Achei que nada mais faria meu coração arder, como já ardeu. Todo dia eu digo a mim mesma coisas sobre a ordem natural da vida. E mesmo sabendo que ela existe, nada me faz sossegar o coração. Quando você ama alguém talvez mais do que a própria vida, onde sua identidade foi toda articulada através desse outro ser, é muito difícil.
Me dá um nó no peito, uma dor profunda na alma. Falta ar, falta razão, falta tudo. Eu venho elaborando este luto desde o início da sua fragilidade. Quem diria que um dia eu olharia para trás e sentiria falta de momentos que eu detestava. Eu não sabia que você era tão dependente de mim, e que isso era motivo dos conflitos conforme eu ia crescendo. Um cuidado autoritário que me sufocava. Ainda sim vó, você sempre foi meu melhor abrigo. Meu maior exemplo, minha fonte inesgotável de força e determinação.
Talvez toda essa corrida era pra te mostrar que sim, eu consigo honrar seu investimento afetivo e material. Eu consegui até aqui, fazer valer muito do que aprendi com você! Mas sem você, tudo perde o sentido. E está tão difícil encontrar sentido em tudo que tenho feito. O ciclo se inverteu, e foi rápido demais. A mulher que eu mais admiro na vida está cansada, e te ver assim doí de uma maneira absurda. Por você eu doaria minha vida, meus órgãos, meu sangue. Se houvesse a opção de doar vida, tempo de vida, juventude, para você eu doaria, ou melhor devolveria parte do que já me deu. Ver você alcançar coisas e perder a possibilidade de vivê-las me fala do tempo que não devemos perder. Mas o neoliberalismo diz, trabalhe, lucre, as saudades são para finais de semana e feriados! Eu preciso de tempo e fôlego. Serenar e elaborar os ciclos. Está tudo fora de lugar!













