Ele encostando os dedos frios no meu rosto, encostou também a voz rouca e mansa próximo ao meu ouvindo e o tom chegando, quase lá no coração. Eu disse quase. Só não escancarou a porta, porque trato de mantê-lo bem trancado. E ele reparou. Parecia entender, meio que desentendido, os meus motivos, mas mesmo assim não desistiu. Sorriu pra mim, dizendo assim e dizendo isso, parecia cantarolar com sua voz melodiosa: "Você é bonita, sabia? Só não reparou isso ainda”. Detesto elogios. Eles me derretem mesmo com o frio que estava fazendo. Meus pés suavam dentro dos sapatos, mas suavam frio. Eu, que me desvencilhava fácil, tentei não demonstrar que não sabia o que fazer. Manti a postura e pra não ter que me fazer de tímida, banquei a convencida: “Eu sei” — e ria — “Eu tenho uma pele bem cuidada, deve ser isso”. E antes que respirasse pra tentar inventar uma outra forma de parecer segura, camuflando a minha total falta de segurança, ele interrompeu meus pensamentos e soltou: “Eu não perderia meus olhos em você só pela sua pele.. Quer dizer, ela faz parte de um conjunto e fisicamente, não sei dizer o que mais em você me chama a atenção. Seus olhos também, nunca vi nenhum que brilhasse tanto, seu cabelo é peculiarmente parte desse conjunto e… bem.. eu nem queria dar tanto na cara que tava reparando nisso também.. tava mais concentrado na sua forma de me olhar, no seu jeitinho de falar, na forma única que você tem pra disfarçar as coisas..” — e ele me olhando com o canto dos olhos enquanto juntos, observávamos a paisagem logo a frente. Juntos, mas separados. Talvez por alguns centímetros, mas ainda assim, sem estar cara a cara.. somente lado a lado. E quase como num susto, me defendi sem pestanejar “Eu não estou disfarçando nada.. não que eu saiba” — “Aaah, você sabe sim! Tanto sabe que está aí, se segurando pra não chegar mais perto, porque sabe que se chegar, não vou deixar você mentir”. Eu queimava de raiva. Nunca ninguém havia tido aquela capacidade que ele estava tendo de me desafiar tanto com a calma que ele tinha. Me senti invadida, assumo. Além do desafio, ele estava me desvendando, como se alguém tivesse deixado na mão dele, algum tipo de instrução sobre como me deixar sem ter o que falar. E eu detesto quando as palavras me somem. “Não sei do que você tá falando”. E saí dali. Subi uns três degraus, até que finalmente, me sentisse perseguida. Era ele! Bem atrás de mim, ele ria, debochado. “Você é programada pra fazer isso? Por que será que eu já sabia que ia reagir assim?” — Virei pra ele, agora sim, cara a cara do jeito que eu temia — “Não sei como você sabe. Inclusive, você não sabe mesmo. Nunca soube nada sobre mim. A gente se conhece a tempos, mas nunca sequer te disse nada. Não tem como você saber de nad…” — “Nada? Tem certeza? Eu sei, por exemplo, que você já não foi correspondida. E sei que por isso, deixou de ter coragem de mostrar quem você é. Eu sei que você é tímida e que se esconde atrás dessas certezas que você não tem. Eu sei que você tem medo de se machucar e que isso, te impede de tentar. E eu sei que você me acha uma pessoa capaz de te fazer parar de pensar e de ser pessimista desse jeito exagerado, que só você sabe ser. Por causa, disso, você foge.. A gente está sempre a dois passos de sermos felizes juntos. Um passo seu e o outro, o meu. O problema é que a gente nunca tinha tido coragem de dar esse único passo que falta. Mas estou dando o meu agora… Estou aqui, na sua frente, cara a cara, do jeito que você tinha medo que eu estivesse pra não ter que assumir que quer o mesmo que eu. Estou aqui, com meu passo dado, só esperando você dar o seu. Sem precisar decidir nada agora. Se quiser, a gente guarda o Sim pra depois. Só preciso do seu passo. Desse passo adiante que vai levar a gente adiante também… Vai me fazer ser feliz. E você? Você vem?” Eu o odiei ainda mais. Odiava, porque em nenhuma outra oportunidade da minha vida, ninguém nunca teve essa audácia que ele estava tendo. Ninguém nunca, num lugar como aquele ou em lugar algum, teria sido capaz de me colocar a prova daquele jeito, expondo tudo aquilo que eu sentia, como se pudesse me desmanchar inteira. Eu estava ali, de pé… Mas era como se tivesse estatelada no chão, olhando pra ele. Olhando e sabendo que ele sabia, que mesmo que eu não dissesse o meu Sim, ele era dele. E que quando fosse finalmente dito, ele não teria tanta importância como teria aquele passo que eu estava quase dando. Quase. Por um momento, pensei em desistir. Um flashback envolveu a minha cabeça em segundos e eu me via, sempre e sempre perdida. Até me lembrar do momento em que o reencontrei. O mais interessante é que a nossa história, a Grande História de Nós Dois, não era feito de acasos. Eu não o havia encontrado numa tarde qualquer. Nem num dia qualquer. Não o amei a primeira vista, como muitos amam. A nossa história fala de amores e desamores. Fala de idas e vindas. De duas pessoas que se viram tanto na vida, até se enxergarem enfim, de verdade. Eu não o encontrei no meio da multidão, eu o reencontrei. E tê-lo reencontrado, me fazia sentir a calmaria de ver os problemas se dissiparem com o tempo enquanto ele sorria pra mim, sem propósito nenhum, de me ver louca por ele. E nem eu fazia isso. Caímos no amor, como quem caiu no sono. A gente não se deu conta, nem se deu cálculos pra pensar em quantas vezes gastamos até sentir tudo aquilo. Ao invés disso, a gente preferia calcular coisas malucas.. qualquer coisa que não soasse sério demais a ponto de nos distrair de um sentimento que não precisava ser sério. Só precisava ser real, e era. E foi. E estava sendo, bem no momento de dar mais aquele passo. E eu dei. Escolhi o pé esquerdo para dá-lo porque sei o quanto ele odeia superstições. E ele reparou e riu. Mas antes que pudesse sentir o beijo de recompensa que veio depois dos braços me envolvendo, pensei em todos os motivos que tinha pra estar ali, dando aquele passo. Eram milhares, milhões.. tantos, que facilmente caberão numa nova descrição, num novo texto, num novo relato que quero e vou fazer. Não me sinto e nem ele se sente seguro o bastante para sermos um tipo de inspiração para outros amantes, mas me sinto na obrigação de replicar o que aprendi com tantas marcas e manchas, que só um sentimento tão clichê, tão único e tão comentado como o amor, poderia me deixar. E o que aprendi, dá ênfase a nossa total voracidade e nosso interminável almejo por coisas intensas e profundas. A gente não vai somente com a sede ao pote. O pote é muito pouco pra gente. A gente quer se esbaldar. Quer mais e mais. E mais. Quer se afogar e se possível, quer passar a vida sem fôlego. A questão é que querendo ou não, a gente precisa dele. A gente precisa de ar. O ser humano é tão intenso que precisa recorrer ao drástico. A gente se encanta pelo que nos balança porque as balanças nos levam ao céu. E todo mundo adora essa sensação de estar nas nuvens, pular de uma pra outra, de sentir os mais diferentes sabores que cada uma delas pode ter. Aí nos esquecemos que as nuvens são feitas de algodão e que são tão leves, que não conseguem suportar o peso das nossas realidades tão duras. Num tropeço, caímos das nuvens. Num tranco, as balanças nos derrubam ao chão. E se levantamos de novo, é por obra dos apoios. Apoio, que ajuda e auxilia, assim.. bem do jeitinho que o dicionário nos sugere. O único problema, ou quem sabe, solução, que os apoios apresentam, é que eles não resolvem tudo. Nada é assim, nessa vida. Você, assim como eu, sempre vai ter que tomar ao menos, metade das rédeas de tudo o que for vir a acontecer na sua vida. Os apoios fazem a parte deles, mas o resto é contigo! Você só precisa se permitir. Permitir que que as suas preocupações se juntem às preocupações de uma outra pessoa e que elas, se tornem uma oportunidade. E dessa oportunidade, surgem as proximidades.. que de tão próximas, sem que a gente perceba, chegam ao seu extremo, faltando apenas dois passos pra decidirem o que vai ser adiante. O primeiro passo, é dado por quem tem a audácia de querer que as coisas mudem, mas só quem tem muita coragem pode selar esse pacto dando o último passo que faltar. E adivinha? Esse passo é seu!
A mais linda e longa História de Nós Dois Além do Mais















