- Bom dia - Molly diz alegremente entrando no quarto. Estava vestida com um short e apenas a parte de cima do seu biquíni vermelho, enquanto comia uma pera. A praia…
Eu já estava acordada há algum tempo, mas me recusava a levantar. Quando consegui finalmente dormir na noite passada, o sol já estava nascendo, e eu não tinha a minima vontade de largar do casaco de Will ao qual eu dormi abraçada, portanto, a cama era o melhor lugar para uma pessoa deprimida, como eu, ficar. Mas, infelizmente eu não podia.
- Vamos, venha tomar café - ela tenta puxar o meu pé entre as cobertas.
- Não, estou sem fome - murmuro contra o travesseiro.
- Não seja ridícula, estamos todos à mesa- bufei.
- Me dê 10 minutos Molly, e eu já desço - ela assenti e continuou em pé ao lado da cama.
- Molly, você pode descer. Em 10 minutos eu estarei lá.
- Tudo bem, mas se você não descer eu mesma te arranco da cama, e não te direi como - ela aponta o dedo para mim e sai batendo a porta do quarto.
Molly foi a única que desde o acontecimento com Will, me fez sorrir e parecer mais feliz perto dele, o que não era nada verdadeiro.
Me levanto e lutando contra a preguiça, vou para o banho.
A viagem estava se tornando cansativa, e não pelo lado positivo. Desde o momento em que Will decidiu querer ser só meu amigo, há quatro dias, para ser exata, ele tem agido diferente. Como apenas um amigo de verdade. Está cumprindo com a sua palavra, mas isso não me agradava e sempre que ele não estava me olhando, eu o olhava, o admirava, mas era sempre repreendia com o olhar torto de Molly, que me permitia sorrir.
Mas eu não podia fazer nada. Ver ele me chamar de amiga em voz alta era doloroso, mas a única culpada disso era eu mesma, ninguém mais. E tão doloroso quanto isso, era olhar em seus olhos, que sempre foram as janelas da sua alma, a sua abertura para mim; estavam apagados, não havia ninguém em casa. Eu não conseguia enxergar mais nada dentro daqueles olhos cor de mel, e me pergunto: será que ele realmente deixou de me amar? Em tão pouco tempo?
Mas em poucas vezes, quando ele me olhava de relance eu ainda via algo, e mesmo que pouco, ele me olhava, e como apenas uma amiga. O meu coração sempre aperta quando eu digo ou até mesmo penso nessa palavras, estava difícil de suportar e eu sempre sentia vontade de chorar; nunca fui tão tola na minha vida, e eu o perdi por uma idiotice, por um fraquejo. Eu nunca irei me perdoar.
Mas quando você acha que nada pode piorar, você ri do seu pensamento idiota: sempre irá piorar. E como se não fosse o suficiente o sofrimento, Cameron faz suas investidas em mim. Poderia ser um fato bom: ele é bonito, gentil e sabe como conquistar, mas não a mim. Porém, o que mais me dói é o incentivo de Will. Ele o odiava há dias atrás,pelo simples fato de me olhar, e agora me quer junto a ele? Juro que se pensar mais um pouco sobre o assunto, surtarei e me afogarei na banheira ao meu lado. Mas, como é véspera de natal, minha época favorita do ano, saio do banho com um grande sorriso no rosto. Amo o natal, presentes, família, e no meu caso, amigos, que amo como se fossem da família, do meu sangue.
Saio do banheiro e procuro algo para vestir. Sei que já se passaram = mais de 10 minutos, mas Molly não retornou ao quarto e eu resolvo me apressar, ou me atrasarei. Haverá hoje à noite um coquetel que a mãe de Diego oferecerá, estarão presentes pessoas importantes do mundo da arte, já que ela é dona de um conjunto de galerias famosas por aqui, e como estamos hospedados aqui não deixaríamos de participar, apesar dela ter nos alertado sobre os convidados metade do dia: podem ser famosos, mas não somos ignorantes, mal sabe ela que fui criada nesse meio. E mesmo não sendo o meu tipo de festa preferida e sabendo também, que logo daremos um jeito de fugir do tal coquetel e ir para algum lugar melhor e mais agitado, eu ficaria. E para organizar a casa, senhora Kunis nos pediu para sairmos dela por volta do meio-dia e que só voltássemos ao entardecer, apenas para termos tempo de nos arrumar e estarmos apresentáveis. Talvez ela tenha razão em que atrapalharíamos, principalmente Diego, que se meteria no meio da decoração e só a deixaria em paz quando fizesse do seu jeito, palavras dele. Então combinamos de ficar na praia durante toda a tarde, onde daria para ver todo o movimento que acontecesse na casa, e saberíamos quando tudo estivesse mais calmo.
Olho para o espelho, estou vestindo um biquíni salmon de babados e um short jeans, adiciono um pouco de rímel e corretivo na área dos olhos para esconder as olheiras, mesmo sabendo que irei tomar banho de praia. Procuro meus óculos escuros, celular, calço a primeira sandália que encontro em meio à bagunça que está o quarto, e caminho para as escadas.
( http://www.polyvore.com/dia_austr%C3%A1lia_praia/set?id=113775304 )
Quando chego à sala de estar, ela está vazia. Vejo apenas a mesa de jantar, que está sendo movida de lugar por três homens fortes que recebiam as ordens de Jolene.
- Bom dia Jolene - digo e ela se vira para mim sorrindo.
- Bom dia querida, em que posso ajudá-la?
- Só me responda, onde todos estão?
- O café da manhã foi servido na mesa da varanda, todos estão lá - aceno agradecida e caminho para fora.
Quando chego à mesa, todos estão conversando e não parecem perceber a minha presença, então me sento ao lado de Will, apenas por ser a única cadeira vaga e relaxo.
- Bom dia - digo pegando uma maçã sobe a mesa.
Todos se distraem de suas conversas e se viram para me cumprimentar, mas logo voltam ao interesse.
- Dormiu bem? - Will me pergunta e eu mordo um pedaço da maçã, para conseguir um pouco mais de tempo, pensando no que falar.
Eu podia lhe dizer a verdade: que não dormi quase nada pensando no quanto somos idiotas e que o amo mais que tudo, mas o deixei ir. Ou poderia mentir e dizer que dormi muito bem, e eu escolho a segunda opção.
- Sim, obrigada por perguntar.
- Não parece, você tem uma cara cansada - ele coloca sua mão em cima da minha e eu sinto meu corpo se arrepiar com o simples toque, mas para que ele não perceba, tiro sua mão de cima da minha usando como desculpa que vou me servir um suco.
- Acho que ando tomando muito sol - respondo sem olhar em seus olhos, ou não conseguiria sustentar a mentira.
- Então não devia ir à praia hoje. Pode pegar alguma doença de pele, não sei, você é sensível, Viviane - ele passa a mão em cima do meu ombro nu, mas dessa vez eu não desvio, não tenho nenhuma desculpa em mente.
- Não, está tudo bem, eu vou à praia.
- Eu posso te levar à cidade, podíamos ir no… - ele fala, mas eu o interrompo, não suportaria fazer um programa de amiguinha com ele, seria demais.
- Eu disse que está tudo bem, eu vou à praia - ele olha para mim assustado e percebo que fui um pouco grossa.
- Me desculpa, Will, só tenho dormido pouco - dessa vez sou eu que coloco minha mão em cima da sua e ela se perde ali, de tão pequena.
- Mas você disse que dormiu bem.
- Bem, mas pouco. Você sabe que eu preciso das minhas oito horas diárias - sorrio para ele tentando fazer graça, mas sei que o meu sorrido forçado não convence.
- Tudo bem - ele balança a cabeça e volta a tomar café.
Assim que termino de tomar o meu suco, a senhora Kunis sai pela porta da cozinha e nos dá um sorriso coletivo.
- Bom dia, crianças - ela usava uma calça flare de tecido, na cor mostarda. O cabelo avermelhado estava preso no alto da cabeça, mas estava, como sempre, elegante.
- Bom dia - dissemos juntos.
- Como sabem, eu preciso da casa desocupada ao meio-dia - ela olha para o seu relógio de pulso - e são exatamente meio-dia, a equipe chegará a qualquer momento.
- Nós entendemos, mãe, já estamos saindo - Diego levanta da mesa, e nós fazemos o mesmo.
- Qualquer coisa, estaremos na praia - ela acena, nós fazemos o mesmo e saímos em direção à praia.
Enquanto caminhamos pela descida, percebo que Mateus, Taisa e Will, vão fazer um caminho diferente e resolvo perguntar para onde vão.
- Vocês não vão para a praia? - pergunto a Will, e ele apenas nega com a cabeça.
- Para onde estão indo?
- Para a cidade - ele está com raiva de mim?
- Quer que eu vá junto? - ele nega novamente.
- Tenho um compromisso particular - compromisso? Particular?
Sinto meu sangue ferver e apenas lhe dou as costas e sigo o resto dos meus amigos para a praia.
Assim que chegamos a um lugar agradável na praia onde faz sombra, afundo na areia, e Molly faz o mesmo de um lado e Stéfany do outro.
- Tá tudo bem? - Stéfany é a primeira a perguntar.
- Tudo ótimo, por que não estaria? - aperto o óculos escuro nos olhos com desdém para que ela tente acreditar em mim.
- Caramba, Viviane! Você mente muito mal.
- Pior que você? - olho para ela, que confirma.
- Devo estar muito mal então - elas sorriem e eu faço o mesmo.
- Mas nos diga, o que está acontecendo? - é a vez de Molly perguntar.
Eu já havia contado a ela algumas coisas: que eu e Will não tínhamos mais relação fora amizade, e nem chances de termos algo a mais, e que eu ainda o amava, mas achei melhor omitir todo o resto da história.
- Eu já lhes contei tudo.
- Como eu disse - Stéfany sorri - você mente pior que eu.
- Diga-nos - Molly insiste, e eu cedo, contando toda a história: desde o nosso passeio na cachoeira, o meu ciume, o seu ciume, até a noite em que ficamos juntos na varanda e ele disse querer ser só meu amigo.
- O que você tinha na cabeça para dizer uma coisa dessas?
- Não está ajudando, Molly.
- Desculpa, Viviane, mas ele é lindo, tudo de bom, inteligente, e o mais importante: você o ama. Por que diria uma coisa dessas?
- Eu não sei, tá certo? Eu tenho medo. Medo de não dar certo, medo dele me deixar novamente. Ele me deixou uma vez, lembra? - olho para Stéfany que presenciou o meu sofrimento.
- Não haja como uma idiota - ela tinha os dentes cerrados e eu imagino o porquê - ele foi obrigado a fazer aquilo e todos nós sabemos que não foi culpa dele.
- Então de quem é a culpa? - eu grito, e sinto algo gelado nas minhas costas
Diego, Gustavo e Cameron se aproximaram de nós com um cooler repleto de Heinekens, e Diego me serviu uma.
- Acho que você está precisando.
- Obrigada - coloco a boca na garrafa e só me livro dela quando a garrafa está vazia.
- Caraca - Cameron diz após me ver virar todo o conteúdo de uma só vez, e eu não tenho um pingo de paciência para ouvir mais nada.
Me levanto, tiro o meu short, e o deixo enrolado com o meu celular na areia.
- Vou nadar - dito isso, saio chutando a areia e deixo as garotas para trás.
Quando chego ao mar, a água está gelada e eu logo mergulho, o que me trás uma paz. Eu sempre gostei do oceano, navegação, fascinada pelo infinito, como a galaxia.
Quando não consigo mais segurar o ar me levanto, mas quando recupero o folego novamente, volto a mergulhar.
Quando levanto pela segunda vez, estou com raiva, muita raiva, e tento brigar com uma onda que vem contra mim.
- Idiota, idiota - xingo.
- Calma aí, mas eu nem cheguei perto de você ainda - quando olho para trás me encontro com Cameron e a sua prancha de surf.
- Desculpe-me, mas eu não estava falando com você.
- Eu sei, e o mar também não merece a sua fúria. Está vendo como ele está agitado agora? - ele me aponta as ondas e eu faço que sim.
- Quer aproveitar para aprender a surfar? - me pergunta e eu apenas nego, deixando a onda me levar.
- Qual é, vamos lá, juro que não vai se arrepender! Sou um ótimo professor - ele pisca para mim e eu sinto meu estomago revirar. Ele está me dando borboletas no estomago?
- Tenho medo de me machucar.
- Como eu disse, sou um ótimo professor - ele sorri.
- Vem cá, linda - me puxa para perto, mas deixa a prancha entre nós. Ele pega algo como uma tornozeleira grossa que fica presa à prancha e a amarra no meu tornozelo.
- Oh, não - eu resmungo e tento me soltar.
- Ei, calma, só vou te mostrar - ele me pega pela cintura e coloca em cima da sua prancha.
- Não vai acontecer nada com você - apenas confirmo - isso preso ao seu pé não vai te fazer afundar, presa à prancha você sempre vai permanecer levitando, certo? - confirmo mais uma vez.
- O gato comeu sua língua? - ele diz e eu sorrio, com vontade de dizer que perco o ar enquanto ele me aperta tão forte, mas eu apenas nego mais uma vez e ele sorri novamente.
Passo alguns minutos apenas deitada na prancha enquanto a onda me leva, a sensação era boa, e quando finalmente consigo ficar de pé, a primeira onda vem e nos atinge. No começo eu fico com medo, mas logo eu volto à superfície, como Cameron disse que aconteceria.
Na segunda vez eu caio novamente, e dessa vez eu estou rindo; ele é um ótimo professor, mas eu sou uma péssima aluna.
Na quinta vez, vem uma onda fraca e eu consigo ir em pé até quase a areia, mas sem nem me mover, ou virar para qualquer lado, apenas em pé em cima daquela coisa de madeira, mantendo o equilíbrio.
Quando não aguento mais cair, fico apenas sentada em cima da prancha e Cameron se junta a mim, se sentando ao meu lado. E nós ficamos apenas assim, deixando a onda nos levar.
- Onde você aprendeu a surfar tão bem? - lhe pergunto.
- No Havaí.
- Você foi para o Havaí? - ele sorri.
- Eu morei lá até os 16 anos, quando minha mãe resolveu se mudar para cá, mas eu prático esse esporte desde os 9, e desde que vim morar aqui, volto uma vez ao ano para visitar os meus amigos e participar das competições anuais.
- Você compete?
- Desde os 12 anos.
- E você já ganhou alguma coisa?
- Se você for ao meu quarto você verá - ele me da um sorriso de canto e me sinto corar.
- Quantos prêmios você tem? - pergunto imaginando que ele deva ter vários.
- Diversos. Infantil, juvenil, primeiro lugar, segundo, manobra de ouro.
- Uau, você é bom.
- As minhas aulas não comprovaram isso? - sorrio.
- Sim, e obrigada, foi ótimo.
Ficamos calados por um tempo até eu perceber que o mar estava mais calmo, como eu, e a prancha apenas flutua.
- Acho que o mar não está mais furioso.
- Você foi uma boa aluna - ele volta a sorrir e eu também. E quando ele passa a mão pelo cabelo, tirando um pouco do excesso da água, percebo uma tatuagem no seu antebraço. Era grande, o desenho de uma âncora, com uma corda em volta, acho que estava muito dispersa antes para perceber. Era belíssima e se eu não fosse tão medrosa como sou, faria uma do mesmo tamanho.
- Que linda a sua tatuagem - ele a olha e faz o contorno dela com o dedo.
- Você gosta? - confirmo.
- O que significa?
- Geralmente, quem as faz são marinheiros que navegaram pelo oceano atlântico e voltaram sã e salvos para casa, e a quantidade não é muita, mas o meu caso foi outro.
- Você não sobreviveu? - sorrio, mas ele não.
- Não - ele suspira e volta a olhar tatuagem - há dois anos eu estava em uma competição no Havaí, e na final do campeonato acabei indo pelo lugar errado. A minha prancha se chocou contra uma rocha e eu caí, batendo com a cabeça na mesma.
- Ai meu Deus, Cameron, você ficou bem?
- No dia, não. Minha mãe foi para lá assim que soube da noticia e com a ajuda da Senhora Kunis, me trouxe em um helicóptero para cá. E mesmo estando em um dos melhores hospitais e não correndo risco de vida, fiquei 2 meses em coma induzido. A pancada na cabeça foi mais forte do que eu suportaria. - ele dá um sorriso fraco - Quando eu acordei, achei que tivesse se passado poucas horas, mas quando soube do tempo, eu fiquei em choque. Eu estava magro e pálido, parecia outra pessoa, e foi o que mais me assustou. Uma semana depois de ter sido acordado, eu saí do hospital, não podia fazer nada da minha rotina e eu fiquei furioso. Estava proibido de surfar por três meses e foi nesse tempo que fiz a tatuagem; não fui ao oceano atlântico, mas sobrevivi a um acidente na água.
- Sinto muito, Cameron. Isso é lindo. Obrigada por me contar - ele dá de ombros.
- Tudo bem.
- Eu tenho uma tatuagem - falo de repente, sem saber bem por quê, afinal, eu nunca contei a ninguém ou mostrei a minha tatuagem, e muito menos falei sobre o significado. Mas por algum motivo, eu resolvi contá-lo.
- Tem? - ele percorre com os olhos todo o meu corpo, e quando não acha nada abre um sorriso - eu não a vejo.
- É que fica em um lugar escondido - o seu sorriso se alarga e é substituído por um safado.
- Não é nada disso que você está pensando - pela primeira vez levanto o meu cabelo molhado, e entre a minha nuca e orelha, estava ali: o meu pequeno triângulo, tão pequeno, mas cheio de significado. Sempre tive cuidado ao arrumar o cabelo; sempre que o prendia em um rabo de cavalo ou coques, tratava de escondê-la, deixando alguns fios soltos. Era algo particular, meu, que agora compartilhei com ele.
- Ela é tão pequena - ele passa o dedo por ela e me arrepio, e assim solto o meu cabelo, cobrindo-a novamente.
- Não tenho coragem de fazer nenhuma maior que isso, e também meu pai nunca permitiu.
- Você fez escondido? - confirmo e ele solta uma gargalhada, me fazendo cair no riso também.
- Até hoje ele nunca descobriu? - nego e ele sorri novamente.
Quando já não aguento mais ficar dentro da água, pelos dedos engelhados, o chamo para sair e ele confirma. Mas, diferente do que Will fez, não beija os meus dedos e me ajuda a sair da água, apenas ajusta a prancha para que eu desça e nadamos de volta até a areia.
Quando retornamos até o grupo, eles estão conversando alegremente, mas percebo que Will, Taisa e Mateus já estão de volta. Há quanto tempo eu fiquei com Cameron na água? Olho para Will que me observava, mas ao encontrar com o meu olhar curioso, desvia e toma um gole da sua cerveja, e eu faço mesmo. Vou até o cooler e Diego pega uma para mim, sento-me ao seu lado e tento me integrar na conversa. Molly está de frente para mim com uma cara de desconfiada, e juro que se ela falar alguma coisa, eu corto a sua língua. Mas ela percebe que não deve e não fala nada.
Ficamos alí até que o relógio de Diego apita, avisando que são 5 da tarde e nós nos encaminhamos para casa. A festa aconteceria às 21:00, e como somos quatro garotas para um banheiro e os meninos o mesmo, entramos rápido pelos fundos para não atrapalhar a equipe, que continuava o seu trabalho. E apesar de estar quase pronto, resolvo não olhar, é natal, e subo as escadas de dois em dois degraus.
Uma hora depois, estamos todas tomadas banho e com os cabelos enrolados em bobes e máscaras esfoliantes no rosto. Ficamos sentadas no chão enquanto pintávamos as unhas. Eu escolhi um esmalte nude, discreto, e pintava a unha com calma, enquanto Molly surtava após ter borrado a sua unha pela terceira vez e não ter escolhido ainda o que vestir.
- Eu tenho 3 opções de vestidos - comento.
- Quais? - Taisa pergunta.
- O de manga longa, o azul escuro e o rosê sem alças - falo e aponto para os três vestidos pendurados no cabide.
- Prefiro o azul - Molly comenta e todas dizem o mesmo.
- O que irão usar? - pergunto para todas, e Stéfany é a primeira a dizer.
- O vestido preto.
- O que comprou no shopping? - Molly pergunta, e ela assente.
- Boa escolha.
- Eu usarei o vestido roxo - Taisa aponta para a cama e dá de ombros - Mateus gosta.
Era um vestido que chegava na altura dos joelhos e cheio de camadas, e apesar de novo, já havia experimentado para a aprovação de Mateus, como tudo o que ela veste.
- Eu ainda estou em dúvida - Molly finaliza e olha para cima, com o rosto verde pela máscara facial - tenho cinco opções.
Nós olhamos para a arara de cabides e tinha ali, 5 vestidos vermelhos, do mesmo tom e tecido, apenas alternando de tamanho. Segundo Molly, no natal só deveria usar roupa na cor vermelha, durante todo o dia.
- Você está linda, Viviane. Se eu gostasse da fruta, ficaria com você - Molly diz e eu solto uma gargalhada.
Estávamos todas em frente ao espelho, faltavam 10 minutos para as 21:00 e já nos encontrávamos prontas.
Eu havia ficado mesmo com o vestido azul de alças finas, ele era leve e fresco, gostava. A maquiagem que Molly fez em mim, dessa vez era clara, com apenas uma sombra iluminadora e um rímel com volume extra. A joia que eu havia escolhido era de momentos especiais: um brinco grande e de pedras, com um anel e bracelete da Tiffany. O cabelo estava preso no alto, mas alguns fios estavam soltos, para, como sempre, cobrir a minha tatuagem. E com os meus saltos pretos, eu me sentia poderosa.
( http://www.polyvore.com/natal_austr%C3%A1lia/set?id=108720951 )
Molly havia ficado com um vestido vermelho sem alças, e com um decote em forma de V. O vestido era Mullet e se encaixava perfeitamente nela. O batom vermelho e o salto nude completavam o look. Taisa estava com o vestido roxo de camadas e ficava bem nela, enquanto usava os seus saltos e a maquiagem escura. Stéfany estava com o cabelo solto e algumas ondas feitas por mim, o vestido preto que ficava bem em seu corpo era acima do joelho, e com os saltos vermelhos. Estava de matar.
- Vamos? - falo enquanto coloco mais um pouco de perfume.
- Estou com medo - Stéfany diz.
- De que? - Molly questiona, enquanto aperta mais um pouco a tira do sapato.
- De Gustavo não gostar do que vê - respondo por ela.
- Não gostar de você? Oh, Deus, mas você está linda - ela sorri, e nós também.
- Vamos? - é a vez que Taisa chamar.
- Sim.
Quando descemos, é nove em ponto e já podemos ouvir uma música tocando ao fundo. Tinha uma banda ao vivo, mas como todo o resto da festa, não era nada que eu curtisse.
Assim que descemos o primeiro lance de escadas, encontramos os garotos parados conversando e cada uma de nós paramos em um degrau, como se tivesse sido tudo programado, mas não havia.
Molly, que estava no primeiro degrau é recebida por Diego, que lhe dá um beijo carinhoso na testa, para não ter a marca do batom vermelho que ela usava, nos lábios.
Taisa é a próxima, e como usava apenas brilho labial transparente, é recebida com um beijo quente de Mateus.
Já Stéfany, anda timidamente até Gustavo e eu escuto ela receber um elogio e vejo que já não está mais tão insegura quanto a querer reconquistá-lo, mas algo me diz que ela não precisará de muito.
Quando chega a minha vez, eu fico parada e volto a me sentir deprimida. Eu era a única que não tinha um par, até Diego estava acompanhado. Logo ele que morria de medo de compromisso. Mas agradeço pela garota que ele está, ser Molly. Olho para Will e ele estava olhando para mim, e dessa vez o fogo estava de volta no seu olhar. Não sei o que aquilo significava, mas eu senti uma súbita vontade de descer as escadas correndo e me jogar em seus braços, mas não o fiz.
Ele sobe alguns degraus e me oferecendo a sua mão, me ajuda a descer o resto.
- Você está linda - ele diz ainda segurando a minha mão.
- Você também - olho para ele, que vestia um smoking sexy, com uma gravata borboleta que estava terrivelmente torta, e querendo ser gentil na noite de natal. Me solto de sua mão e ajusto a sua gravata.
- Argh, sou péssimo com nós - ele bufa e eu dou risada.
- Achei que tivesse sido escoteiro, não aprendeu a fazer nós? - ele me olha… olha… antes de falar.
- Sim, mas não nó de gravata - ele pega minha mão e planta um beijo nela - guarde a sua boca inteligente para outra hora.
Outra hora? O que ele quis dizer? Acho que vou me desmanchar aqui mesmo…
- Vamos descer, ou mamãe nos matará - Diego fala, agarrando a mão de Molly e descendo as escadas. Fazemos o mesmo.
A casa havia se transformado em um salão de festas: cortinas vermelhas e brancas cobriam todas as janelas do chão ao teto, deixando apenas algumas abertas. Haviam varias mulheres em vestidos de gala, e assim como Molly, usavam vermelho, e homens engravatados, todos com taças de champanhe nas mãos. E nesse momento, um garçom passa por nós carregando algumas, e nós esvaziamos a bandeja, fazendo o homem voltar de onde veio, a cozinha. Outros garçons circulavam com alguns quitutes e canapés, mas eu não estava servida, tinha alergia a uma porção de coisas que continha naquilo.
A mesa de jantar estava localizada mais ao canto, onde se tinha vista para o mar. Mais de 100 cadeiras a cercavam e eu imagino que a ceia será servida ali.
Ficamos perto de uma das janelas e Diego abre a cortina, deixando entrar um pouco de vento fresco. Conversamos um pouco enquanto bebemos um champanhe, até eu me lembrar que tenho que telefonar para o meu pai. Comunico a eles que irei lá fora fazer um telefonema e eles acenam para que eu vá.
Ando até a varanda desviando das pessoas, que tinham conversas nem um pouco interessantes. Assim que chego, vejo Cameron fumando o cigarro em pé, enquanto olhava para o horizonte. O cabelo estava penteado para trás e usava um paletó sem gravata. Os primeiros botões da camisa estavam abertos, deixando à mostra uma parte da sua pele bronzeada.
- Hey - ele diz ao me ver e me dá um abraço - Feliz véspera de natal.
- Feliz - sorrio e correspondo ao seu abraço, até que ele me solta.
- Você está linda.
- Você também - lhe dou uma piscada, e aproveito para lhe conferir de cima a baixo. Sexy.
Fico conversando com ele sobre como esse tipo de festa é entediante e como os convidados se acham os donos do mundo, até me lembrar do que fui fazer ali. Eu tinha que ligar para o meu pai, ou ele ficaria muito furioso.
- Cameron, dê-me licença para um telefonema - ele assente e eu me afasto um pouco.
O telefone chama duas vezes, até que meu pai atende com uma voz que parecia feliz.
- Filha?
- Olá, babo, feliz natal!
- Feliz natal, minha princesa. Como você está? - reviro os olhos ao ver ele me chamar assim.
- Poderia estar melhor.
- O que houve, filha? Problemas no amor ainda? - sinto uma pontada no coração, lembrando que poderia estar tudo bem.
- Não, só queria estar com você. Estou em uma festa pior das que eu já estive em Roma, nos nossos antigos natais - ele sorri, sabendo que nunca suportei as festas que o acompanhei.
- Tenho certeza que você dará um jeito de animar.
- Claro. Aonde você está babo? No hotel?
- Não, filha, estou em uma festa com alguns sócios, quer vir para cá? Posso mandar o motorista…
- Oh, não, tenho certeza que estará pior, aqui pelo menos eu tenho meus amigos.
- Bem, você decide. Tenho que ir agora, filha - escuto vozes ao redor, enquanto ele responde no seu perfeito inglês - Feliz natal, linda.
- Feliz natal, babo.
Quando termino o meu telefonema, estou feliz. Eu amo o meu pai, e apesar da distância que estamos tendo, o amo do mesmo jeito e mesmo sabendo que ele está aqui, nunca deixarei de sentir a sua falta.
Quando viro para o lado, Cameron não estava mais no lugar que conversamos há algum tempo, então resolvo entrar de volta na festa.
A banda agora tocava uma música mais romântica, e no final vejo alguns casais dançando. Para aquele lado com certeza eu não irei. Resolvo fazer o caminho oposto, indo para onde os meus amigos estavam antes, até que sem querer, esbarro em alguém.
- Desculpe-me… - O homem que esbarrei fala, mas antes de completar a frase eu levanto a cabeça rápido. Eu conheço essa voz.
- Pai?
- Filha?
- O que diabos o senhor está fazendo aqui? - lhe pergunto.
- Eu quem deveria lhe perguntar isso, era essa a festa que você estava? - confirmo.
- Aqui é a casa de Diego, onde estou hospedada durante as férias - vejo seus olhos se arregalarem, e logo me olhar com cuidado.
- Diego? Como não percebi isso antes… - quando estou prestes a perguntar do que ele está falando, senhora Kunis chega por trás do meu pai e lhe dá um abraço, logo após um beijo nos lábios.
Que porra está acontecendo aqui?
- Patrick, o que andas conversando com a Shrt… - ele olha para mim esperando que eu complete.
- Capelotti - digo furiosa.
- Sim… Será que posso saber o assunto? - ela olha para o meu pai, mas o seus olhos azuis brilhavam, e não saiam de mim.
- Não, você não pode - olho para ela bufando. E a vejo arregalar os olhos. Sei que estou na sua casa, mas se for do seu agrado, posso sair daqui agora mesmo e não faço questão. Ela está com o meu pai, meu pai! E ainda quer saber o que estou conversando com ele?
- Quem você pensa… - Antes que ela termine de falar, meu pai a interrompe.
- Frida, essa é a minha filha Viviane, Viviane, essa é a minha namorada Frida. Vocês já devem se conhecer - tanto o meu rosto, quanto o da senhora Kunis, se mostram surpresos.
- Acho que ainda não havíamos sido apresentadas nesse sentido - ela sorri e vem até mim plantando beijos em ambas as minhas bochechas, mas não a retribuo, estou furiosa com o meu pai.
- Senhora Kunis, se não se importa, pode nos dar licença, por favor? - junto a educação que me resta para mandá-la pastar educadamente.
- Querida, me chame de Frida, e sim, vou circular, nos vemos a qualquer momento - ela fala e nos deixa.
Não posso negar, ela estava linda: usando um vestido vermelho longo, que chegava a cobrir os pés e para andar, precisava levantá-lo elegantemente. Um lascão chegava até um pouco acima de joelho, deixando suas pernas a mostra, e o brilho que continha era um pouco exagerado na minha opinião, mas ficava magnifico nela. Era um ótimo par para o meu pai.
- Pai…
- Filha, escuta, eu ia te dizer. Tentei várias vezes. Fui à Califórnia para poder te ver, ia te contar, mas vi você doente e sem memória, não queria forçar nada, não saberia como reagiria. Sempre fomos apenas eu e você e agora que você está longe, eu sinto saudade de estar com alguém. Você já está grande e bem criada, não pode aceitá-la?
- Mas pai, não estou falando disso, só queria que me contasse. Achei que fôssemos amigos, eu te conto tudo que acontece comigo.
Ou quase tudo…
- E somos, minha bambina, me desculpe. Só não queria encher sua cabeça recém-machucada com mais informações - bufei.
- Não faça mais isso, não esconda mais nada de mim - ele me abraça e dá um beijo no topo da minha cabeça.
- Tudo bem com ela? - ele pergunta esperando a minha aprovação.
- Não gosto dela - falo sem rodeios.
- E por que? - ele sorria.
- Não é ciumes, mas não gostei da maneira que me tratou. Só pediu que lhe chamasse pelo nome por saber que sou sua filha - reviro olhos.
- É o seu jeito, prometo que gostará dela - ele junta as minhas mãos e dá um beijo em cada uma delas.
- Vou dar-lhe uma chance, mas por você - sorrio e lhe dou um beijo na bochecha.
- Te amo, pai.
- Também, amore mio. Mas me diga, como anda o coraçãozinho?
- Batendo - sorrio.
- Filha…
- Anda bem, pai, eu estou bem. É natal - eu bato palmas.
- Você sempre gostou de natal - ele passa a mão pela minha bochecha - desde pequena.
- Como você.
Passamos alguns minutos relembrando os natais de quando eu era pequena. A neve, o chocolate quente, os marshmallows, e apenas nós dois e o nosso cachorro Lup. Até que alguns empresários lhe chamam e eu volto a andar, e vou novamente para o lado de fora onde estava fazendo o telefonema anteriormente. Essa conversa e ver meu pai feliz com outra pessoa, me trouxe uma certa melancolia.
Quando chego ao ar livre, quem está fumando um cigarro dessa vez é Diego e eu chego ao seu lado.
- Apaga isso, faz mal para a saúde - falo me referindo ao cigarro.
- Me faz relaxar - ele da mais uma tragada, e logo libera a fumaça e eu acho que devo lhe dizer a nossa mais nova novidade.
- Você sabia que o meu pai e a sua mãe estão namorando? - lhe pergunto e ele faz cara de surpreso.
- Estão?
- Sim, você não sabia?
- Não.
- Eles são uns putos.
- Sim, mas são maiores de idade, e nossos pais não nos devem satisfações.
- Mesmo assim…
- Hey - ele apaga o seu cigarro e chega mais perto de mim - isso significa que somos irmãos?
- Talvez - sorrio.
Se já era bom ser amiga de Diego, ser quase irmã seria melhor ainda.
- Terrível, você como irmão.
- Mesmo? - ele começa a apertar a minha orelha e a me fazer cosquinhas, enquanto eu sorrio.
- Oh, não, eu te amo.
- Como?
- Amo, amo - ele aumenta o ataque e eu me seguro na cerca da varanda para não cair com as cosquinhas.
- Ama o quê?
- Amo você, ótimo amigo, irmão - ele sorri e me libera, me fazendo respirar aliviada.
- Também te amo, girl.
Nos abraçamos até ouvirmos uma tosse atrás de nós. E quando nos viramos, nos damos de frente com Will, segurando duas taças de champanhe.
- Sejam rápidos, temos um lugar para ir - Diego avisa antes de sair e retornar para dentro da festa.
- O que ele quis dizer com “sejam rápidos”? - pergunto a Will e ele me entrega uma taça de champanhe.
- Não sei - ele da de ombros - Como vai o natal?
- Entendiante - falo tomando um gole da minha bebida.
- Achei que gostasse de natal.
- E gosto, mas aqueles em que nos reunimos perto da árvore, fazemos amigo secreto com amigos enquanto tomamos um bom vinho e entregamos os presentes. Não um coquetel, onde todos só estão presentes por interesse.
- Tem razão - ele diz sorrindo e eu me recuso a olhar para ele e ver aquele sorriso bobo por qual eu sou apaixonada.
- Eu sei.
- Viviane - ele segura o meu ombro, e me faz olhá-lo - eu tenho um presente para você.
- Presente? - pergunto incrédula.
- Sim - diz e de dentro do paletó ele tira uma caixinha de tamanho médio, ela era azul marinho e aveludada. Linda.
- Mas Will... Eu não comprei nada para você.
- Tudo bem, só me deixe te presentear - suspiro, e ele abre a caixinha na minha frente.
Não era nenhum anel de diamantes ou um colar de rubis, era algo simples como eu gostava.
- O que achou? - ele pergunta, e eu percebo a ansiedade em sua voz.
- Will… É lindo.
- Mandei fazer para você.
- Você mandou fazer? - tiro o olhos da joia e encaro os seus olhos ansiosos.
- Sim, hoje à tarde, você parecia tão triste - ele passa a mão nas linhas do meu rosto e eu fecho os olhos sentindo o seu toque. Mal sabe ele que o motivo da tristeza se encontra parado na minha frente, e é si próprio.
- Achei que estivesse com raiva de mim.
- Jamais, moreninha, só não queria que estragasse a surpresa. Mas vamos ver como ela fica em seu pulso.
A pulseira que me dera, era dourada e combinava com o resto das joias que eu usava. Como eu gostava, tinha vários pingentes pendurados nela e eu dou risada ao vê-los: eles balançavam e faziam uma zoada de chocalho.
- Uma melancia? - falo segurando o primeiro pingente.
- É o seu suco preferido - ele dá de ombros e me faz abrir mais um sorriso.
Vejo os outros pingentes e sinto lágrimas nos meus olhos, era tudo tão lindo. Os pingentes eram uma melancia, um sorvete, que deduzo ser de maracujá - o meu preferido -, uma bolsa e um sapato.
- Me diz que você teve ajuda para fazer isso.
- Eu não sabia mais o que colocar e Diego me disse da sua coleção de bolsas e sapatos.
Diego…
- Isso é mais que lindo Will, muito obrigada.
- Você ainda não viu o último pingente.
- Último?
No último espaço, logo após a parte de ser atacada, tinha a metade de um coração, que fica pendurado abaixo do meu pulso, com uma correntinha isolada.
- Metade de um coração? - pergunto.
- Sim.
- O que significa?
Ele não responde, mas de dentro do seu bolso, ele tira um conjunto de chaves, e entre elas, estava ali, a outra metade do coração.
Eu quase engasgo ao ver o mesmo pingente ali e logo procuro por algo como “best friends” escrito, mas não tinha nada disso. Nada de amizade, apenas amor. Isso. Era amor que agora irradiava em seus olhos.
- Will…
- É só um presente, Viviane, não surte, eu não estou te intimando em nada.
- Will…
- Só queria poder me lembrar de você nas coisas do dia a dia. Sempre que for abrir a porta do meu apartamento, por exemplo, for ligar o carro, eu vou ter você por perto, vou ter sempre você na minha mente. Só queria te dar o mesmo. Nessa simples pulseirinha está a metade do meu coração, cuide bem dele, moreninha - ele me dá um beijo na testa e eu mal consigo me mover com as suas palavras. Não éramos amigos?
- Will… - meu tom de voz saia quase em um sussurro.
- Não precisa falar nada, vamos entrar, Diego quer nos levar em uma festa.
MALDITO SEJA, POR QUE NÃO ME DEIXA FALAR?
Meia hora depois, estávamos todos do lado de fora da casa esperando um tal carro vir nos buscar. Diego havia apenas mencionado sobre uma festa que aconteceria em uma área mais afastada da cidade, mas nada mais do que isso.
- Pode nos dizer para onde estamos indo? - Molly pergunta cruzando os braços, e eu faço o mesmo. O vento ali era forte e no período da noite, chegava a fazer um pouco de frio, me fazendo arrepiar com o meu vestido fino.
- Não, já disse.
- Então você quer nos levar para um lugar que você nem ao menos quer nos dizer?
- Sim.
- Diego, seu…
- Calma, Molly - eu vou para o seu lado - confie em Diego.
- Esse filho da puta, tá de mau humor desde que recebeu um telefone monossilabo, e agora quer nos levar para um lugar desconhecido? Eu não sei…
- Não vai acontecer nada demais, estamos todos juntos.
- Não importa, eu não confio nele, já olhou para ele? Está diferente…
- Cala a porra dessa boca, Molly - ele grita e olha para a garota, os seus olhos transmitiam pura raiva.
- O que? - ela grita também.
E durante esse momento de tensão, uma limusine chega na nossa frente e estaciona.
- Vamos - Diego passa a mão no cabelo, frustrado, e abre a porta para todos nós entrarmos.
- Eu não vou - Molly protesta.
- Vamos - eu entrelaço o seu braço com o meu - estamos juntas.
Durante todo o caminho, Diego foi dizendo algumas coisas estranhas, me trazendo calafrios e quem estava começando a ficar assutada agora era eu.
- Não aceitem nada de ninguém, nem bebidas, ou qualquer coisa estranha. Não deem corda para papo e se acontecer algum problema, apenas me procure.
- Por que disso, Diego?
- Só estou dizendo para não ficar de papo com desconhecidos - o seu humor estava se alterando novamente.
- Sim, mas por que?
- Porque são desconhecidos, caralho - ele rosna.
- Já fomos em várias boates e nunca teve esse papinho amedrontado.
- Apenas me escuta, tá? - ele se aproxima de mim, como se fosse fazer carinho em meu cabelo enquanto tenta se acalmar, mas eu recuso.
- Você não encosta em mim, se não quer ter todos os seus dedos quebrados - ele me olha assustado e eu vou mais para o lado, me aconchegando em Molly, e começo a olhar para fora da janela.
Estávamos nos afastando do lado movimentado da cidade e indo para a área mais subúrbio e amedrontadora, com certeza, se eu saísse aqui, eu não saberia voltar daquele lugar sozinha..
- Agora quem não está confiando em você sou eu - resmungo baixo e dessa vez ele não me responde.
Alguns minutos mais tarde, paramos em um lugar deserto. A suposta festa que Diego estava nos levando, ficava em um galpão abandonado no meio do nada, todos os lados eram rodeados por uma grama alta e carros estavam estacionamos ali no meio com o proposito de ser escondido.
- Que lugar é esse? - pergunto assim que desço.
- Um galpão de um amigo, ele realiza algumas festas aqui.
- Por que os carros ficam escondidos? - não me contento com uma pergunta só.
- Viviane, sem perguntas.
- Diego, acho melhor nós voltarmos, isso não é bom para você - Mateus se aproxima de nós.
- O que diz? Quem é você pra saber o que é bom ou ruim? - ele o enfrenta, mas Mateus era alguns centímetros mais alto que ele, e não se amedrontou.
- Seu amigo. Deixe de agir como um marica medroso.
- Marica?
- Cara, parem com isso - Gustavo entra no meio dos dois - é natal, e vamos entrar para ver o que tem nessa tal festa.
Após tudo ser tranquilizado, seguimos para a porta da festa. Na entrada, um brutamontes nos recebeu: ele estava vestido com uma roupa toda preta, do sapato, até a gola da camisa, e ainda era negro, de longe seria difícil ser notado ali. Mas eu o conhecia, o conhecia de algum lugar, só não me lembro de onde.
- Ora, ora, se não é Diego Swan.
- Fala, Doug.
Doug… Doug… Era isso, agora eu conseguia me lembrar: ele era o policial que estava na delegacia quando Diego foi preso. O que ele estava fazendo aqui? Olho para Will e ele tinha o mesmo olhar curioso. Mas por sorte, ele não pareceu nos reconhecer.
- Pode liberar a nossa entrada?
- Desculpa, amigo, mas não quero encrenca para o meu lado.
- Está tudo resolvido com o Jref, pode consulta-lo.
O homem pareceu desconfiado, e através de um fone que usava no ouvido, ele fala com alguém por alguns segundos até tirar a corrente que estava à sua frente, liberando a nossa entrada.
- Tenham um boa noite - Doug diz - e não vai arrumar encrenca, Diego.
- Pode deixar.
Entramos, e diferente do que eu pensei, o lugar era organizado, diferente do lado de fora, com pichações e insultos escritos nas paredes. Ali estava lotado de pessoas e todos dançavam. Luzes coloridas e fumaças cobriam o lugar, desconfio se aquilo era fumaça artificial ou cigarro, que era o cheiro que dominava o lugar e com tudo aquilo, ficava difícil identificar os rostos das pessoas que circulavam pelo salão. Talvez seja a intenção.
- Ta vendo, Mel, o lugar não é tão mal - Diego chega ao lado de Molly e tenta abraçá-la, mas ela se esquiva.
- Você não chega perto de mim - ela diz bufando antes de sair entre as pessoas.
Eu tento ir atras ela, mas ela levanta uma mão negando quando me aproximo, e eu volto para o meu lugar anterior.
Quando volto, Taisa, Mateus, Gustavo e Stéfany também se foram, restando apenas eu, Diego e Will.
- Viviane…
- Também não tô muito para papo não, Diego, depois a gente conversa - falo e quem sai agora sou eu, indo para o lado oposto que Molly foi. Sei que ela precisava ficar sozinha e eu entendia isso.
Mas quando me vejo, estou parada em frente ao bar, encurralada por pessoas, sem saber bem onde estou ou como voltar.
- Melhor natal de todos - falo irônica para mim mesma.
O bar era enorme, ocupava toda a parede lateral e mais de 50 barmans serviam ali, e eu me sento em uma das cadeiras vazias para passar o tempo.
- Um Mojito, por favor.
- Si, Señora - o barman diz e arranca risadas minhas.
O meu Mojito chega e eu dou uma belo gole da bebida. Forte. Eu precisava disso.
3 Mojitos e 5 margueritas depois, eu já estava vendo gnomos dançando na minha frente. Eu precisava me esquecer das coisas, mas a bebida parecia ter o efeito contrário: quanto mais eu bebia, mais Will vinha na minha mente.
- Maldito.
- Algum problema, Señora? - o barman estava sempre do meu lado e parecia só me servir.
- Me vê mais um.
- O quê, mojito ou marguerita? - dúvida cruel.
- Um mojito e uma tequila black.
- A señora tem certeza?
- Absoluta.
Me remexo no banco do bar enquanto ele preparava as minhas bebidas. Eu precisava dançar, estava quase criando raiz no banco daquele bar e a música era boa, eu não conhecia, mas era boa.
- Aqui - o barman trás o meu pedido e eu logo viro a minha tequila, sem sal ou limão. Queima.
Pego o meu mojito e vou para a pista de dança.
- Ja volto, señoro - sorrio do meu péssimo espanhol para o meu atendente. Acho que já estava começando a ficar bêbada e precisava dançar e gastar o álcool que estava em mim.
Danço cerca de 5 músicas e não tenho sinal de ninguém dos meus amigos. Onde eles se enfiaram? Estou preocupada com Molly, será que ela está bem?
Como qualquer pessoa deprimida que bebe, de repente me vem uma vontade absurda de chorar. Olho para os lados e casais dançavam, se abraçavam, não dava para ver os seus rostos, mas pareciam felizes, fazendo o meu coração remendado começar a doer. Os machucados ainda não tinham sidos curados.
Volto ao bar e peço um mojito e uma marguerita com bastante limão.
- Aqui, señora - o barman me entrega uma garrafa de água em vez da minha bebida.
- Eu não lhe pedi isso - devolvo a garrafa para ele.
- Beba, vai fazer bem para você - ele insiste.
- Qual o seu nome? - pergunto.
- Pode me chamar de Vinch.
- Vinch por favor, sirva a minha bebida, eu preciso disso.
- Señora…
- Por favor.
E mesmo com relutância, ele me entrega as minhas bebidas e a vontade de chorar volta com força. E aproveitando que Vinch, o meu mais novo amigo, está ocupado, deixo uma lágrima rolar pelo meu rosto, mas logo a seco. Vergonhoso.
- Está tudo bem? - pergunta uma voz desconhecida.
Um homem passou toda a noite sentado ao meu lado, mas não levantou a cabeça num só minuto; apenas permanecia bebendo o seu whisky cabisbaixo e cheguei a pensar que seu natal havia sido um fiasco, como o meu. E nada como ir em um bar no meio do nada para esquecer os problemas.
- Sim, está, acho que a música está um pouco alta.
- Se você quiser, eu posso te levar à parte superior da boate, tem uma bela vista, e o som não atinge com o mesmo volume.
De repente, uma sensação ruim me vem, uma lembrança obscura, não sei se foi pela bebida, mas não, eu só preciso de mais uma delas.
- Não, obrigada, eu vou ficar bem.
- Vinch - eu o chamo, e ele logo aparece.
- Eu aceito a água agora.
Ele sorri satisfeito e não demora muito para me dar. Bebo metade da garrafa de uma só vez. O álcool parece não matar a minha sede.
- Pode voltar a me servir Mojitos agora - falo sorrindo e sei que estou parecendo uma bêbada mal amada.
- Vinch, deixe-me servir uma bebida a ela - o homem que estava ao meu lado fala.
E agora que ele estava em pé, eu podia vê-lo melhor: ele usava uma calça cargo marrom, uma blusa de mangas e um cachecol cinza que permanecia apertado e bem ajustado em seu pescoço. O cabelo era comprido, como o de Gustavo, mas um pouco maior, chegando ao ombro, e era bonito. O observo colocar o cabelo para trás e os quatros dedos da sua mão esquerda tinham anéis metálicos. Como alguém pode ser sexy e medonho ao mesmo tempo?
- Vamos, Vinch, deixe-me - quando volto à real, o homem está insistindo para poder me preparar uma bebida.
- Não, obrigada, Vinch é um ótimo barman - resolvo intervir.
- Senhorita, eu não mordo, é apenas um bebida.
- Tyler, deixe-a em paz, ela não é para o seu bico, vá dar uma volta.
- Vinch…
- Vá.
O homem sai alguns segundos depois, mas sei que não foi pela ordem de Vinch. Ele arregalou os olhos quando viu algo atrás de mim e logo se saiu em meio à multidão que dançava. Estranho…
- Quem era aquele cara? - Sinto um par de mãos familiares na minhas costas. Will.
- Ninguém importante.
- Diga-me, Viviane, quem era? - ele não olhava para mim, e sim para o meio da multidão, procurando o tal Tyler.
- Não seja ciumento, ele só queria me fazer uma bebida, mas Vinch me ajudou.
- Vinch? - confirmo e lhe apresento o meu barman amigo.
- Leve-a para casa cara, esse lugar não é para ela.
- Eu vou fazer isso, obrigado - eles apertam as mãos e eu fico ali com cara de boba.
- Quanto eu devo? - pergunto meio zonza quando me levanto.
- Tudo na conta de Diego Swan - ele afirma e sem querer discutir sigo Will para fora, esse lugar me trazia arrepios, agora, nada bom.
Não saímos pela mesma porta que entramos, a dos fundos parecia mais propicia e nós saímos no meio da grama que chegava na altura dos meus joelhos.
- Por que saímos por aqui? - pergunto.
- Vamos pegar o mesmo carro que viemos, Molly está nos esperando nos fundos, esse lugar não é bom.
- Descobriu isso sozinho? - zombo, mas saio com a voz meio arrastada.
- Vamos, Viviane, você está bêbada, colabore.
Seguimos em silêncio até o outro lado, onde nos demos na mesma Limusine que viemos, e agradeço por todos estarem ali e bem, mas faltava alguém: Diego.
- Onde ele está? - pergunto assim que entro.
- Você está falando do seu amigo babaca? Está na sua festinha particular.
Pensei em perguntar o que isso significa, mas estou bêbada demais para tentar acalmar Molly ou dar conselho, então sigo todo caminho calada, e todos fazem os mesmo.
Assim que chegamos, a casa está silenciosa, mas de pernas para o ar: a sala estava uma bagunça, a cozinha cheia de garrafas de champanhe vazias e a bancada com bandejas de prata sujas. A festa já foi encerrada?
- Que horas são? - pergunto a Will.
- 03:00 horas.
03:00? Quanto tempo passamos naquela festa?
- Vamos subir, Viviane, eu vou lhe ajudar .
- Eu não quero ir, Molly subiu chorando e eu não quero fazer o mesmo.
- Por que você iria chorar? - ele tinha uma voz calma e paciente, enquanto me ajudava a tirar os saltos.
- Eu estou triste, você me deixou triste.
- Eu?
- Sim, Will, você, vamos para algum lugar, eu estou cansada.
Ele pensa um pouco e logo pega a minha mão e me leva para sala de vídeo que já havíamos ido antes. A sala estava vazia e escura, as almofadas estavam em cima do sofá e tudo parecia estar no lugar.
Nos deitamos no sofá e ele colocou a minha cabeça em seu colo, com uma almofada.
- Está se sentindo bem?
- Sim, bem melhor.
- Então durma, moreninha, durma.
- Will…
- Fale.
- Eu amo você.
- Eu sei, moreninha, apenas durma, amanhã nós conversamos.
Essa noite eu dormi como não dormia há muito tempo: em paz, em bom território e tive uma noite de sono tranquila, sem sonhos. Apenas no colo de quem eu amo.
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