podemos praticamente dizer que este festival é uma espécie de Web Summit adaptada ao mundo da música na qual alguns “unicórnios” musicais vêm ao Minho mostrar aquilo que valem e partirem para a conquista mundial. Algo que já aconteceu com alguns nomes, basta lembrar um dos mais recentes, os fabulosos britânicos Black Midi. Depois de tocarem no Mucho Flow em 2018 subiram em flecha no seu merecido reconhecimento. Daí que o evento recolha uma base de fãs melómanos, mais atentos aos talentos ainda a despontar. A nossa reportagem sobre a edição de 2018 pode ser lida aqui: Mucho Flow: o festival incubador de talentos emergentes! Em 2019 o festival teve a presença de bandas como Iceage e Heavy Lungs e esta reportagem pode ser lida aqui: O berço da descoberta de artistas alternativos chama-se Mucho Flow.
A edição de 2021 começa sexta-feira (dia 5) e termina sábado (dia 6) tendo no seu cartaz alguns nomes mais fortes como são os casos dos Giant Swan e Anna B Savage. Há lugar para a estreia absoluta ao vivo de Fura Olhos, projeto lusitano formado por Inês Malheiro e Miguel Pedro tendo o devido apoio da Revolve, editora e promotora responsável pela organização deste festival. Já dupla nórdica Croatian Amor + Varg2TM vai tocar pela primeira vez ao vivo como duo. Estes são apenas alguns dos destaques do evento pois durante 2 noites há diversos artistas a descobrir de um cartaz com uma forte tendência para sons eletrónicos.
Para completar a informação sobre o Mucho Flow 2021 eis o alinhamento dos concertos:
Entrevistamos Miguel Oliveira, uma das pessoas por detrás da Revolve. Esta editora, promotora e agência baseada em Guimarães e fundada em 2009 é a responsável pela realização do Mucho Flow desde o seu início e até aos dias atuais.
Entrevista Mucho Flow
headLiner: Quem segue de perto o Mucho Flow, sabe que este não é apenas um festival de música, mas também um festival que abraça uma vertente mais artística, nomeadamente as artes visuais. Onde é que vocês tentam imprimir essa referência no vosso festival?
Mucho Flow: É algo que esteve sempre presente no universo Revolve. A identidade visual dos eventos que realizamos desde 2009 foi, sempre que possível, tão valorizada como a programação musical, e daí termos colaborado desde tão cedo com ilustradores que admiramos. Em 2019 convidamos a Wasted Rita e a emergente Débora Silva para intervirem no Mucho Flow e correu muito bem. Vamos continuar a expandir essa dimensão do festival nas próximas edições. Temos a felicidade de ter como amigos gente muito talentosa nos mais variados meios e sentimos que com eles conseguimos levar o festival a um outro patamar.
headLiner: Na maioria das edições o CAAA (Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura) tem sido a casa do Mucho Flow. Com o natural crescimento do festival aquele espaço cultural vimaranense tem-se revelado insuficiente para as necessidades atuais. Este ano o Mucho Flow vai ocupar 3 espaços distintos sendo que pela primeira vez irá até ao Centro Cultural Vila Flor, uma das principais salas de Guimarães. Como tem sido programar o festival com a constante preocupação de procurar espaços a sua realização?
Mucho Flow: É algo que faz parte da Revolve desde o início. A Revolve enquanto promotora nunca teve um espaço único para desenvolver a sua programação. Tentamos sempre programar em locais novos ou onde habitualmente não existia uma programação como a que fazemos. Quando desenhamos a primeira edição do festival percebemos que o espaço teria que ser à imagem do que fazíamos até à data e que acima de tudo deveria ser feito para/pela cidade. O resto passa naturalmente pelo crescimento do Mucho Flow.
headLiner: Iceage (2019), Black Midi (2018), Bo Ningen (2016), Girl Band (2015), Amen Dunes (2014), são alguns dos excelentes projetos que já passaram pelo vosso festival e que depois subiram de patamar de notoriedade no planeta musical. Como é este processo de escolher bandas/ artistas a solo antes de se tornarem mais conhecidas a nível mundial?
Mucho Flow: Surge naturalmente pela procura diária de nova música que nos apaixone. Acima de tudo, e começa sempre por aí, trazemos os artistas que gostamos. Felizmente temos conseguido aproveitar o timing certo e apresentar algumas das bandas mais excitantes dos últimos anos. Outras tantas estiveram prestes a acontecer e infelizmente não resultou. Mas faz parte do processo que é programar um festival com esta dinâmica.
headLiner: As bandas que já mencionamos são excelentes exemplos do fio condutor do que foi o Mucho Flow nas primeiras 5 edições, isto é, ter sido um festival muito focado nas mais diversas vertentes que o rock pode nos trazer. Atualmente já não o é. Já no cartaz de 2019 notamos um rumo diferente, por exemplo, mais virado para a música eletrónica experimental. Confirma-se a tendência no cartaz de 2021 de forma ainda mais acentuada. A que se deve essa mudança?
Mucho Flow: Uma coisa é certa, o festival nunca será apenas de um “estilo” mas acima de tudo, não acreditamos em rótulos. Hoje em dia a vertente eletrónica poderá estar mais vincada mas sempre tivemos projetos fora no universo rock. Recordo-me das estreias nacionais de Bitchin Bajas, Sega Bodega ou Naked. Tivemos Circuit des Yeux, Gaika, God Colony + Flohio, Nite Jewel, Blanck Mass, Dedekind Cut, SKY H1, Sculpture ou Nadia Tehran. Como referi, acima de tudo, queremos um cartaz com artistas que admiramos. Dito isto, e porque o festival foi sendo desenhado ao longo da pandemia, sabíamos que existiriam restrições/imposições que iriam influenciar a experiencia habitual do festival por isso sentimos que não faria sentido programar um concerto de punk para uma audiência sentada. Mas não sentimos que exista agora um novo rumo.
headLiner: Fura Olhos vai editar pela Revolve o seu disco de estreia, e terá aqui no Mucho Flow a sua “estreia absoluta ao vivo”. Sendo este um produto vindo de “dentro de casa”, o que nos podem adiantar do que será este concerto ao vivo? Querem destacar algum outro concerto?
Mucho Flow: Acreditamos que a estreia de Fura Olhos vai preencher uma lacuna que existe no panorama nacional. Acho que são um projeto impar, fresco e estamos mesmo muito expectantes pelo concerto. Será certamente um dos grandes momentos do festival. Para além de Fura Olhos teremos mais duas apresentações Revolve que também editamos este ano. Chão Maior, liderados por Yaw Tembe, trazem o brilhante ‘Drawing Circles’ a Guimarães. Será uma viagem pelo jazz, o kraut, o rock ou folk ao jeito de La Monte Young, Sun Ra ou Ornette Coleman mas que se propaga para novas dimensões.
Temos também Ricardo Martins a revelar o ‘Incerteza Absoluta’, que já tinha sido apresentado em parte na programação Revolve para o multiverso Common 2021, onde explora toda uma nova linguagem para além da bateria que tão bem lhe conhecemos. É um orgulho tremendo trabalhar com artistas tão talentosos como estes que nos escolheram para ser a sua casa. É o melhor reconhecimento de todos.
headLiner: Cartaz eclético, diferenciado, com edições atrás de edições esgotadas e com público um pouco por todo o país e até para além de fronteiras. Como é que vocês olham para esta evolução a olhos vivos do Mucho Flow e como perspetivam o futuro do festival?
Mucho Flow: Temos já mil e uma ideias para o futuro. Se conseguirmos fazer um terço dessas ideias será incrível. Chega rápido 2022! Toda a informação e últimos bilhetes à venda em www.muchoflow.net














