As sobrancelhas de Emily Jane Pitchiner estavam franzidas em concentração enquanto ela movia os dedos sobre o teclado de seu notebook digitando freneticamente, finalizando o ensaio sobre Scott Fitzgerald que precisava entregar no dia seguinte para a aula de literatura contemporânea. Já era tarde da noite e a morena estava acomodada na escrivaninha de seu quarto, o feixe de luz de um único abajur sobre a mesa sendo a iluminação que necessitava para aquela tarefa. O quarto em questão parecia ser o sonho de qualquer adolescente de sua idade, tendo a amplitude que poderia se comparar à de uma casa inteira de muitas pessoas desafortunadas. Porém um observador externo não teria exatamente muita noção de como aquele cômodo, por mais amplo que fosse, era visto por Emily de forma claustrofóbica. Afinal, era naquele lugar que ela passava a maior parte do seu tempo, e não necessariamente por escolha própria.
Apesar das vantagens materiais de ser a filha de um dos homens mais ricos da Itália, a morena estava em uma fase que começava a perceber que o número de desvantagens era consideravelmente maior. E parte dessas desvantagens se devia ao como a família Pitchiner havia construído sua riqueza. Desde que se entendia por gente, Emily presenciava pequenos e isolados acontecimentos dentro da grande mansão em que vivia com seu pai e uma diversidade de criados - inclusive homens com expressões sombrias que estavam sempre de óculos e terno -, e apenas quando mais madura que foi entendendo a relação desses eventos com o fato de seu pai ser um dos gangsters mais famosos, e procurados da Europa. Enquanto crescia, Emily se contentava em receber os presentes e agrados do pai sem fazer maiores questionamentos, mesmo que na maior parte do tempo ele não se fizesse presente. Porém após alguns anos, ela começou a cansar dessa rotina de viver a maior parte de seus dias trancada dentro de casa devido ao receio de Pitch de que algum de seus inimigos pudesse usá-la contra ele. Sua única companhia eram os criados e capangas de seu pai, e pouco a pouco isso foi se mostrando insuficiente. Ate a chegada dele.
Regulos Arturo Hawarden chegou à mansão como mais um jovem aprendiz, já carregando em seus olhos azuis a sombra da experiência, rara em alguém tão jovem. Apesar de não simpatizar ao todo com as escolhas que ele parecia tomar para seu futuro, foi inevitável que Emily o notasse, e para a surpresa dela, que nunca tivera um contato diferente com o sexo oposto, fora retribuída. A relação de ambos se desenvolveu de forma curiosamente precoce. Desde a primeira troca de olhares, do primeiro beijo escondido no pomar do jardim da mansão que procedeu muitos outros até sua virgindade sendo tirada, tudo aconteceu em um período de tempo que indicava o quanto a herdeira Pitchiner havia sido privada por tempo demais de uma vida fora daquela mansão, querendo de uma forma compensar isso o mais rápido que ela podia. Foi natural que aqueles momentos, aquele segredo, tivessem sido responsáveis por fazer Emily se apaixonar por Reg. Ela sabia que ele não deveria sentir o mesmo, Regulus nunca fora bom em esconder o fato de que havia outras companhias além dela fora daquela mansão, mas Emily não se importava muito com isso. Ou ao menos fingia que não se importava . O fato de que ele era sua primeira aventura, a primeira coisa que fazia seu coração dormente palpitar de uma forma inquietante, desconhecida e maravilhosa, fazia com que ela preferisse deixar esse fato de lado à tocar no assunto e correr o risco dele deixá-la e o fogo que havia se acendido dentro de si se esvair.
Então naquela noite, quando ouviu o som de pedrinhas sendo atiradas contra sua janela, o sorriso que surgiu em seus lábios dizia que ela já sabia o que viria a seguir. Deixando seu dever de lado, a morena levantou-se de seu lugar e foi até a janela, abrindo-a com um riso baixo ao se deparar com o rapaz de cabelos pretos e arrepiados que ela adorava ter seus dedos entrelaçados e os olhos azuis que a assombravam mesmo quando ela estava de olhos fechados. - Eu não sei porque você insiste nisso. Pode sempre usar a porta, sabe. - Brincou, embora sua voz tenha soado em um tom tão baixo que quase era inaudível para Regulus. Apesar das brincadeiras, Emily sabia que seja lá o que pudesse acontecer se aqueles encontros fossem descobertos, não seria nada bom. Seu pai não era conhecido como um homem intimidador à toa. Sabia usar muito bem as palavras a seu favor, mas também era um homem de ação. Os homens que passaram pelo porão subterrâneo reforçado à aço e à prova de som que havia naquela mansão sabiam muito bem disso. Ou souberam, dependendo do ponto de vista. De qualquer forma, Emily procurava ser cautelosa porque não queria que Regulus fosse o próximo sujeito a passar por aquele lugar. - Eu pensei que você só viesse amanhã. - Salientou no mesmo tom de voz, embora o sorriso não saísse de seus lábios. Entre precisar cobrir os turnos de segurança na mansão e acompanhar Pitch em seus negócios, Regulus não tivera muito tempo durante aquela semana para vê-la. Emily sentia uma falta absurda de sua presença, e a primeira coisa que fez quando o moreno terminou de escalar a sebe que crescia do lado de fora da casa e passava perto o suficiente da janela de seu quarto foi justamente procurar um jeito de matar a saudade que sentia, colando seus lábios nos dele em um beijo saudoso e profundo.