Seus doces lábios tiraram aquele gosto amargo de culpa e preocupação que estavam presos em minha garganta. Deixando de imediato meu corpo mais leve sob seus braços. Até mesmo os tremores em meus braços pareciam ter se acalmado.
Isso era tudo que eu precisava naquele momento.
Podiam ter tirado meu lugar nos céus, meu lar, minha paz, toda a minha legião, me condenando a viver por toda uma vida na terra. Mas não poderiam me tirar aquilo. Ele era tudo que eu precisava, tudo que eu desejava. Não. Isso não poderiam me tirar. Eu não permitiria, jamais.
Nunca pensei que Aaron me pegaria numa situação constrangedora com esta meu e do Austin. Quer dizer, Aaron conhece Austin á milhares de anos, até mesmo muito antes do que eu. Conhece nossa relação na qual ele foi um dos primeiros e únicos que sempre esteve presente e nos apoiou.
É que afinal de contas, ser pega em flagrante por qualquer pessoa já é suficiente constrangedor o bastante, e ainda mais pela reação de que Aaron teve, deixando a situação mais embaraçosa ainda. Parado estático, sem qualquer expressão no rosto, parecia surpreso, só não sei dizer ao certo se estava surpreso por encontrar Austin ali parado logo a sua frente, ou por encontrar Austin ali a sua frente envolvendo minha cintura com suas mãos.
- O que você esta fazendo aqui? – Pergunta Aaron animadamente.
Austin toma fôlego para falar, mas antes que possa dizer qualquer coisa, Aaron corta.
- Não, espera. Como foi que nos encontrou?
- Como eu não sentia mais a Sely, passei a seguir você. Afinal de contas, Sely conseguiu ocultar sua aura, mas em compensação a sua – Diz fazendo uma careta para Aaron, balançando a cabeça – Brilhava feito pisca-pisca, avisando “Ei, estou aqui”.
Diz tudo isso sem perder o animo. Aaron parecendo um pouco envergonhado abaixa a cabeça e fita o chão. Mas logo a levanta, deixando transparecer uma expressão de confiança estampado no rosto.
- Não tenho ideia de como se oculta a aura. E Mesmo que soubesse, não o faria. – Agora com um sorriso de ponta a ponta – Sabe, gosto de saber que os outros saibam minha localização. Com os inimigos mais perto e a morte iminente, faz com que eu me sinta mais vivo. Sempre alerto, pronto para qualquer combate...
- Não fala uma coisa dessas – Dessa vez é a minha vez de me pronunciar. O que Aaron estava dizendo era loucura. – Como pode pensar assim? Você sabe que o perigo é real e que a qualquer hora um de nós pode ser morto.
- Do que esta falando Sely? – Questiona Austin – Você não está falan...
- Estou. Pode ser verdade, e é. – Engulo em seco – Posso sentir isso.
Aaron parece nervoso agora.
- Sely...
- Não Aaron. Conheço muito bem como ele age. Já passei por isso e não estou brincando quando falo que ele sabe direitinho como nos manipular e fazer exatamente o que ele quer. Pensar exatamente o que ele quer que nós pensemos. Sabe brincar com nós. E enquanto estivermos presos no plano físico, nós não passamos de ratinhos em gaiolas a mercê de um grande felino. – Paro para limpar a garganta – E isso tudo não passa de uma bomba relógio que vai estourar na nossa cara.
Aaron está fazendo uma careta como se pensasse em cada apalavra que eu disse. Dessa vez Austin toma a palavra.
- Relaxa Sely, nada de bombas estourando, nem de ratos em gaiolas. – Depois põem a mão em meu ombro – Vamos ficar bem.
- É Sely, não precisa ser tão paranoica – Diz Aaron dando de ombros.
- Não estou sendo paranoica, só que eu sei como é lidar com ele. Sei dos poderem que tem. Ainda mais agora sozinho e com tempo de sobra. Sem os outros não temos a menor chance.
Austin me olha hesitante, escolhendo as palavras.
- Teríamos uma chance se você... Você sabe – Ele começa a mordiscar o lábio inferior, repreensivo.
Reviro minha cabeça atrás de uma resposta, achar o que há por de trás de suas palavras, só depois de muito martelar meu cérebro, eu me toco do que ele estava falando.
- Não. Não. Não. Sem chance – balanço a cabeça – Se eu fizer isso daí sim que estaríamos fritos. Com as posições de vocês dois já reveladas brilhando como um farol por ai. Se eu revelar a minha, junto da de vocês... Aqueles malditos não pensaram duas vezes antes de nos atacar com força total e não posso nem sequer imaginar você, Aaron... Nick, qualquer um machucado, sem falar no caos que isso causaria. – De punhos cerrados eu continuo – Seria um verdadeiro banho de sangue inocente Austin, não posso permitir.
- E não vai. – Ele pega em minhas mãos – Se você estiver na sua verdadeira forma. Terá poder absoluto, força e habilidades sem limites. Mas dessa maneira até mesmo Aaron pode acabar com você.
- Isso mesmo! – Afirma Aaron assentindo levemente. Depois para, estreita os olhos – Ei!
Austin vira a cabeça na direção de Aaron e reprime um riso. Aaron também tenta segurar o riso, fazendo com que eu tenha que sufocar uma gargalhada na garganta. Pronto, acabou a tensão, penso ficando feliz que aquele momento havia acabado. Mas Austin volta a olhar apreensivo para mim.
- Seria melhor, Sely. Sei o quanto está sendo difícil pra você, eu mesmo já tentei reprimir meu lado celestial, sei o quanto é difícil você ficar aí parada, impotente, sentir suas costas queimarem de vontade de voar, ficar parada, quanto o que se mais quer é sair e voar, lutar, sentir o peso de uma espada em mãos, fazer o que é certo – Seus olhos brilharam – Fazem parte de você, de seu instinto, não pode reprimi-lo, não importa o quanto tente, um dia terá que liberta-lo.
Eu suspiro sabendo que no fundo ele tem razão.
- Pode até ser, mas agora não, quanto mais eu puder evitar e adiar esse dia, eu o farei. Quero que as coisas continue como estão.
- Que seja, mas você sabe né, que mais cedo ou mais tarde toda essa paz terá fim. – Diz Aaron tristemente.
Apenas confirmo com a cabeça.
A tristeza no rosto de Austin foi dando forma a um sorriso perfeitamente branco e acolhedor.
- Mas chega de tristeza, perseguições, medo e morte. Agora quero que me conte sobre sua vida aqui, me conte o que você construiu aqui e quem é aquela garotinha que você veio todas as pressas trazer até a escola.
Ah, ele deve estar falando de... NICK!
Caramba, a visita de Austin e todo aquele papo de morte, me fez esquecer complemente de Nick e nem ao menos perceber quando o sinal tocou.
Saio correndo aos tropeços para a sala da qual eu a vi entrar pela ultima vez, deixando dois anjos completamente confusos.
Saí correndo cortando multidões de gente que começam a brotar do corredor, desviando de boa parte, mas esbarrando em poucos que insistiam em ficar em meio ao caminho. Chego a tempo de ver Taylor debruçada sobre Nick segurando seu pulso, intimidando-a. Vou em sua direção pego em seu braço e a empurro violentamente.
- Tire suas mãos imundas de cima dela – Digo entredentes, controlando a raiva que a cada dia cresce dentro de mim. Aquela garota estava me irritando cada dia mais, despertando o pior em mim.
- Se não o que? Bylgard? – Diz ela me desafiando, sorrindo loucamente – Você vai fazer o que?
- Ah, você vai ver o que eu vou fazer – Digo partindo pra cima dela não podendo conter mais o surto de raiva que tenho.
Mas antes que eu possa passar meus dedos pela sua garganta, braços fortes e vigorosos passam ao redor de minha cintura, me puxando para trás, impedindo de eu dar uma boa lição naquela garota. Afinal de contas, que mal Nick fizera a ela?
Em meio à correria, não percebi que Aaron e Austin me seguram até aqui. E agora Austin segurava, e me puxava para longe de Taylor.
Depois de eu parar de me debater, Austin segura minha cabeça entre suas mãos e me olha nos olhos, aqueles lindos e intensos olhos azuis.
- Sely meu amor, calma. Fique calma.– Diz isso sorrindo, fazendo com que de fato eu me acalme.
- O que? Tá de brincadeira? Não me diga que você está...
Taylor parece ter ficada louca de vez, quando começa a andas de um lado para o outro. Depois para, vem na direção de Austin e o segura pelos ombros.
- Gato, sei que o que vou te dizer vai magoar esse seu lindo coraçãozinho, mas eu preciso falar a verdade, preciso tirar esse peso dos meus ombros – Depois coloca a mão direita sobre seu peito - A Sely tem outro. – Diz isso fazendo uma cara de dó.
A ira momentaneamente esquecida dentro de mim retorna com força total.
- Do que vocês tá falando garota? Olha, eu juro que não respondo mais por mim.
Mas antes que possa ir em sua direção, dessa vez é Aaron que me prende por trás.
- Não se faça de tonta, Selênia. Eu vi perfeitamente você e Aaron no maior clima ontem à noite. O rosto de Aaron a centímetros do seu. Qualquer burro pode muito bem saber o que aconteceu logo depois.
Aaron me solta e coça o pescoço olhando para baixo escondendo o que somente eu vi. Seu rosto corando.
Austin parece serio. A declaração de Taylor parece não tê-lo afetado.
- Sua burra! Eu e Aaron somos apenas bons amigos. Não aconteceu o que você pensa que aconteceu. Você esta tirando conclusões precipitadas! – Figo gritando.
- Esse olho – Ela coloca o dedo embaixo do olho esquerdo, depois do direito – É irmão deste. E estes sabem muito bem o que viram ontem à noite.
- Olha, eu já disse... Ah! Eu não vou perder meu tempo com você – Digo já irritada.
Taylor volta a se dirigir a Austin.
- Caramba, não sei o que você e o moreno sexy ali – Aponta para Aaron – Viram em Selênia. – Depois passa a mãos pelos cabelos de Austin que fica ali parado, olhando-a. – Eu acho que você deveria experimentar algo um pouco mais... – depois olha maliciosamente para ele – apimentado.
Termina de dizer e puxa Austin pelo colarinho, pressionando seus lábios nos dele.
- Mas que…
Dessa vez nem mesmo Aaron ousa me segurar. Austin a empurra e antes mesmo que ela possa se perguntar do porque, eu a acerto diretamente na boca, deslocando seu maxilar ao escutar um “TREC” e torcendo para ter quebrado alguns dentes, ela cai para trás com a boca toda ensanguentada, gemendo de dor, mas antes que eu possa terminar o serviço, Austin me segura fortemente.
- Selênia, você enlouqueceu? – Diz ele de olhos arregalados, assustado.
- Eu enlouquecei? Ela enlouqueceu. – Digo tremendo de raiva.
- O que está acontecendo aqui?
Surge uma voz no final do corredor que vem caminhando com passos ligeiros em nossa direção. O barulho de seu salto agulha faz um som estridente pelo corredor.
Aaron que até agora só assistia, toma partida.
- Vocês dois, deem o fora daqui, eu cuido disto. – Ele olha para mim e dá uma piscadela.
- E Nick? – Pergunto. Não quero deixa-la sozinha, não depois de fazê-la assistir ao meu surto psicótico de raiva.
- Vão, eu fico com ela. Ela vai ficar bem, não é mesmo? – Diz virando-se para ela.
Ela sorri e assente o encorajando.
- Vou sim, tio Aaron.
- Tio Aaron? – Pergunto estreitando os olhos.
Ela apenas sorri alargando seus lábios de ponta a ponta.
- É sim, agora vão rápido.
Eu olho para a multidão que se formou ao nosso redor. Deviam nos estar assistindo desde que eu a empurrei. Pego na mão de Austin e abro uma fresta deixando para trás a multidão que agora nos aplaudia enquanto corríamos em direção à saída. Chegando a alguns metros da porta, eu diminuo um pouco o ritmo. Abro a maçaneta e empurro a porta. Saio descendo as escadas ainda segurando a mão de Austin. Corremos sem parar pelo estacionamento até chegar perto dos gramados onde ficava a entrada do colégio. Agora já com o ritmo mais lento, vou até a arvore e me sento embaixo dela ofegante. Austin vem e se senta do meu lado.
- Isso foi legal. – Diz ele com um sorriso maroto nos lábios.
- Foi? – Pergunto pensando se ele achou legal minha “quase” briga com a Taylor, ou nossa louca escapada.
- Foi, claro que foi. – Depois ele aperta os olhos, quando olha para o nada e gesticula com as mãos. – Nós saindo rapidamente pelo corredor, fugindo... Fugindo... Não sei de quem, com todos nos aplaudindo, quero dizer, te aplaudindo. Você deve ter muitos fãs por aqui.
- Fãs, pera aí, do que você tá falando? – Pergunto rindo de tudo o que ele disse. – Não viaja.
Austin coloca sua mão direita em minha bochecha e a alisa.
- Mas é claro que tem. – Depois tira sua mão e a ergue para cima virando o corpo para a esquerda e direita, como se procurasse alguém. – E eu sou o numero um. Seu primeiro e maior fã.
Balanço a cabeça e rio, fazia tempo que eu não ria daquele jeito... Leve e solta.
Sentia-me bem ao lado de Austin. Quer dizer, gosto de ficar perto de Aaron e sua presença me faz bem. Mas com Austin era diferente, eu me sentia segura ao lado dele. Ao seu lado agora, somente depois de séculos eu pude relaxar de verdade. Até mesmo o peso do meu corpo se modificou. Austin me fazia extraordinariamente bem. E sabe de uma coisa? Ele tem razão, é muito melhor viver assim do que distante um do outro, nem que para isso exista alguns desafios.
- Mas que...
Dessa vez nem mesmo Aaron ousa me segurar. Austin a empurra e antes mesmo que ela possa se perguntar do porque, eu a acerto diretamente na boca, deslocando seu maxilar ao escutar um “TREC” e torcendo para ter quebrado alguns dentes.
Não sei como posso explicar o que aconteceu na noite passada, ou como contar o que aconteceu. Simplesmente foi mágico, maravilhoso. Eu e Aaron dançamos a noite toda seguros nos braços um do outro. Enquanto todos dançavam lá dentro freneticamente, eu e Aaron aproveitávamos nosso momento juntos, a musica que ali tocava acalmava as batidas de nossos corações, que batiam incessantemente. As estrelas, a musica, o gazebo, Aaron... Tudo tornam isso numa noite inesquecível.
Depois que a festa havia terminado, Aaron nos levou para casa e se despediu. Eu levei Nick até a casa dela, um pouco mais tarde do que o combinado com Abigail. Mas ela pareceu não se importar, ou estava dormindo quando atendeu a porta.
Depois que eu deixei Nick em sua casa, fui para minha, entrei, subi direto para o quarto, joguei os sapatos para o alto e me joguei na minha cama, já fazia varias noites da qual eu não tinha dormido por causa dos pesadelos horríveis, das quais não quero nem mencionar, mas ontem de fato eu estava exausta, não hesitei um segundo se quer quando me joguei sobre a cama com vestido e tudo. Hoje pela manhã eu acordei de atravessado na cama e fiquei me perguntando por um segundo como fui parar ali.
Novamente essa noite os pesadelos vieram me perturbar e sempre são os mesmos, eles são sobre a época em que eu ainda estava nos céus. Estou começando achar que esses pesadelos são algum tipo de mensagem codificada.
- Sabe, acho mesmo que você devia comprar um carro. – Diz ela.
- Por quê? Não gosta de andar de skate mais? – Pergunto levantando as sobrancelhas.
- Não, não é isso, só que de carro é mais maneiro – Diz sorrindo – E também, seria muito divertido ver você apostando corrida com Aaron, eu poderia abrir minha própria pista de corridas.
Olho incrédula para ela.
- Com quem você anda aprendendo sobre corridas e apostas?
- Com o Aaron sabe, andei pesquisando o modelo do carro dele e caramba! – Diz de olhos arregalados – Como um garoto de 18 anos conseguiu comprar um carro daqueles? O carro dele vale mais ou menos o valor da nossa casa!
Fico perplexa, mas não com sua revelação, mas sim em como ela foi descobrir tudo aquilo e buscar respostas da qual é melhor manter segredo.
Penso por um minuto antes de respondê-la.
- É que Aaron é filho único e perdeu a família já faz dois anos, daí a fortuna de seus pais ficou toda para ele.
Nick muda sua expressão, seu rosto desmorona e seus olhos reprimem as lágrimas.
- Aaron... Perdeu toda a família? – Diz Nick com a garganta sufocada.
- Sim, mas não precisa se preocupar pequena, Aaron é feliz do jeito que é, ele tem a mim e a você agora. – Droga! Por que eu fui falar a única e mais estúpida resposta? – Não se preocupe, tá? Ele vai ficar bem.
Eu enxugo uma lágrima que descia pelo rosto de Nick. Ela olha para mim e sorri de leve.
- Ok, voltando ao assunto de carro, talvez hoje mesmo eu passe na concessionaria e compro um. Afinal, até que é bem útil.
- Ah, não vou poder ir junto, mamãe disse que hoje eu teria que acompanhar ela no mercado – Diz Nick decepcionada.
- Não faz mal, quando você chegar em casa, vai ter uma surpresa!
Depois olho para o relógio e meus olhos saltam.
- Caramba, já estamos bem atrasadas, temos que ir.
Nick sobe em meu skate e vamos, só que dessa vez não pego leve com os rollers. Desço as ruas a toda velocidade. Sei que estamos perdendo a primeira aula, eu tudo bem, mas Nick querendo ou não tem que estudar. Cheguei a tempo de quase fecharem as portas. Eu levo Nick correndo para a sala dela, que chegando lá só a empurro para dentro e acabam fechando a porta. E eu ficando para o lado de fora, não sabia o que fazer agora, até ver Aaron virar no corredor andando despreocupadamente. Hoje ele vestia uma velha calça desbotada e uma camiseta branca com sapatênis e bem casuais, o cabelo totalmente despenteado sobre os olhos.
- Estou vendo que decidiu seguir meu lema sobre aulas. – Diz ele esboçando um sorriso torto.
- Cheguei atrasada – Digo rindo baixinho – Ainda pretendo frequentar as aulas.
- Mas não esta, pois agora vamos conhecer minha mais nova case e...
- Ah é – Digo me lembrando – Preciso comprar um carro.
- Ótimo, eu ajudo na escolha de seu mais novo possante. – Diz ele olhando para cima.
- Não vai ser um possante. – Digo, pois não vou postar corridas como Nick dissera. A lembrança me faz sorrir.
- Isso é o que vamos ver. – Diz ele com os olhos brilhando, desafiantes e convidativos.
Eu acompanho Aaron até seu carro “milionário de corrida”, segundo Nick, entro e ele dirige primeiro até a concessionaria. Chegando lá eu havia encontrado diversos modelos de carro, desde os mais modernos, família, esportivos, luxuosos até os mais possantes. Vi modelo por modelo e o que havia escolhido era um volvo prata, mas Aaron ficou insistindo para levar uma Ferrari FF vermelha. Acabamos entrando num meio termo e acabei comprando um Maserati Grancabrio vermelho versão conversível. Agora já de carros separados, fui conhecer a nova casa de Aaron, ele pega a estrada que vai em direção à praia, depois de muito dirigir, acaba estacionando a frente de uma grande mansão de frente para a praia, com dois andares e a fachada que tinha, imagino que Aaron teve o máximo de cuidado ao escolhê-la.
- É bem bonito. – Digo ao sair do carro.
- É, até que dá pra morar, é modesta sabe. – Disse ele dando de ombros.
- Tá brincando? É enorme e cabem no máximo umas 50 pessoas lá dentro e ainda sobra espaço.
- E não se esqueça da vista para o mar.
- Ah e tem mais esta...
- Mesmo assim, não se compara com a fortaleza de Canon.
Ah, fortaleza de Canon, quanto tempo não ouço este nome. Era uma torre maravilhosa, gigantesca, forte, construída por arcanjos em épocas mais escuras, onde as trevas ainda persistiam em dar as caras. Depois que derrotamos Tehom, a fortaleza de Canon acabou servindo de alojamento para os anjos e arcanjos até os dias de hoje.
As batalhas primeiras haviam acabado, mas a guerra no céu só estava começando.
- Ei, podemos entrar um pouquinho, dar uma olhadinha rápida, pois eu ainda vou assistir as três ultimas aulas, então prometo que será rápido.
- E não foi por isso que eu a chamei aqui? – Diz Aaron sorrindo torto.
Nós caminhamos até chegar ao Hall de entrada da casa, Aaron abre a porta e nós entramos. Ah e por acaso, a porta era dupla, de correr e de vidro. O espaço interno era bem grande, com janelas enormes por todo o lado, um belo lustre no teto, as paredes eram revestidas de cor branca e, mas...
- Cadê a mobília? – Pergunto não achando nenhum móvel.
- Não tive tempo de comprar – Depois sorri maliciosamente – Bem que você poderia me ajudar, não?
- Eu adoraria, mas tenho que voltar agora. – Digo olhando para o relógio.
- Sério que você pretende assistir aquela chatice? – Disse Aaron com uma cara de tédio.
- Sim, eu preciso. Vamos ou eu vou sozinha?
Aaron olha para a direita, depois para a esquerda como se esperasse o trem, bufa e joga a cabeça para trás e vai marchando para a saída se rendendo, do meu rosto um sorriso vai tomando forma enquanto eu reprimo o riso. Eu o sigo, já na rua nós entramos no carro, fazemos o retorno, eu na frente e ele logo atrás e pela cara que estava fazendo, parecia ainda estar entediado. Chegando ao colégio, eu estaciono o carro e saio correndo, depois olho para Aaron que estava sentado debaixo da árvore.
- Você não vem?
- Não. Eu disse que viria ate o colégio, não que entraria nele. – Diz sorrindo torto, exibindo seus belos e convidativos lábios vermelhos. Sacudo a cabeça para tirar aquela imagem da minha cabeça e corro para a entrada, não tendo o trabalho de abri-la, mas quando chego já é tarde, a aula havia começado.
- Atrasada de novo senhorita Bylgard? – Diz uma mulher baixinha, com saia longa cinza e velhos, com um suéter nem um pouco novo, de óculos e com a carranca que ali estava, aquela velha senhora não tinha cara de que tinha muitos amigos.
- Desculpa, é que eu...
- Não quero suas desculpas, vá até a recepção e peça que assinem uma permissão para que você possa entrar para a 5° aula. – Depois torce o nariz – Se você ainda quiser estudar aqui.
Termina de dizer, vira de costas e se vai.
De olhos arregalados e um tanto surpresa pela cara que a velha fez, eu dou de ombros e vou em direção à recepção, chegando lá, a mulher indiferente assina a autorização, seu rosto demonstrava cansaço como se já tivesse feito isso mais de mil vezes. Agradeci, pego a autorização, depois lembro que esqueci de perguntar qual era o nome da senhora do corredor, mas quando estou prestes para voltar, um arrepio percorre minha espinha, gelando meu corpo por inteiro, minha garganta forma-se um nó, a cor do meu rosto some, posso sentir que ela some, minha respiração se intensifica as batidas de meu coração retumbam em meu peito, eu conheço só uma pessoa que pode provocar tudo isso em mim.
- Você não acha que já matou aula de mais?
Sua voz me faz arfar. Tão doce, tão terno, penetrando no mais fundo de minha aura, a fazendo inflamar. O doce som de sua voz faz eu desenterrar diversas lembranças e sentimentos há tanto tempo escondidos. Depois que Aaron me achou, eu sabia que era só uma questão de tempo, eu sempre soube, e como fizera antes decidi seguir meu coração e aceitar que isso aconteceria, era inevitável, e eis que o dia chega.
Viro-me lentamente para trás e o vejo. Ele estava vestindo um fino suéter azul-marinho, calças pretas. Olho para seu rosto, seu cabelo loiro desgrenhado caia sobre seus olhos azuis cor de céu, um céu do qual eu sentia uma saudade incompreensível, seus lábios rosados dos quais sempre foram meus, seus rosto parecia sereno e calmo. Totalmente diferente do meu, que com certeza era um misto de surpresa, aflição e alegria, resultando numa careta horrível. Ele caminha em minha direção despreocupante, quero fazer o mesmo, correr e me jogar em seus braços, mas minhas pernas travaram, meu corpo continua no seu estado de choque, imóvel, quando enfim ele fica frente a mim, não hesita em me abraçar, assim que sua pele toca a minha o gelo de meu corpo se desfaz, me libertando e fazendo com que eu jogue meus braços em torno de seu pescoço e o abraço tão forte que faz desejar abraça-lo eternamente até mesmo quando meus ossos se partirem.
Ele solta um gemido abafado em meu ouvido, fazendo com que eu o abraçasse ainda mais forte. A sensação de seu peito contra o meu era reconfortante, um encaixe perfeito.
Ele me solta, mas não muito ainda, continuava com as mãos em meus braços. Me olha nos olhos e sorri docemente, seus olhos continham um brilho inconfundível.
- Não sabe o quanto eu a procurei por todos os lados – Diz com uma voz sufocada – Eu procurei milímetro por milímetro desse mundo. E toda vez que eu sentia sua presença mais próxima de mim... – Seus olhos brilham de dor e tristeza – Você sumia.
O mesmo que Aaron me disse.
- Eu... Eu... Não sei o que dizer. Sinto muito por isso, mas você sabe que foi preciso, eles viriam...
- Eu sei, eu sei, mas quem garante que ele falou a verdade sobre as perseguições? Pode ser que ele tenha dito isso só para nos separar.
- E se não disse a toa? E se falou realmente a verdade? Eu não podia arriscar.
- E por que esta arriscando agora? – Diz me olhando nos olhos, não deixando passar um resquício qualquer de que eu esteja mentindo.
- Porque eu simplesmente cansei. Cansei de fugir, cansei de me esconder, cansei de evitar você... E cansei de esperar um sinal de que tudo isso possa terminar. O exilio, as perseguições, tudo sabe.
Ele me olha nos olhos como se entendesse minha dor, meu desespero e aflição.
Coloca a mão em minha cabeça e enterra os dedos em meus cabelos, enquanto a outra pousa levemente em minha cintura me puxando para perto de seu. Nossas testas estão coladas, seus olhos olhando diretamente para os meus, seus lábios entreabertos tão convidativos, são o encaixe perfeito para os meus sedentos, cheio de desejo.
- Não tô falando que é ou será fácil, mas temos que tentar. Sei que suas ordens virão, ou não, quem sabe? Mas e se vierem estou junto de você para protegê-la e cuidar de você. Desde que a queda dos celestiais, eu estive a sua procura, não cansando ou jamais em nenhum momento passou em minha cabeça desistir de você, de nós. Sei que você é superior em força, agilidade e habilidades, mas darei o máximo de mim para manter você segura. E desde a primeira vez que eu a vi nos céus, eu me apaixonei por você Sely. Eu a amei desde o primeiro dia que a vi. Eu a amei e ainda a amo. Eu te amo Selênia Bylgard.
Não podendo conter mais a emoção e o desejo que consumia por dentro, eu coloco as mãos em seu rosto e o puxo colando meus lábios nos dele.
Seus lábios eram quentes e suaves, fazendo com que o desejo dentro de mim ardesse ainda mais. Seu beijo era exatamente como eu me lembrava, delicado, mas, ao mesmo tempo, voraz. Uma lembrança a tempo esquecida. Com a mão entrelaçada em meu cabelo, ele os puxava levemente, provocando uma deliciosa sensação em mim. Sua outra mão me prendia pela cintura, pressionando meu corpo contra o seu. E a sensação era maravilhosa, ali era seu lugar, junto do dele.
Ele sugava meu lábio inferior para depois pressionar sua língua macia por entre meus dentes. Eu faço o mesmo e mais. Quero mostrar a ele o quanto eu senti sua falta, mostrar e ele o que eu estou sentindo agora a emoção que corre em minhas veias, que faz meu coração bater fortemente contra o peito.
Ele se afasta levemente, me olha sorrindo.
- Eu te amo Austin. Sempre amei.
O sorriso em seu rosto torna-se ainda maior.
- Austin?
Pergunta Aaron surgindo de repente, parado no meio do corredor com o rosto inexpressível.
Seus lábios eram quentes e suaves, fazendo com que o desejo dentro de mim ardesse ainda mais. Seu beijo era exatamente como eu me lembrava, delicado, mas, ao mesmo tempo, voraz. Uma lembrança a tempo esquecida. Com a mão entrelaçada em meu cabelo, ele os puxava levemente, provocando uma deliciosa sensação em mim. Sua outra mão me prendia pela cintura, pressionando meu corpo contra o seu. E a sensação era maravilhosa, ali era seu lugar, junto do dele.
Aaron desliza sua mão pelas minhas costas, enquanto a outra permanecia na minha mão. Ele me puxa para mais perto, até nossos rostos ficar a centímetro um do outro, possibilitando eu sentir seu hálito gelado.
Eu a espero em frente a sua casa, já com o skate na mão, Nick passou a gostar da ideia de andar de skate, com o passar dos dias ela já se acostumara de ir e vir de skate.
Depois da briga, no dia seguinte Taylor não veio a aula, devia estar se recuperando dos ferimento ainda em casa, no decorrer da semana ela voltou a dar as caras no colégio, mas não ousou me confrontar novamente... Ainda.
Hoje era dia de teste de Nick para as líderes de torcida mirim, por isto não poderia se atrasar então eu continuei a gritar pelo seu nome:
- Nick, anda logo, a gente vai se atrasar!
- Calma... Eu já to descendo! – Ela gritava de sua janela.
Alguns minutos depois, vejo ela bater a porta e vir em minha direção.
- Você não quer mais fazer seu teste?
- Quero, quero sim.
- Pela sua demora, achei que você tinha desistido – Dou um risinho de leve.
Tivemos que correr um pouco para entrar no colégio, antes que o portão fechasse.
Minhas aulas continuam entediantes como sempre. Até que chega a hora da aula de Ed. Física, a única aula de que eu gostava, pois era a única que permitia eu ver a Nick. Cheguei a tempo de ver a Nick começar sua sequência de saltos, ela era realmente muito boa, as meninas aplaudiam com vontade.
Ao final da sequência, a treinadora chama as meninas num canto e anuncia as quais passaram.
Nick se vira pra mim e sorri fazendo positivo com as duas mãos, com um sorriso de ponta de uma orelha a outra.
- Ótimo, agora só precisamos de uma tripé. – Disse a treinadora.
- A Sely, ela pode ser o nosso tripé! – Nick grita apontando para mim.
- Eu posso o que? – Digo sem sabem ao menos o que seria um tripé.
- Você ser nossa tripé? Vem Sely? – Depois ela vira-se para a treinadora – Treinadora, ela é bem forte e se equilibra muito bem.
A treinadora olha me examinando da cabeça aos pés,
- Quer entrar para as lideres de torcida mirins? – Pergunta-me seriamente.
Nick me olha com os olhos brilhando, implorando para que eu entrasse. E como eu me conheço...
- Tá, eu entro, podem contar comigo – Me rendo quando ela brilha aqueles olhinhos, é impossível resistir – Mas, o que eu vou ter que fazer?
- Vai apenas sustentar Moly que vai ficar em cima de seus ombros, consegue fazer isto?
- É, acho que sim – Mais é claro que posso, penso, posso fazer isso e muito mais.
- Ótimo, então pra próxima aula, esteja aqui e seja pontual. – Diz com um tom de voz amigável, mas, ao mesmo tempo, sério.
Assenti com a cabeça para confirmar suas palavas.
As meninas estavam indo para o vestiário e no meio delas Nick surge correndo em mina direção,
- Sely, você vai treinar comigo! Isso vai ser muito divertido, mal posso esperar. – Diz alegremente.
- Vai, vou adorar poder te ajudar nos passos.
- Vou me trocar no vestiário agora, você vem? – Pergunta ela.
- Eu já vou, mas antes preciso pegar algo no meu armário.
- Tá bem, te vejo mais tarde.
Saí do ginásio, iria ir até o armário para pegar um livro que havia esquecido.
Estava andando pelo corredor calmamente, tudo parecia normal, quando de repente eu sinto algo estranho no ar, algo diferente, sinto a presença de alguém. Uma presença... Sobrenatural.
Meus sentidos logo ficam ao máximo a espera de qualquer sinal de movimento. E quando eu menos esperava, uma voz surge atrás de mim, uma voz que eu não ouvia a mais de séculos.
- Olá Selenia.
Me viro em sua direção. Ele continuava o mesmo. Seu cabelo preto reluzente muito mau cortado caia sobre seus olhos cor de esmeralda, que se destacavam sobre sua pele branca, seus lábios incrivelmente possuíam uma tonalidade cor vermelho sangue, que esboçavam aquele velho sorriso torto. A única coisa que havia mudado são as roupas. Ele havia trocado sua armadura e espada por calças skinny pretas, um par de botas pretas de motoqueiro, uma camiseta branca e uma jaqueta de couro. Nas costas segurava uma mochila. E lá estava ele em pé, parado em minha frente, sorrindo debochadamente.
- Aaron!
O som de seu nome saindo de meus lábios sufocou uma saudade que havia a tempo em meu peito.
Um impulso vem de dentro de mim, fazendo com que eu corra em sua direção e acabe pulando em cima dele, que me abraça fortemente em quanto rodamos em círculos. Seus braços são grandes e fortes, sustentando meu peso, como se eu fosse um simples travesseiro de penas.
Quando paramos, ele me solta e me olha em expectativa, examinando cada centímetro de meu rosto,
- Como é bom vê-la novamente – Seu sorriso faz eu me derreter por dentro.
- Também é bom poder rever você, senti sua falta – Seus olhos se iluminaram com minha resposta. – O que está fazendo aqui?
- Pela sua pergunta não parece muito feliz em me ver. – Diz ele sorrindo – Como assim, o que estou fazendo aqui, não é obvio? Escola, mochila... – Sem esperar eu responder, ele continua – Vou estudar aqui. – Diz com as sobrancelhas arqueadas.
- Sério?
- Uhum, começo hoje.
- E desde quando você estuda? – Pergunto desafiando-o.
- Desde que me mudei pra cá. Dã. – Diz isso como se fosse muito obvio.
- Fala como se fosse a coisa mais normal desse mundo. – Digo revirando os olhos.
- E não é? – Diz com as sobrancelhas arqueadas – Um adolescente, indo pro colégio... Estudar, não vejo nada de anormal. – Diz abrindo seu sorriso torto, fazendo com que eu ria e revire os olhos.
- Mas me diga uma coisa. – Ele hesita – Por onde tem andando? Andei por todo o mundo, e cada vez que eu a acho, logo no dia seguinte você dá um jeito de desaparecer. Até parece que anda fugindo de mim. – Diz ele rindo, mas, ao mesmo tempo, falando sério, provocando um desconforto em meu estômago.
Eu desvio o olhar, e começo a morder o lábio inferior, buscando uma saída. Aquela conversa começou a tomar um rumo do qual eu não queria nem sequer ai menos pensar. Quando percebo que estou olhando para o chão por vários minutos, sem dar a resposta, acabo de dar o que ele queria. Me entreguei sem perceber.
- Então é verdade, você está realmente fugindo. – Ele me olha esperando uma resposta, da qual eu não queria dar.
- Não. Não é isso – Eu respondo depressa de mais, entregando o jogo de vez. – É que bem... – Eu suspiro sabendo que não a como adiar, que uma hora ou outra tocaremos neste assunto de novo.
Tomo folego para falar, mais ele me silencia com um dedo sobre os lábios, a centímetros do meu rosto, eu observo seus olhos, vou para dentro do mais profundo verde-esmeralda que ali me esperam. É como se eu tivesse entrado em transe. Posso sentir sua respiração quente em meu rosto.
Mas o encanto é quebrado quando ele de repente se afasta.
- Aqui não, vamos lá fora.
- Não vai dar, tenho aula agora.
- E o que tem?
- Não posso faltar as aulas, são normas do colégio.
- E desde quando nós ligamos para regras? – Pergunta ele sendo irônico – E além do mais, regras existem para serem quebradas.
- Mas não se esqueça que precisamos manter as aparências de que nós somos adolescentes normais.
- E o que é mais normal do que dois adolescentes matando aula?
Olho pra ele com os olhos arregalados sacudindo a cabeça, negando o que acabo de ouvir e contendo o riso.
- Diz o Sr estudioso, que a cinco minutos atrás estava louco para ir pra aula... “estudar” – Engrosso a voz no final imitando ele, rindo baixinhos.
Ele revira os olhos.
- Esqueça o que eu disse, tá na hora de você aprender o meu lema sobre aulas Sely. “Antes nunca do que tarde”.
Dizendo isso, ele estica a mão e me espera. Não posso aceitar, mas sei que não vou resistir. Afinal, eu detesto as aulas e qualquer coisa é melhor do que aquilo, principalmente se for a figura a minha frente, que transforma tudo e qualquer coisa em piada. Não resistindo aquele sorriso torto, que exibe uma longa fileira de dentes retos e perfeitamente brancos. Acabo sempre fazendo o que eu faço: “A pior escolha”.
Depois de termos saído do colégio e corrido até a praia, nos sentamos a beirada da maré. Na arrebentação, uma a uma as ondas iam quebrando fortemente. O céu estava limpo, deixando passe livre para o sol. Estava um belo dia para surfar. Aliás, todo dia é bom para surfar. Na califórnia as semanas são repletas de dias ensolarados e noites com o céu repleto de estrelas. Enfim, dias perfeitos.
Aaron me olha de canto de olho como se vesse esperando eu começar.
- Então – Ele faz uma pausa – Agora pode me contar porque você anda fugindo de mim? – Ele estreita os olhos esperando por minha resposta.
A resposta dolorosa, entala na minha garanta quando penso em falar ela. A anos não pensava naquilo, é algo que preferi esquecer. Um segredo do qual guardei num baú em meu coração por tanto tempo, que jurei nunca mais abri-lo. Mas ali estava ele do meu lado, quebrando todas as regras e promessas que fiz.
- Você sabe o porque.
Pego um punhado de areia e faço-a escorrer por entre os dedos.
- Não Selênia, eu não sei. Sei o porque você está fugindo deles, mas sinceramente, não sei o porque você está fugindo de mim. E não tente inventar desculpas, porque toda vez que eu a encontrava, você desaparecia. Mas eu ainda podia sentir sua aura, por isto continuei te procurando. Até um dia em que... – Ele engole em seco – Eu não a senti mais. Pensei que havia morrido! – Ele me olha de um jeito que faz com que eu possa sentir a dor que ele sentiu – Mas de repente, eu estava andando por aí e do nada, vejo você descendo a rua de skate e ainda por cima, indo pro colégio, como se nada tivesse acontecido.
Ele repuxa os cantos da boca, forçando um sorriso.
Suspiro ao imaginar o que ele teve pensado quando me viu, ou o que teve que passar durante esse tempo. Pude sentir a dor em cada palavra que dizia.
Pego mais um punhado de areia e faço ela deslizar lentamente até chegar a outra mão. Olho mais uma vez para o mar antes de voltar a olhar para ele, que continuava a olhar fixado em mim, esperando uma resposta.
- Fiz por todos esses anos porque precisei. Ocultei minha aura porque eu sabia que não só ele, mas você também estava me seguindo. E fiz isso porque toda vez que você chegava perto de me encontrar... – Eu percebi que estava gritando, abaixo a voz, suspiro e com calma, continuo: – Porque toda vez que você me achava, ele estava um passo atrás de você, de me encontrar. – Digo isso e abaixo a cabeça não suportando a dor que cresce em meu peito. Aaron pega minha mão.
- Tem certeza?
- Tenho – Digo já exausta.
- Então não há muito o que você possa fazer. Ele vira atrás de você – Depois me olha nos olhos e diz – Custe o que custar.
Não! Ele não pode fazer isso. Suas palavras me deixam revoltada, o suficiente para que eu fique de pé num piscar de olhos. Quero ficar longe, longe dele, desse lugar, longe de... Nick, paro e fico paralisada, não, eu não possa abandoná-la. Prometi que cuidaria dela. Não posso deixá-la. Abaixo a cabeça derrotada, olho para Aaron que continua imóvel sentado me fitando, parecia triste. Acho que no fundo ele também entendia um pouco de minha dor. Vou lentamente em sua direção, volto e me sento onde ante estava.
- Sabe que não posso deixar ele me encontrar. Isso pode acabar mal. Muito mal. Eles estão nos seguindo. Só não me encontraram ainda porque com a aura oculta, nenhuma criatura sobrenatural pode me encontrar. Quanto a ele, as criaturas o estão seguindo, só não o atacaram ainda porque estão esperando eu cruzar seu caminho. É isso que eu temo.
- Mesmo assim Sely, não importa o quanto você fuja, ele vai continuar até te encontrar. Só nos resta esperar acontecer isso agora. Daí a gente vê o que faz. – Depois vira meu queixo na direção do seu e diz: – Fugir não é mais opção, ok?
Assenti com a cabeça levemente. Depois levanto.
- Vem, tá na hora da Nick sair da aula. Não posso deixa ela sozinha.
- Era impossível de não ver uma garota “derrubar” 5 outras garotas sozinha e ainda por cima sair ilesa.
Sorrio levemente andando de volta pro colégio com Aaron ao meu lado.
- Ah, mais uma coisa. – Ele para e me olha atentamente. – Se eu ocultei minha aura e você não pode mais me sentir, como foi que você me achou?
Ele sorri exibindo seus belos dentes brancos, depois me puxa para um abraço. Minha cabeça aconchegava-se em seu peito largo e forte. Ele apoia se queixo sobe minha cabeça, me envolvendo com seus braços.
- Você brilha na multidão Sely, é impossível não ver,
Ele me olha dando de ombros. E assim fomos andando de volta para o colégio, conversando pelo caminho, contando um ao outro o que cada um fez nesses últimos anos.
Chegando lá, como nós não podíamos mais entrar, ficamos sentados no portão esperando as aulas acabarem. Quando enfim Nick saiu da sala, nós vamos ao seu encontro. Ela olha para mim, depois fixa seu olhar em Aaron.
- Oi – Diz ele sendo simpático.
- Olá – Diz a ele, depois vira-se para mim – Quem é ele?
- Nick, este é Aaron, um velho amigo.
- Põe velho nisso – Diz ele de olhos arregalados, rindo.
Eu olho no relógio e logo me lembro de que se Nick chegar atrasada, Abigail vai ficar preocupada e encherá a garota de perguntas.
- Vem Nick, temos que ir, se não sua mãe vai ficar preocupada.
Depois olho para Aaron que parece estar concentrado em outra coisa.
- Aaron, você vem?
Sem tirar os olhos da parede, ele me responde:
- Não vai dar, preciso resolver algumas coisas.
- Que tipo de coisas? – Pergunto intrigada.
- Preciso ver onde vou morar, acerta a papelada toda, arranjar dinheiro, comprar um carro, essas coisas.
Abaixo a cabeça, já convencida, pego na mão de Nick.
- Vem Nick, vamos pra casa, depois a gente fala com o Aaron.
Quando eu já estava me virando para ir para a saída, Aaron parece ter saído de seu transe.
- Ei Selenia.
Eu paro prestando total atenção nele. Ele morde o lábio inferior, logo depois diz:
Eu a observa-a de longe conversando com a Nick. Ela estava repassando as últimas instruções sobre como vim e voltar da escola. Vi ela preparar seu lanche com muito cuidado e carinho.
Abigail é uma das mães mais amorosas que se possa conhecer. Desde que a conheci, sempre a vi doce com os vizinhos, atenciosa com os outros, nunca, jamais a vi levantar uma única só mão para a Nick. Era uma mulher forte, apesar de sua enorme perda. Ter que manter Nick sozinha, trabalhar e ainda ser a pessoa maravilhosa que era. Sim, ela era forte.
Ela entregou a mochila a Nick, que lhe deu um beijo no rosto e saiu pela porta. Eu espero o momento certo, e 1… 2 … 3!
- AH! Sely, que susto que você me deu - Diz ela com os olhos arregalados, ofegante.
Eu havia pulado a sua frente, surpreendendo-a.
- Haha, desculpa pequena - Digo abraçando-a, tentando acalmar as batidas do seu coração que batem incessantemente - Adivinha só?
- Nick… Nick, o que foi? - Abigail sai num rompante pela porta.
- Não foi nada mamãe. A Sely me assustou.
- Ah… Oi Selenia – Abigail acalma-se a me ver ao lado de Nick – Seus pais voltaram?
Desde que me mudei para a casa ao lado, Abigail ficou louca para conhecer “meus pais”. Logo percebi que teria que inventar uma desculpa para estranha ausência de minha família. Por ela nunca os terem conhecido, ou ouvido falar deles.
Então convencia Abigail de que, meus pais eram ambos importantes empresários de comércio exterior, por isso não paravam em casa, viviam viajando para diversos países, indo a diversas reuniões. Mas achavam que a filha não fazia parte das obrigações deles. E também achavam que ela deveria ter uma vida normal. Então a casa deles ficava sob responsabilidade da filha que recebia uma bolada de dinheiro todo mês para suprir suas necessidades, incluindo alimento, casa, carro e escola.
Abigail acreditou sem ao menos questionar. Para ela eu era a adolescente podre de rica, abandonada pelos pais que tentam suprir sua ausência com dinheiro. Para os de mais do bairro, eu era uma importante filha de mafiosos que ficava ali por proteção da família. As teorias sobre minha família ficavam cada vez mais engraçadas,
Abigail mais uma vez parecia decepcionada.
- Mais que pena. Eu adoraria poder conhecê-los.
- A culpa não é deles, acredite.
- Não, tudo bem, eu acredito. Só é uma pena ainda não tê-los conhecido. – Ela sorri amarelo, logo depois diz – Mas o que faz aqui tão cedo?
- Vou para escola junto com a Nick.
Não sei dizer qual das duas ficou mais surpresa. Se era Abigail me olhando surpresa, ou era a Nick com brilho nos olhos.
- Isso é sério, Sely? – Pergunta Nick me olhando de um jeito que faz meu coração doer.
- É isso aí pequena, vou estudar junto com você a partir de hoje.
- Mas e sua antiga escola, Selenia? – Pergunta Abigail intrigada.
- Decidi me mudar para ficar mais perto dela – Digo sorrindo para Nick.
- Oba! Oba! Sely vai estudar comigo!
Nick adorou a ideia. Sua alegria era tanto que fez com que uma pequena lágrima brotasse de meus olhos. Que por sorte ninguém percebeu, pois Nick já me puxava pela barra da camiseta.
- Vem Sely! Vem logo, a gente vai se atrasar - Ela implorava manhosa. Seu tom de voz fez com que eu risse.
- Tá bem, vamos. Até mais tarde Abigail.
- Até, Selenia. Tchau filha, se cuida. – Diz Abigail se despedindo.
No caminho para a escola, Nick conversava alegremente sobre a escola e seu teste para as lideres de torcida.
De longe já dava para avistar o emblema em cima do colégio. O prédio era um pouco rústico, com sua tinta cor de abóbora descascada, um impecável jardim e com um belo e grande campo de futebol, bem ao lado STANFORD HILL, com certeza era um dos melhores colégios de toda a Califórnia.
Estamos passando pelo jardim quando eu paro e me sento em baixo de uma árvore de tamanho e tronco igualmente grande.
- Sely, não! Levanta daí agora!
- Por que Nick? O que aconteceu?
- Não pode sentar aí, não é seguro.
- Como assim não é seguro? - Ela começa a ir direto ao ponto que eu queria.
- Ela vai nos matar!
- Quem vai nos matar?
- Taylor – Diz botando a mão na boca, percebendo que acabara de falar de mais.
- Essa é a menina que te bate? Taylor, é ela? – Digo olhando-a seriamente.
Sem ter muitas opções, pois já havia falado quase tudo o que eu queria. Ela aponta e diz
- É aquela ali a Taylor. E com ela estão suas amiguinhas sem vida própria, que a seguem feito uns cachorrinhos.
- É tudo que eu precisava saber.
Continuo sentada em baixo da árvore despreocupadamente, tirando os fios soltos do meu calção quando apareceu ao nosso lado uma garotinha da mesma idade de Nick, com os cabelos loiros, finos e lisos, presos num rabo de cavalo. Sua franja reta acompanhava a linha de seus óculos que juntos escondiam grande parte de seu rosto branquinho com pequenas sardas espalhadas em torno do nariz.
- Quem é ela? – Aponta para mim, mas sem tirar os olhos de Nick.
- Ela é minha irmã mais velha – Diz alegremente, sem duvidar do que acaba de dizer.
Mesmo de cabeça baixa, escondido por trás do boné, sorrio ao pensar em sua resposta “ela me considera sua irmã”.
- Sely, está aqui é minha amiga Jenna.
- Oi, prazer Jenna – Digo ao olhá-la melhor.
Mesmo parecendo um tanto alarmada ela aperta minha mão.
- Vocês enlouqueceram? – Jenna nos olha incrédula – Se a Taylor as ver aqui, ela vai matar vocês duas.
- Eu disse a ela. Mas quem disse que a Sely me escuta?
- Ninguém vai matar ninguém, relaxem vai ficar tudo bem. – Digo as duas sabendo que é verdade.
Volto a tirar os fiapos de meu calção quando Nick agarra meu braço e o aperta.
- Ela nos viu, está vindo para cá… Eu disse, é tarde de mais.
- Estamos mortas! – Completa Jenna.
Continuo de cabeça baixa, sem me preocupar. Pois não há nada com que se preocupar. Nick se aconchega do meu lado e Jenna faz o mesmo.
Alguns segundos depois vejo um par de botas a minha frente, junto com quatro outros de tênis de marcas.
- Olha Rilly, as pirralhas estão ficando abusadinhas de novo, além de sentar aqui, ainda trazem uma amiga – Ela fala de um modo sarcástico e debochado. Sua risada surpreendentemente parece com a de uma criança que acaba de ganhar uma Barbie.
Nick agarrava-se ao meu braço, tremendo de medo. Jenna no outro. Eu continuava seriamente de cabeça baixa.
- Ei novata, qual é o seu nome? – Perguntou uma delas.
Eu continuava a ignorá-las.
- Acho que ela perdeu a língua – Diz a com tênis vermelho.
As demais riem e apenas concordam. Como Nick havia dito, um bando de cachorrinhas na coleira.
- Mas acho que temos que reensinar as pirralhas as regras deste lugar. Depois cuidamos da muda aí. – Diz apontando pra mim e avançando na direção de Nick. Quando vejo que ela está a poucos metros de Nick, me levanto tão rápido que no meu lugar forma-se um borrão. Pego no colarinho de Taylor e a puxo bem perto. As outras com a minha inesperada reação, ficam sem ação, paradas imóveis com os olhos arregalados.
Olho bem nos olhos dela e digo:
- Se você ousar encostar um só dedo em Nick. Eu juro que se arrependerá até o último fio de cabelo seu!
Sem dar chance de resposta, eu a empurro no chão. Fazendo com que ela tropeçasse duas vezes antes de cair e se estatelar no chão.
Quando enfim suas amigas saíram do transe que entraram quando eu agarrei Taylor, quando pensaram em reagir, o sinal da escola toca, impedindo que elas continuassem. Taylor enfim se levanta, tira a poeira da roupa, aponta o dedo para mim, abre a boca para falar algo, mas no último segundo, desiste.
Saem caminhando em direção a porta da entrada, todas entram, Taylor fica por último, mas antes de entrar ela se vira para mim e passa lentamente o polegar pela garganta, olha fixamente para mim antes de se virar e entrar.
- O que foi isso? – Jenna nos olha incrédula. Depois volta a olhar para a Nick – Sua irmã é demais!
Sorrio com sua resposta.
- Vamos meninas, eu sei que vocês ainda tem aula e… eu também – “Eu acho” – Vamos, não podem se atrasar.
- Ah… Tudo bem – Falam as duas.
Vou andando com elas até a porta de entrada, entramos juntos.
- Bem meninas, vocês sabem as suas salas, eu tenho que ir para a minha também. Vejo vocês depois.
Olho para a Nick.
- Mas e a Taylor? – Ela fica tensa novamente.
- Não se preocupe com ela. Ela não fará mais mal a você – Depois olho no relógio – Vai, você vai se atrasar.
Ela apensas assente e sai correndo e indo em sua sala. Eu agora, sozinha no corredor, não sabia o que iria fazer. “Bem, só me resta ir para aula… Eu acho”
E vou me arrastando pelos corredores até chegar a minha suposta sala e abro a maçaneta.
As próximas duas horas foram as mais entediantes de minha vida, não porque a aula era ruim, mas é porque não faz parte da minha natureza ficar parada, sentada, esperando. Quando enfim a Sr. ª Matilde para de explicar as mil e uma formas de classificar uma cebola, o sinal toca me libertando daquele tédio. Ficar ali fez com que eu me esquece-se de alguma coisa importante, eu só não sei o que, é algo sobre… NICK!… TAYLOR!
- Ah, droga!
Saio correndo pela porta quase atropelando todo mundo, chego até a sala de Nick, quando vejo que ela já está vazia.
- Ahh não.
- Está me procurando?
Ela sai de trás de mim com seus livros pressionados contra o peito.
- Ah você está aí – Sorrio aliviada.
- Sim, onde mais estaria?
- Eu não sei – Digo disfarçadamente.
- Ei, que aula você tem agora?
Pego minha tabela, pois não havia decorado os horários.
- Hã, Educação Física.
- Sério? Eu também, vamos, eu te mostro onde é.
Ela pega minha mão e vai me levando até chegar em um grande ginásio, onde um grupo de meninas estava de um lado e outras se posicionando na quadra.
- Eu já volto, vou trocar de uniforme.
Fui até o vestiário e peguei uma roupa para execícios azul-marinho, que quando vesti até que não ficou tão mal. Volto à quadra e percebo que só falta eu me juntar a elas.
- Eu escolho ela. – Uma garota aponta para mim. Ela usava um aparelho daqueles gigantes, e seu jeito de andar era um pouco desengonçado. Sorriu para mim, o que deixou seu aparelho maior do que já era.
- Oi, sou Samantha, mais pode me chamar de Sam.
- Prazer Sam, sou Selenia – Sorrio retribuindo sua gentileza.
Quando vou para minha posição, vejo que Taylor faz essa aula comigo e está do lado adversário. Quando também percebe minha presença, sorri de forma doentia.
Quando finalmente soa o apito da treinadora, bolas e mais bolas vem em nossa direção, acertando diversas companheiras minhas do time. Taylor faz a maioria dos acertos que são louvados pelas suas fiéis seguidoras. Quanto a mim, me esquivo com facilidade dos arremessos do adversário. Agora só resta eu e Samantha no time. Taylor que acabara de pegar a bola como um gato, vem correndo e acerta em cheio a boca de Sam, quebrando em parte seu aparelho, mas o suficiente para deixá-la muito ferida. Ela cai para trás de bruços, cobrindo a boca, tentando esconder o filete de sangue que escorria de lá. Eu me ajoelho ao seu lado e tento ajudá-la a se levantar. Com a boca ensanguentada e morrendo de vergonha após a humilhação que acabara de passar, ela levante relutante, procurando esconder seu rosto. Ela se livra de meu braço e sai correndo em direção a saída, ainda contendo as lágrimas.
Logo depois que sai, eu me viro e pego a bola “até agora eu havia deixado, mas isso… Isso não vai sair barato”
- Então você quer jogar Taylor? Okay, que comece o jogo.
Com força, arremessei a bola que acerta em cheio sua companheira bem no estômago, que contorce-se no chão.
Taylor a olha e depois volta seu olhar para mim, pega a bola e com toda sua raiva, a joga em minha direção, que passa a centímetros de meu rosto, eu a pego e devolvo eliminando mais uma. E assim vai, uma a uma elas foram eliminadas até que só restam eu e Taylor.
Ela está com a bola quando vem correndo, pula e com toda a sua força joga a bola. Eu a pego e sem dar tempo dela pensar, a jogo com toda força acertando-a no rosto, igualmente como ela fez a Sam.
Taylor é arremessada a um para trás, caí de costas batendo fortemente a cabeça no chão.
- Vitoria! – Grita uma garota na arquibancada, que acabo reconhecendo como uma das minhas companheiras de time – A vitória é nossa.
Todo o meu time vem ao meu encontro, gritando vitória. Milhares de abraços e hurras para mim e meu time. Até que Taylor se levanta, vem marchando em minha direção cerrando os dentes de raiva. Empurra todo mundo até chegar a mim e me acertaria um soco se eu não tivesse me esquivado para o lado, eu a empurro, ela vai tropeçando para trás até encontrar apoio nos de mais que ali estavam para assistir a disputa.
Ela veio novamente para cima de mim, mas foi impedida pela treinadora que a segurou por trás. Ela se debatia enquanto gritava:
- Isso não vai ficar assim! Você vai ver, guarde minhas palavras…
Ela foi retirada do ginásio pela treinadora.
- Ela pirou de vez, não? – Perguntou Nick a mim.
Dou de ombros, não me importo, ela teve o que mereceu.
- Sabe que ela não vai deixar como está, ela vai se vingar – Nick diz engolindo a seco.
- Não se preocupe quanto a isto, vocês duas ficaram bem, eu prometo, quanto a mim, eu dou o meu jeito.
- Espero que esteja certa, que pela cara que ela fez, isso foi a gota d’ água para ela.
- Relaxem meninas, vai ficar tudo bem.
Nick sorri amarelo, não levando fé alguma em minhas palavras, já Jenna sorri empolgada, parece ser a única a ter gostado da provocação à Taylor.
- Vem, temos que ir pro refeitório antes que bata o terceiro sinal.
Nick pedia com os olhos um tanto preocupados.
- Certo.
Digo seguindo as duas até chegar ao refeitório, as duas pegam iogurte, eu encho minha bandeja com frutas e pudim e uma caixinha de suco.
Não pretendo comer tudo aquilo, mas pretendo dar a impressão de que sim. Me sento junto com elas. Comemos as três silenciosamente, Jenna devorou seu iogurte em menos de um minuto, Nick tomava aos poucos, com cara de quem não consegue tomar mais um gole sequer.
Sem sinal da Taylor ou seus cãozinhos de estimação.
Logo depois que terminamos nossas refeições, nos dirigimos para sala de aula. Mais três horas de puro tédio.
Definitivamente assistir aula não é o meu forte. Quer dizer, eu até entendo as fórmulas de química, álgebra e posso até dizer que sei dissecar um sapo. Mas o simples fato de ficar parada no mesmo lugar por mais de horas, simplesmente me leva a loucura.
O meu instinto é ficar ativa, alerta, preparada para qualquer situação, não sentada, tentando entender guerras, da qual eu já “lutei”.
Após ter terminado todas as aulas, vou me dirigindo até a saída onde marcara de encontrar a Nick. Vejo-a balançando seu longo cabelo castanhos escuros. Só de vê-la, já me sinto mais aliviada.
- Pronta pra ir?
- Sim, só estamos esperando a mãe de Jenna vir para buscá-la. – Depois diz com a voz quase num sussurro – Ela tem medo de ir sozinha por causa da Taylor.
Apenas assenti, porque afinal de contas, ela tem razão.
De repente um carro preto para em nossa frente, o vidro abaixa e por detrás dele revela uma mulher loira de óculos grandes e aparentemente desconfortáveis.
– Vem Jenna, vem logo, você tem consulta as 4 horas, ah, oi meninas – Depois se direciona a Nick e a mim.
- Hã, olá – Respondo apenas isto, pois não conheço, nem ao menos sei o nome.
- Estou indo mamãe – Se vira para nós para poder se despedir – Tchau Nick – Depois me olha e sorri feito cúmplice -– Tchau Selenia. Adorei o que você fez hoje, já te disse que sou sua fã?
Dou uma gargalhada curta e tento conter o riso
- Ainda não – E volto a rir.
- Bom, agora você já sabe. Até amanhã.
E sai correndo dando a volta no carro, que assim que ela entra, arranca a toda velocidade.
Olho para Nick com as sobrancelhas arqueadas, surpresa por ver a mulher tão calma no volante, mas assim que tem a oportunidade, pisa fundo no acelerador, arrancando a toda velocidade.
- Então tá né – Dou um risinho – Vem, vamos pra casa.
Nick pega minha mão e vamos andando pela calçada tranquilamente, quando ouço passos atrás de nós.
- Você não acha que iria ficar por assim mesmo, acha? Que viria aqui no primeiro dia de aula e me humilhar como se eu fosse uma qualquer?
- Eu não acho nada. Eu apenas sentei debaixo da árvore com a Nick e você veio em nossa direção nos provocar, eu apensas a defendi – Digo sabendo que era verdade.
- Eu até a ignoraria, mas depois daquela bolada em meu rosto, ah, aquilo nunca, jamais deixaria barato! – Diz me fulminando com seu olhar – Já passou da hora de você aprender sua lição.
Diz pondo fim a conversa, partindo para cima de mim, suas amigas vinham logo atrás. Isso era a última coisa que eu queria, nunca quis que chegasse a esse ponto, mas Taylor estava me obrigando a partir pra ofensiva.
Não podia bater naquelas garotas, um simples soco meu poderia tirar-lhes a consciência, derrubado-as no chão. Além do mais, odiava a ideia de Nick me ver batendo em outras garotas, por isto, tomei a melhor solução que eu poderia ter.
Mantive Nick atrás de mim e logo quando Taylor iria me acertar um soco em meu rosto, eu me viro a tempo de segurar seu braço na metade do trajeto. Torço-o para o lado, fazendo com que ela gritasse de dor. Depois a empurro para manter a distância. Suas amigas pensam em reagir e ajudá-la, mas ficam paralisadas ao ver sua “mandante” estatelada de costas no chão. Taylor mais uma vez se levanta e vem na minha direção, que com a leveza perfeita e flexível como sou, elevo a cabeça abaixo do joelho da perna direita, subindo com a esquerda em sentido horário, acertando em cheio o rosto de Taylor, arremessando-a metro de distância. Que perde a consciência ao encontrar o chão.
- Nossa! Você viu isso?
- Vi sim Jack!
Olho para o lado e vejo que o time de futebol americano acaba de assistir ao embate meu e de Taylor.
Fiz mais do que devia, minha ideia de passar despercebida no colégio não deu muito certo. Tenho que sair daqui agora, antes que eu chame mais atenção do que já fiz.
Enquanto as amigas de Taylor tentam ajudar ela a se recuperar, e o time conversa sobre nossa briga. Eu aproveito a oportunidade, pego pelo braço de Nick, desprendo o skate preto na parte da frente da mochila, subo nele e me abaixo.
- Vem! Sobe nas minhas costas, rápido!
Mesmo amedrontada pela ideia de estar nas minhas costas e eu em cima de um skate, que começa a pegar embalo, ela sobre sem questionar,
Descemos as ruas na maior velocidade, sem se preocupar com carros ou pessoas que por ali andavam. O coração de Nick batia muito forte e rápido, não sabia dizer se era por medo ou emoção de praticamente estar quase voando. Ela apertou fortemente seus braços em volta de meu pescoço e suas pernas entrelaçadas em minha cintura.
Por sorte eu possuía grande equilíbrio, e destreza. Fatores que ajudaram as decidas serem mais leves.
- Nós vamos morrer! – Nick gritava.
Quando olho pra frente, me dou conta do que ela quis dizer com aquilo.
A rua acabara e ali havia um forte cruzamento de carros impossível de se atravessar, mas eu avisto uma placa.
- Perfeito!
Bem no último minuto, eu passo a mão pelo ferro que a sustentava fazendo a curva perfeitamente, sem nenhum arranhão. Posso jurar que escutei um “UFA!” atrás de mim.
O resto do caminho foi tranquilo. Chegando em casa, salto já com o skate na mão.
Nick vai correndo para dentro de casa e quando eu entro, escuto:
- Mãe! Mamãe! A Sely bateu numa menina na escola hoje.
Abigail largou a tigela de chilli e se vira de olhos e boca arregalados.
- Não foi bem assim, eu…
- Ela me salvou mamãe. – Diz Nick acalmando sua mãe.
- Ahh, minha nossa, eu pensei que… Ah, deixa pra lá. - Sorri ao voltar para seu chilli.
Nick vem ao meu lado.
- Sely, hoje foi tudo bem, mas e amanha?
- Amanhã será um novo dia, mais aja o que houver, vou sempre estar ao seu lado. Sempre.
Ela sorri e me abraça.
- Ei, que tal brincar de pic?
- Sim, sim, tá com você.
Diz isso e sai correndo.
Balanço a cabeça, feliz com o dia de hoje. Mesmo sabendo que amanha veremos a Taylor do mesmo jeito. Sinto me mais tranquila ao saber que estarei lá, ao lado de Nick para poder ajudá-la, defendê-la e proteger de todo ou qualquer coisa que queira lhe fazer mal.