tem dias que, ao abrir os olhos, não enxergo nada. não importaria se meu maior amor, ou minha banda favorita, quem sabe até a solução para todos os meus problemas estivesse à minha frente: eu não os veria.
um filtro escuro, que absorve toda luz e, consequentemente, toda cor que paira sobre minha câmera humana, fazendo tudo se tornar nada mais, nada menos que escuridão. e com ela, toda a minha esperança e vitalidade se esvai.
uma chuva inesperada cai e inunda o corpo da câmera, me incapacitando de capturar qualquer imagem: mesmo que a escuridão. chuva essa que lava aquilo que meu hardware não pode processar internamente.
esse curto-circuito é carregado com sons de desespero, medo e desamparo que ecoam pelo vazio de um cômodo incompleto, onde aguardo a captura de outras lentes dos meus dados corrompidos que escorrem pela borda da tela. não há ninguém lá, além de mim mesma. mas de alguma forma, ainda anseio.
recorro ao processo de auto regulação interna do meu sistema, uma calibragem química forçada para que meu sistema pudesse, eventualmente, focar e capturar tudo o que estava ao meu redor, de movimentos à cores: a chuva.
construí e programei cada software dentro do meu hardware. sofri influência de outros programadores, outras máquinas e sistemas, e ainda luto pra tirar de mim todo malware deixado por quem me invadiu, e até mesmo por aqueles que eu autorizei que fizessem alterações na programação.
agora, depois de tantos processos para eliminar aquilo que impede a máquina de funcionar corretamente, ainda busco formas de adentrar cada vez mais a linguagem de programação usada para construir meu sistema operacional.
apesar da chuva, do curto-circuito e da escuridão que impede o software de ler a imagem transmitida pelas lentes, sei que a solução se encontra na luta para reprogramar o filtro, para que, ainda na escuridão, eu possa encontrar a luz.
— ortus sum













