NAS ENTRELINHAS
Provérbios 24:3,5
Com a sabedoria, edifica-se a casa.
Casa nos remete a um projeto de vida, abrangendo não apenas o núcleo familiar, mas também, e principalmente, o nosso caráter, e aponta para a construção da nossa identidade, ao desenvolvimento das nossas iniciativas. Casa também transmite a noção de espaço geográfico, de pertencimento a um local, e, portanto, também nos fala sobre o espaço que ocupamos no mundo.
Não é possível edificar uma casa sem nos valermos do recurso da sabedoria. A sabedoria é um instrumento de edificação, e, portanto, ela opera para construir, para elaborar, desenvolver. É por isso que lemos no livro de Provérbios que: “A mulher sábia edifica o seu lar, mas a tola o destrói” (Provérbios 14:1). Não é que a mulher tola seja inoperante. A insensatez NUNCA é passiva; ela é uma força ativa de potencial destruidor, e opera justamente para derrubar, para desconstruir. É da natureza da mulher tola destruir, assim como é da natureza da mulher sábia edificar.
A sábia é reparadora de brechas, construtora de muralhas. A sábia é aquela que age no sentido de estabelecer um fundamento, de construir uma fortaleza, de consolidar uma estrutura.
Nós sabemos, segundo o ensinamento de Jesus, que existem duas maneiras, duas formas de construirmos a nossa casa, a nossa vida. O sábio é aquele que ouve e pratica as palavras de Jesus, que representam um sólido fundamento para as nossas vidas. A Palavra de Cristo é um alicerce seguro, um terreno legítimo sobre o qual construir o nosso caráter, sobre o qual edificar as nossas relações, os nossos projetos, o nosso lar. Cristo é a Rocha acerca da qual os profetas afirmaram: “A pedra que os construtores rejeitaram, esta veio a ser a principal, a pedra angular” (Salmo 118:22). Isso nos transmite o entendimento de que Jesus é o elemento central que alinha, o núcleo indispensável, e sobre o qual todo o edifício se apoia, se estrutura. Sem esta Rocha, nós construímos apenas para testemunhar a inevitável ruína de toda a casa; porque aquele que ouve e não pratica está rejeitando a pedra angular, o fundamento primordial.
A partir disso, compreendemos que a verdadeira sabedoria é aquela que se baseia na Palavra de Cristo, no Santo Evangelho. Essa é a sabedoria cuja construção resiste às investidas da tempestade, ao furor implacável do vento, das adversidades e aflições que marcam a nossa existência neste mundo. E, se desejarmos ser ainda mais precisos na definição desta sabedoria, repetiremos as palavras do autor de Provérbios: “O temor ao SENHOR é o princípio da sabedoria” (Provérbios 9:10).
Logo, a mulher sábia é norteada por esse princípio, por essa convicção de fé, e toda a construção de sua existência no mundo — o seu projeto de vida, a sua identidade, o seu caráter, o seu ofício — tudo o que ela edifica se apoia nesta verdade elementar e infalível. Ela teme a Deus, e este temor é a própria essência, a matéria-prima da prudência que a mulher sábia demonstra em suas deliberações pessoais, em sua tomada de decisões.
Mas, nos aprofundemos mais no conceito de edificar uma casa. O que exatamente é construir uma casa? Significa construir uma vida, algo do qual a mulher insensata é incapaz, porque a insensatez tem como propósito, princípio e resultado a ruína, o caos, a dissolução, a desintegração. A sábia estabelece princípios e valores que se apoiam na verdade da Palavra de Deus. A tola, por sua vez, busca desconstruir — um termo bastante utilizado pelas feministas, diga-se de passagem. O propósito da sabedoria é edificar. O da tolice é destruir, derrubar.
Então, eis a pergunta: como preservar os fundamentos, os valores e princípios implementados pela sabedoria de Deus em nossas vidas? Como assegurar uma estrutura sólida em nosso caráter, ministério e em nossas relações familiares? O versículo 3 nos revela o meio.
… e com inteligência ela se firma.
Primeiro, precisamos estabelecer, segundo os critérios bíblicos, conforme o crivo da Palavra de Deus, a definição exata desse conceito que o autor de Provérbios nos introduz neste versículo 3. O que é a inteligência? Segundo o Livro de Jó, capítulo 28, a definição básica de inteligência envolve uma atitude consistente de desviar-se do mal: “Eis que o temor do Senhor é a sabedoria, e apartar-se do mal é a inteligência”.
Sabemos que não é bem assim que o mundo define o conceito de inteligência; mas conforme a definição bíblica, o atributo da inteligência está diretamente associado ao temor a Deus. É impossível deter a verdadeira inteligência sem possuir o temor ao SENHOR. A inteligência meramente intelectual, cerebral, é biblicamente comparada à loucura, pois deriva de uma noção de sabedoria humana, que, por sua vez, é falha. Logo, a inteligência como virtude espiritual se revela mediante uma atitude prudente em face às diferentes circunstâncias da vida. E aqui, o autor de Provérbios nos informa que é precisamente através dessa inteligência — isto é, nos desviando da aparência do mal – que iremos firmar, consolidar a nossa casa, o nosso projeto de vida.
O entendimento que nos está sendo transmitido implica que o mal compromete a firmeza daquilo que construímos. É por isso que o apóstolo Paulo, no Capítulo 3 de sua 1ª Carta aos Coríntios, adverte o seguinte:
“Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele. Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. E, se alguém sobre este fundamento formar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo.”
Este texto nos comunica uma verdade profunda, e a partir dele podemos entender que uma vida sem Cristo é uma vida sem alicerce, uma vida destituída de base, de estrutura. Mas o que o apóstolo Paulo enfatiza aqui é a nossa necessidade de construir sobre esse alicerce algo que seja de valor permanente, perdurável, que passe no critério avaliador do julgamento de Deus.
Em Cristo, temos a liberdade de edificarmos a partir de uma variedade de materiais; e eu penso que os materiais citados pelo apóstolo Paulo se referem aos diversos métodos pelos quais os crentes podem cooperar, cada um ao seu modo, para a obra de Deus. Alguns constroem a partir de metais e pedras preciosas — ouro, prata — enquanto outros se valem de materiais frágeis e inflamáveis — feno, madeira, palha. Só permanece sobre o alicerce, sobre Jesus, aquilo que se conforma à verdade de suas palavras. É por isso que o Senhor afirmou: “Céus e terra passarão, contudo, minhas palavras não passarão” (Mateus 24:35).
Um projeto, uma obra, uma atitude, uma iniciativa que se baseia nas palavras de Jesus; em suma, todo fim que se conforma aos meios propostos pelo Evangelho são frutos, e frutos que permanecem.
Mas tudo que é precioso exige de nós um alto custo. É por isso que, na parábola do tesouro, Jesus diz que o homem que encontrou o tesouro no campo vendeu tudo o que possuía para adquirir aquela propriedade. E Jesus diz que assim é o Reino de Deus. Ninguém pode se apropriar do Reino de forma ilegítima, ilegal. Para obter o tesouro — o ouro, a prata a partir da qual poderemos construir um edifício, uma obra de grande valor — teremos de vender tudo, renunciar ao que for necessário, a fim de alcançarmos este elevado padrão de excelência. E, ao contrário do que alguns podem equivocadamente supor, a excelência na obra de Deus não está de maneira alguma relacionada com valer-se ou não de muito dinheiro. Se fosse esse o caso, a igreja de Laodiceia não teria sido severamente repreendida por Jesus, e a igreja de Filadélfia, descrita como sendo pobre, não teria sido elogiada. É sempre bom esclarecer esse ponto, considerando que vivemos em uma época em que, mais do que nunca, a teologia da prosperidade vem sendo amplamente disseminada nos meios cristãos, a ponto de usurpar o espaço da pregação do verdadeiro Evangelho.
Investir em uma construção de alto valor pode envolver, no caso de alguns de nós, até o martírio, um sacrifício altamente doloroso, representando o preço de toda uma vida. E o que semelhante obra garantiria a nós? Que tipo de recompensa obteríamos? O versículo 4 de Provérbios 24 diz:
… pelo conhecimento, se enxergarão as câmaras de toda sorte de bens, preciosos e deleitáveis.
O autor nos assegura que, através do conhecimento, seremos agraciados com plenitude de dádivas e preciosidades. E aqui podemos nos recordar da promessa de Jesus, ao referir-se ao servo fiel e prudente: “Bem-aventurado o servo cujo senhor, quando voltar, o encontrar fazendo assim. Em verdade, lhes digo que ele o encarregará de todos os seus bens” (Mateus 24:46,47).
Eu poderia me prolongar no tema da glória que aguarda aqueles que servem fielmente a Jesus; mas gostaria de me concentrar especialmente na questão referente a sabedoria, nos benefícios resultantes de cultivarmos as virtudes da inteligência e do conhecimento, que são os atributos espirituais descritos nesta passagem de Provérbios 24.
Observem que o autor faz várias asserções pautadas em uma lógica encadeada, ele nos introduz uma série de afirmativas que progridem para uma conclusão. Primeiro, a casa é edificada, em seguida firmada e, por fim, mobiliada. E aqui, no verso 4, ele nos introduz ao conceito de conhecimento. Obviamente, ele não está se referindo a todo e qualquer conhecimento, mas ao saber frutífero, concedido por Deus como dádiva. Este é o conhecimento dos mistérios do Reino de Deus, acerca do qual Jesus falou: “A quem tiver, mais lhe será dado, e terá em abundância”.
Ainda no livro de Provérbios, capítulo 2, dos versículos 3 a 6, lemos o seguinte:
“Se clamares por conhecimento, e por inteligência alçares a tua voz. Se como a prata a buscares e como a tesouros escondidos a procurares, então entenderás o temor do Senhor, e acharás o conhecimento de Deus. Porque o Senhor dá a sabedoria; da sua boca é que vem o conhecimento e o entendimento.”
O autor, então, associa o conhecimento de Deus à “inteligência e ao entendimento” que procedem da boca do próprio Deus, e com isso ele torna evidente que só é possível ter acesso a verdadeira sabedoria e ao conhecimento pela concessão generosa de Deus. E é exatamente isso que Jesus revela aos discípulos quando ele afirma que mais conhecimento seria agregado àqueles a quem Deus tivesse concedido o entendimento, a compreensão dos mistérios do Reino.
A expressão “da sua boca”, no verso 6, nos faz recordar das palavras de Jesus registradas em Mateus 4: “Está escrito: nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus”. E, com isso, podemos seguramente concluir que a Palavra de Deus é a fonte através da qual podemos alcançar a verdadeira sabedoria, inteligência e conhecimento necessárias para a construção de uma vida estável e significativa.















