› SPENCER ESTAVA EXTREMAMENTE ALARMADO. como o gatinho assustado que era, arrumou a pouca bagagem que levaria para yaysht (não pensaria em levar de volta o saxofone ou o violino e a bússola recém-ganhados, pois os apreciava demais para ter o risco de esquecê-los ou de estragá-los) e entrou de cabeça baixa no carro, sentando-se ao lado de adaline de la croix, sua amiga de infância. sua cabeça estava tonta, revirando-se entre os acontecimentos passados, recentes e futuros. do passado, tinha toda a questão não resolvida com os pais (as cicatrizes da mão pareciam pulsar em dor a cada vez que se lembrava daquilo), o principal fato que repercutiria no futuro e que estava o deixando mal por si só (será que os pais ainda carregavam mágoas? será que estavam orgulhosos de si? será que tinham visto a entrevista, e não se abalado pela manchete sensacionalista?). do presente, bem, a dúvida que certas pessoas colocavam em sua cabeça faziam-no querer vomitar. o silêncio aterrador se estabeleceu no carro por tortuosos minutos enquanto o loiro normalmente tão carismático e alegre ficava encarando, paralisado e imerso em seus próprios pensamentos, a paisagem que passava tão rapidamente. apenas foi retirado dos devaneios quando sentiu a mão da amiga pousada sobre a sua, lhe chamando a atenção. ela não precisou dizer nada para além de mostrar, em expressões silenciosas, que estava lá por ele. bem, ela poderia não saber o motivo dos queloides na mão do músico, mas ela sabia da extrema rigidez de seus pais. não sabia do caso que estava sustentando, mas sabia, na própria pele, a pressão da seleção. spencer sorriu para ela, gostando do reconforto. deitou a cabeça no ombro da loira, aproveitando o resto da viagem (que nem era tão longa assim) até a casta dois, conversando sobre banalidades dos últimos dias (em francês, a língua materna da dupla) no que foi um dos últimos momentos de paz antes do feriado.
… chegar na casta com o rosto completamente conhecido foi uma experiência estranha, porém divertida. a casta estava em fervorosa com os dois selecionados representantes estarem na elite. os três carros com símbolos reais (o primeiro estando os guardas que acompanharia adaline, o segundo o dos selecionados e o terceiro os guardas que acompanhariam spencer) eram recebidos com palmas, assovios, gritos de desejos de boa sorte. a cena deu mistas sensações no loiro – estava alegre e agradecido pelo reconhecimento, mas triste por estarem torcendo para se tornar rei, e não um músico conhecido; ali, via seu plano desmoronar cada vez mais. talvez ser músico não era o seu destino, não importasse o quanto estivesse tentando fazê-lo. os carros pararam primeiro na casa de adaline, e os dois amigos despediram-se com os casuais dois beijos no rosto – costume de yaysht. por fim, foram em direção à nada modesta residência dos quinzel, a qual, o loiro notou ao se aproximar, tinha na frente estacionado os comuns carros dos familiares que visitava todos os anos. bem, fazia sentido que as festas fossem na casa dele, mesmo, dada a seleção. entrando ao local, mesmo acompanhado dos quatro guardas, fora recebido com beijos, abraços e cumprimentos dos tios, primos e avós que haviam voltado para vê-lo depois de tanto tempo. “desistiu da perfumaria pra algo bem melhor, hein?!” um deles fez piada, ao que spencer sorriu sem humor. era claro que não sabiam do incidente do ano passado, do motivo das marcas. seus pais haviam acobertado tudo dizendo que acabou quebrando a mão em um acidente com vidro cortante no laboratório e teve de ser afastado. como poderiam suspeitar que o garoto queria ser músico antes de lerem a entrevista? “sem personalidade, hein? eu não concordo, olha só pra você, tão carismático!” uma tia puxou as bochechas do ex-químico, indicando que, sim, ao menos haviam lido a reportagem. “esses guardas estão com você porque você fez algo errado, não fez?” a avó lhe deu uma dura, fazendo todos rirem – ah, eles mal faziam ideia. demorou mais do que gostaria para que hector e alicia quinzel aparecessem na sala, impecavelmente bem vestidos e sem um fio de cabelo fora do lugar – tal pais, tal filho. inacreditavelmente, eles o receberam de braços abertos, sorrisos cheios de emoção. beijaram-lhe o rosto, falaram que sentiam saudades. spencer quase chorou ao ser tão bem recebido – o fazia se questionar o porquê teve tanto medo, assim. o jantar do primeiro dia correra normal, bem como a troca de presentes (havia trazido vinhos característicos de islay para os pais, como recomendação de um amigo, ganhara roupas e lembranças dos familiares). ao final, se levantou para procurar pelo tão querido piano de cauda, e tocar “inverno”, de vivaldi, como já era tradição. hector, claramente alarmado, seguiu o filho, tentando impedi-lo de entrar na segunda sala onde normalmente ficavam os instrumentos do mais novo, sem sucesso. o vazio onde antes ficava o piano repercutiu no próprio peito. olhou abismado para o pai, pedindo explicações. o progenitor suspirou, incomodado. – tivemos de vendê-lo. –, anunciou, a voz pesarosa, fazendo o mundo de spencer desabar. ele tinha aquele piano há mais de uma década. – você é um selecionado agora, filho. precisa ter outras prioridades. – naquele instante, agradeceu por não ter trazido consigo os instrumentos. não queria saber o que seu pai faria com um stradivarius legítimo.
… o almoço do dia seguinte correu igualmente normal, apesar de spencer já estar mais desanimado pela notícia do piano vendido. não deveria ser um músico, era um selecionado da elite, era quase um rei. aquilo lhe incomodava tremendamente. em dado momento da tarde, em que a avó já estava dormindo e os parentes estavam menos agitados, alicia resolveu que faria um doce para saborearem a noite – apesar de apoiar as ideias do marido e estar muitíssimo satisfeita que spencer estava se relacionando com a princesa, e não mais com um rapaz (há!), ela ainda era mais amável e tentava fazer o filho se sentir melhor, tentar enxergar o lado deles. pediu apenas para que quinn fosse até os vizinhos pedir um pouco de vinho branco, pois o seu estava no final, e, bem, não tinham lojas abertas àquele horário do feriado. tudo bem, então. avisou aos guardas que iria para a casa ao lado por menos de cinco minutos e estaria voltando. dois guardas ficaram na porta de madeira, acompanhando-o com os olhos e a postos caso acontecesse alguma coisa. que exagero, ele pensou, enquanto tocava a campainha de um de seus colegas de infância. ah, aquela janela fora pulado tantas vezes para assistirem filmes juntos que apenas a visão já era nostálgica. ao ver o rosto do garoto (bem mais crescido) saindo da porta, spencer acenou, animado, sendo recebido por uma carranca não comum. – o que você quer? – a pergunta grosseira o fez se retrair, assustado. pediu pelo vinho branco, ao qual o rapaz revirou os olhos e voltou para pegar o que havia pedido. o loiro não entrou, não fora convidado. ele voltou não muito tempo depois, entregando a garrafa. ele já ia fechar a porta na cara do selecionado quando spencer a parou com a ponta do pé.
❛ Doug. O que houve?
Depois a gente pode– ❜ ›› a porta aberta de súbito e a mão no colarinho da blusa, o puxando para perto, fez com que o coração do loiro batesse forte em adrenalina. – cala a boca, seu viadinho. some daqui. – a palavra cuspida em ódio fez spencer se engagar, em completa confusão. doug sabia sobre seu namorado (doug e seu ex eram primos – provavelmente ele deveria estar em algum lugar dentro da casa agora) e todos os outros amantes que teve em yaysht – oras, eram amigos próximos demais, era claro que eventualmente saberia de tudo –, mas jamais lhe dirigiu a palavra daquela forma, com aquele tom. porém, os olhos cheios de raiva também lhe transmitiam também outro tom: amargor, inveja. demorou a lembrar, pelo choque: doug havia feito inscrição para selecionado, ele anunciara aos amigos com muito orgulho e certeza de que seria convocado. lembrou-se de ter falado que aquilo era besteira, já amargurado pela mão quebrada e, na época, pelo recém término do namoro. no final, spencer fora chamado, e ele não. spencer, que sequer havia se inscrito por vontade própria, em primeiro lugar. poderia ter desistido da posição, ter deixado outras pessoas terem outra oportunidade. mas não, ele havia se aproveitado da vaga para anunciar seu desejo como músico. sequer teve tempo para se despedir dos amigos. ele tinha noção da instabilidade emocional do amigo, que ele sofria de tantos problemas familiares quanto ele próprio – a seleção seria algo ótimo para doug, algo que faria os pais se orgulharem dele. spencer sabia de tudo, e sequer falara com ele antes de ir. engoliu em seco, a vergonha o contaminando junto ao medo.
❛ Doug—- ❜ ›› a curta distância fez os socos serem certeiros. primeiro, um no olho, com os nós dos dedos acertando em cheio o supercílio e o fazendo sangrar, enquanto as juntas dos dedos acertavam o globo ocular em si. mal teve tempo para poder reagir, tentar se soltar, o segundo soco fora direto no maxilar, o terceiro na lateral da garganta. era claro que o rapaz estava atacando-lhe na base da emoção, cego pela fúria. os guardas rapidamente adiantaram-se para a casa, e, ao vê-los, o garoto empurrou o loiro para fora, trancando a porta em seguida. os guardas se juntaram ao redor de spencer, impedindo que caísse, por mais que sua cabeça girasse. pediu para que os guardas não fossem atrás do garoto – ele já tinha problemas demais. voltou para casa, entregando o vinho à mãe, que se desesperou ao ver o machucado no rosto do filho. spencer a ignorou, nervoso, chateado. não poderia deixar de culpá-la um pouco; ela quem fizera sua inscrição sem consultá-lo. limpou o próprio ferimento como havia aprendido com os primeiros-socorros (não gostava de admitir que algumas aulas de química e biologia realmente lhe seriam úteis para o resto da vida), e pegou um uísque caro para poder tomar sozinho, no quintal dos fundos, recebendo, surpreendentemente, privacidade da família (mas não dos guardas, que estavam o acompanhando bem mais de perto agora). percebeu que a bebida queimava a garganta mais do que o normal – ah, era claro que havia sido danificada, o sangue cuspido fora a comprovação disso. merda. tudo estava indo por água a baixo. tomou ainda outro gole da bebida forte, pouco se importando com a dor, até ver uma figura conhecida até demais atravessando a rua, chegando perto dele aos poucos. o sorriso afável e reconhecido mesmo com a visão turva pela dor dos machucados somada à leve embriaguez o fez estalar a língua no céu da boca. o ex-namorado era a última pessoa que queria ver agora, naquela situação tão patética, depois de um ano.
❛ … Você. ❜ ›› a voz arrastada e amarga de spencer escapou mais grave do que o normal. cuspiu sangue na calçada conforme o outro rapaz se aproximava e se apoiava na cerca ao seu lado, sem se assustar. ele puxou a mão esquerda de spencer para si, contorcendo os lábios em empatia – ele não sabia do incidente, também, mas seria coincidência demais aquilo ter acontecido depois que se separaram. quinn tirou a mão da dele com rispidez, movimento ao qual o garoto não fez qualquer ato para impedir. – eu soube do que aconteceu. – apontou para o próprio rosto, no lugar onde o corte e o inchaço se faziam visíveis. bem, ele deveria mesmo estar na casa quando aconteceu; se perguntou se sua antiga professora de música também o acompanhava, mas não queria ver a mulher nunca mais. – spence. – o apelido o fez congelar, virar a cabeça para o rapaz imediatamente. ele soava tão diferente na boca de outras pessoas. – doug é um babaca. mau perdedor. você não tem culpa de ter ido pra seleção e ter aproveitado a oportunidade. – spencer ergueu uma sobrancelha, ao que o outro menino riu. – sua entrevista. tá é doido? no instante em que eu vi “só quer anunciar sua música” eu já sabia o que você ia querer fazer lá. – os dois riram, em uníssono, e só então o ex-químico notou o quanto a companhia do garoto lhe fez falta. ele havia sumido sem dar notícias, fazendo spencer passar por coisas horríveis até a seleção; mas ele também deveria ter tido sua própria dose de horrores com a mãe. conversaram por alguns instantes, dividindo o uísque. no entanto, bastou spencer tossir um pouco mais de sangue para a preocupação voltar. – spence, volta pra casa. seus pais já devem tar preocupados contigo. – o loiro tornou o olhar de volta para a porta, onde os guardas estavam parados, alertas à qualquer movimentação brusca que o garoto desconhecido pudesse fazer. tornou o olhar de volta para o ex, sentindo o sorriso nostálgico se formar nos lábios. antes de ter sido seu amante, ele fora um bom amigo, também. se despediram, por fim, e quando spencer se virou para casa, sentiu a manga da blusa sendo puxada pelo rapaz. – me promete. – semicerrou os olhos para ele. parecia que estava desatando um nó na garganta ao falar. – me promete… que se você não virar músico, vai ser o rei mais talentoso do mundo. – como sempre, lá estava ele, apoiando firmemente sua decisão de carreira, diferente de todos até então. spencer abriu um sorriso incrédulo, negando com a cabeça. desvencilhou-se do toque do garoto, bagunçando os cabelos alheios como fazia antigamente.
❛ Isso eu posso prometer. ❜ ›› e depois deu as costas ao rapaz, finalmente tendo uma despedida digna. no último ano, acumulou dúvidas sobre seu bem estar, e agora finalmente poderia descansar em paz, ou pensar nele sem ter toda a amargura de jamais terem dado um adeus próprio. “o rei mais talentoso do mundo”; aquele não era um título ruim, nem um pouco. por mais que a musculatura do rosto doesse, não conseguia deixar de sorrir igual a um idiota. o bom humor havia retornado, finalmente, e nada que seus pais o falassem agora poderia lhe abalar. enquanto a mãe servia a sobremesa que finalmente ficara pronta (percebeu que ficou muito tempo conversando com o outro rapaz), resolveu olhar para o celular. surpreendeu-se com as mensagens que recebera do mccarthy mais novo. como se aquele dia não podia ficar ainda mais esquisito.
spencer: haha
spencer: sua tia é incrível
spencer: e se sua mãe quiser eu levo um perfume pra ela, só falar
spencer: sobre o violino, ele esta bem, fica tranquilo
spencer: só não sei se posso prometer voltar inteiro
a doce voz de Sienna McCarthy o cumprimentou em completo deslumbramento ao abrir a enorme e maciça porta de madeira escura da residência dos McCarthy, adornada de detalhes em ouro e cobre. e muito ao contrário do que os outros fariam, ela não se intimidou pelos quatro guardas que escoltavam o selecionado, apressando-se em tocá-lo no rosto, beijá-lo nas duas bochechas, na testa, afastar o cabelo dourado que caía sobre os olhos, e continuar com os atos de carinho até que lhe fosse conveniente.
‘oh, Thomas, como senti a sua falta. os dias aqui não são os mesmos sem você. não são nem um pouco divertidos.’
o olhar que antes se derretia de felicidade em ver o único filho agora escurecia em preocupação, imaginando em qual situação ele tinha se metido daquela vez por estar tão seguramente acompanhado. ela o conhecia muito bem, bem demais para saber que ele parecia estar em confusão-- e ah, ela sabia o quão ruim ele era com brigas. tomou o rosto do filho entre as mãos, trazendo-o para dentro de casa até o foyer de madeira bem lustrada, totalmente preenchido com decorações natalinas. “mãe.. são só medidas protetivas convenientes para o castelo. eu sou um selecionado, afinal” Thomas protestou, rindo com a maneira aflita que ela o manipulava com os dedos frios e espertos.
‘fique quieto Thomas Arthur.’
a voz ríspida era desconhecida para muitos que conheciam apenas a faceta feliz e animada da mulher. o nome composto era dito sempre quando ele estava encrencado. num gesto como um arco-reflexo, ele riu balançando a cabeça e resolveu acatar ao pedido, observando-a percorrer com os olhos os mínimos detalhes da expressão do loiro, a fim de averiguar se não havia nada de errado consigo. quando constatou que não, o sorriso novamente se abriu no rosto, lindo, encantador e charmoso, como o do próprio Thomas.
‘ah, filho, você não sabe como estou feliz em lhe ver. Benji! venha ver quem é que acaba de voltar para casa!’
“são só alguns dias, mãe.” disse em tom de advertência, mas não pôde protestar, pois Sienna já o apertava em um longo e demorado abraço, antes de soltá-lo ao chamar seu pai, Benjamin McCarthy, que o cumprimentou primeiramente com um forte aperto de mão seguido por um igualmente forte abraço.
‘Thomas.’
a voz simples, calorosa e rouca, mas cheia de significado amaciou o coração do jovem McCarthy. “pai.”
‘é bom tê-lo em casa, Thommy.’
após mais uma troca de sorrisos, os McCarthy os deixaram que Thomas se assentasse em seu quarto, mesmo não tendo trazido nada além dos presentes que havia comprado para os familiares. subindo para o mesmo, Sienna foi gentil suficientemente para arranjar as devidas acomodações para os guardas, que insistiram em controlar cada passo do selecionado até seus aposentos. depois, para a alegria do loiro, deixaram-no em paz. abrindo a porta, o cheio familiar que lhe invadiu os pulmões era revigorante; era bom estar em casa. a enorme cama cheia de travesseiros e almofadas estava como ele havia a deixado, os móveis estavam sem qualquer poeira, e ele pensava que para sua sanidade mental, seu secreto estoque de bebidas estivesse intocado. riu, ao assegurar-se que sim, na parte debaixo do guarda-roupa de mogno em um fundo claramente falso. correu os dedos pelo armário, pela cômoda, pelo colchão, travesseiros. um sorriso nostálgico assombrou o rosto, era como se estivesse lentamente voltando à sua realidade, como se houvesse acabado de sair de um filme. estar fora dos palácios de Ocenli, que, bom, considerava já ser uma segunda casa pela estadia da avó no local, era surpreendentemente bom. sentia que por alguns dias teria a vida de volta. aproveitou o tempo no aposento para tirar um breve cochilo no aconchego de casa, tomar um demorado banho no banheiro privativo e trocar de roupas, só para então descer para a grande sala de estar que dispunha de três largos sofás de cor vinho, vários lustres, grandes abajures, tapetes decorados e enormes estantes cheias de livros. tinha colocado um confortável suéter verde, uma calça saruel cinza e sapatos fechados. Sienna se aconchegava no canto de um dos sofás de pés encolhidos tomando uma taça de vinho, enquanto Benjamin lia alguns artigos para decidir se os aprovaria ou não, na faculdade. quando viu a imagem de Thomas, acenou com a cabeça e Sienna estendeu os braços para que o filho se aninhasse em seu peito, com um enorme sorriso; o qual Thomas havia herdado. ele o fez, esticando as pernas para o outro lado vazio do confortável assento, e deixou-se derreter pelos carinhos que ganhava na cabeça. não era sempre que tinha oportunidade de passar o tempo assim com os pais, então ele aproveitaria o que lhe fosse oferecido. o silêncio não durou muito, porém. logo, a grave voz da mulher irrompeu a vazia sala.
‘Thomas. nós dois queríamos conversar algo com você.’
Sienna encarou Benjamin que assentiu em resposta e largou os papéis, para se sentar em uma poltrona igualmente verde, de frente para os dois. ele retirou o óculos de leitura e passou as mãos pelas têmporas.
‘nós não concordamos com a posição da sua avó sobre sua situação.’
Thomas tentou se levantar para encarar o pai em uma posição mais decente, mas foi impedido pelos pequenos (e fortes) braços da mãe, que obrigavam-no a continuar colado ao seu peito, como se tentasse o proteger de todo mal do mundo.
‘nós dois não concordamos’ Sienna acrescentou, com a voz firme ‘nem sua tia Brooklyn.’ ele engoliu em seco, sem conseguir responder àquelas afirmações, ou sequer as compreender. ‘e nós iremos confrontá-la sobre isso.’
a respiração do jovem parou, ele queria chorar. sentia que iria chorar ‘sabe, filho.’ os carinhos da mãe não paravam em seus fios loiros bem cuidados ‘erros são cometidos.’ ela referia-se ao grande erro havia o feito parar naquela posição de selecionado. ah. Thomas não conseguiu segurar as lágrimas. tinha sido pego de surpresa. ‘e você irá aprender com eles. eventualmente.. nós três vamos conversar com ela no dia vinte e cinco. não podemos garantir que ela irá lhe liberar de qualquer punição, mas.. você sempre vai ser nosso filho, não importa o que acontecer na seleção. e não há ninguém no mundo que possa lhe tirar de nós.’
olhando para o lado, ele viu que a tia já havia chegado para a janta, impecavelmente bem produzida como sempre, e com um sorriso esperto no rosto. todo dia vinte e três, antes da grandiosa festa de Natal, os três juntamente à tia comemoravam as festividades juntos em família, visto que no próximo dia era o grande baile e depois o (terrível) almoço com Lady McCarthy ele sentiu-se amado de novo, e acolhido, e grato. Thomas não merecia aquela família. o resto da noite se seguiu com fartura, um exagero de bebidas, muita risada e música. música. ele riu sozinho, lembrando-se um certo alguém, já estando afetado pela grande quantidade de bebida ingerida, mas mais embriagado pela possibilidade de uma luz no fim do túnel. afastou-se de todo o barulho e movimento, aproveitando que os familiares estavam ocupados jogando algum jogo idiota de Natal, e que os guardas jantavam, e escorou-se na parede, retirando o celular do bolso.
Eu: cara, eu estou com a minha família
Eu: e sabe a coisa mais engraçada que aconteceu?
Eu: então, eu estava conversando com a minha mãe, e ela disse que viu sua foto no jornal e te conhece. quer dizer, a sua família. ela disse algo sobre perfumes??
Eu: aí eu disse que também te conhecia e a minha tia começou a rir
Eu: tive que sair da mesa, nós bebemos muito
Eu: parece que você não tá recebendo isso ainda, é que eu pensei em você
Eu: é bom chegar inteiro no castelo. sabe, violino, etc, não queria me gabar mas foi bem caro
A luz soturna de sua luminária ditavam a sobriedade de Kiya naquele momento. Ainda queria voltar para casa, mas não lhe foi permitido, só lhe restava escrever para casa como seu pai havia feito para ela anteriormente. Escrevendo, Kiya pode notar que seus sentimentos pareciam mais reais nas palavras do que em uma ligação para ele. Havia entendido o patriarca. Como sempre, Daren tinha algo a ensinar para a filha. Ainda que longe.
Oi, baba
sou eu, Kiya.
Sabe, estamos em clima de natal aqui. Você sabe, né? A festa cristã do nascimento de Jesus. As pessoas ficam bem emocionadas com o natal, é uma data pra se passar com a família ou com os amigos. Talvez pareça um pouco com o nosso Eid Al Adha, eles celebram entre si, comemoram o nascimento de Cristo e pedem bençãos ao menino Jesus. Bom, os mais religiosos fazem isso. Mas é um feriado que abrange até mesmo quem não crê. Enfim, eu gosto da sensação e por isso sinto falta de estar com vocês. Pai, eu estou sozinha e não posso voltar, sei disso e sei que está fazendo isso por segurança, mas estou com saudade e queria estar com vocês. Estou escrevendo no meu quarto agora, não queria desrespeitar Alá ou Jesus Cristo. É meio estranho, eu sei, mas prefiro ficar aqui quietinha. Pelo menos peguei comida da cozinha. Eles comem pra caramba no natal, baba. É impressionante.
Espero que estejam bem, pai, que as rainhas estejam sendo confortadas pela perca, queria abraça-las, então dê um abraço nelas por mim. E na mãe também, um bem forte. O mais forte que conseguir. Bem... Não esmague ela, por favor. Eu te amo, baba. Muito. Amo todos vocês.
Gabriel estava em frente há sua casa, a casa onde cresceu, para onde os seus pais o levaram depois da sua adopção, o local que não via há cinco anos e aquele da qual sentia tanto a falta. O guarda respirou fundo por breves momentos, pousando as várias saquetas que continham presentes para os seus familiares, que não sabiam da surpresa que estava prestes a fazer. O Príncipe Lhoris, como sempre, havia sido generoso o suficiente com Gabriel para basicamente o forçar a ir visitar a sua familiar e a passar com eles a noite de Natal, pois sabia o quanto isso era importante para ele. Pason ficou encarregue de tudo o que fosse relacionado com a guarda do Príncipe, a seu pedido, e por isso, o guarda estava totalmente tranquilo e disposto de ver a sua família.
Voltou a segurar as saquetas que outrora carregava e tocou há campainha da porta, ouvindo as vozes vindas de dentro de casa e em seguida o olhar de uma das suas pessoas favoritas, uma das suas irmãs, que ao vê-lo teve logo o instinto inicial de abraçá-lo. - “MANO!” - A voz da jovem fez-se soar pela casa e instintivamente as mãos do guarda rodearam a sua cintura, rodopiando-a no ar. - Claire, você está linda! - Comentou ouvindo em seguida a voz da sua mãe se aproximar do corredor da entrada. - “Claire, querida...o que se passa?” - Perguntou a mãe de Gabriel enquanto limpava as mãos sujas com aquilo que aparentava ser farinha e quando viu o seu filho, lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto. - “Gabriel... meu filho.” - As mãos já levemente enrugadas, mas macias da sua mãe, acarinharam o seu rosto, antes de receber outro abraço, desta vez ainda mais apertado.
Claro que de seguida começaram a surgir mais familiares, ao ouvirem a voz de Gabriel, nem conseguiam acreditar que o guarda estava de volta a casa. Olivia, a sua outra irmã, gêmea de Claire, correu em direcção a Gabriel e também ela se envolveu no abraço em que Claire e a mãe se encontravam. - “Estávamos com tantas saudades...” - Olivia limpava as lágrimas que caíam do rosto da mãe e do seu também. - Eu também Liv, espero que não estejam a dar muitas dores de cabeça aos pais. - Gabriel olhou para as gêmeas que lançavam olhares de cumplicidade entre ambas, que ditava certamente que as duas andavam a dar algumas dores de cabeça.
“Como está o Lhoris?” - Perguntou Claire enquanto entrelaça o seu braço no do irmão, o encaminhando até há sala, já Olivia e a sua mãe seguravam nas saquetas, levando-as para junto da árvore de Natal. - Vocês não me vêem há cinco anos e a primeira coisa que você pergunta é como está o Lhoris? - Brincou com a mais nova, não conseguindo deixar de dar uma risada com a pergunta da mesma. - Está ótimo, ele me entregou alguns presentes para vocês e mandou votos de feliz natal. - Claire e Olivia prestavam atenção a cada palavra proferida pelo irmão, não só porque estava a mencionar Lhoris e sendo ambas jovens, tinham um certo interesse no Príncipe, como também estar junto do irmão ao fim de tanto tempo, fazia com que ambas prestassem ainda mais atenção ao mesmo.
Gabriel se sentou no sofá juntamente com as irmãs, a mãe e outros familiares e todos ficaram a conversar durante vários minutos até surgir outra pessoa, que adentrava a casa. - “Filho?” - Perguntou o homem que Gabriel mais admirava, aquele que fez dele o homem que era hoje, o seu pai. - Feliz Natal pai. - O General prontamente abraçou o filho, reunindo a família num abraço em conjunto, onde cada um reagia há sua própria maneira, enquanto alguns choravam, outros sorriam e Gabriel não podia se sentir mais feliz por estar reunido com os seus familiares, com quem passara a noite de Natal, pronto para o dia seguinte voltar para o Palácio, mas com um sentimento de concretização e com um desejo de Natal realizado, tudo graças a Lhoris, a quem estava eternamente grato pelo gesto.
Chegou a época do ano em que as famílias ao redor do mundo se reúnem, cada país tem sua tradição, mas uma coisa é comum à todos: a gratidão por estarem vivos e terem sobrevivido a Grande Guerra.
Nem todos os países são religiosos, porém, algumas tradições como o Natal permaneceram, mesmo depois da Guerra, em alguns lugares o Natal se resignificou. Em Ocenli, a tradição de se trocar presentes, fazer boas ações e amar ao próximo permanece, como uma forma da população se manter unida e do governo mostrar que se importa com os ocenlianos.
OOC:
Estamos na Elite e os anciões decidiram permitir que os selecionados visitassem seus familiares durante os dias 23, 24 e 25 de dezembro, de modo a comemorarem a data com suas famílias. Todos que optarem por visitar seus familiares serão escoltados por quatro guardas que permanecerão em vossas companhias até vossos retornos.
Para os outros chars do rp, aos funcionários será servido um banquete na noite de natal e com exceção aos guardas, é permitido que os funcionários comemorem o dia 25 com suas famílias. À realeza convidada, podem passar a data no castelo onde será servido um banquete ou podem visitar seus familiares.
A proposta da Task é que se escreva um POV sobre a noite de Natal em família, pode ser algo no presente ou passado, também existe a possibilidade de fazer a Task em forma de carta para um familiar ou qualquer outro personagem que se queira.
A task não tem prazo de validade e não é obrigatória, podem fazer quando quiserem e como preferirem.
geralmente, Thomas não se considerava alguém medroso, porque não era, realmente. na verdade, sua coragem até extrapolava alguns limites do senso comum, podendo muito bem ser confundida com estupidez. a situação recente como o último assassinato de Lady Arteaga bem no meio de todos, com toda a guarda do Castelo em pleno exercício do trabalho, porém, o fazia ficar no mínimo estressado e desconfiado, temendo que fosse pego também em algum efeito colateral. claro, sua avó era uma anciã! balançava a cabeça perdido em meio aos pensamentos enquanto descia as enormes escadas até o hall. foi quando ouviu um alto estalo e, de repente, tudo ficou escuro. contrariando seu melhor julgamento, o jovem McCarthy acabou seu trajeto, planejando ficar em silêncio até que a situação melhorasse, esperava ele que em breve. já estava ficando meio bravo com todo o barulho dos nobres e gritaria dos guardas para que todos se acalmassem e ficassem em seus devidos lugares até que a situação se resolvesse, o que fazia só com que todos entrassem mais em pânico ainda. foi quando sentiu um corpo se chocando com brutalidade no seu, fazendo-o quase se estatelar no chão, não fosse pelas mãos (femininas?) que o seguraram habilmente. sentiu o ar sair dos pulmões e um sentimento de literal pavor em temer que algo acontecesse consigo "quem é você?" perguntou enquanto em um ato falho ajeitava a blusa social.
O inverno finalmente chegou em Islay, a primeira neve da estação caiu de forma tímida e ninguém jamais esperou que poucos dias depois os pequenos e fracos flocos de neve se transformariam em uma verdadeira nevasca. A neve caía forte lá fora naquele dia, pouquíssimas pessoas ousavam sair de casa ou de dentro do palácio. O chão era um cobertor branco de neve, todas as árvores e flores do jardim estavam salpicados de flocos de gelo, o lago tinha congelado e a neve caía cada vez mais forte.
Por medida de segurança, somente funcionários tinham acesso à área externa do castelo, os selecionados e selecionadas estavam proibidos de pisar do lado de fora e principalmente no jardim, aos convidados fora recomendado que permanecessem dentro do palácio e a saída para o centro da cidade fora negada a todos.
O dia parecia um pouco melancólico, o salão das mulheres e dos homens parecia ser a principal distração da maioria, apesar da biblioteca e sala de música também estarem com frequentadores assíduos. Canecas e mais canecas de chocolate quente eram servidas a todo momento.
Até que...
No meio da tarde, um estrondo não muito alto ressoou no ar e o palácio ficou em um perfeito breu. O que havia acontecido? Não sabiam dizer ainda, ao menos o fogo nas lareiras ainda permanecia aceso, mantendo as paredes de pedra relativamente aquecidas. Prontamente os soldados se posicionaram nos corredores para conter qualquer movimento suspeito e principalmente evitar o pânico. Era melhor que todos permanecessem onde estavam até que a luz voltasse.
OOC:
Vocês não estavam achando as coisas muito calmas, não? hihihi
O plot drop durará de hoje 16/12 até sábado dia 21/12. Em IC o apagão durará apenas algumas horas, ou seja, acontecerá em apenas um dia.
As interações anteriores podem continuar, desde que em Flashback, por favor.
E... como Dezembro é uma data especial, resolvemos fazer algo diferente. O plot drop deverá ser feito em dupla (que nós sorteamos no site sorteiogo), os chars não poderão interagir com outros chars que não seja a sua dupla durante o apagão.
Quando postarmos a parte final do evento e as luzes voltarem, está liberado plotar com os outros chars.
Temos um mapa do palácio aqui, então usem a criatividade para plotar em diferentes lugares como as masmorras, corredores, observatório, piscina aquecida, hall dos governadores, enfermaria, sala do trono, sala de reuniões, escritório do rei, plenário dos anciões e etc. Usem a imaginação.
Esse plot dropt/task é obrigatório para todos os chars, menos o príncipe Lhoris que estará em Port Ible cuidando do pai doente.
A entrevista fora feita dentro do palácio, no salão de recepções, um local muito espaçoso e arejado. Estava mais do que acostumado com entrevistas e até achava graça do que a mídia conseguia inventar, sem se deixar abalar por quão maldosos os jornalistas conseguiam ser. Adentrou o salão vestido de maneira simples, sentando-se de forma relaxada na poltrona indicada, a sua frente uma bela mulher ruiva sorria falsamente com o equipamento de vídeo e som já montados. “É um prazer conhecê-lo, alteza. É uma honra poder entrevista-lo”. Um sorriso de canto presunçoso surgiu nos lábios do príncipe. “A honra é toda minha, terei prazer em desfazer alguns mal entendidos”.
1. Como foi a sua infância? Como era sua vida em Port Ible e o que mudou em sua vida com a seleção?
O sorriso estampou na face do príncipe que se recostava no encontro da poltrona de forma relaxada, pensando na resposta, buscando em suas memórias. “Minha infância foi alegre de início, eu passava muito tempo com a minha mãe e vinha à Ocenli às vezes, eu tinha mais liberdade que o meu irmão, apesar do meu sempre desaprovar. O primeiro baque veio com a morte da minha mãe, meu pai não sabia como lidar comigo e acabei indo para um colégio militar alguns anos depois. Aprendi muitas coisas por lá, mas nunca perdi minha essência ou deixei de ser quem eu era. As fugas do colégio e do palácio se tornou algo constante durante a minha adolescência, eu gostava de desbravar o mundo e principalmente estar entre o povo. Fazia trabalhos voluntários ou não, muitas vezes sem que soubessem que eu era o príncipe e era sempre interessante e divertido”. Se ajeitou novamente na poltrona, a expressão mudando e se tornando algo um pouco mais sério. “Perder Norian foi ainda mais difícil, assumir o papel de herdeiro e tomar a frente de responsabilidades que jamais pensei em ter antes não foi nada fácil, mas moldou parte de quem eu sou hoje. Aprendo um pouco mais a cada dia, seja com as selecionadas, com os funcionários ou simplesmente com a vida. Eu não sei dizer o que mudou em minha vida com a seleção, a não ser o fato de estar morando em outro país, claro que as selecionadas apresentam um grande impacto em minha vida, mas não é algo que eu consiga colocar em palavras”.
2. O que significa ‘família’ para você?
Ali estava uma pergunta que poderia ser considerada polêmica, principalmente diante da resposta que ele daria, Lhoris conseguia ouvir os comentários sobre suas palavras após a entrevista ir ao ar. “Família nem sempre é aqueles que temos algum laço sanguíneo, família são aquelas pessoas que te acolhem, que te passam conforto, são aqueles com quem você consegue ser você mesmo. Minha família não se limita as minhas irmãs e meu pai, minha família é o povo de Port Ible e Ocenli, são as selecionadas e os amigos que tenho, são aqueles por quem dou sempre o meu melhor, que busco evoluir e proteger”. Havia muita emoção em suas palavras finais, o príncipe falava de seu povo e amigos com muita paixão, era notável o quanto ele os amava. “Acima de tudo, família são aquelas pessoas que querem o seu bem e que criticam sem julgar, afinal todo mundo precisa de um puxão de orelha. No meu caso é todos os dias, né Nerea?”
3. Gostaria de deixar um recado para sua família ou país?
“Oh sim. Pai, sei que continuo dando trabalho e que o senhor se preocupa comigo muito. Não deixe que minhas aventuras te afetem, cuide de sua saúde que é o mais importante, estou colocando em prática tudo o que me ensinou, sei que erro muitas vezes, mas faz parte do meu aprendizado e jornada”. Se fosse a alguns anos atrás, Lhoris jamais teria mencionado o pai em uma entrevista ou teria mudado de assunto caso o jornalista falasse dele, mas agora tudo era diferente e mesmo com suas diferenças, ambos estavam fazendo de tudo para melhorar a relação. “Port Ible, vocês são incríveis e eu sinto falta de todos vocês a cada dia. Do sol, das praias, da carne de sol da dona Ana, do caldo de cana do seu Geral, do requeijão da dona Maria, da pamonha do seu João e de tantos outros que se eu for mencionar passarei o mês inteiro aqui”, Gracejou em diversão olhando diretamente para a câmera, como se falasse diretamente com todas as pessoas que mencionou. Agora vinha a parte polêmica da resposta. “Ocenlianos, vocês são incríveis. Aos poucos estou conhecendo cada província e não medirei esforços para ajuda-los, os projetos sociais aprovados são só o início. Questionem mais o que acontece a sua volta, nos mande cartas, nos conte seus problemas e dificuldades, quero ouvir o que vocês tem a dizer e dar o melhor melhor para melhorar a vida de todos vocês”.
4. Você acha que Ocenli melhorou ou piorou ao longo das gerações? Por que?
“Houve uma melhora considerável em diversos aspectos, como a tecnologia, por exemplo. Mas ainda há muito o que melhorar, não posso afirmar que piorou, só os ocenlianos poderiam me dizer tal coisa. O que posso afirmar é de que falta muito, de que adianta ter tanta tecnologia quando a maior parte da população sofre e vive uma vida miserável? Me pergunto se as gerações anteriores dessas famílias viviam nessas condições, se não viviam, então eu poderia facilmente dizer que Ocenli piorou”. Por mais que tivesse tomado um certo cuidado com suas palavras, ele sabia como elas soariam para a maioria, não era como se ele se importasse, estava cutucando o governo mesmo, criticando de forma explícita e nem ao menos tinha dito tudo o que pensava a respeito. “Visitei algumas províncias e chega a ser revoltante a forma miserável com a qual alguns vivem, não há problema em viver de forma simples e humilde, mas passar fome e não ter acesso ao básico é inadmissível.
5. Vingança ou justiça? Por quê?
E lá estava o pulo do gato, a pergunta que talvez tenha complicado alguns e que outros não ousaram responder o que de fato pensavam. “Justiça. Para falar a verdade, quem que iria responder vingança em uma entrevista que todos irão acompanhar? Poucos se atreveriam. De qualquer forma continuo com justiça, apesar de acreditar que o pagar na mesma moeda ás vezes é válido e dependendo das circunstâncias dar o seu melhor e conquistar algo pode funcionar como vingança. O que é justo para uns, pode não ser para outros. As leis nos ajuda a medir melhor isso, mas há um termômetro moral dentro de cada um de nós e nem sempre ele aponta para o mesmo nível em relação a vingança e justiça”. Um resposta dúbia que novamente ele tinha certeza de que era polêmica e que daria o que falar depois, dono de um humor ácido, ele se deleitava em momentos como aquele.
6. Qual foi o evento que mais teve impacto sobre quem você é?
“Muitos momentos tiveram impacto em minha vida, mas posso afirmar que o maior deles foi a morte do meu irmão Norian. Perder meu irmão gêmeo...” A voz embargou e Lhoris retirou um lenço dos bolsos, era sempre muito emocionante falar do irmão, seus olhos embaçaram ainda que não tenha escorrido nenhuma lágrima por sua face. “Desculpe, falar de Norian é sempre muito doloroso pra mim. Ele era meu melhor amigo, não consigo sequer colocar em palavras o quanto ele é importante pra mim e o quanto sua morte me afetou, além de doer até hoje. Não foi só a perda dele que causou impacto, assumir a posição de herdeiro também foi. Os ministros não confiavam em mim, dei tudo de mim para ganhar a confiança deles nos últimos anos e aos poucos venho conseguindo progressos. Não estou nem perto de ser o rei que Norian seria, mas dou o meu melhor a cada dia, por ele, pela minha mãe e principalmente pelo meu povo”.
7. Qual a parte mais difícil da seleção para você até o momento? Acha que está se adaptando bem? O que mais gosta no Palácio?
Se recuperava ainda do tema Norian quando a jornalista abordou a próxima pergunta, algo que fez um riso amargo escapar dos lábios do príncipe. “Estar em Ocenli é a parte mais difícil, não por não gostar do país, mas estou longe do meu pai que como não é novidade para ninguém se encontra com a saúde frágil. Ligo para ele todos os dias para saber como ele está, essa é parte mais difícil, estar aqui ao invés de estar lá cuidando dele”. Lhoris poderia ter respondido algo ensaiado, mas optou por ser sincero, ele realmente não queria estar em Ocenli, claro que isso já havia mudado um pouco, mas a preocupação com o pai ainda existia e ele não pensaria duas vezes se pudesse largar tudo e voltar para Port Ible. “De modo geral estou me adaptando bem, conhecer as selecionadas e outras pessoas tem sido incrível, assim como visitar as províncias, entender como Ocenli funciona e as partes essenciais que mantém o país em pé. Meu lugar preferido no palácio é o jardim suspenso, gosto de estar ao ar livre e lá não é um local que todos tem acesso o tempo todo, o que facilita trabalhar por ali”.
8. O que é mais importante para você: ajudar a si mesmo, ajudar sua família, ajudar a sociedade ou ajudar o mundo? Por quê?
Ajeitou a postura novamente, adotando uma posição relaxada, cruzando as pernas de modo a pousar o pé direto sobre o joelho esquerdo. “Fazer a diferença é o mais importante pra mim, colocar eu, minha família, a sociedade e o mundo em uma disputa de importância não me parece nada justo. Meu empenho é fazer a diferença na vida das pessoas, se eu consigo melhorar algo para alguém consequentemente acabo impactando na sociedade e no mundo, mesmo que em níveis diferentes. Minhas ações serão sempre em prol do todo, dificilmente faço coisas em benefício próprio, a não ser que seja no âmbito pessoal”.
9. Se você tivesse o poder de mudar três coisas, quais seriam estas coisas? Pode ser em Ocenli, em seu país ou até em si mesmo.
“Mudar três coisas? Encontrar o elixir da vida e trazer meus entes queridos de volta, conta?” Brincou com um pequeno sorriso, adoraria poder reviver a mãe e o irmão mais velho. “Não sou perfeito a ponto de considerar que nada preciso ser mudado em mim, mas acredito que mudar o mundo é mais importante, eu colocaria mais empatia nas pessoas, acabaria com a violência e a fome, essas são as três coisas que eu mudaria no mundo”.
10. O que achou da princesa até agora? Ela é como imaginou? E as selecionadas, o que tem a dizer sobre elas?
Jornalistas adoram polêmicas e Lhoris era um prato cheio para eles desde sempre, as próximas perguntas eram um claro sinal disso e ele estava pronto para alimentar a sede por fofocas. “Minha prima, princesa Octavia, é uma mulher impressionante, muito dedicada e responsável. Talvez um pouco séria demais, eu adoraria vê-la mais relaxada, mas entendo que é o jeito dela. Nossos países são concorrentes comerciais e há uma rixa que todos conhecem, mas Octavia está acima disso, ela é alguém que admiro e respeito independente de qualquer coisa. Tenho certeza de que se for ela a assumir o trono ocenliano, fará um ótimo trabalho”. Com toda a certeza não era aquela resposta que esperavam dele, mas nem por isso o príncipe ible fora menos sincero em suas palavras. “As selecionadas são incríveis, estão sempre me surpreendendo de alguma forma. Me dói cada eliminação, mas são necessárias, por mais maravilhosas que todas sejam, não consigo ter o mesmo tipo de envolvimento com todas e com algumas as coisas simplesmente não fluem, não há muito o que fazer, sabe?”. Sorriu charmoso para a câmera, como se fosse muito difícil ser tão lindo e ainda ter química com toda e qualquer mulher que parece. “Há algo que eu gostaria de esclarecer, não possuo qualquer filho bastardo, posso até ser libertino como dizem, mas sei usar preservativo muito bem, além de Port Ible fornecer um bom respaldo em termos de contraceptivos. Temos uma ação social de planejamento familiar que abrange todo o território de nosso país, não apenas explicando e fornecendo métodos contraceptivos, como também ensinando a população sobre a importância do planejamento familiar. Cresci ajudando em alguns desses projetos, é muita canalhice afirmar que tenho uma horda de bastardos sem nem ao menos me conhecer ou pesquisar. É muito ficar só na especulação sem base nenhuma, olhar superficialmente e julgar de acordo com o que convém”. A fala começou relaxada, como se estivessem falando de amenidades e coisas corriqueiras, ao final era notável a ironia na fala do príncipe que se levantou da poltrona. “Acredito que talvez cortem essa parte, não é? Acho que já acabamos por hoje, passar bem”. Moveu a destra, erguendo dois dedos para logo depois colocar as mãos nos bolsos frontais da calça e sair do salão assoviando.