Seu orgulho será a sua ruína.
Gandalf.
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Seu orgulho será a sua ruína.
Gandalf.
Prestidigitador - @diane7am 2015 * bordado em algodão cru
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O Mago - Raymond E. Feist
O MAGO
Simbolismo:aparecem os quatro elementos da Natureza, associados a seus correspondentes: uma faquinha (ar/espada); algumas moedas (terra/fogo), um cubo para dados (terra/ouros) e uma varinha (fogo/paus). Algumas das interpretações são possibilidades de êxito nos terrenos físico, intelectual e espiritual. Ponto de partida no caminho da regeneração. Recuperação da saúde. Resolvem-se problemas…
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A Prestidigitador@
I
Era um ser de existência leve. Com suas roupas, todas meio verde musgo, não importa se fosse uma calça amarela ou marrom, jeans ou algodão, ainda era verde musgo. As coisas nele lembravam a terra e toda a sua epiderme. Tinha uma feição amigável. Como a de um Avô ou a de um velho amigo. E a garganta raspava quando se dirigia a você. E então quem ouvia se arrepiava. Aquele arrepio bom de quando você conversa com um senhor de idade muito simpático, ou de quando você fala com uma garota muito meiga. Em suas veias não corria sangue, diziam os que o viram alguma vez. Corriam nuvens de gafanhoto. Patos migrando alinhados. E suas veias eram saltadas como quem outrora fora muito forte. Por muito tempo Frisco permaneceu por aqui, Frisco era seu nome, e o de suas botas pretas e de sua camisa branca. Tudo nele era Frisco, porque tudo nele parecia uma coisa só. Não embutido ou encaixado, e não por usar sempre as mesma roupas, muito pelo contrário, ele tinha até que um vasto guarda roupa, mas sim pelo fato de que tudo parecia fluir por entre ele. Por entre sua pele enrugada e pelo seu rosto já marcado pela idade. Como um rio em lugar de seu tronco e as ramificações como seus membros. Ele desaguava bondade e eu me lembro disso.
Ele se sentava em uma sarjeta com sombra sempre a frente de sua casa. Ninguém nunca o via saindo ou entrando. Ele sempre estava na frente, acendendo seu cigarro esquisito e dando sementes de Girassol para seu papagaio. Este ultimo, imitava personagens de desenhos animados e fazia com que sorrisos se iluminassem nas faces das pessoas. Tal qual mágica. E aquilo me é admirável até hoje. Na época em que eu apenas pentelhava pela rua, e quando cansado, me prostrava a sua frente para ouvir algo engraçado, aquilo tudo era apenas passar o tempo. Mas hoje em dia sei que não. Sei que era bom e sei que também quero me tornar mago um dia. Quero ter o dom. A benção de poder desaparecer com as feições rudes e preocupadas das pessoas, e substitui-las por um sorriso. Por uma expressão de felicidade ou uma gargalhada.
Eu me lembro de permanecer de pé, logo a frente do Mago Frisco, eu devia ter seis ou sete anos de idade, e lhe contar sobre o que havia pedido para o papai noel de natal. Eu me recordo de correr descalço pela calçada da minha rua na manhã de Páscoa, de encontro ao velho Frisco. Numa mão um ovo de chocolate enorme e na outra um pequenino, como aqueles em que se ganha de brinde em postos de gasolina ou supermercados. Ambos envoltos em coloridas embalagens e com laços grandes e bem amarrados. Enquanto me aproximava podia avista-lo, repousando ao meio fio, sereno como a Água de uma lagoa. Ele estava com as botas metidas na Terra que ainda restava da rua sem asfaltar. Ele tragou seu cigarro esquisto e eu o encarei. Os dois ovos na mão e aquele monte de fumaça no Ar. Ele então pigarreou, e Intercalando entre a fala, e tragar o cigarro, indagou: “Ora, ora, aonde vai com esses dois ovos?”. O Fogo diminuto brilhava na ponta do cigarro. Uma brasinha numa ponta, e um trouxinha na outra, é o que ele costumava me dizer. “Bem...” Eu arrastava os calcanhares no chão. “Esse grandão é o meu... E este...” estendi o ovo menor. “Este é pro senhor!”.
Ele riu muito.
E me lembro de que quando cheguei em casa, e reportei o ocorrido aos meus familiares, todos também riram. Essa era a magia de Frisco. Ele disseminava os sorrisos por entre pequenos conjuntos de pessoas. Ele mostrava que a gentileza só gera mais gentileza. E que o bom tratamento contagia, quando usado sem medo. Quando conjurado como magia.
Com seus cabelos brancos e suas sobrancelhas quase lá também, umas duas vezes ao dia, ele saia para caminhar. Apoiava-se numa bengala, e era apenas nessas ocasiões em que o via separado de seu papagaio. Quando saia para comprar cigarro. E nessas ocasiões eu podia perceber que até mesmo seu andar parecia leve.
As vezes, Frisco caminhava com sua mulher. Era uma senhora igualmente adorável, e que deixava claro na face e no olhar, uma vida de paz e amor ao lado de seu companheiro. Ambos se ajudavam. E aos domingos ambos voltavam da feira. De mãos dadas e em seus passos lentos e solidários. Por vezes eu os seguia, acompanhava-os até a residencia ditando meninices e saltitando ao redor do casal. Creio que no final das contas, a paciência não seja só uma virtude, mas também seja magia.
Então chegou o dia em que as coisas começavam a ficar difíceis para o meu entendimento.
Eu estava empolgado por algum motivo. Tinha alguma novidade para contar para Frisco e ver que tipo de magia ele faria com aquilo. Estava frio e eu corri pela calçada vestindo o pijama de moletom cinza. Descalço, com os lábios rachados do tempo e o nariz escorrendo que me perseguem até hoje no inverno. Minha euforia era tanta que só pude notar que Frisco não estava ali, quando cheguei bem em frente a sua casa. Ao invés disso, pude ver sua janela aberta, e um pouco abaixo da mesma, vi Frisco sentado à mesa. Ele lançou os olhos sobre mim, e nesse instante senti algo que até então, como garoto, não havia sentido antes. Era tristeza.
As ambulâncias chegaram um tempo depois. Eu já havia voltado pra casa, mas permaneci em frente ao meu portão encarando a residência de Frisco e entendendo pela primeira vez na vida que um dia tudo acaba.
Não. Não havia sido Frisco quem havia partido. Mas sim sua esposa. Morrera por conta de algumas complicações em alguma operação. Realmente não me lembro dos detalhes, e creio que mais por não querer mesmo me lembrar do que por conta do tempo.
Na época, meus pais não me deixavam ir até a casa de Frisco. Diziam que ele precisava de um tempo pra ele e tudo o mais. Porém sempre que podia eu espiava lá de longe, da esquina, a frente de sua casa, esperando avistar a silhueta curva segurando o cigarro esquisito e com o papagaio no ombro. Coisa que nunca ocorria.
Nunca ocorria até cerca de umas duas ou três semanas depois. Num dos momentos em que fugia da Auto elétrica de meu pai e me espreitava até mais perto da casa de Frisco. Fui surpreendido pelo próprio mago bem no meio do caminho. Sua mão fria e já sem a plasticidade da juventude tocou meu ombro e então me virei.
- Faz um tempo, não é, mocinho? - Ele disse. E enquanto falava pude notar que seu papagaio não estava em seu ombro.
- Onde está o “Lôro”? - Chega a dar medo a forma como as crianças priorizam seus problemas.
Ele permaneceu em silencio por um período de tempo enquanto caminhava ao meu lado. Dando tapinhas em minhas costas e automaticamente seguindo comigo até sua casa.
- Eu o deixei com um amigo... Por um tempo...
Eu não havia percebido, mas aquilo era uma despedida. E só agora eu entendo como os mais experientes invejam a inocência dos mais novos. Não pela falta que lhes fazem, mas sim pelo alivio que os trazem.
Ao fim dessa tarde tive de sair com meus pais. Me despedi dele em frente a sua casa enquanto ele assoprava mais um pouco de fumaça de seu cigarro esquisito. Ele havia me perguntado coisas como, o que seria quando crescer, o que gostaria de estudar, comida predileta e etc. Coisas essas que já havíamos conversado em outras ocasiões. A ingenuidade das crianças é admirável mesmo. Misericordiosa.
Este foi o ultimo dia em que vi Frisco. No dia seguinte as ambulâncias estavam na frente de sua casa novamente, foi o que disseram. Até hoje não sei muito bem o que aconteceu. Acho que mais por não querer saber mesmo. Foi tudo realmente uma droga. E quando olho pra trás percebo que todos os elementos dessa história apagam-se da minha mente, exceto Frisco. Exceto ele, o velho com seu papagaio e seu cigarro esquisito.
Sabe. Eu realmente sempre escrevo sobre ser esquecido. Sobre meu anseio de ser lembrado e tudo mais. Mas isso tudo nunca foi e nunca será a toa. Ser esquecido me assombra. E Frisco nunca me ensinou como fazer aquela magia dele. A de espalhar sorrisos por aí, bem, eu pratico. A da gentileza, trabalho nisso sempre que posso. Mas por mais que eu tente, eu não consigo me esquecer de Frisco. E essa é a magica que ele se esqueceu de me ensinar.
Eu adoraria ser o mago eternamente vivo nos pensamentos de quem me é querido. Eu sei à quanto tempo penso nisso. E sei o quanto isso me consome. Eu morreria em pé, aqui e agora, novo e na flor da idade. Ao invés de velho e de joelhos, se isso significasse ser lembrado. Se houver longa vida, que não seja para ser esquecido. Que seja longa e duradoura, mas que no fim se dissipe, ficando apenas na memória de quem amei. Como o delicado véu de fumaça branca dos cigarros esquisitos do velho Frisco.