Capítulo 3 - Um mistério chamado Lorcan
Ele deu alguns passos rápidos até Naomi e envolveu-a em um apertado abraço. A garota pareceu desconfortável, mas não o afastou.
— Fiquei preocupado com você, ruivinha!
— Também senti sua falta, Lorcan — ela disse, confirmando assim minhas suspeitas.
Para ser franco, eu esperava alguém mais sério do que um garoto saído de um arco-íris para ser o vice-líder de uma Divisão como a de Criação.
Lorcan soltou Naomi e deu um beijo estalado nas bochechas pálidas dela. Olhei para Andrew, mas ele não deu bola alguma para o garoto que vivamente abraçava e beijava a namorada dele.
— E você é Hugo, não é? — Ele estendeu a mão para mim, e chacoalhei-a de imediato. — Você está bem, baixinho?
— Acho que sim. — Senti minhas bochechas esquentarem, assim como o resto do meu rosto. Eu tinha que olhar para cima para encará-lo, de modo que o ângulo entre meu queixo e meu pescoço era demasiado obtuso.
— Quantas vezes vou ter de dizer para não manipular o meu nome com apelidos? — ela reclamou, cruzando os braços. Como reclamava, aquela garota! — Sim. Estou bem, sim. Apenas um poucos cansada depois de fugir tanto.
— Acredito que esteja com fome. Você também, Hugo. — Dito isso, ele puxou da mochila dois pacotes de salgadinhos e entregou-nos. Como meu estômago já roncava fazia um bom tempo, aceitei de muito bom grado, e Naomi fez o mesmo.
Enquanto abríamos os pacotes e devorávamos as batatas com certa ferocidade, Lorcan puxou a manga da jaqueta e apertou um botão no relógio de pulso que usava, e ele abriu uma tela holográfica, eu diria de tamanho médio, sobre o braço dele.
“Como eu amo a nossa tecnologia”, mas ao mesmo tempo que eu pensava isso, ponderava sobre a possibilidade de alguém vê-lo usando aquele relógio holográfico. Felizmente, o saguão estava vazio, e a recepcionista estava mexendo com alguns papéis atrás do balcão. Lorcan deslizou os dedos pela tela projetada, e pelo que espiei, ele estava lendo e-mails.
— São quase onze horas, e já reportei à Liga antes de vocês chegarem. Temos um voo para Sacramento amanhã às onze e meia, então é bom que estejamos no aeroporto um pouco mais cedo.
— Certo. Todos acordados às nove horas. Quem não levantar ficará para trás — Naomi anunciou de forma autoritária e com um sorriso convencido no rosto. Era claro que ela adorava mandar. — Aliás, que dia é hoje? E onde estamos, exatamente?
Katherine deu uma risadinha que me soou desdenhosa.
— Dia vinte e um. E estamos na belíssima cidade de Chicago, Naomi. Francamente, você teria notado isso na nossa viagem de táxi se não tivesse tomado todo o seu tempo para estudar os enfeites de banco do taxista.
Os nossos quartos ficavam no sétimo andar — de acordo com Andrew, o andar favorito de Naomi. Por mais que a ideia de um andar favorito a mim parecesse absurda, ela concordou sem hesitação. Conclusão: Naomi era uma garota estranha.
Mas, afinal, quem era eu para acusar alguém de ser estranho?
Caminhávamos os cinco pelo corredor largo, procurando não fazer barulho. Eles, pelo menos, tinham esse objetivo. Eu estava procurando não esbarrar em nada enquanto flutuava em meus pensamentos. 21 de Dezembro. Não tínhamos ficado lá, presos naquele quarto terrivelmente torturante, praticamente nem um dia sequer. Aquilo simplesmente me aterrorizava.
— Aqui nos dividimos — Andrew anunciou e parou no meio do corredor, obrigando-nos a parar também.
— Eu quem deveria dizer isso — Naomi murmurou baixinho, claramente perturbada. Andrew ouvira, com certeza, mas ignorou-a.
— Você fica nesse quarto com a Kath, Naomi. — Ele apontou para uma das portas do corredor pouco-iluminado, onde havia uma placa escrito “710”. — Nós três ficamos nesse. — Ele se referia à porta de número 711. — Boa noite.
À despeito do amargo comentário de Naomi segundos atrás, ele deu à ela um beijo nos lábios com doçura, o que derreteu boa parte da careta de frustração que ela vinha carregando desde que saímos da nossa prisão. Me admirava a tolerância de Andrew.
Ela e Katherine adentraram no quarto delas, e acompanhei Lorcan e Andrew ao nosso. Era singelo, com três camas de solteiro separadas por criados-mudos e uma cômoda, onde descansavam duas mochilas. Havia também uma porta para um banheiro e outra, de vidro, que dava à uma pequena sacada.
Sentei-me num dos colchões como se fosse algo fora da lei — eu realmente não estava à vontade em meio àqueles estranhos, mesmo que eles tivessem me salvado, de certa forma —, e ele fez um barulho de molas. No entanto, era macio. Ou era eu quem estava cansado do chão duro daquela sala que ficara para trás.
Sem pudor algum, Andrew tirou o jaleco e a camisa que vestia por baixo. Ele podia ser bastante esguio, mas parecia malhar bastante. Nada me admirava, ele tinha cara de quem era um lutador. Em seguida, ele se jogou na cama ao lado da minha e disse:
— Se esfriar mais, fechem a porta da sacada. Não estou com a mínima vontade de acordar com o frio. — E dito isso, enfiou-se dentro das cobertas. — Bons sonhos. — Não demorou muito até que ele caísse no sono.
Após pedir minha permissão, Lorcan apagou as luzes. A escuridão me fez tomar consciência do frio e escondi-me sob o cobertor. Ele, em contraste, não se deitou. Pegou um notebook de dentro de uma das mochilas e pôs-se a usá-lo sentado na cama. O barulho das teclas era quase inaudível e a luz digital iluminava os cabelos, fazendo parecer que o prateado do topete parecesse azul.
A melodia do tec-tec do teclado baixinho conduziu os meus olhos a fecharem gradativamente, pesados. E, quando fui me dar conta, já estava dormindo.
Acordei num pulo. Não por um barulho externo ou por uma corrente de ar frio, mas por causa de um pesadelo. Eu, particularmente, tinha-os frequentemente, mas era característico de Meios-termos ter sonhos ruins. Uma vez que você tem consciência do que está lá fora, à espreita, é comum que a sua mente continue o trabalho de te assombrar. Mas, divergentemente, os meus pesadelos costumavam envolver meu afogamento, imolação ou qualquer outra coisa que envolvesse minha morte dramática.
Estava bem mais escuro do que quando eu adormeci, e demorei um pouco para acostumar os meus olhos à escuridão. Era irônico o fato de eu ter acordado um dia atrás tentando acostumar a minha visão à luz e depois, naquele momento, ao escuro.
O fato das cortinas da porta de vidro estarem fechadas não me ajudou muito, mas finalmente consegui enxergar algo. Olhei para as camas ao meu lado, mas só Andrew dormia. A cama de Lorcan estava desocupada e arrumada, como se ele nem tivesse passado lá.
Perguntei-me que horas eram. Infelizmente, meus olhos não encontraram nenhum relógio à vista. Sentei-me na cama e senti uma tontura temporária, mas consegui colocar os pés no chão sem desequilibrar. Procurei por algum celular no criado mudo para ver as horas, mas não achei nenhum.
Ainda um pouco sonolento, caminhei até a porta da sacada e puxei as cortinas. Estava nevando; e provavelmente há um bom tempo, já que era perceptível que as ruas estavam meio brancas. E, se eu notasse à minha direita, Lorcan estava apoiado na meia parede que impedia um ser humano de despencar sete andares. Ele vestia uma roupa bem mais pesada do que a anterior, e bem mais chamativa também.
Abri a porta, chamando a atenção dele. Temi incomodá-lo, mas ele deu um sorrisinho ao me ver. Pude notar que, entre os dedos da mão direita, ele segurava um cigarro aceso, a fumaça ainda escapando.
— Você não dormiu muito, carinha — ele disse e verificou novamente o relógio de pulso, dessa vez sem ligar o holograma. — Ainda é meia-noite.
— Só…? — Eu imaginava que tinha dormido horas e horas. — Eu meio que perdi o sono.
Ele deu uma risadinha e levou o cigarro à boca, deu uma tragada e soltou a fumaça. Eu estava em um estado, digamos, pasmo, porque quando eu vi Lorcan pela primeira vez, não me parecia ser alguém que fumava.
— Também não estou com muito sono. Passei a madrugada de ontem em claro, e acordei bem tarde hoje. Então… Acho que estamos no mesmo barco. — E novamente, ele levou o cigarro à boca. Aquilo me estressava de uma maneira que eu não conseguia explicar.
Ficamos calados por alguns segundos apenas com o barulho do vento e de pouquíssimos carros atravessando a rua enchendo os nossos ouvidos. Ele estava calmo, mais calmo impossível, mas eu estava inquieto, e ficava mais ainda a cada tragada. Finalmente, ele quebrou o silêncio:
— É! Uma volta. Conheço um lugar incrível, mas temos que chegar lá na hora certa. — E, novamente, Lorcan verificou o relógio. — Temos pouco mais de trinta minutos. Quer ir?
Dei de ombros e, logo em seguida, agitei a cabeça em consentimento. Ele deu o maior dos sorrisos e apagou o cigarro, para o meu alívio. Eu já ia entrar quando ele surpreendeu-me passando o braço sobre meu ombro.
— Vai ser fantástico! Você vai ver!
— Mas eu já estive aqui. — Foi a primeira coisa que eu disse quando o táxi nos deixou no destino fantástico que Lorcan me prometera. — Hoje mais cedo. Nós paramos aqui quando despistamos os caras daquele lugar.
— E você sabe exatamente que lugar é esse?
— Uma praça deserta? — tentei. Não havia mais uma criança sequer nos brinquedos, e a branquidão proporcionada pela neve fazia com que o parque parecesse bem maior. As ruas também estavam desertas, sem tráfego nem pessoas nas calçadas. Como se a cidade estivesse morta.
— A Praça da Plenitude, Hugo — Lorcan disse, como se fosse óbvio. No entanto, ele não estava me repreendendo. Parecia estar se divertindo. — Já ouviu falar? É um refúgio. Um dos únicos que temos nesse país tão enorme. Eles não podem nos rastrear nem entrar aqui.
“Por isso eles pararam de nos perseguir quando alcançamos esse lugar. Andrew e Katherine sabiam disso.” De uma hora para outra, o local pareceu um milhão de vezes mais belo. Um lugar à salvo de demônios. O simples ato de pensar nisso proporcionava uma sensação semelhante à de ganhar numa loteria. Estonteante.
— Venha! — Lorcan chamou após verificar o relógio e me puxou pelo pulso. Abafei um gemido. — Está quase na hora, vamos!
— Na hora de quê? — questionei enquanto ele me arrastava até as árvores. De longe, imaginei ter visto o outro lado da rua pelos vãos dos troncos, mas no primeiro passo que dei no parque infantil, o pequeno conjunto de árvores pareceu muito maior do que aparentava ser antes, e eu já não conseguia mais enxergar a avenida do outro lado.
— Só veja. — Ele parou de me puxar ao alcançar um ponto do bosque, uma clareira onde haviam algumas poucas flores brancas espalhadas no chão, talvez oito ou nove, nascendo nos troncos e nas raízes, como belas moças vestidas em vestidos de casamento.
Ficamos calados por alguns segundos, e Lorcan estava sempre a verificar o seu relógio. Até que, enfim, ele disse: — Agora.
Quase no mesmo segundo que ele pronunciou aquela palavra, as flores alvas começaram a desabrochar com graça e delicadeza, como se estivessem em câmera lenta. De dentro delas emanavam luzes ainda mais claras que as pétalas, que iluminaram a clareira com o brilho incandescente. Das luzes, desprenderam-se pedaços do tamanho da palma da minha mão e dançaram pelo ar sem um rumo aparente.
Lorcan me deu um leve soco no braço com um sorriso, certamente percebendo que meus lábios abriam-se formando um pequeno círculo e que meus olhos procuravam acompanhar a valsa das faíscas. Senti os cantos de minha boca curvarem-se para cima sem nem ao menos pedir minha permissão.
— Não é? — disse Lorcan, os olhos brilhando como os de uma criança na noite de Natal. — Vamos! Deixe que um deles pouse na sua mão!
Obedeci e estendi a mão para as luzes cintilantes. Uma delas planou graciosamente até alcançar a palma da minha mão e ali pousou. Assim que tocou minha pele, sua luz se apagou gradativamente, revelando uma pequena menina nua com asas plumadas e cabelos longos, toda branca. Era menor que a minha mão, e se ela não se mexesse, juraria que era uma bonequinha.
Lorcan olhou para mim com divertimento. Duas das pequenas criaturinhas esbranquiçadas estavam sentadas em cada lado dos seus ombros, e outra brincava com os dedos dele. Além delas, outros quatro, que tinham corpos masculinos e cabelos curtos, voavam ao redor dele e brincavam com as dobras da roupa dele.
— O que são? — perguntei, acariciando levemente as asas da garotinha em minha mão. As feições ela eram perfeitas, como se fosse fabricada.
— Aprendizes de anjo. Sabe, como na lenda — ele disse, o que não me explicou muita coisa.
— Não conhece? — Pude até sentir a incredulidade na voz dele. — Que peculiar. Acho que toda criança Meio-termo já ouviu essa história na vida.
— Eu não. — Afinal, meu pai não era bem o tipo que lia historinhas para os filhos antes de dormir.
— Bem, então eu te conto. Havia esses irmãos que idolatravam os anjos. Eram oito, para ser mais exato. Quatro garotos e quatro garotas. Eles achavam os anjos lindos, e queriam ser como eles. Um demônio soube disso e os enganou, dizendo que, se eles se sacrificassem, se tornariam anjos. Eles acreditaram, no alto de sua credulidade, mas morreram em vão. Os anjos, porém, tiveram pena dos irmãos e transformaram-nos nessas flores, que todos os dias na hora da morte deles desabrocham e liberam suas almas em forma dessas criaturinhas para que possam tentar subir ao céu.
— Que história mais triste! — exclamei indignado. — Como se transformá-los em flores fosse cobrir o fato de que eles foram guiados ao suicídio.
Lorcan deu uma gargalhada amena, fazendo meu rosto inteiro ruborizar.
— Diz a lenda que quando as flores morrem, além de nascer uma nova no lugar, os aprendizes se libertam e sobem ao céu, definitivamente. Mas, bem, ninguém nunca viu nenhuma dessas flores morrer. — Ele entregou-me a aprendiz que estava em sua mão, mas ela escapou da minha e voou até o alto da minha cabeça e sentou-se num dos meus vários cachos castanhos. — Mas é só uma lenda.
— Ah — respondi. — Lenda ou não, são lindos.
— É. É só vivem aqui, nesse viveiro natural. Não estão nem catalogados em livros. Eles são muito especiais! — Lorcan sorriu ternamente às flores. — Venho aqui desde pequeno. Conheço-os, e eles me conhecem.
— Eles falam? — perguntei curioso.
— Sussurram, mas só quando lhes dá vontade. Mas são bons com gestos… — Um aprendiz puxou o cabelo dele. — E são bem brincalhões.
Assim que comentei isso, o mesmo aprendiz voou em minha direção, as asinhas batendo furiosamente, e pousou em meu nariz com os braços na cintura. Seu rosto tinha uma coloração mais avermelhada.
— Irian é irritado por natureza.
— Sei de todos! — Lorcan gabou-se, alegre, e todos os aprendizes voaram até ele, sentando-se em seus ombros, inclusive Irian. — São Irian, Lucian, Killian, Julian, May, Amy, Lucy e Cassy. Não que isso seja relevante — Dito isso, os aprendizes começaram a puxar os cabelos e as roupas de Lorcan, visivelmente afrontados —, mas isso enche o ego deles — ele disse com um pouco de dificuldade, tentando livrar-se dos aprendizes. — Vocês sabem que eu adoro vocês, parem!
Deixei escapar uma risada. As criaturinhas, antes tão dóceis, agora me lembravam um exército de Sininhos furiosas, sussurrando várias coisas que eu não entendia bem por falarem muito baixo. Quando fui me dar conta, Lorcan já tinha apaziguado os nervos dos aprendizes e direcionava a mim o olhar que eu classificaria como terno.
— Finalmente te fiz rir um pouco.
Encarei-o por alguns segundos, perplexo. Não somente pelo que ele tinha dito — mesmo que aquilo tenha me deixado um pouco confuso —, mas pelo olhar afável que ele me lançava, que me lembrava o olhar de uma mãe ao ver um filho dar os primeiros passos.
E, mais uma vez, minhas cordas vocais abandonaram-me sozinho.
Lorcan deu uma risada baixinha, fechando levemente os olhos.
— Ei, não me olhe assim. Eu só queria ter certeza de que, seja qual for o seu estado emocional, eu posso te fazer sorrir um pouco.
Sem pedir permissão, ele puxou meu braço e arrastou-me pra perto. Segurou-o firme, de modo que eu não conseguia puxar de volta. E, aliás, eu não tentei. Estava catatônico. Ele puxou a manga longa da minha camiseta, revelando algumas cicatrizes. Umas curtas, outras longas, mas quase todas se atravessavam. A maioria já desaparecia, mas mesmo assim ainda eram proeminentes. A minoria das feridas ainda tinha a casca.
As minhas pernas mal conseguiam me sustentar de pé, tremendo. Bem no lado esquerdo do meu peito, meu coração assumiu um ritmo que me assustava um pouco, dando a impressão de que iria rasgar tudo à sua frente. Em estado de completo terror tentei puxar a manga de volta. Lorcan, felizmente, permitiu que eu o fizesse. Dei um passo para trás e cerrei meus olhos e dentes.
— Suas mangas são meio frouxas. Deveria usar umas mais justas se quiser esconder isso. Pude vê-las quando cumprimentei você lá no…
— Eu não quero escondê-las — eu disse, antes mesmo dele terminar. — Por que eu iria querer? São só cicatrizes de batalha. Demônios, eles…
— Sei. Não foi o que a sua irmã disse. Nem o que suas pernas me dizem com todos essas bamboleios.
— O que ela te disse? — perguntei, tentando esconder o meu interesse. Ela não podia ter contado. Nada. Não podia.
— Para mim? Nada — Lorcan disse com certo descaso, mas notei algo quebrado em seu olhar. — Mas uma de minhas várias tarefas é hackear o celular dos novatos. Para ter certeza que não são infiltrados ou algo do tipo. — Ele fez uma pausa repentina, policiando-se. — Mas eu nem devia te contar isso. De toda forma, ouvi uma conversa dela com o seu pai.
— Você não tinha o direito.
— Sinto muito. — Ele me lançou que eu não consegui decifrar muito bem o que significava. Pena? — De verdade, eu sinto muito. Por ter ouvido a conversa e… Bem, por essas marcas aí.
— Não precisa sentir peninha de mim. Nem eu mesmo sinto.
Lorcan contraiu os lábios, franzindo levemente as sobrancelhas. Os olhos, agora estreitos, vagueavam pelo meu rosto como se quisesse ler cada pedacinho do meu semblante que, naquele momento, não devia ser um dos melhores.
Ele me agonizava profundamente. Por que diabos ele estava fazendo tudo aqui? Me levar para um viveiro de criaturinhas mágicas somente para arrancar-me um sorriso? Bem, se fosse isso, seu plano não estava indo às mil maravilhas. Tudo que eu queria era sair correndo dali e não olhar para trás.
— Você é sempre assim? — ele perguntou.
— Desculpe. Não é como se eu pudesse controlar a minha própria amargura.
E, ao contrário do que imaginei que ele faria, ele deu um sorriso. Não um grande sorriso, como os que ele vivia dando desde que nos conhecemos até então, mas um sorriso pequeno, morno e sincero.
Qual era a droga do problema dele?
— Não tem problema — ele disse. — Mas me prometa que nunca mais vai fazer isso. Ouviu? Nunca.
“E quem é você para me pedir uma coisa dessas? Eu mal te conheço”, pensei em dizer, mas mesmo para os parâmetros daquela situação, me soou demasiado rude. Em vez disso, não pronunciei uma única palavra.
— Eu sei o que você está pensando. Francamente, você parece ser feito de vidro! É tão transparente sobre tudo! Eu sei que você acha que eu estou sendo intrometido e indelicado. Eu também acho. Mas… Só diga que não vai mais fazer isso.
— Por que você quer que eu te prometa isso?
— Porque você me parecer ser um cara legal, Hugo. E caras legais não precisam de cicatrizes, a não ser que outra pessoa o tenha as dado.
“Mas, tecnicamente, foram as outras pessoas quem me deram as minhas marcas”. Não era como se eu pudesse prometer aquilo para ele. Porque, sinceramente, mal tinha controle do que eu fazia com uma lâmina na mão e pílulas na outra.
Mas Lorcan era a primeira pessoa que me dizia algo daquela natureza fora minha mãe e meu irmão.
E nem nunca saberia se eu deixaria ou não de fazer aquilo.
— Tudo bem. Prometo — murmurei, quase num sussurro. E, pelo brilho nos olhos e o sorriso meigo do garoto à minha frente, deduzi que ele não percebeu que se tratava de uma grande, deslavada mentira.