O amor, como o significado, cativa-te. Mas, como a poesia, é difícil. Exige talento, resistência e formulação hábil, pois são muitos os seus níveis. Não basta amar – esse fenómeno entre os muitos da natureza, como a chuva e a trovoada. Arranca-te de ti e coloca-te na órbita do outro para que te possas contemplar sem ajuda. Não basta amar: tens de saber amar. Algum dia soubeste?
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Mas todas as formas se fundem – se tornam visíveis, perceptíveis e tangíveis – numa mulher, não numa ideia. Amamos a tentação da forma, e a imaginação dedica-se a indagar o que de misterioso e estranho guarda. As almas conhecem-se e desenvolvem proximidade através da forma, que brilha graças à sua essência. E é possível que divirjam na interpretação do que o corpo diz ao outro corpo e partam em busca de outra transparência, dissolvendo-se em corpos repletos de água, harmonia e música. O amor é caprichoso, mutável, resistente à identidade. É o acometimento que confunde paixão e iluminação. É o que não conheces e sabes que não conheces. É a consumação do significado no não-significado, em virtude da sua excessiva tendência para a gratuitidade e para o esbanjamento. É a antítese da repetição e da pretensão de emendar o ar com cor.
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Disseste: Tinha por hábito inventar o amor quando necessário. Quando caminhava só na margem do rio. Ou, de cada vez que o nível de sal me subia no corpo, inventava o rio.