Sobre uma pessoa transgênero no 1º dia do Enem
Madrugada, 2:00 da manha, eu chorava compulsivamente no meio de uma crise de pânico, aparentemente por um motivo completamente desconexo ao exame do Enem, não sei quanto tempo fiquei assim ou o quanto demorou pra apagar de sono. Nada fazia parar o choro, meu coração parecia pesar toneladas esmagadas no menor espaço possível de mim. Minha companheira de casa fez um chá, falou comigo, não me lembro de muita coisa, apaguei...
Manhã, por volta das 9h, deitado imóvel na cama, o celular vibra, pessoas do cursinho no grupo falando do Enem. Uma hora deitado na cama, imóvel. Levanto, esvazio a bexiga da Noa, esvazio a minha, as lágrimas sem motivo já rolavam em meu rosto. Não queria sair de casa, tirei força de algum lugar ainda obscuro de mim, esvaziei a bexiga da gata novamente, saí.
12:35, peço um cigarro pra uma moça na rua e caminho rapidamente, com sorte o busu não demorou a passar e nem peguei trânsito, mas a escola fica um km do ponto que desci. Caminho ouvindo e cantando “debaixo d’água” na voz da Bethania, como um mantra. Ainda não sei se quero entrar pra fazer a prova.
Quase uma hora e entro sem pensar muito. Na porta de entrada a lista. O nome que vem escrito na coluna principal é o do RG, uma observação a esquerda desse nome vem o meu verdadeiro nome,o que chamam de nome social, sic. Começa o pesadelo. Um cara olha pra mim e ri, não ligo inicialmente, tem gente que é feliz né.
Sento no lugar que escolhi. A aplicadora chega em minha mesa e me entrega uma folha após dizer meu nome (o social, sic) em alto e bom som e fala pra eu entregar ao fim da prova. Nele vejo uma ficha de avaliação sobre o tratamento recebido por mim durante a prova, reparo que tanto nessa ficha quanto no cartão de respostas consta o nome do RG, chamo a aplicadora e discretamente pergunto se devo copiar a assinatura do RG e em alto e bom som novamente ela falando meu nome diz que vai perguntar à coordenação. Constrangido com os olhares me atenho a pensar nas dicas que a Maria Clara tinha dito no vídeo do G1 e a preencher a ficha de reclamação problematizando o nome do RG assim tão exposto. Respiro.
Pouco antes das 13:30 a aplicadora passa nas carteiras para verificação e eis que ela diz: “Uyrá, RG sobre a mesa!” Xingo baixo e pego o RG na mochila. Penso: “alguém me diz porque esse tratamento “diferenciado”? Todas pessoas já notaram que por algum acaso ela sabe especificamente somente o meu nome. Não consigo esconder o descontetamento por isso e por ter que deixar o RG exposto, o cara ao meu lado (aquele que riu de mim quando entrei na sala) agora não consegue mais disfarçar a curiosidade pelo meu RG. O que não contei antes é que do momento em que entrei até agora qualquer ação direcionada a mim pela aplicadora esse rapaz olhava e ria e eu ignorava.
Nesse exato momento que ele tenta alcançar o RG com os olhos rindo, eu o encaro escondendo o RG, ele me olha rindo e eu pergunto com a pior cara que consigo: “Tá olhando o que?!”. Na real a minha única vontade era sair correndo dali - fiz isso numa prova pra uma vaga de trampo uns meses atrás. Ele fica sério e volta a olhar pra frente, mas ainda tenta vez ou outra olhar pra mim, ainda tentando sacar a minha, ao meu ver. Todo mundo finge que nada aconteceu...
Me sinto num misto de tristeza, ira e confusão mental. Eu só queria ir embora dali. Porque mesmo que eu vim? Porque entrei aqui? Esse não é o meu lugar... Nesse momento eu poderia ter entrado numa pira gigantesca, senti ela bater a minha porta. Senti todo o vazio das pessoas que ignoram minha existência, a existência de todas pessoas trans e travestis e onde essa ignorância leva a atitude das pessoas em relação a nós.
“Mas tinha que respirar, todo dia...”. Como um mantra, cantava... e aos poucos relembrava das palavras de força de amigues pedindo pra não desistir, que ali era meu lugar, que não retrocedesse. Lembrei do vídeo da Maria Clara, o foco era a prova, aquilo tudo eu resolvia depois. Me lembrei de todas as mulheres trans, todas travestis, todos homens trans e pessoas transgênero que estavam junto comigo naquele exato momento iniciando a prova, lembrei de ti Peter, maninho parceiro de fronte! Desejei todo o axé possível pra gente naquele momento, não estava só, havia ao menos mais 277 pessoas fincando o pé no chão a dizer: “Esse lugar é meu! Esse lugar é nosso! Existimos! Resistimos! E ninguém vai mais dizer que não!”
Ainda passo pela situação de assinar a lista de presença e notar que todas as outras pessoas vizinhas ao meu nome verão o meu nome de RG e a observação do nome social, quando a aplicadora passa de mesa em mesa com a lista... “essa gente é doente!” é o tipo de frase que não sai da minha cabeça.
Saí 16h38 do prédio. Chutei quase todas questões da área de exatas, fui pro show do Chico Cesar na Feira Orgância do MST, porque eu merecia não pensar sobre isso. E amanhã se aquele garoto atrevido resolver tirar com minha cara de novo, depois da prova acerto-lhe a fuça!