Depois da nossa chegada a Bangkok [que relatei aqui], decidimos abrandar o ritmo. Durante uma semana inteira não olhei sequer para a lista de coisas que queria fazer na capital. Tentámos apenas estabelecer um ritmo de trabalho ágil para o resto da viagem e perceber como funcionavam as coisas na cidade.
Aproveitámos para nos ambientar com o BTS e fomos até à estação Ratchathewi de onde seguiríamos a pé até ao Pantip para comprar uns gadgets que estávamos a precisar. A meio do caminho fomos alvo do nosso primeiro golpe a turistas (daqueles que se leem nos blogs). Conhecemos o Adun!
O Adun falava inglês fluentemente e gostava de soletrar palavras gesticulando as letras num quadro invisível, no ar. Daí eu saber escrever o nome dele (acho).
Abordou-nos numa esquina sorrindo e perguntando de onde éramos, o que nos tinha trazido à Tailândia e por quanto tempo íamos andar por ali. Deu-nos algumas dicas sobre a cidade de Bangkok e, adivinhem só, era justamente o dia de aniversário dele. Como era um dia especial, decidiu oferecer-nos a nós, simpático casal do país do Cristiano Ronaldo, uma viagem pela cidade para vermos uns sítios espetaculares que só ele conhecia. Tudo isto por 20 baht, no tuk tuk que ele alugou naquele dia e que estava já ali, a uns passos de distância. No final deixava-nos no Pantip, que naquele preciso momento “estava fechado”.
Passou-me pela cabeça as burlas feitas por condutores de tuk tuk aos turistas em Bangkok, que tinha ouvido falar anteriormente. Contudo, ainda que tivéssemos a certeza que o Pantip estava aberto naquele preciso momento e que as probabilidades do aniversário do Adun calhar naquele dia serem de 1 para 365, caramba! 20 baht é mesmo muito pouco e nós até tínhamos tempo.
Decidimos despachar a experiência de andar de tuk tuk e, já agora, conhecer algumas ruas da cidade na companhia do Adun.
Ao fim de uns minutos o tuk tuk parou e ficámos sem perceber onde estávamos ao certo. O sítio não era tão fantástico como nos foi descrito. O Adun explicou-nos que estávamos junto a uma loja de roupa. Se entrássemos só para dar uma vista de olhos, isso iria ajudá-lo a ganhar cupões para gasolina (mais ainda se comprássemos alguma coisa), daí o preço da viagem ser tão barato. Aqui tive a confirmação que estávamos no meio da tradicional burla dos tuk tuks.
“Não há problema! Vamos lá ver a loja que não há de ser assim tão complicado”, pensei eu.
Saímos orgulhosos ao fim de 5 minutos a olhar para roupa demasiado formal para o nosso gosto. O Adun (sempre sorridente e bem disposto, convém frisar) explicou-nos que os lojistas só lhe davam os cupões se ficássemos pelo menos 10 minutos a ver os seus produtos, ou fizéssemos uma compra. Na segunda paragem tentámos passar mais algum tempo na loja. Para todos os efeitos, o Adun estava a ser simpático e um guia super entusiasmado, explicando-nos o que se passava à nossa volta à medida que nos deslocávamos pelas ruas da cidade.
Ficámos 10 desconfortáveis minutos a olhar para pedras e anéis, enquanto sorríamos para o vendedor que nos perseguia. "Então é por isso que não se deve aderir a estes esquemas", pensámos nós!
Saímos da loja e explicámos ao Adun que, apesar da nossa estadia ser longa, nós não éramos os big spenders que ele provavelmente julgava sermos. Triste por ver que estava a lidar com pessoas que lhe não iam dar lucro, levou-nos silenciosamente (isto é, o máximo que se pode dentro de um tuk tuk, no meio das ruas caóticas de uma metrópole) para a entrada do Pantip.
Gastámos poucos baht mas acabámos por nos sentir aborrecidos por estar a visitar lugares desinteressantes. Além disso, também nos sentimos culpados por, sem nos apercebermos, nos termos metido numa stiuação em que não íamos dar mais lucro ao simpatico tailandês. Não sei quais eram as intenções do Adun, mas ele sempre foi muito cordial e bem-disposto connosco.
No Pantip a dúvida persistia: “Seria mesmo o dia de anos dele?” Ah, a sensação de culpa...
Quando chegámos ao condomínio abri o meu caderno e atualizei a minha lista de planos:
Andar de tuk tuk em Bangkok: check!
Tomar atenção às pessoas que nos abordam na rua para não nos metermos em burlas ou situações desconfortáveis: cross...
Só voltámos a entrar num tuk tuk um mês mais tarde, em Sukhothai.