Adentrou o recinto para encontrá-lo organizado como ordenara. Uma sala próxima ao Salão do Conselho, de porta cuja cor se mesclava à da parede, intencionalmente discreta, adequada para abrigar um encontro particular como o que logo se daria. Em seu interior, os bancos haviam sido afastados em prol de abrirem espaço para que um tapete ricamente bordado fosse estendido no centro. Sobre ele, uma mesa fora preparada com abundância de aperitivos e duas taças já jaziam cheias de vinho. Ainda que a hora de jantar se aproximasse, como anunciavam os raios dourados de pôr-do-sol que se derramavam pelas longas janelas, Faryan não sentia fome — ou, ao menos, ainda não tomara consciência dela. Suportava sua espera em pé, com uma inquietação que ardia como a chama de uma fogueira em seu peito. O tempo lhe ensinara a duras penas como não deixar seus sentimentos, suas dúvidas, lhe consumirem, mas aquilo não significava que era imune a eles, sobretudo com o peso da revelação que recebera mais cedo. Tinha pressa em tomar decisões. Não tardaria até que o restante da corte tomasse conhecimento da presença da estrangeira ali e de seus motivos e, quando o momento chegasse, o imperador queria ter o controle que podia sobre a situação.
Apenas quando as portas começaram a se abrir foi que ele se permitiu o luxo de se desfazer de seus sapatos e se sentar sobre o tapete. Finalmente, pensou. Finalmente teria respostas cuja magnitude da importância ainda havia de se fazer conhecer. Não estava em lugar de apressar sua convidada, não em sua posição de refugiada, mas não podia negar seu alívio, embora o salvaguardasse por trás de uma expressão que beirava o impassível. Ergueu os olhos para ela — Maeve, segundo lhe haviam informado — e ergueu uma mão, sinalizando para que ela se aproximasse.
— Maeve, estou correto? Por favor, sente-se — começou com um rápido gesto ao espaço diante de si, seguido por um à mesa. — Sirva-se como queira; está tudo à sua disposição. Espero que tenha conseguido algum descanso e que seus aposentos lhe estejam confortáveis. Pode considerar a si e a seu servo como meus protegidos pelo tempo em que permanecerem aqui. Qualquer necessidade ou ameaça percebida podem ser informados a mim e as devidas providências serão tomadas de imediato — assegurou-a. Um discurso pronto, decerto, mas também preciso. Havia poucos no palácio em que confiava integralmente. Quanto ao restante, podiam encontrar maneiras de levar vantagem nas situações mais inesperadas ou tentar condená-lo por quaisquer motivos. Não podia deixar à deriva e vulnerável alguém que provavelmente pouco sabia sobre o local, tanto por simples ética quanto porque um ataque bem-sucedido a ela também o seria contra a autoridade imperial, podendo enfraquecer a ambos de formas que não haviam previsto. O inimigo havia conquistado o reino dela, afinal, e agora batia às portas de Hidayat. Qualquer fragilidade podia, na melhor das hipóteses, trazer-lhe imensas dores de cabeça, ao mesmo tempo que poderiam ser aproveitadas por outros.
Um suspiro lhe escapou. — Mas suponho que saiba que não é para isso que a chamei aqui. Afirmou mais cedo que era da realeza de Galedda, reino vizinho, e que ele foi invadido. O que acontece nas fronteiras de Hidayat é de interesse do império. Preciso proteger meu povo inclusive de invasões externas — tomou um gole do vinho. — Por esse motivo, preciso que me conte exatamente o que aconteceu. Quem os invadiu e o que agora controlam. Qualquer informação que julgue útil.












