Sobre a Perversão de estrutura/
O desejo, ainda, em um só curso soberano, institui a demanda de amor.
Uma fantasia acena ao palco e conclamando as máscaras configura a cena.
Do Outro lado, nos bastidores, um modelo de carne e osso é usado para ensaio esperando o corte, o abrir das cortinas.
É o tempo de olhar, de gravar as cores, de tragar com o corpo a doce fala de amor.
Primeiro tempo lógico e tempo de lalíngua.
Mas, o palco é a céu aberto.
Ventos e barulhos vindos de fora corroem a certeza e sussurram aos ouvidos... Não há só flores, há mau cheiro e espinhos...
Sim, mas você tem que entrar?
De viés, você surpreende, atrás, o escuro... E de repente um silêncio... E sem entender, a causa, sua barriga vazia toca sua pele fria... Você está só?
Tempo de entender e se separar.
De longe, a velha e quase inaudível cantiga de ninar encoraja o ato... A peça está na eminência de começar...
Ouvindo o farfalhar das pesadas cortinas, pelas frechas do tecido rasgado você apreende a surpresa... Não há ninguém na plateia!
Desamparo, amparado pela lembrança de doce deleite, mas magnificado pelo ódio do engano e da diferença.
Ela... Não é onipresente?
Até aqui, em hipótese, todos chegamos e um novo sujeito pode advir.
Estamos na beira do discurso com a libra de carne na mão.
Se não a jogamos fora, psicose, as cores e a melodia das palavras se transformam em mudos e negros fantasmas. Não saímos do primeiro tempo lógico e fora do discurso nos tornamos presa fácil das palavras.
Mas, via de regra, num primeiro ímpeto, nos jogamos e a grande maioria estrutura sua fantasia, amparada pelo álbum de reminiscências e fotografias da cultura, da alma, do Grande Outro.
Estamos no segundo tempo lógico, na soleira da porta, mar de significantes esperando sujeição.
Se a pulsão de vida prevalecer, rompemos, pela via amorosa, o pacto alienante original.
Acionando, no escuro, o jogo de quebra cabeças e adivinhação fazemos uma escolha.
Substituímos a meta impossível por tiro simbólico de longo alcance.
Aos poucos, passo a passo, atravessamos o espelho e nos tornamos efeito de linguagem.
Em mudez produtiva, ou em dor aplacada, atravessamos o real do corpo, falando, até a morte do corpo real.
Mas a maestria inconsciente é tirânica e às vezes não cede ao furo do Outro.
Se a parte beligerante que se contradiz à castração não se render ao discurso furado e sujeitado da Linguagem...
O lugar do Outro é desmentido, no ato, em cena.
Na posição neurótica, de posse da ilusão, o sujeito nega o efeito da Lei e busca no seu arsenal, de aceitos enganos, máscaras capazes de fazer o giro de discurso.
O inconsciente sabe e tenta escamotear a função da lei.
Na posição perversa, o inconsciente a sabe, mas tenta desmenti-la.
É interessante pensar que na neurose aquilo que move a cena inconsciente é o desejo barrado versando em direção ao Pai.
O alvo da neurose estrutural é a perversão.
Na neurose, a plasticidade da fantasia possibilita intensa variação e produção de soluções e respostas imaginárias.
É a estrutura plástica da fantasia que sustenta o exercício da lei.
Na posição perversa o desmentido da castração tensiona a capacidade simbólica e a busca do gozo se estreita.
O real do corpo se aproxima do corpo real e surge a urgência do fetiche.
O fetiche beira o discurso e tem como função emperrar o seu giro.
O fetiche deve ser entendido como uma função que invade a cena inconsciente e tem como finalidade reter e desviar a pulsão da produção de novos sentidos. De novas e frescas imagens.
A função do fetiche, assim como na recusa psicótica, é impedir o deslizamento do significante mestre e, assim, desqualificar a função do laço social diante das irrupções do real.
Entretanto, na Perversão de estrutura, há cena primária e o seu alvo é a Neurose.
É pelo discurso do mestre que a função da linguagem se faz emergir.
Na beira do discurso, diante do susto, frente a castração do Outro, uma cena primária, uma fantasia estrutural, responde a um impossível de dizer.
Um significante mestre, agenciando a verdade escondida, irrompe frente ao efeito discursivo de um saber, ainda, constituído e, mais, demanda a confirmação de um Outro, efeito, produzido e estrutural, enunciado.
Momento da repressão primária, de barragem, da inauguração do tempo lógico, da corda do giro, da validação fundante e da formação do ideal do eu e do supereu.
Uma hipótese lógica discursiva amparada entre o corpo real e o real do corpo faz funcionar o giro pulsional da linguagem.
Consonância entre uma hipótese significante, um corpo real e um real de corpo.
As invasões do Outro são implacáveis, o real inapreensível invade o discurso da hora.
A hora se fragmenta e num instante fugaz, talvez, desponte o desejo em busca de nova resposta.
Na neurose estrutural a histericização discursiva desencaixa, da dúvida, a pretensa certeza e interroga a enunciação dita.
O dito pode, ainda, prevalecer, mas o tempo lógico, em movimento, faz deslizar a cadeia significante em direção a dúvida.
A movimentação simbólica, em tempo lógico, formata a morte, em escolhas, em vida.
A dúvida é o contraponto à universalização de qualquer saber.
A dúvida é a única opção diante da castração simbólica.
A dúvida ampara a lei porque, da lei, duvida.
A lei ampara o direito de escolha.
Diante do susto à castração do Outro, a fantasia significante a desmente e tenta se configurar, no lugar do mestre, como objeto que atende a função fetichista.
Suprimir o efeito de fading no parceiro sexual.
Ocorre uma tentativa de inversão discursiva.
A função do objeto fetichista é buscar a operação lógica impossível.
É parar o tempo lógico e petrificar o que, da morte, se diz, com falta de escolha.
O deslizamento significante opera na beira do discurso, pois com o desmentido, da dúvida, é demandado ao Mestre, ao Outro, o impossível de dizer, a morte.
Na perversão, a fantasia enquanto meia verdade tenta desvelar no Outro o efeito de horror do furo estrutural.
O gozo do perverso versa ao Outro visando causar um gozo para aquém do real do corpo.
A resposta, o gozo buscado no Outro, visa uma produção discursiva que beira o corpo real.
A plasticidade da cena, o uso de máscaras é reduzido, na busca do gozo há uma urgência de aproximação entre a palavra e a inscrição do ato.
A pulsão de morte, sustentada pela função fetichista, tenta prevalecer na cena.
Se voltarmos ao segundo tempo lógico, atrás da cortina, no intervalo, cena inenarrável, que antecede ao terceiro tempo lógico, a magia das palavras... O perverso de estrutura sabe, agencia o relógio cronológico... Caminha no limite da lei... Na beira do discurso... Incomoda, avalia com sensata absurdez o tamanho da libra de carne que deseja se desfazer... Desmente o Outro, o discurso analítico...