Eu sorri, porque eu sabia que era verdade, eu perdoava só da boca para fora. Sentei ao seu lado para ouvir sua sabedoria, ela acendeu seu cachimbo, mexeu na sua cestinha de acarejé e me ofereceu um, eu aceitei mas não mordi.
Fia, come. Coma enquanto eu te conto uma história.
Dei minha primeira mordida, eu não gostei do sabor, mas engoli. Me aproximei ainda mais dela, pois sua voz era rouca e baixinha.
‘‘O perdão, fia, é a coisa mais linda que nossa alma possa oferecer, sabe fia, na senzala em que vivi, uma vez o patrão chegou para mim e me disse que morreria escrava dele, ele não mentiu, fia. Eu morri escrava dele, mas não morri escrava do ódio. O que eu to querendo dizer, zifia, é que eu perdoei ele naquele momento, no momento que ele me deu a chicotada, eu perdoei, perdoava a cada chicotada que recebia zifia, o perdão liberta, liberta da alma, sabe, fia. Liberta de uma forma, que te trás a consciencia de que você vive para perdoar. Tantas pessoas vem te trazendo o mal e fia guarda, guarda pra que, fia? Fia sabe que o bem sempre vence, o bem é amar e perdoar, tirar esse peso nos ombros que fia sente. Fia, aprende a ter paciência, a paciência de entender seu tempo de perdoar, mas não fique parada, esperando o perdão vir, busque por ele. Olhe para o acarajé, fia. Eu sei que você não gostou do sabor, eu te perdoei por isso. Entende o que vovó ta querendo dizer? Perdoar é simples quando aprendemos, porque é com amor, é com carinho. Olhe para si agora fia, tu primeiro precisa se perdoar, por se cobrar tanto, por tentar tanto e se frustar, entenda fia, tu se frusta porque espera demais das pessoas, espere mais de ti e de mais ninguém. Zifia, se perdoe por não conseguir amar quem você acha que deve amar, o amor é gentil, não machuca e nem te maltratada dessa maneira. Fia, perdoe a vovó por estar sendo tão dura com fia agora, mas menina precisa aprender, aprender a se perdoar para perdoar o próximo. Se perdoe por sair de onde menina tinha que sair, se perdoe por ter dito sim quando quis dizer não. A vida dá muitas chicotadas na gente e a gente tem que aprender a perdoar e superar. Come mais um pedacinho do Acarajé fia, se perdoe por não gostar dele. Lembre-se fia, se você precisar, é só pensar na vovó, zifia. Vovó precisa ir. A bença, fia. Que papai te abençoe e te protege de todo mal.’’
Vovó se levantou do banquinho tosco, me deu seu rosálio, e saiu fumando seu cachimbo para a estrada a caminho da igreja para rezar.