08/03 - Aprendendo sobre ser mulher.
O destino de uma mulher é ser mulher. Clarice Lispector
Hoje é Dia da Mulher e, pela primeira vez, reconheci a mulher que sou de forma genuína.
Chorei. Chorei algumas vezes. Na real, eu chorei diversas vezes até agora. Sinto que ainda tenho coisas para chorar.
O peso de ser mulher eu já conhecia: ter que ser forte, ter que aguentar, ter que dar um jeito, ter que batalhar em todas as áreas da vida, ter que trabalhar, estudar, cuidar da saúde física e mental, fazer as 24h do dia virarem 48h. O peso de ser mulher, eu também já conhecia: diversas inseguranças, não saber se estou sendo compreendida de forma clara, medo de parecer agressiva, preocupação em não ser entendida, falta de rede de apoio, falta de recursos financeiros, medo de não conseguir me posicionar ou recolocar...
E hoje, pela primeira vez nessa vida, eu chorei porque me senti grata por ser mulher. Me reconheci como digna. Me senti - porque eu sempre fui - sagrada.
Nossa vida, enquanto mulheres, é cheia das contradições. Falando de mim: dou atenção integral para o meu trabalho, muitas vezes falando por dias e dias do mesmo assunto, mas não consigo ouvir a mesma história de uma amiga mais de uma vez; faço e refaço a mesma análise para garantir um resultado impecável, mas não dou atenção à me dedicar em aprender sobre cultivo de plantas na minha varanda; nunca quis uma vida mansa, mas hoje o meu objetivo principal é ter uma rotina bem estruturada e seguir nela todos os dias; sou rata de roda de samba raiz e capaz de cantar todas as músicas de um evento, mas eu duvido alguém conseguir me tirar de casa em cima da hora num sábado a noite, porque eu tenho hora de tomar banho e deitar; todos os dias tirar um tempo para refletir sobre minhas atitudes e pensamentos e, ao invés de perceber minha vitórias, focar em quem eu quero ser porque, aquela lá do futuro não vai combinar com essa aqui de agora; querer um par de braços enormes e um peito confortável para deitar em cima no final do dia, mas Deus me livre de chegar em casa depois de um dia exaustivo e ainda ter que ser sociável, amável e escuta ativa para alguém.
Contradições. E isso tudo é ser mulher: querer e deixar de querer. Ter uma visão clara do que quero ser, mas estar 100% pronta para querer outra coisa a qualquer momento. E de repente, querer de novo, mas com um ajuste aqui. E outro ali. Mas a verdade é que talvez eu não queira tanto. Aliás, não vou dizer que não quero nunca, mas nem pensar em querer agora! Ou eu quero? É isso.
Ser mulher é ter a certeza que eu dou conta de tudo. E se não dou conta agora, me dá 5 minutos, ou 2 dias, que eu vou dar conta, sim. Porque eu sou conta! Ser mulher é ter a convicção de que eu não preciso dar conta de tudo porque, de fato, eu não preciso. Ser mulher é precisar controlar absolutamente tudo, porque tudo parece sempre estar à beira de desmoronar e se eu não lutar por mim, por me manter (independente da área da vida que for), quem vai fazer isso? Mas é tenso porque ser mulher é estar sempre cansada, é precisar de 5 minutinhos para respirar (entenda como gritar, berrar mesmo, uns 3 gritos dentro de casa, berrar com a parede) o tempo todo.
Tem também os lugares de arrependimento... Aliás, segue o fio.
Obcecada em viver a vida que sonho e ser quem desejo, esses dias resolvi "dar uns gritos" e ir num barzinho com umas amigas. Tomei uns drinks, ouvi música, interagi com pessoas e vim embora para casa. No dia seguinte qual foi o sentimento? Culpa. Pelo o quê? Eu também não sei. E eu estou falando com toda a sinceridade do mundo: eu me senti culpada sem ter a menor noção do motivo. A vontade que eu tinha era de entrar num buraco e não sair de lá nunca mais. E eu sigo procurando um motivo para tal sentimento de arrependimento...
E sobre arrependimentos, eles seguem aparecendo no decorrer da vida. O problema é que eles trazem os sentimento de culpa. E acusação. E fixação no erro. E questionamentos. E mais arrependimento. E chegam os "e ses"... E, sem me dar conta, estou naquele ciclo vicioso de me machucar, me invalidar, me julgar. Agindo da mesma forma que o mundo externo já age naturalmente.
A diferença é que eu sou mulher. O mais importante é que eu sou mulher. Independente de como eu ajo, me comporto e o que faço, faço com presença. Com consciência. Porque eu sou mulher.
Eu sou uma mulher firme no falar, confusa no pensar e sensível no sentir. Zero por cento a favor de contato físico, mas que amo um chamego, um abraço e um carinho aleatório. Eu sou uma mulher que facilmente me levanto e me retiro de qualquer lugar que não me sinta confortável, mas também sou a mulher que às vezes sente falta de estar com companhias. Eu sou uma mulher que não suporto lugar cheio e barulhento, mas deixa eu passar na frente de um lugar estranho com gente duvidosa que estiver tocando funk para ver se logo não dou uma mexida no ombrim. Eu sou uma mulher que tenho a fisionomia fechada e escuto com frequência que tenho cara de brava, mas eu fico mole, fraquinha mesmo, quando ouço uma gracinha ou outra sobre o que quer que seja. E caio na gargalhada. E caio em mim.
Sou mulher quando sou o que quero e me acolho nas minhas escolhas, com consciência e sem me punir. Sem achar que deveria ser outra coisa. Sem escolher baseada no meio, sem escolher baseada nas expectativas dos outros. Sou mulher quando me lembro que além de filha, funcionária, empresária, dona de casa, amiga, tia, líder, gerente, e muitas outras classificações, eu sou eu. Eu sou minha.
Sou mulher quando defino o que quero baseada no que eu quero: se quero ser musculosa, seca, gorda, magra é uma escolha minha. Slim, gradona, definida mas não muito. Se quero usar roupas curtas, longas, rasgadas, passadas de forma impecável, cavadas, decotadas, estilo Bonequinha de Luxo ou Katniss, Hermione ou Barbie, tantos outros, ou melhor: o meu estilo. Que é tudo um pouco.
Sou mulher quando faço as unhas toda semana, pinto de rosinha, deixo num tamanho médio. Também sou mulher quando pinto de vermelho e deixo super longa. E sou tão mulher quanto, quando fico dois meses sem encontrar com a minha manicure. Sou muito mulher quando tomo banho com o sabonete mais barato que vi no mercado, assim como sou a Mulher Maravilha quando tomo banho com aquele sabonete raríssimo de pétalas de rosas e essência de baunilha que deixa a pele brilhosa após o banho.
Sou mulher demais para duvidar de mim mesma, eu me motivo, me incentivo e me basto, me reconheço. Mas também sou a mulher que escuta as inseguranças que nascem no profundo, que me ausento por me sentir incapaz, que esqueço quem sou e da minha capacidade de vencer batalhas e derrubar montanhas. Sou mulher que não preciso de aprovação externa, nem de ninguém, mas que sente falta de ouvir de fora que eu sou capaz, única, necessária e linda.
Sou mais mulher ainda quando ninguém me vê.
Sou mulher no meu íntimo, no meu oculto, no meu útero, no meu colo, nas minhas emoções. Sou mulher demais quando analiso minha vida sem chicote nas mãos, sem me machucar e reconhecendo que fiz o que pude com o que tinha. Sou mulher quando minhas emoções se contradizem e quando entendo que não precisa fazer sentido. Sou mulher quando paro de procurar um motivo ou algo para ser arrumado dentro de mim porque, afinal, eu sou assim. E isso me possibilita ser tudo.
Eu quero bater na mesa quando for desrespeitada, me levantar sem pensar duas vezes quando colocada "em cheque" sobre algo, virar as costas sem olhar para trás quando minha capacidade for questionada e dizer que acabou, e acabar mesmo, quando ver que não sou valorizada em algo. Porque isso é ser mulher.
Todos os dias eu preciso aprender a ser mulher, porque todos os dias eu preciso aprender a ser eu.
Não tenho mais expectativa de que o mundo me respeite, me ouça ou me dê espaço. Eu quero me colocar lá, eu quero me escutar e me respeitar. Porque quando eu assim fizer comigo, o mundo não vai ter outra escolha que não seja assim agir.
Que fique bem claro que não estou dizendo para que nos acomodemos e que aceitemos o machismo e o patriarcado. Muito pelo contrário: eu estou dizendo que só vamos conseguir combater isso quando pararmos de duvidar de nós mesmas, quando nos reconhecermos como invencíveis e assim nos posicionarmos.
Porque, como falei mais acima: eu não quero esperar pelo reconhecimento que vem do outro. Eu me olho, me vejo e me reconheço.
Espero que nos lembremos que somos mulheres de valor quando somos fiéis aos nossos. E para isso, precisamos nos aceitar.
Obrigada por ser mulher, meu Deus.
Feliz Nós! 💖













