Descendo aquela rua escura, banhada apenas pela débil e amarelada luz sucateada, me sentia estranho. Ao olhar para cima, pude ver a lua a me vigiar por entre o topo dos prédios. Os ruídos comuns a uma cidade ecoavam distante. Motores, sirenes, algumas conversas abafadas vindas dos apartamentos acima de mim. Mas se eu prestasse bem a atenção era possível ouvir os sons da noite. Um silêncio lânguido e sutil, mas insistente. Repousei meus ouvidos neste, soava como um jazz melancólico, lento como a noite.
Caminhei por mais algumas quadras até finalmente chegar em meu destino. Parei em frente o edifício. Fazia frio, olhei para cima mirando uma certa janela, a fumaça subia de minha boca como se quisesse alcançá-la antes de mim. Assoprei me encolhendo dentro do casaco, na tentativa de mandar o frio embora. Subi os três degraus mofados que davam acesso a entrada do prédio. No interfone ao lado, apertei o três duas vezes. Uma sequência breve de sons agudos se deu e logo uma voz feminina levemente distorcida pela eletricidade do aparelho se apresentou. Respondi o “olá” com um “hey sou eu”. A voz me reconhecendo pediu para que esperasse que ela já descia.
Me virei para a rua olhando o vento abanar as árvores e varrer as calçadas sujas. Um morador de rua passava vagarosamente do outro lado, procurando um lugar para se acomodar e fugir do frio. Olhei para cima. A lua continuava lá. Sorri para ela. Ao seu lado podia ver uma única estrela. Faziam um belo casal. O jazz continuava a tocar.
A voz que tanto adorava, surgiu atrás de mim. Braços se envolveram em meu pescoço e um beijo suave estalou em minha face para em seguida se espalhar por meus lábios. A abracei e assim subimos.
A noite continuou por várias horas. Porém o jazz, outrora em tom de tristeza, cessara e agora uma outra melodia soava, desta vez atraente e sensual.