É o orixá da pisada firme na terra e barulho nenhum. Seus pés conhecem cada trajeto dolorido, cada ferida aberta daqueles que o mundo insiste em ignorar.
Nem todos podem parar e se curar em repouso. Há feridos que precisam seguir, porque deles o entorno não se compadece.
Obaluaê/Omulu é tão próximo às chagas que não glorifica o sofrimento, não o transforma em virtude, nem cobra força inabalável. Ele sabe que a cura nem sempre é imediata, que algumas dores se desfazem lentamente, no ritmo das particularidades, não no acelerar dos compromissos mundanos.
Um deus que inspira o mergulho em nossas próprias palhas. Compreender-se, identificar problemas internos, até os mais submersos, escondidos nas frestas. Procure-os sem afobação. Melhore o que puder ser melhorado. E o que não puder de imediato, atrase, conscientize-se de que está lá, não o esqueça e macere bem o bálsamo a ser aplicado. Inclusive, aceite as sequelas permanentes. Há danos irreversíveis. Evite apenas que causem outros estragos.
Cada dor da alma, ainda que oculta, quando negada, se alastra ao corpo e ali se enraíza, transformando-se em peso, em febre, em úlcera.
Obaluaê/Omulu vê isso nos olhos dos que chegam a ele, e, sem dizer nada, acolhe no abraço de um silêncio compartilhado. Ele dá o refúgio para se encostar e afundar. O intervalo entre o colapso e a reconstrução.
O orixá de estar lá, nos momentos mais lancinantes, como a terra está conosco sem precisar anunciar-se, nos sustentando diariamente. É o alento para os que precisam caminhar ainda que exaustos e com calos latejando.
O orixá dos saudáveis e dos enfermos estará na quietude, sustentando os passos dos sem direito a estacionar.
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