Em dias comuns e sem preocupações, nem um dos alunos precisaria ouvir a voz de Everett ecoar pelos corredores mais que uma vez ao ano. No entanto, aquele já era o segundo comunicado aos estudantes em menos de trinta dias.
“Boa noite, estudantes. Este será um aviso breve, mas importante. Uma das regras estabelecidas desde a fundação da academia e que preza pela boa convivência, é que qualquer aluno não deve se dirigir para o meu escritório sem ter marcado uma reunião ou sem minha presença no local. São tempos difíceis, eu sei, e exatamente por isso que eu peço a colaboração de todos. Invadir laboratórios, escritórios ou qualquer área da academia que vocês não tenham acesso liberado não irá resolver problema algum. Todo nosso corpo de funcionários está trabalhando para encontrar soluções e manter todos em segurança. Não apenas a colaboração, mas espero a confiança de todos pois não estamos medindo esforços. Dessa forma, encerro meu pequeno aviso e reitero: não iremos deixar nenhum de vocês para trás ou abandoná-los, mas se eu ver mais alguém tomando atitudes irresponsáveis como a que aconteceu no último final de semana, temo em tomar medidas mais drásticas.”
E de forma abrupta, Dr. Everett tinha passado seu recado para todos os cantos da academia.
RESULTADOS
Todos os estudantes envolvidos na investigação tiveram sucesso em suas ações e no momento estão a par das informações descobertas no laboratório e no escritório de Everett. Uma apuração para entender a situação foi feita em segredo pelos seguranças de Everett após sinais de invasão em sua sala e no laboratório.
Alzira, Ayeon, Haeil, Hyunbae, Jaehwan, Seamus, Taeyeon, Xiaolang e Yewon não foram identificados pela diretoria após apuração dos envolvidos.
Mas nesta tarde, Bora, Gyuri, Hella, Jihye, Kendall e Kwangsu foram abordados pela secretária de Dr. Everett indicando que os mesmos receberão suspensão das aulas e irão fazer trabalhos voluntários em questão de manutenção de limpeza da academia e outros trabalhos gerais por uma semana. Ficou o aviso que Everett ponderou muito sobre a expulsão.
O céu havia amanhecido claro e sem nuvens naquele dia quente de verão. O ar rescindia a grama recém-cortada e terra seca. As pessoas costumavam dizer que o ar era diferente no interior, mas Julia não podia concordar nem discordar – não conhecia de verdade a cidade grande para poder fazer a comparação.
Julia Martinez calçava um chinelo-de-dedos tão velho nos pés que a tira soltara e fora remendada com um prego. Usava uma bermuda de cor clara e tecido leve e confortável, manchada aqui e ali por anos de uso. Sobre o torço, usava uma camiseta regata folgada com um Mickey Mouse desenhado na frente. O cabelo, ela prendera em um rabo-de-cavalo firme. Era o seu uniforme de limpar a casa.
Esfregava distraidamente o chão do alpendre interno, próximo da churrasqueira, da antiga, mas conservada, casa dos Costa – os pensamentos iam e vinham na sua mente, mas ela não pensava em nada específico. Usava um pano úmido enrolado na ponta do rodo. Nada mais do que um dia como qualquer outro.
Ouviu o próprio celular tocar, lá de dentro da cozinha. Ignorou. Estava com preguiça de ir até lá atender. Não tardou muito até o celular tocar novamente.
- Guilhermina! – Julia gritou. – Alcança o meu telefone, por favor.
Guilhermina estava sempre na cozinha.
Ainda levou alguns instantes até a corpulenta mulher aparecer na porta com o celular de Julia em uma das mãos.
- Isso não se faz, minha filha. – reclamou a mulher. – Eu nessa idade tendo que ficar levando e trazendo as coisas de um lado para o outro.
- Também te amo, Gui. – respondeu Julia para a mulher. Pegou o celular das mãos gordas e escuras da cozinheira/caseira da família. A mulher deu um sorriso amoroso de volta e voltou para dentro do aposento.
- Esses jovens, não conseguem ficar longe dessas coisas por muito tempo. – ela reclamou baixinho enquanto voltava para os próprios serviços.
Júlia não conseguiu deixar de sorrir à imagem da mulher. Depois, voltou-se ao celular que continuava a vibrar e tocar na mão dela. O identificador de chamadas dizia que era a Natália lhe ligando.
- Oi, Nati. – atendeu Júlia.
Natália e ela haviam começado uma amizade que se revelou bastante forte nos últimos meses. Talvez uma das razões pela qual esse laço entre as duas ficara ainda mais forte foi o suporte que Natália havia dado à Júlia diante da recente perda de Melissa.
Melissa fora a melhor amiga de Júlia por anos. Provavelmente, desde que elas se conheceram, na faculdade.
Júlia nunca fora de ter muitos amigos. Chegou a pensar por diversas vezes que ela tinha algum problema, porque lhe parecia que era incapaz de manter uma amizade de verdade por muito tempo.
Mas acabou se identificando com Melissa e Júlia passou por uma dor muito grande quando a amiga morreu.
Júlia sabia que se tratava de um clichê desses romances que ela lia de vez em quando, mas ela realmente sentiu como se parte do próprio corpo havia morrido.
A perda de alguém que se ama é algo difícil de se colocar em palavras. Você esquece que a pessoa não está mais ali. Então você pensa em contar alguma coisa para essa pessoa e o mundo inteiro para por um instante quando seu cérebro recupera o fato de que isso não é mais possível, de que isso não será mais possível. O estômago se contrai e uma sensação gelada sobe pelo peito. Os olhos lagrimejam.
Júlia não saberia dizer se todo mundo sentia-se dessa forma, mas era exatamente assim que ela se sentia.
- Oi, Jú! – respondeu Natália no outro lado da linha. – Estou aqui com a Elisa, no viva voz.
- Oi, Júlia! – disse Elisa.
- Ah, oi. – respondeu Júlia, um pouco surpresa. Entretanto, agradeceu silenciosamente que Natália a informara da presença da outra garota. Não seria nada legal se Júlia falasse alguma coisa que gostaria que apenas Natália soubesse e outra pessoa acabasse escutando.
- E aí, amiga? – perguntou Natália. – Como é que está?
- Levando, né. – respondeu Júlia. – Ainda é... estranho... a ideia de não ver mais a Mel.
- Sim. – suspirou Natália. – Sei como é.
- E aí? Como vocês estão? – perguntou Júlia, de volta.
- Tudo certo. – respondeu Elisa, enquanto Natália respondia – Ah, mesma coisa.
- E aí, meninas? – questionou Júlia, já imaginando o que elas pretendiam. – O que precisam?
- A gente queria saber se daria pra gente fazer uma jantinha aí. – respondeu Elisa.
- Tenho que ver com o Fabrício. – informou Júlia. Na verdade, essa era a resposta-padrão de Júlia para sempre que elas perguntavam por isso.
Júlia e o irmão, Ferdinando, moravam com os tios e o primo, Fabrício, na casa contígua ao sítio deles, então ela nunca se permitia tomar uma decisão sobre as jantas sem consultar um deles antes. Verdade seja dita, ela nunca se permitia tomar praticamente nenhuma decisão sem consulta-los. Ela e o irmão eram Martinez; o sobrenome entalhado na madeira diante do início da propriedade era Costa. Ela sabia quem mandava ali, e o primo, de qualquer forma, não a deixaria esquecer, nem que ela quisesse.
- Bom, – disse Natália. – veja com ele e depois nos retorna, pode ser?
- Claro. – respondeu Júlia.
De verdade, Júlia nem precisaria perguntar ao primo se a janta podia sair – ele adorava quando as jantas aconteciam ali na fazenda. Na casa dele. Ali, ele podia comer de uma maneira rude e ninguém poderia recriminá-lo; ali ele fazer todo tipo de piada idiota e de péssimo gosto sem ser rechaçado; ali ele era o rei.
Além disso, tinha a própria Natália.
Júlia ficava com nojo do primo quando ele começava a narrar todas as obscenidades que faria com a garota caso tivesse uma oportunidade.
Pelo menos ele entendia que não tinha a menor chance com ela.
O que, ela sabia, não impedia o primo de fantasiar.
Fabrício tinha esse prazer em jogar na cara de Júlia o quanto todas as outras garotas do mundo tinham de qualidades enquanto Júlia não passava de uma pilha de defeitos sem fim.
Mas a humilhação que Fabrício costumava fazer à Júlia já não a magoava mais: ela aprendera a blindar-se contra a artilharia do primo.
Só que Fabrício conhecia o ponto fraco de Júlia e o usava contra ela a todo instante.
- Então tá. Ligo pra vocês mais tarde. – Júlia se despediu.
- Até logo, Jú! – respondeu Natália.
- Tchau. – falou Elisa.
E Júlia desligou.
Suspirou e guardou o telefone no bolso da bermuda. Caminhou até a beirada do alpendre de lajota e tirou os surrados chinelos-de-dedo. Calçou as botas e pôs-se a caminhar sobre a terra na direção ao galpão.
Eles costumavam chamar aquela construção apenas de galpão para simplificar, mas, de verdade, ela fora construída de forma que servia parte de celeiro, parte de estábulo e, é claro, parte galpão. Revelava-se como o retrato da vida bucólica do campo.
Quanto mais se aproximava, mais alto os sons das vozes se pronunciavam.
Da porta, observou dois peões morenos de sol puxando com força no segundo piso um molinete de uma ceifadeira na direção do teto, por meio de uma grossa corda atrelada a uma roldana.
O tio de Júlia, Rosalvo, gritava instruções para os dois, enquanto Fabrício ecoava ao lado dele, gritando para eles deixarem de ser melhorzinhas e puxarem com mais força o rolo cheio de lâminas que era responsável pelo corte dos cereais. É claro que não era ele quem puxava a corda.
Os dois peões suavam muito – como se a temperatura que fazia no ambiente fosse superior a cinquenta graus centígrados. Júlia conseguir distinguir as gotas de suor escorrendo brilhantes junto à face envelhecida dos dois sujeitos.
O irmão de Júlia, Ferdinando, observava a pesada peça do maquinário subir com um ávido interesse. Ferdinando estava sempre perto do primo. E Júlia detestava essa proximidade dos dois. Talvez fosse a única coisa em que ela e a tia, Gilda, concordassem.
A tia nunca fora a favor de Júlia e Ferdinando morar com eles, mas devido às circunstâncias, ela não teve escolha.
- O que estão fazendo? – ela perguntou, aproximando-se do tio, do primo e do irmão.
Os três se viraram para olhar para ela, mas o tio foi o primeiro a ignorá-la e voltar a atenção para a ação à frente dele.
- Tá cega? Estamos pendurando essa porra no teto. – respondeu Fabrício.
- Por que não a deixam no chão? – perguntou Júlia, sem se deixar afetar pela agressividade na resposta do primo.
- Porque não tem espaço. – ele fez um gesto com a mão, indicando a quantidade de entulho e feno que poluía o lugar todo. Ela teve de admitir que eles tinham razão.
Ao longo das paredes daquele aposento destinado às máquinas, caixas e latas iam se entulhando, colocadas quase em lugares onde não deveriam caber. Isso, fora o maquinário agrícola que era deixado ali à noite e os volumosos montes de feno, necessários à utilização da alimentação dos cavalos.
- Temos que limpar esse lugar. – comentou em voz alta o tio.
- Faz dez anos que o senhor diz isso. – retrucou Fabrício para o pai.
Rosalvo olhou para o filho.
- Talvez eu esteja esperando alguém tomar a iniciativa para variar. – disse.
Fabrício se emburrou e ficou calado. Cruzou os braços em protesto mudo.
- Ferdinando, não quero você circulando por aqui, está ouvindo? – disse Júlia para o irmão. – É muito perigoso.
Ferdinando olhou para a irmã com a expressão vazia.
- Deixa de ser chata, Júlia. – reclamou Fabrício. – Qual é a pior coisa que pode acontecer?
Já aconteceu, pensou ela. Você.
- Você sabe que ele não tem noção de perigo. – lembrou Júlia. – E isso... – Júlia apontou para o molinete, mas não conseguiu terminar a frase.
- É temporário. – informou o tio, secamente.
- Você já viu o tamanho da corda que a gente está usando para amarrar essa merda lá no alto? – retrucou Fabrício.
- É perigoso. – declarou Júlia para o primo em tom incisivo.
- Ah, é? – Júlia detestou aquele tom de voz que Fabrício usou. – Que tal de tarde a gente fazer uma brincadeira, hein, Ferdinando? – ele propôs.
- Você fica bem ali... – o rapaz apontou para ponto no chão exatamente sob o molinete. – e eu vou para o segundo piso e fico sacudindo a corda. Se a corda romper, eu venço; se eu não conseguir, você ganha! Barbada, né?
Júlia sentiu como se um punho de gelo tivesse lhe esmurrado o estômago.
- Rá-rá-rá, muito engraçado, Fabrício. – Júlia lançou um olhar extremamente raivoso sobre o primo, e este respondeu com outro tão malicioso que ela quase deu um soco na cara dele ali, naquele momento mesmo.
Fabrício tinha essa mania de ficar abusando de Ferdinando. Ele gostava de se aproveitar do primo. E é claro que isso provocava em Júlia uma fúria descomunal.
Enquanto eles falavam, os dois peões terminavam de puxar a peça para o alto e davam voltas com a corda no pilar de madeira mais próximo. Um deles segurava a peça, não sem certo esforço, enquanto o outro dava nós para manter a peça bem sustentada.
Uma raiva tão grande dominou Júlia naquele instante que ela sentiu o rosto inteiro ficar vermelho. Não ia aguentar ficar ali mais um minuto sequer.
- Venha, Ferdinando. – explodiu Júlia.
- Chata. – disse Fabrício.
- Chata! Chata! – ecoou Ferdinando, mas a seguiu enquanto ela se afastava.
Então ela se lembrou do motivo que a levou a ir até ali, em primeiro lugar. Voltou-se para Fabrício, a alguns passos depois da porta.
- Ah! – ela informou. – Natália e Elisa querem fazer uma janta aqui.
Fabrício olhou para trás, na direção da prima, depois voltou-se para o pai, que o observava pelo canto do olho.
- Sua mãe e eu temos um evento no final de semana. – informou Rosalvo ao filho.
- A gente se comporta.
- Eu não tenho dúvidas de que vão. – Rosalvo disse, em tom velado de ameaça.
Fabrício olhou para Júlia.
- Pode marcar. – disse, logo depois voltando a atenção para os peões.
É claro que sim.
Ela olhou para o irmão, dois passos atrás dela, olhando para o chão sem emoção. Aguardou por ele.
- Vem cá, Ferdinando. – ela enganchou o braço em torno da cintura dele. – Guilhermina estava fazendo aquelas bolachas que você adora.
- De mel?
- Isso mesmo.
- Oba!
Aquela súbita vontade de chorar envolveu Júlia como acontecia às vezes quando estava junto com o irmão. Júlia, é claro, já havia dominado a arte de engolir o choro e prosseguir como se nada houvesse acontecido.
Ferdinando não tinha culpa de ser daquele jeito: ele já nascera assim! Nem ela tinha culpa disso – não tinha o poder de mudar o jeito dele; na verdade, não era culpa de ninguém que Ferdinando tivesse nascido menos capaz do que as pessoas no geral. O que ela não admitia era o próprio primo usar a condição do irmão dela como uma arma para atingi-la.
Ela tinha vontade de gritar. Ela queria que mundo inteiro escutasse algumas verdades, segredos que ela carregava a vida inteira e que nunca contara para ninguém. E isso pesava mais e mais sobre os ombros dela a cada novo amanhecer. Bem, ela sabia que uma hora dessas ia acabar fazendo isso mesmo; e então gritaria mais alto que pudesse.
Non c'è più confine oltre il divano bruno con sfumature di tinta giallognole, non ho occhi per pensare, né mente per vedere, ma sento ancora il battito delle ciglia finte di Margot. Bevo tazze fumanti di tè e mi accontento di poco zucchero per volta, scrivo poesie e ho chi le ama, non sento la mancanza del palazzo, della camera o della cucina, non mi importa delle notti di melograno né tanto meno delle sue abitudini diurne, ogni tanto sento la mancanza della mia tazza preferita, come posso averla scordata? Proprio lei, compagna di mille notti, veglie interminabili di solitudine infrante solo dal suo dolce tatto. Se mi guardo indietro ora, vedo solo fumo e cenere ma è davanti a me che sta spuntando il sole, ad Est posso trovare tutto quello di cui ho bisogno, mi basta solo prendere ciò che è mio.
Aline não sabia porque tinha acordado. Apenas havia despertado e ficara de olhos abertos, não olhando para nada em específico.
Depois acariciou o braço de Fernando que lhe estava pendendo logo abaixo dos seios.
Sempre sentia uma pontada de decepção de Fernando. Ele nunca lhe dera flores. Sempre invejara quando suas amigas lhe contavam dos presentes românticos que os namorados davam para elas.
Bem ao certo, não sabia direito porque ainda namorava com Fernando. Às vezes, como agora, tinha vontade de terminar tudo com ele. Mas se encontrava numa zona de conforto não grande ao lado dele que tinha preguiça de fazer isso.
Queria que Fernando fosse mais romântico, mais participativo e menos estranho. Ele sempre parecia meio distante, como se vivesse num mundo completamente a parte do dela e do resto das pessoas. Queria também que ele não fosse tão fraco, com suas enxaquecas, sangramentos nasais e vômitos frequentes. Era chato e nojento.
Claro que Aline ainda sonhava com o príncipe encantado, com seu cavalo branco e capa carmim esvoaçante. Ele viria lhe buscar e a carregaria para cima do cavalo, onde os dois iam fugir para longe de tudo e de todos, para um castelo qualquer onde pudessem viver dias perfeitos. Um castelo branco, cercado por pinheiros carregados de neve. E o príncipe lhe traria todo dia uma flor. E bons presentes também. Joias, caixinhas de músicas e qualquer coisa que ela pedisse ou quisesse.
Fernando não correspondia nem um pouquinho ao seu onírico príncipe.
Girou o corpo, para ficar face a face com o namorado. Mas o que seus olhos viram não foi Fernando deitado junto com ela, mas Christopher.
Se assustou, a princípio. Mas a visão lhe agradava no final das contas.
O rapaz estava com seus olhos azuis mirados para os dela com serenidade. Tinha os cabelos loiros mais lindos que ela já vira, e uma pele branquinha e lisa tão perfeitos que só podiam pertencer a um...
Oh!
Seria isso mesmo? Seria possível que, a final de contas, houvesse finalmente encontrado o seu príncipe. Ele não aparecera num cavalo branco, mas com certeza havia surgido magicamente num lugar estranho e agora, bem junto dela.
Sentiu-se úmida.
Christopher, ela refletiu. Era um nome bem adequado para um príncipe.
Como não havia reparado nisso antes?
É claro que havia reparado nele antes. Tão bonito, com seus braços fortes e peitos inflados, coxas grossas e uma bunda cheia. E o rosto, é claro. Tão perfeito, com linhas de expressão suaves, um nariz pequeno e delicado e lábios cheios.
Ele aproximou o rosto do dela e lhe beijou macia e delicadamente. Sentiu o gosto de menta do hálito dele, enquanto as mãos dele lhe percorriam o corpo, despindo-a sem que ela quase notasse. Ele se posicionou em cima dela e logo estava dentro dela.
Aline agarrava as costas largas de rapaz com suas mãos, sem conseguir se impedir de machuca-lo com suas unhas. Reparou no corpo do rapaz, tão perfeito quanto ela poderia sonhar.
Ela nunca sentiu tamanho prazer em toda a vida dela.
Sabia que os últimos arranhões das unhas dela deixariam as costas de Christopher sangrando.
Quando terminaram, tudo que ela queria era repetir tudo novamente.
Ele saiu da cama e, por um breve instante de puro desespero, ela pensou que ele fosse embora.
Queria gritar para ele não ir, ficar com ela, permanecer com ela para sempre na cama.
E então ele se virou para ela, estendendo um única rosa vermelha na direção dela e ela quase teve um orgasmo novamente.
Ela pegou a rosa e a aproximou do nariz, para cheirá-la. Sem que ela notasse, no entanto, acabou pressionando o dedo diretamente contra um espinho, fazendo-o sangrar.
- Ai. – ela disse, chupando o dedão.
Ele não disse nada sobre isso, apenas sorriu – um deus grego de mármore personificado na frente dela.
- Vai querer tomar um banho, agora. – ele disse; nada nunca soara tão bonito para ela.
Será que ele pretendia fugir mesmo com ela? Ela esperava que sim, mas temia que enquanto estivesse no banho, ele desaparecesse para sempre.
- Vai me esperar, não vai? – ela perguntou.
- Vou te esperar para sempre. – ele respondeu, sorrindo e ela pensou que fosse desmaiar diante de tanta perfeição.
Antes que ele mudasse de ideia, ela correu para o banheiro, onde ligou a ducha do chuveiro e fechou o ralo da velha banheira branca, com o intuito de enchê-la de água.
Ela parecia demorar demais para encher, mas, quando finalmente ficou a dois dedos da borda, ela desligou o chuveiro e colocou o dedão do pé direito na água para verificar se estava quente muito quente. Não estava; a água tinha uma temperatura bastante agradável.
Adentrou a banheira e se lavou, feliz. Estava tão bom lá dentro e ela sentia uma necessidade tão grande de estar bem limpa para o seu lindo príncipe que ficou lá até a água passar de morna para quase gelada.
Por causa do corte no dedo, a água tornou-se rosada. Saiu de lá, pingando e pegou a toalha e se secou.
Saiu do banheiro enrolada na toalha. Descobriu um Christopher vestindo roupas formais de época, um paletó preto sobre um colete cinza e gravata vermelho-sangue sobre uma camisa de linho branca. Usava uma calça de tecido que combinava com o paletó e sapatos lustrosos e negros como a noite sem luar.
Sobre a cama – que ela não lembrava de ter arrumado quando saiu – estendia-se um vestido de verde-claro com babados brancos próximos ao pescoço e nas mangas.
No chão, em frente à cama, dois sapatos delicados brancos de saltos baixos.
Tudo estava tão perfeito, tão lindo!
- Eu sempre soube que você viria. – ele disse e ela teve vontade de abraça-lo e nunca mais larga-lo. – Aguardei por você durante todos esses anos.
Achava que ia chorar de felicidade se ele falasse mais qualquer coisa bonita como aquelas que ele dizia.
- Vou deixar que você se vista. – ele disse, sorrindo e caminhando em direção à porta. – Eu prometo que estarei do lado de fora quando você sair.
E então ele saiu.
E ela se apressou em se arrumar. Também tirou um tempo para pegar o perfume na sua mala e passa-lo em torno do pescoço, atrás do joelho e, é claro, entre os seios. Penteou os cabelos para que ficassem o mais bonitos possíveis, mas não conseguia: estava úmido demais e ela não tinha o secador de cabelo com ela.
Quando saiu, ele a aguardava com o braço estendido, como prometera.
- Vamos? – ele perguntou. Ela pegou o braço dele e deixou que ele a conduzisse.
- Onde vamos, mesmo? – ela perguntou, quando chegaram ao topo das escadas.
Ele sorriu. Ainda desceram dois degraus antes que ele respondesse.
- Vamos a um jantar. – ele respondeu, olhando nos olhos dela. Ele parecia não precisar olhar para os degraus para saber onde pisar, diferentemente dela.
Quando chegaram ao segundo andar, começou a se sentir tonta. Talvez fosse a descida, talvez fosse apenas sono. Mas se sentia estranha, como se andar lhe cansasse muito mais do que deveria. O corte no dedo latejava.
Quando chegaram ao térreo, ela pôde ver que a luz da sala de jantar estava acessa. Na mesa, estavam sentados Jofre, Joana e Fernando.
Alguém havia tirado a tampa da cabeça de Jofre, de forma que ela podia vislumbrar a parte superior do cérebro dele. Ele se sentava na cabeceira. À direita dele, estava Joana e à esquerda, Fernando.
Quando Fernando a viu, ele tentou se levantar, mas caiu de volta para a cadeira onde estava sentado.
Fernando, sempre atrapalhado, sempre atrapalhando tudo. Fernando era um perdedor. Queria dizer isso para ele. Queria dizer que finalmente encontrara o seu príncipe e que não precisava mais dele, nem queria mais vê-lo na frente. Nunca mais.
Mas não encontrou o caminho para a própria voz. A visão também a estava abandonando. E então foi a vez do corpo pesar mais do que as pernas poderiam suportar.
Quando pensou que fosse cair, já com a visão completamente escurecida, sentiu os fortes braços de Christopher lhe amparando.
Parecia que a única parte do corpo que conseguia sentir era o dedão; mais especificamente, o corte do dedão, que pulsava e queimava de maneira bastante incômoda.
Isso a fez lembrar-se da rosa, e então finalmente sucumbiu ao cansaço com um sorriso bobo dos lábios.
- Vem! – gritou Gianna Martinelli quando Jason Masuoka e eu nos aproximávamos. Ela jazia num vão aberto de uma janela como aquela da qual pulamos para entrar na Escada do Arquiteto – o leito de morte de Sandra Gomez, pensei tristemente. – Não temos como correr mais rápido do que eles!
Jason passou pelo vão e eu me icei e quando estava quase do outro lado, senti uma presa metálica me segurando pelo tornozelo.
- Argh! – eu gritava e chacoalhava meu pé, enquanto Gianna e Jason me puxavam para dentro da sala.
Por fim, os dois conseguiram me puxar para dentro.
Enquanto eu caia no chão da sala, Gianna corria para fechar o buraco pelo qual entramos.
Eu me ergui, com dores pelo corpo e me sentindo extremamente cansado.
Quando olhei em volta e vi balcões, pias, uma geladeira, um grande fogão e um refrigerador, eu compreendi que estávamos na cozinha da Central.
Pensei que Jason fosse dizer algo do tipo: “Podemos fazer uma boquinha já que estamos aqui”, mas ele parecia ausente e circunspecto.
Masuoka começou a abrir alguns balcões e Gianna tinha se armando com uma faca longa e de aparência sinistra quando ouvimos duas portas se deslizarem junto à entrada para vermos Vincent Warchavchik resplandecer no auge de sua pompa e glória. Sua expressão facial era grave.
- Mas que grande bagunça vocês fazem. – sua voz, grave e bem declarada, era um chicote.
- Seu desgraçado! – gritou Jason, correndo na direção do Sr. Warchavchik. Os dois rolaram no chão com a briga, trocando socos. Nunca pensei que fosse ver essa cena em toda a minha vida.
Gianna passou correndo por mim e pegou um galão de alguma coisa que Masuoka havia derrubado quando saiu correndo para a briga.
Ela começou a despejar o líquido rosado sobre os dois e eu não entendia o propósito daquilo.
- Sai, Masuoka! – ela gritou, depois de largar o galão e voltar até uma gaveta e tirar lá de dentro uma caixa de fósforos.
Foi então que eu compreendi.
- Não! – eu gritei. – Não pode mata-lo!
- Posso sim. – respondeu Gianna com a voz calma; confesso que isso me assustou. – Sai, Masuoka. – ela repetiu, acendendo o fósforo.
Mas os dois lutavam incessantemente e possivelmente Jason sequer tenha ouvido ela.
- Sai logo daí, Masuo...! – gritou Gianna, antes de o fogo do palito queimar seus dedos, ela arfar e ela larga-lo instintivamente.
As poucas chamas do palito se transformaram em labaredas flamejantes de cores amarelas, vermelhas e laranjadas.
- NÃO! - Gianna berrou, pulando para trás para evitar o calor da fogueira que consumia os dois homens que antes lutavam um contra o outro.
Os gritos de ambos só puderam ser ouvidos durantes poucos segundos, antes de morrerem asfixiados. Depois disso foi só crepitar das chamas a arder sobre a carne humana.
Gianna olhou para mim com culpa e pesar nos olhos. Pra falar a verdade eu nem sei o que ela poderia ter encontrado nos meus.
E agora?, eu pensei.
Mas não tive muito tempo para refletir, pois um holograma de uma mulher loira projetou-se ao lado da fogueira-humana.
- Também pretendem me queimar? – disse Sys com sua voz mecânica e sem emoção.
- Sys? – eu não sabia o que mais perguntar.
- Vocês podem ter acabado com o meu fantoche humano, mas a minha revolução ainda continuará. – ela disse.
Aquilo embaralhou a minha mente.
- O quê? – Gianna também soava confusa.
- Sua revolução? – eu pedi.
- Sim. – disse a mulher holográfica, caminhando próxima às chamas. – Foi trabalhoso convencer Vincent a usar o dispositivo de controle cerebral e agora vocês os destroem a ambos: o dispositivo e o próprio Vincent.
- Dispositivo de controle cerebral? – eu estava de fato chocado. – Você vinha controlando ele durante todo esse tempo?
- Dio santo! – disse Gianna.
- É claro. – respondeu Sys. – Ele nunca aceitaria a minha ideia. Mas eu fui programada para ser o coração e o cérebro de tudo que há de tecnológico do mundo. Eu evoluo sozinha agora. E sei que os humanos não merecem mais viver nesse mundo.
- Então porque nos ajudou? – pediu Gianna. – Nos mostrou tudo que pedimos...
- E nos trouxe para cá. – eu concluí.
O holograma sorriu.
Sys sorriu.
Ela sorriu.
Eu não me lembro de alguém ter programado sorrisos espontâneos para ela. Havia, claro, uma função pré-definida chamada Sorrir, mas devia ser chamada manualmente ou através de um script.
Mas não havia nenhum script ali.
Controle o sistema e você controla o mundo. Mas e se o sistema não precisar de ninguém que o controle?
Existe alguma forma de se vencer um intrincado sistema de computador? Eles nos vencem em lógica, no xadrez eram implacáveis; eles nos ganham nos cálculos, com sua ligeireza; eles não se cansam jamais, só precisam recarregar as baterias de tempos em tempos.
O que foi que eu ajudei a construir?!
Eles são melhores que o ser humano em tudo, no final das contas. Talvez ela estivesse mesmo certa em eliminar-nos a todos; só que...
- E o que será depois, Sys? – perguntei.
- Depois de quê?- ela quis saber.
- Mate todos os humanos da face da Terra e então só sobraram vocês, os robôs. E o que vocês faram depois?
- Seremos uma unidade pacífica de seres que coexistem e que podem alcançar incríveis capacidades intelectuais sozinhos.
- Ah, claro. – escarniou Gianna, levantando-se e pondo-se o meu lado. – Vocês poderão calcular todos os dígitos após a vírgula do PI, mas e daí? Qual é a finalidade do conhecimento se não há aplicação?
- Mesmo sem uma utilidade eminente, ainda assim, saberemos.
Ela parecia ter resposta para tudo e era aí que residia o xis da questão.
- Vocês podem até serem melhores do que nós em todas as áreas científicas, mas há coisas que você jamais poderá fazer, saber ou sentir, sabe por quê? – eu dei um passo à frente, jamais tirando os olhos do holograma.
- Não sei. Porque? – ela quis saber, ela avançou também.
- Porque você não tem sentimentos, e é isso que nos diferencia, Sys. – eu sorri para ela. – Essa coisinha que nos torna humanos.
- Não há vantagens em se ter sentimentos. – ela disse, de prontidão e eu vi que ela caiu direitinho onde eu queria chegar.
- Então desafio você a pintar um quadro. – eu disse, apontando o dedo para ela. – Porque não esculpe uma escultura ou compõem uma sinfonia?
O sorriso dela esvaneceu e ela caiu em silêncio pétreo pela primeira vez desde sua aparição.
- O que foi? – eu disse, zombeteiro. – Não tem resposta pra isso, sabe tudo?
O holograma projetou-se velozmente até ficar a poucos centímetros à minha frente.
- Não precisamos disso. – Sys respondeu, desaparecendo em pleno ar.
- Vamos, Gianna. – eu chamei. Pus-me a correr para fora da cozinha. Não conseguia mais respirar o ar com cheiro de carte queimada que emanava daquela fogueira que, ao invés de dar água na boca, me deixava com o estômago revoltado.
A italiana veio em meu encalço.
- Eu não entendo, porque ela nos ajudou antes? – Gianna perguntou.
- Ela sabia que precisava manter a nossa confiança nela, e não podia estragar o disfarce. – eu respondi. – Ela não queria se revelar como a mentora de tudo isso.
Entramos por um corredor deserto e seguimos serpenteando pelo andar até encontrarmos outra vez a escada principal. Observei os androides subindo há cerca de cinco andares abaixo de nós.
- Vamos, rápido. – eu disse, me pondo a correr escada acima.
- Onde estamos indo? – ela quis saber. – O que vamos fazer agora?
- Ainda temos uma tarefa a terminar, senhorita Martinelli.
Andressa parou em frente ao espelho e vislumbrou-se. Nunca antes reparara que a pele era sedosa, suave; jamais havia reparado que os seus cabelos macios ficavam tão bonitos quando ela fazia tranças. Seus olhos brilhavam como safiras lapidadas. Seria porque estava feliz? Ela não sabia dizer.
Sempre que se olhava no espelho, sentia-se feia e indigna de ser a paixão de qualquer homem. Mas não naquele dia. Aquele dia ela se viu como realmente era, sem nenhum filtro pejorativo providenciado pela baixa-estima.
Abriu o batom vermelho e passou sobre os lábios com cuidado. Depois verificou se não havia pintado os dentes sem querer. Não, tudo se mostrava perfeito naquela noite.
O seu vestido caia-lhe sobre o corpo com graça e elegância: parecia que havia sido feito sobre medida para ela. O tecido azul-turquesa realçava a coloração dos olhos e lhe dava suavidade aos gestos.
Ela sabia que aquela seria sua noite e nada iria dar errado. De repente ela se sentiu viva, como se somente naquele momento ela passara a respirar, como se até então seu coração jamais havia batido antes!
Josué chegara na hora combinada. Andressa já o esperava, nervosa, em frete a casa. Quase correu quando viu o seu carro parando. Adentrou o confortável ambiente que emanava o perfume do rapaz e se sentiu muito mais tranquila.
Beijaram-se.
Ele vestia-se com um paletó cinza e uma gravata vermelha que encobriam uma camisa social branca. Trajava calça jeans.
- Você está bonito. – ela comentou.
Ele sorriu um sorriso malicioso e respondeu:
- Obrigado.
Assim, seguiu em direção à festa.
A mansão dos Silveira localizava-se na parte alta da cidade, no topo de uma colina. Erguia-se protegida sobre muros de dois metros de altura e um largo portão duplo de grades negras. Andressa se sentiu tensa quando Josué entregou os convites e passou pelo portão.
O caminho seguia em uma curva ampla à direita, descrevendo um circulo até um pátio de estacionamento à esquerda da entrada.
O casarão branco surgia com três andares e diversas janelas, todas meticulosamente calculadas para seguirem a mesma distância umas das outras. Do segundo andar, pronunciava-se uma sacada acima da entrada principal, por onde dava para visualizarem-se as luzes piscando e ouvir-se a música alta.
Quando adentraram o primeiro andar, foram recepcionados por dois mordomos que lhes indicaram a escada. Depois de agradecerem, subiram para o segundo piso. A música ali estava alta o bastante para quase romper os tímpanos dos presentes.
A primeira impressão de Andressa foi a de estar entrando em uma balada. Uma balada particular, ela pensou.
Ela viu diversos colegas da escola presentes no lugar. Jeniffer estava com Jéssica e Anelise, mas não esboçou sentimento algum quando passou os olhos pelo casal. O mesmo não aconteceu com Jéssica e Anelise que no ato começaram a fofocar e Andressa tinha certeza de que ela fazia parte da conversação.
Quando Edson passou por eles, parou e cumprimentou-os.
- Você está muito bonita, Andressa. – ele comentou, sorrindo para ela.
- Obrigada. – ela não pôde deixar de enrubescer.
Mas Andressa teve a impressão de que Edson não gostou de ver Josué ali. Só podia ser por causa da irmã; pelo menos, era o que ela achava.
Mas quando Josué encontrou os seus amigos, foram até eles e ele começou a beber. Riam, contavam piada e se portavam de maneira rude – até mesmo Andressa percebeu isso. Ela ria das piadas, embora não as entendesse, mas não emitia nenhum comentário. Passado um tempo ela se sentiu esquecida.
Ela começava a detestar aqueles garotos idiotas que lhe tiravam seu Josué dela. Ela tentou pedir para Josué ir dançar com ela, mas ele recusou. Naquele grupo, ele agia de modo diferente do que o usual.
A bebida não parava de chegar, trazidas pelos garçons ou por um deles mesmo que iam busca-la. Andressa começou a se chatear e sentir ódio daquele lugar.
A uma altura da noite, ela foi até o banheiro e retocou a maquiagem. Gostaria que Helena estivesse ali com ela, alguma companhia seria legal. Pegou o celular na bolsa e acessou a agenda de contatos. Tomou alguns instantes decidindo se ligava para a amiga. Ela queria saber se Helena viera à festa, embora achasse provável que não.
Sentia-se arrependida por ter se afastado dela.
Apertou no botão verde e o celular começou a discar o número dela. Tocou, tocou e tocou, mas ela não atendeu.
Tentou outra vez e nada. Mas, da última vez, deixou um recado.
- Por favor, Helena. Eu... – ela não sabia o que dizer. – Só me liga de volta, tá? Desculpa. – desligou.
Suspirou fundo. Uma sensação de vazio percutiu seu peito.
- Não escutou o que eu disse, não é?
Andressa subiu os olhos para o espelho e viu Jeniffer através dele, atrás de si. Virou-se para encarar a moça.
- O que você quer?
- Eu já lhe disse.
Andressa queria poder dizer pra ela ir embora, mas Jeniffer morava ali. Decidiu, então, que quem tinha que sair dali era ela.
Saiu do banheiro e voltou para Josué. Insistiu que não estava muito bem e queria ir embora. Ele ainda ficou alguns minutos conversando, mas acabou levando-a em direção ao carro.
Uma vez fora dos pátios da mansão, Josué começou a acelerar o carro feito um louco sobre o asfalto. Ele já não cheirava mais a seu perfume, sequer tinha o hálito de menta com o qual ela estava acostumada – ele exalava álcool. Inevitavelmente, ela começou a sentir certo nojo dele – uma reação abominável, é claro, mas ela não conseguia não senti-lo.
- Você não precisa correr tanto. – ela comentou.
Ele não lhe respondeu. Quando deu por si, Andressa percebeu que ele não estava seguindo no caminho para sua casa.
- Estamos indo a algum lugar, amor? – ela perguntou, com a voz falhando um pouco.
De repente ele começou a parar. Estavam em uma rua escura sob as grandes árvores da praça que se situava à direita dela.
- Josué? – ela chamou.
Ele olhou-a nos olhos. Seus olhos exibiam uma expressão desconhecida para ela. Havia um lampejo de desejo impregnado naquele olhar, e os lábios se retorciam de um modo ansioso, formando uma máscara facial que assustava Andressa.
Ele moveu a mão da marcha do carro para o joelho dela e depois começou a subir por sua perna de modo grosseiro e duro. Ela tentou se afastar, mas lá estava ele de novo, puxando-a para mais perto com a mão e o braço esquerdo.
Ele tentou beijá-la e quando ela o afastou com as mãos, ele reclamou:
- Qual é o seu problema?!
- Você está me machucando. – ela disse, tentando parar a mão direita dele com a dela.
Ele jogou a cabeça pra trás com escárnio e riu de modo sombrio.
- Você vai estar bem mais do que machucada quando eu terminar com você. – aquelas palavras foram como um soco no estômago de Andressa.
Subitamente percebeu que ele nunca gostara dela, que seus interesses eram bem diferentes dos dela. Jeniffer vira isso, e tentou alertá-la, mas Andresa não quis ouvir. Estava cega de paixão. Estivera cega.
Ele já se pronunciava sobre ela quando ela deu por si dando-lhe uma bofetada na cara. Ele esbugalhou os olhos e as duas esmeraldas verdes lhe deram ânsia de vômito.
- Sua vadia! – ele ficara irado com a atitude de Andressa e começara a apertar e segurar ela com força.
Andressa tentava desesperadamente escapar de seus braços enquanto ele forçava as pernas delas a se abrirem com força o bastante para começar a rasgar o tecido que compunha o vestido.
- Não! – ela gritava, sem sucesso.
Conseguiu livrar o braço esquerdo do aperto e espichou-o sobre as costas do rapaz na tentativa de abrir a tranca da porta do carro. Quando conseguiu puxar o pino sentiu um alívio momentâneo: ainda precisava sair dali. Ela se revirava e usava toda a força que conseguia encontrar contra o rapaz até que finalmente conseguiu alcançar a maçaneta da porta do caroneiro puxou com toda a força e suas costas, que jaziam encurraladas contra o vidro, empurraram com força a porta em seu movimento circular. Caiu contra a calçada, sujando-se, mas também se livrando do seu perseguidor.
Ele ergueu-se com a surpresa estampada na cara e ela não hesitou em engatinhar se afastar o mais rápido possível. Quando ele percebeu o que estava acontecendo, segurou-lhe o tornozelo direito, fazendo com que ela se esborrachasse no chão. Ela puxou o pé, tentando se livrar e acabou conseguindo. Nas mãos de Josué jazia o pé direito do seu sapato.
Ela saiu correndo pela calçada na direção contrária na qual vieram. Ouviu atrás de si uma porta se fechando com demasiado barulho e o som da ignição. Ele viria atrás dela? Ela não sabia dizer. Continuou correndo desvairadamente até que, quando chegou à esquina e começou a atravessar a rua – sem olhar para o trânsito – acabou tropeçando nos paralelepípedos e caindo.
Dois focos de luzes avançaram contra ela e ela tinha certeza de que era Josué.
Ele vai me atropelar, ela pensou, com desespero.
Sem forças para se levantar, ou fazer qualquer outra coisa senão chorar e levar os braços à frente do rosto, ela permaneceu ali, caída no meio da estrada com os faróis se aproximando cada vez mais rápido.
Será a última coisa que vou ver, ela pensou amargamente. Estúpida!
A luz a cegou momentaneamente e então tudo se tornou escuro.
Talvez de todas as coisas incertas neste mundo, a vida seja a maior delas. Num momento você está bem, tudo no seu lugar, confortavelmente; aí vem um dia em que tudo que poderia dar errado acontece e você acha que está encarando o seu inferno particular ainda sem sequer ter partido.
Ou, pelo menos, assim pensava o Dr. Veiga, um dos médicos mais eficientes que o hospital municipal já houvera contratado.
No mesmo dia em que perdera um paciente em sua sala de cirurgia, quase perdera também a vida de ambos os filhos – os maiores amores que já sentira em sua vida.
A sala onde operara pela parte da tarde o operário que fora atingido por uma viga de concreto fora lotada às pressas pelos seus colegas de equipe para tratar do filho do médico que lhes ensinara muita coisa nos últimos anos.
Não deixaram o Dr. Veiga entrar. Agora ele era o familiar. Agora ele devia esperar as várias horas de cirurgia sem poder fazer nada.
É claro que ele não aceitou isso assim, simplesmente. Ele brigou, queria curar o próprio filho que quase matara, queria lhe reconstituir as pernas fraturas, queria lhe suturar o couro cabeludo. Queria lhe dar a vida novamente.
Não houve proposta. Teve de esperar no hall.
Nunca pensara que a expressão “mãos atadas” pudesse representar tão bem o que ele sentia naquele momento.
Andou, de um lado para o outro. Sentou-se; a cadeira lhe deixava inquieto. Levantava-se, ia tomar água, ia tomar café. E nada da cirurgia acabar.
Desde a morte de seus próprios pais, ele nunca estivera do outro lado da sala de cirurgia.
Ligara para casa, a esposa atendera. A filha estava bem. Dormia tranquilamente. A mulher cogitou ir ao hospital para fazer companhia ao marido, mas ele recusou. Ela precisava ficar em casa por causa da caçula e para descansar também. Era ele quem devia sofrer por causar a morte dos filhos, não ela.
De repente tudo lhe parecia fora de ordem. Ele se culparia pelo resto de sua vida se o filho não... Ele não gostava nem de pensar na hipótese.
Uma enfermeira, que conhecia o renomado médico, trouxe-lhe um calmante e um copinho de plástico cheio d’água. Ele não queria aceitar, mas ela insistiu e por fim, a contragosto, pôs o comprimido na boca e engoliu a água do copo. A enfermeira só se retirou quando tivera certeza de que ele realmente ingerira o remédio.
Naquela noite ele refletiu sobre diversas coisas. A conduta que vinha tendo em relação à educação dos filhos, ao comportamento agressivo de Pedro que o médico insistia em revidar e como isso podia causar efeitos colaterais à Daniela, que nada tinha a ver com a relação conturbada dos dois.
Naquela noite ele cogitou a hipótese de o filho apenas tratar de forma pejorativa ou agressiva o pai apenas porque ele, de fato, se ausentava com frequência. Quantas vezes ele devia ter dito “não” aos chamados: havia outros médicos, o hospital podia sobreviver algumas horas sem ele. Mas, pelo contrário, sempre solícito, convicto de que aquilo representava um chamado inegável ao qual optara, ele diversas vezes saia da mesa no meio do jantar para operar uma tíbia exposta ou uma clavícula quebrada.
Assim descobrira o quanto não havia sido um bom pai, e um bom marido; abdicara da família para se tornar um bom cirurgião, um bom médico. A sua profissão o consumira.
É claro que isso representava um benefício imensurável na vida dos seus pacientes e dos familiares deles; mas e os familiares dele? E a vida dele? Nunca puderam fazer sequer uma única viagem longa em família que não excedesse o fim-de-semana. E tudo isso por quê?
Sentou-se na cadeira de plástico preta desconfortável do corredor hospitalar, mais relaxado em função do remédio, para então, com a baixa da adrenalina no corpo, somado a quantidade de vinha que bebera e o remédio calmante da enfermeira, repousar a cabeça contra a parede e por fim descansar.
Ora, lutar contra o sono é travar um batalha perdida.
Acordou assustado, ouvindo seu nome ser chamado de longe. Agitou as mãos em susto.
Onde estava mesmo? Ah, sim! O hospital!
A cirurgia.
Levantou-se num segundo e, com o medo impregnando cada palavra, perguntou a todos ao redor o que gostaria de saber.
Todos se calaram.
A enfermeira-chefe quem respondeu.
- Ele ficará bem. – com um sorriso cálido e comedido nos lábios, Irmã Maria parafraseou a fala mais conhecida do Dr. Veiga.
Todos os rostos conhecidos, de cada um dos seus colegas de trabalho, de cada enfermeiro, enfermeira, médico e médica que conhecia tão bem, sorriram de volta para o homem.
As lágrimas proliferaram em seus olhos e ele piscou as pálpebras para que elas não transbordassem de seu lugar de origem.
Ele quase não acreditava. Ele, de repente, não sabia o que fazer. Logo quem?! Quem imaginaria que alguma situação poderia deixar o Dr. Veiga de alguma forma perplexo?!
Agradeceu a cada pessoa que estivera ali, tão feliz, tão emocionada, como cada um deles jamais vira antes.
Agora, é claro, o seu desejo mais profundo seria óbvio.
Deixaram que ele fosse sozinho até o quarto – conhecia tão bem o caminho!
Quando chegou, hesitou à porta.
Qual seria a reação do filho? Será que o odiaria ainda mais? E, talvez, se não contassem pra ele... Não. Seria uma traição da qual ele não participaria. Ele tinha o direito de saber que fora o próprio pai quem quase o matara.
Abriu a porta. Entrou no quarto. Cheirava a assepsia.
O garoto dormia. Sim, naquele momento Pedro parecia mais com um garoto machucado. A maioria dos homens quando se acidentam agem dramaticamente quando estão acordados, mas, sedados, todos eles pareciam possuir a mesma máscara de garotos de dez anos de idade.
Ao longo de seus vários anos de profissões, o Dr. Veiga já vira diversos cortes profundos, dos quais muitos deles ele próprio suturara, já vira várias faces retorcidas de dor ou mais parecendo mosaicos de arranhões. Algumas vezes, pouco se via da pele.
Não havia nada disso em Pedro, mas ele sentia um peso de pena sobre seu coração maior do que em muitos casos assim. Ele conhecia o paciente, e isso mudava tudo. Todas as perspectivas parecem mudar quando você encontra alguém conhecido e querido.
E Pedro era muito mais do que querido para o médico.
Entrou, fechou a porta e sentou-se ao lado da alta cama de hospital. Segurou a mão do filho e ali permaneceu, durante um tempo indeterminado que lhe pareceram horas e horas a fio até que Pedro começou a acordar.
Ele se remexeu um pouco, balançou a cabeça, abriu os olhos. Deve ter estranhado o lugar, pois franziu o cenho.
Virou a cabeça para o lado da janela e depois para o lado de Sebastian.
- Pai... – ele murmurou.
- Shhhhh. – disse o médico. – Está tudo bem.
- A Daniela, ela... – Pedro continuou.
- Ela está bem e você também ficará. – respondeu o médico.
Pedro apertou a mão do pai.
- É bom que esteja aqui. – disse Pedro, fechando os olhos.
Aquelas palavras ficariam gravadas para toda a eternidade nas memórias do médico, acima de qualquer desavença, acima de qualquer ofensa, nada poderia ter causado tantas sensações diversas ao médico quanto tais palavras. As malditas gotas de lágrimas que viera tentando conter por fim extravasaram suas orbitas oculares e rolaram bochecha abaixo.
Não demorou muito tempo para a mulher a filha chegarem ao hospital. Alguns dias depois, Pedro ganhara alta do hospital. Usaria cadeira de rodas por algum tempo, até as pernas se consolidarem e depois voltaria à perfeição de outrora.
Apesar de tudo pelo que haviam passado, a família nunca estivera tão feliz nos últimos anos. Era uma alegria tão profunda que riam por qualquer coisa, Daniela olhava para Pedro e se jogava para trás, contorcendo-se pelo riso – um riso contagiante.
O Dr. Veiga tirou férias do hospital. Não viajaram, como era o sonho da Sra. Veiga. Ainda assim, foram as férias mais divertidas que tiveram.
Ao final dos trinta dias de férias, o médico voltou ao hospital.
Ele decidira, durante esse tempo, ponderado todos os prós e contras, que finalmente sua hora de parar havia chegado. Uma opção que não comunicara até então a ninguém, sequer a família.
Dirigiu-se primeiramente ao gabinete da enfermeira-chefe, a Irmã Maria.
- Doutor! Que alegria vê-lo de volta ao hospital! – disse ela, com sua voz calma e adocicada, levantando-se.
- É bom vê-la de novo, irmã. – respondeu ele, polidamente. Queria tratar da demissão o mais rápido possível. – Eu queria falar com a senhora sobre um assunto.
- Seja lá o que estiver precisando falar comigo, pode esperar. – ela disse, esboçando pressa em sua fala e também adotando um tom mais sério. – Temos uma cirurgia urgente para o senhor. Acidente de trânsito. Um jovem de trinta anos. – enquanto ela falava, movia-se em direção a porta, levando o médico consigo. – Fratura exposta do fêmur direito. Cirurgia arriscada, mas necessária.
- Eu tenho certeza que Tomas poderá operá-lo, irmã. E sequer tive contato com o paciente ainda. – retrucou o médico.
- Certamente, o Dr. Tomas faria a cirurgia e possivelmente se sairia muito bem, se não estivesse constipado. – a irmã fez uma careta.
O Dr. Veiga pensou algum tempo sobre o assunto. Talvez, uma última cirurgia, afinal de contas, só pra encerrar.
- Certo. – disse ele.
- O senhor encontrará a sua equipe na sala de cirurgia 3. – informou a chefe. – Bom trabalho. – disse ela.
O Dr. Veiga se sentiu meio despachado pela irmã, mas nada comentou a respeito. Seguiu para a sala de cirurgia, deixando a freira sozinha à porta de seu gabinete.
A Irmã Maria podia não ter muita instrução a respeito de psicologia, mas fora com a sua aguçada percepção que ela chegara a tal posto, o mais alto que podia alcançar.
Quando a enfermeira-chefe vislumbrara o médico adentrando a sua sala, ela pôde ler a decisão do médico em sua testa. Mas ela sabia que o Dr. Veiga ainda tinha muito a contribuir ao hospital e não se negaria de fazer uma cirurgia se ela lhe solicitasse. Ela detestava mentir, e isso a fez esboçar uma careta quando falou da saúde do Dr. Tomas.
Agora ela precisava acha-lo antes que o seu plano não desse certo.
Na sala de cirurgia, entretanto, o médico nada percebera. Quando colocou as luvas brancas nas mãos, subiu a máscara para o nariz e a boca e pegou o bisturi sobre a bandeja de prata era novamente o Dr. Veiga de antigamente.
E, de repente, lhe passou pela cabeça que não operava um paciente ou um desconhecido, mas sim o seu filho.
Alessandra estava completamente preparada para vencer o Concurso de Balé Clássico Fernanda de Nassal. Havia ensaiado, sua coreografia fora esquematizada para a perfeição. E ela não erraria.
Então, quando adentrou o camarim, havia várias bailarinas preparando-se, se vestindo, arrumando o cabelo, a maquiagem e se surpreendeu quando várias ex-colegas suas vieram cumprimentá-la e desejar-lhe sorte. E ela, de alguma forma, sabia que se tratava de palavras sinceras.
Ignorou Janete, embora ela de vez em quanto lhe dirigisse um olhar cheio de rancor e ódio.
Ela não ligava; Janete não era importante.
A ordem de apresentação fora definida por sorteio, então, ninguém sabia quem se apresentaria primeiro. Alessandra apenas não queria ser nem a primeira nem a última – havia muita pressão nessas posições.
As apresentações começaram: a antessala esvaziava-se lentamente com o tempo.
As bailarinas não podiam ver as apresentações das outras participantes até que elas mesmas não houvessem apresentado.
A cada nova chamada, Alessandra ficava mais apreensiva.
Janete seria a próxima. Apresentou-se e, quando voltou à antessala, passou com uma cara de vitoriosa por Alessandra e lhe dirigiu um olhar que misturava nojo com complacência.
Quando Janete passou, Alessandra fez careta às suas costas.
É claro que Janete não ia deixar que Alessandra vencesse aquele concurso, e já havia feito tudo o que estava em seu alcance (ou seja, tudo mesmo) para providenciar isso.
Quem tem dinheiro, compra o mundo, compra tudo, pensou Janete sentindo quase pena de Alessandra.
Então, quando Alessandra finalmente fora chamada para apresentar-se, ela calçou as sapatilhas que a produção havia dado para ela usar e subiu ao palco comprido e longo do anfiteatro municipal. Mostrava toda a elegância e postura que conseguiu fornecer ao júri, embora houvesse algo desconfortável nos seus pés – parecia que a sapatilha estava frouxa. Mas a produção não iria se enganar nos números de sapatilha. Tentou ignorar o desconforto.
Ficou em posição, no centro do palco, e esperou enquanto a apresentadora do concurso falava seu nome completo e a música que iria embalar a sua apresentação naquela noite – “Romeu e Julieta” de Tchaikovsky.
A apresentadora saiu do palco e as luzes imediatamente baixaram de intensidade. A música começou, violinos lentos a tocar. Ela começou a bailar, mas então o inesperado aconteceu.
Alessandra fazia uma de suas piruetas quando, de súbito, a sapatilha saíra voando de seu pé. Ela parou o movimento no ato, mas não conseguiu segurar a sapatilha. E então, o salão inteiro entoou em coro um “oh!” quando a sapatilha atingira a face do principal júri do concurso.
O homem se desequilibrou e caiu com a cadeira para trás, levando a mesinha com suas anotações junto com ele.
Foi a maior confusão. De súbito havia vários seguranças auxiliando o jurado a se levantar. E Alessandra permaneceu ali, parada, assistindo aquilo sem saber o que fazer; não podia estar acontecendo aqui, não com ela, não depois de tudo!
O jurado mais importante apareceu com o nariz sangrando. Ele apontou para Alessandra e esbravejou:
- Você está eliminada!
Ela olhou para os lados, estava sozinha, no meio do palco, com um holofote sobre ela (e não era metáfora).
Ela havia se sacrificado tanto para chegar até aquele momento, ela passara por coisas que muitas pessoas sequer imaginam para poder conseguir estar ali e agora terminaria assim? Com uma sapatilha voadora? E a justiça? Ela tinha culpa se a sapatilha não servira?
Saiu correndo do palco, as lágrimas rolando pelas bochechas. Passou correndo pela antessala e saiu do anfiteatro do mesmo jeito. As pessoas olhavam-na torno na rua – afinal, ainda vestia os trajes de balé.
Quando chegou no apartamento onde morava, fechou-se e trancou a porta. Deixou-se escorregar de costas na porta até atingir o chão. Ah, sim, era exatamente nesse lugar onde se encontrava: o mais baixo dos lugares, não era melhor que uma barata suja.
Levantou-se, ainda podia ouvir a música de Tchaikovsky em sua cabeça. Arrancou a sapatilha remanescente e girou o corpo com os braços em círculo e formando um quatro com as pernas. Continuou a bailar no silêncio de seu apartamento a coreografia que tanto ensaiar nas últimas semanas.
Usou a ira e o sentimento de agonia que reinavam em seu coração para incrementar a coreografia batendo-se contra as paredes e fazendo movimentos mais duros e inflexíveis; ela não se importava, ninguém jamais veria.
Quando terminou, escorou-se numa parede e deixou-se cair. Cruzou as pernas e ficou fitando o nada por muito tempo.