Peneda-Gerês Trail Adventure - 7ª Etapa
Passei uma noite horrível, pouco ou nada dormi, nem eram as dores que me incomodavam, mas o latejar que sentia nas pernas era terrível. Durante toda a noite ouvi a imensa chuva que caía... Só pensava na dureza que nos estava reservada para o 7ºdia...
As 6am toca o despertador, só queria ficar na cama, adormecer, descansar... estava com um carga negativa enorme, foi o dia em que parecia que as pilhas iam abaixo...
Tomámos o pequeno almoço, a comida não queria entrar, à minha volta vejo o cansaço que todos os companheiros partilhavam...parecia que estávamos todos em transe. Como que para quebrar este estado o Pedro diz: "vamos, hoje sofremos, amanhã celebramos e vamos todos juntos!"
Meio que a medo, lá saímos para a partida, a chuva não parava...
É dada a partida, saio a correr e sinto que estou num túnel, tudo à minha volta se move e eu não consigo sair do sítio. As sensações são péssimas, o 1ºkm em alcatrão só serve para avivar ainda mais as dores, só queria começar a subir para as sensações melhorarem. Chegámos à subida e mais uma vez parece que não saio do sítio, subo muito lento e a muito custo. A Fc era baixa mas não consigo ir mais depressa. Subimos cerca de 5km... Perto do final da subida apercebo-me que me esqueci das minhas pastilhas de isotónico, nesse momento toda a minha moral foi ao chão... Mas nesse mesmo momento acontece algo que me fez sair do marasmo em que estava. De imediato o Carlos Coelho e o Pedro Lizardo partilham comigo as suas pastilhas de isotónico. No meu pior momento, o Espírito do Trail e o apoio dos meus companheiros tirou-me do fundo e lembrei-me que estava ali a viver a maior aventura da minha vida! Chega de lamúrias e toca a aproveitar ao máximo. Mudei o chip! Chegámos à Pedra Bela e começámos a correr, seguimos por single track a descer ao lado de uma enorme cascata, um trilho espetacular, muito técnico e desafiante. Chegámos à Aldeia da Ermida e tal como na edição anterior tínhamos sopa de pote à nossa espera. Comemos uma e seguimos com a confiança em alta. Sabia que a dureza ia começar daí a pouco. Saímos da povoação e seguimos algum tempo por estradão para depois seguirmos por um single track que descia vertiginosamente a encosta enquanto a serpenteava. Eu descia cheio de confiança, depois de um início péssimo, sentia-me muito bem e ia a divertir-me. Descíamos pelo single track e tínhamos a imensa cascata Tahiti à nossa frente. É então que tenho o segundo momento marcante do dia. Enquanto descia, o meu pé prende-se num ramo, caio e bato com a cara numa pedra, começo a cair descontroladamente encosta abaixo a tentar agarrar-me a qualquer coisa, estou quase a cair ao rio quando uma mão me agarra mesmo no último momento. Um rapaz que ali estava, mergulhou literalmente na encosta e conseguiu agarrar-me. O meu obrigado ao Domingos, assim se chama este bravo rapaz, SENÃO é ele não sei se estava aqui a escrever estas linhas. Foi um momento muito intenso, a Natália seguia um pouco atrás e não se apercebeu da gravidade. Subi para o trilho com a ajuda do Domingos, parei uns segundos para tentar voltar a mim. Estava tudo bem e segui. Daí a 30seg estava em frente à cascata Tahiti a tirar fotos com a Natália, como se nada fosse...
A vida tem destas coisas, em frente é o caminho.
Chegámos à estrada, agora íamos subir a cascata do Arado. Primeiro subimos as suas imponentes escadas, depois subimos pela encosta, numa subida pouco técnica mas com umas pendentes que imponham muito respeito. A partir daqui seguimos por um trilho ultra técnico que ia contornando a encosta da cascata do Arado. Primeiro descemos ligeiramente e tivemos um encontro com um rebanho de cabras. Num sítio daqueles só mesmo cabras ou Trail Runners é que se atrevem!
Atravessámos a cascata e começámos uma subida verdadeiramente demolidora.
Para os nossos amigos do Brasil aquilo foi escalada!
Voltámos a cruzar a cascata e começámos a subir para o vale da Teixeira. O nevoeiro era intenso, íamos passando pelas conhecidas mariolas.
Aos poucos o nevoeiro foi dando alguma trégua, o que permitiu termos vislumbres deste local mágico!
Chegámos ao ponto mais alto do vale e íamos começar a descer para Leonte, tínhamos 22km percorrido e levávamos quase 2200mD+. Tinha sido demolidor no bom sentido, sem dúvida os trilhos mais selvagens e espetaculares que já fiz!
Chegámos a Leonte, bebemos um fantástico cafezinho e seguimos a bom ritmo em direção à Junceda, local do ponto de corte. Primeiro tivemos de vencer mais uma subida que embora curta era bem dura. Terminada a subida tivemos como "prémio" uma descida rolante para soltar um pouco as pernas até à Junceda.
Quando lá chegámos estavam lá os meus pais, tinham lá ido para nos dar apoio e para nós trazerem as pastilhas de isotónico. Em bom momento chegaram pois o que tinha levado já tinha acabo e já começava a sentir-me a desidratar. Neste ponto somos informados pelo João Paulo que por causa do nevoeiro tinham cortado a ida à Serra Amarela, encurtando assim a etapa em 10km. O meu "eu" irracional ficou triste com a notícias, "ele" queria muito fazer aquele louca subida até à Louriça, mas o meu "eu" racional deu graças a Deus pelo corte, tinha bem noção da dureza que estava a ser cortada...
Faltavam 22km e saímos cheio de confiança. Seguimos a descer por um trilho fantástico em direção ao Campo do Gerês.
A meio da Descida cruzámo-nos com o grande Salvador Calvo que depois de ter feito os primeiros 4 dias do PGTA em "modo de treino" mas sempre na frente, estava agora a fazer os 4 últimos dias em duplas com a sua companheira. De imediato e sem dizermos nada parou para nos dar passagem e para nos dar umas palavras de incentivo. Um verdadeiro Senhor do Trail em todos os aspectos. Quando passei senti-me na obrigação de pedir desculpa e de dizer que não acreditava que estava a passar pelo grande Salvador Calvo!
Pouco depois chegámos ao Campo do Gerês! Esta parte era bem rolante e passado pouco tempo chegámos à barragem de Vilarinho das Furnas, este ano não cruzamos a margem para a serra Amarela, mas tivemos como prêmio um trilho fabuloso ao longo da encosta da serra do Gerês, que nos permitiu ver paisagens magníficos sobre a barragem, sobre a serra amarela e sobre todo o vale.
O trilho levou-nos até a aldeia de Paredes, voltámos ao percurso original. Continuámos a descer em trilhos bem rolantes, para logo a seguir termos um pequena "rampa" até chegarmos a Covide onde se encontrava mais um abastecimento. Comemos bem, faltava o último grande obstáculo do dia, subida da Calcedónia. Foram 3km duríssimos, o tempo abriu, o sol apareceu e a meio da subida já pedi para voltar o mau tempo para poder arrefecer!
Vencemos mais esta dificuldade, passamos por uma das fendas e entramos no trilho que nos levava à estrada, as pernas estavam pesadas da subida mas de imediato responderam, faltava pouco para a meta e queríamos chegar o quanto antes. Seguimos pela estrada até a fonte da Boneca e voltamos a entrar no trilho, tivemos um curta subida que nos colocou "na reserva".
Chegámos novamente à Junceda! Último abastecimento, faltavam 5km para a meta. Começámos a descer com tudo o que tínhamos, não era muito mas fomos buscar forças a tudo, queríamos cruzar aquela meta de vez! Foram 5km em que descemos quase 600m verticais, entramos na Vila e foi com uma explosão de alegria que cruzámos a meta! Estava feito, tínhamos superado todos os obstáculos e tínhamos conseguido!
Quando cruzei a meta tinha a cabeça a mil! Primeiro sentia-me abençoado pois por pouco tinha escapado de algo bem grave e depois fui inundado de um sentimento de enorme vitória, e tinha uma certeza, no Trail tal como na vida, não importa como se começa mas sim como se termina!