Um papel só pode ser dobrado sete vezes.
Lá estava eu, mais uma vez fingindo estar lendo a manchete do jornal quando, na verdade, estava atenta observando todas pessoas que entravam na cafeteria. Eu sabia que você entraria ali uma hora ou outra, de cara amarrada e pedindo café amargo. E não deu outra.
— Um café, sem açucar.
Tão previsível. Olhei em sua direção, esperando que você me visse ali. Já havia cansado de ficar longe de você. Nunca fomos muito bons nisso, nessa coisa de ficar distante um do outro. Quantas horas conseguimos? Três horas? Menos?
— Desde quando tu frequenta cafeteria? - Sorri, você estava se sentando na minha mesa.
— Três horas, Dan.
Você não disse nada. Nadinha. Nem um comentário irônico, nenhuma observação, nada. Ficou me olhando como se estivesse tentando dizer alguma coisa. Ficou me olhando como se estivesse vendo o fundo na minha alma. E eu sabia que podia, você sempre soube. Sempre fui um livro aberto para você, odiava isso. Sempre odiei essa sua capacidade de entender cada entrelinha, cada pensamento no ar, cada silêncio constrangedor. Ninguém nunca foi capaz de me ler assim, nunquinha. E chega você, marrento, de cara fechada, playboy e me decifra assim, sem mais nem menos. Me deixando sem saída.
— Não me surpreenderia se essa notícia no jornal levasse seu nome como a criminosa.
Bufei. Olhei rapidamente a manchete e li algo que me fez rir "Mulher esquarteja marido por ciúmes."
— Eu seria capaz.
— Você não me mataria.
— Como pode ter tanta certeza?
— Você não suporta a ideia de viver sem mim. Me diz, como passou essas três horas?
Nada bem.
— Muito bem, obrigado.
— Luce, por que você não admite tudo de uma vez?
— De que adiantaria, Dan? Tu quer que eu diga o que?
Que eu te amo? Que eu já não suporto mais viver sem você? Que só de pensar que nessas três míseras horas você estava andando por aí, fazendo sabe se lá o que, podendo ser de outra garota, bebendo com os amigos, conseguindo viver sem meus gritinhos e mimos, eu fiquei...fora de mim? Foi como se uma parte minha estivesse contigo, como se você tivesse levado a merda toda que eu sentia e tivesse me deixado só com essa maldita saudade, com essa maldita vontade de você. Minha vontade era soltar tudo isso em voz alta só pra tu saber o quão babaca você é. Mas não. Não falo, tenho medo de mostrar todo esse amor e você sumir, desaparecer. Porque é assim, não é? Você se apega demais, gosta demais e a pessoa vai embora sem olhar pra trás. E eu não sei se suportaria te ver partindo.
— Você não percebe, Luce? Não percebe o romance iô-iô que estamos vivendo? Você, que sempre disse ser tão culta, sempre com essa sua teimosia de achar que sabe tudo sobre o amor, não percebe o que está acontecendo aqui?
— Amor não é isso Danl, amor não tem nada a ver com a gente.
Na verdade, amor era a gente. Amor não era nada disso que o dicionário dizer ser. "Ternura, carinho, compaixão". Puf. Amor mesmo era nossas discussões. Amor mesmo era sua implicância com a minha roupa. Amor mesmo era eu ainda continuar insistindo em você, quando nem mesmo você insiste na gente.
— Sabe qual é o grande problema aqui, Dan? Tu é um filha da puta. Uma merda de um filha da um puta, e você sabe disso, tanto sabe que tá aí sorrindo como se isso fosse bom. Tu já aprendeu como funciona, já aprendeu que não importa quantas vezes você me deixe, não importa, eu volto, eu sempre volto. E por que eu volto Dan, por quê? Talvez o grande problema aqui seja eu. Você nunca foi um príncipe, nunca me deu flores, nunca me deu esperanças que um dia botaria uma aliança na minha mão esquerda. Eu projetei isso. E sabe Danl, no fundo, bem lá no fundinho, você gosta de mim. Essa é a única explicação para você voltar. E eu me sustento a isso, me agarro ao pensamento que você gosta de mim, pelo menos um pouquinho.
— Eu gosto de você, Luce. Eu gosto de você.
Se a um minuto atrás eu estava pensando na possibilidade de desistir da gente, essas suas palavras destruíram qualquer vestígio desse pensamento. E quer saber? Eu prefiro me arriscar a viver uma vida medíocre sem você. Eu prefiro me fazer de idiota e acreditar mais uma vez que a gente vai dá certo. Eu juro, juro que tenho vontade de mandar você ir embora, se afastar, me deixar, ir comer alguma loira platinada, eu juro. Mas não dá, nunca deu. Não deu nem quando você apareceu de madrugada bêbado no meu quintal. Não deu quando você me deixou pela sexta vez seguida. Não deu quando você fez meu mundo ficar pequeno comparado com o tamanho do meu amor. Não deu.
— Um papel só pode ser dobrado sete vezes, Dan.
— E daí?
— Essa é nossa sétima vez.
Ele entendeu, entendeu que essa era a minha última tentativa equivocada de fazer nosso amor dar certo.