Que é a providência da terra.
Nasce humilde, e, pequenino,
É um fio d’água, tão fino,
Entre as pedras se insinua,
Ganha corpo, abre caminho,
Agora o sol, que o prateia,
Todo se entrega, a sorrir;
Avança, as rochas ladeia,
Recebe outras águas, desce
As encostas de uma em uma,
Engrossa as vagas, e cresce,
Galga os penedos, e espuma.
Agora, indômito e ousado,
Transpõe furnas e grotões,
Vence abismos, despenhado
De força; de vaga em vaga,
Chega ao vale, larga o seio,
Cava a terra, o campo alaga...
Expande-se, abre-se, ingente,
Por cem léguas, a cantar,
Mas na triunfal majestade
Quanto amor, quanta bondade
Quantas dádivas e quantas
Matava a sede das plantas
E a sede dos passarinhos...
Fonte de força e fartura,
Foi bem, foi saúde e pão:
Dava às cidades frescura,
Nas suas águas se encerra;
Que é providência da terra:
Bendito aquele que é forte,
E, em vez de servir a morte,
Ama a Vida, e serve o Amor!