Já não sou mais a mesma pessoa de ontem, e amanhã não serei a mesma que amanheceu no dia de hoje
Recentemente fiz aniversário (dia 29, no mês anterior) e nesse meio tempo que antecede o dia d — acho que isso acaba se tornando um evento canônico na vida de garotas a partir de seus 13 anos — eu sempre me pego muito reflexiva sobre muitas coisas, sobre a vida principalmente... sobre a minha vida, nesse caso.
Uma vez, uma amiga minha disse que nosso córtex pré-frontal termina de se desenvolver aos 25 anos... bom, a verdade é que pode demorar um pouco para isso acontecer (até os 30 ou 40 anos de idade). Na terça-feira (29), eu esperava acordar misticamente — na verdade cientificamente — mais sábia sobre o mundo e as pessoas nele, sobre mim mesma também... especialmente, mais sábia a respeito de mim mesma.
Não ocorreu, é óbvio que não. Acho que nenhum estalo mental com a chegada dos 25 faz a gente se tornar do dia para noite uma outra pessoa, alguém mais sábio, mesmo querendo muito que fosse dessa maneira. Ainda assim, acordei uma pessoa diferente da que foi dormir na segunda-feira (28), e tudo isso porque, pasmem, eu também sou um ser pensante e ao longo do dia sou capaz de me tornar ciente de coisas que influenciam minhas perspectivas sobre o mundo e as pessoas e que muito sutilmente me altera: na maneira que penso, que me porto, que penso nos outros e sobre e para mim mesma.
Todos os dias eu penso, coisinhas pequenas, supérfluas, coisinhas alegres e tristes, coisas grandes às vezes e dia sim ou não, penso sobre coisas que me consomem e faz tudo girar em torno de indignação, frustração e raiva porque sou 5x minoria: mulher, não branca, LGBTQIAP+, pobre (brasileira, do Rio de Janeiro e residente de uma comunidade de um município da RMRJ) e uma crente de que Exu guarda sempre meus caminhos da minha saída até a minha chegada em casa & que os preto velhos nunca vão me faltar de um conselho ou defender & de que as crianças sempre vão me trazer alegria e doçura & que sempre vou poder contar com o colo e a fé nos meus Orixás e entidades que me resguardam, e me dou conta de que o mundo às vezes não é para mim, para as minhas e meus, pessoas como eu. A gente parece tão pequeno diante disso — refém do homem, principalmente o branco, do capitalismo, de gente que não liga para os meus direitos que não são apenas meus, de gente que quer me enfiar goela baixo suas doutrinas religiosas e um Deus que também acredito mas que não pinto com as cores que quero para caber nos meus próprios preconceitos e me fazer de palavras distorcidas para destilar ódio —, mas sei que não sou, nós não somos e mesmo assim, vez e outra me questiono se ainda vou respirar e ver e ser capaz de fazer parte de uma mudança.
Todos os dias eu penso... e nos últimos dias estive pensando sobre isso: eu não sou a mesma pessoa de ontem, muito menos a de duas semanas atrás. Não sou mais a mesma garota de 17 anos de idade. Ainda que não seja a mesma e todo dia pensar me faz mudar minimamente em algum aspecto, eu ainda sou a mesma: chorona, uma pessoa que adora livros e música, que ama o mar e a cachoeira, que sempre quer um docinho (principalmente chocolate ao leite, porque de amarga já basta a vida); Scooby-Doo ainda é meu desenho favorito assim como Noragami sempre vai ser meu anime favorito e One Direction sempre vai ser minha boyband favorita e o ATEEZ sempre vai ser mais que um grupo favorito, mas o meu lar e conforto; ainda sou a mesma pessoa cegamente leal aos meus, boba e apaixonada por cidades antigas e mitologias; da mesma forma meus maus hábitos permanecem os mesmos, como esquecer de beber água, xingar muito, ter uma memória ruim e porque sou filha do meu pai: às vezes me estressar facilmente, ter acessos de raiva e levantar a voz no mesmo instante que levantam-na para mim e pareço descontrolada — a reciprocidade nesse ponto parece ótima e mesmo no meu direito, às vezes penso que parece meio triste porque eu sou uma mulher e voz alta (mesmo se necessária) justamente faz parecer descontrolada e é o que certas pessoas querem, meu descontrole pode corroborar como defesa para algo indefensável que pode se virar contra mim, mesmo tendo razão, mesmo sendo certa. O quão triste é não poder me permitir o descontrole às vezes?
A vida é dura... definitivamente não é um morango (mesmo eu querendo muito que fosse)...
Nesses dias, também me peguei pensando que minhas perdas pessoais foram capazes de me tornar mais resiliente. Nunca imaginei que passaria dos 18 anos, só que depois dele não tinha nada, mas estou aqui até hoje e acho que isso é graças a música — e para ser sincera especialmente ao Seonghwa, e ao ATEEZ também — não preciso ir tão longe para buscar um exemplo de que dia a dia fico mais resiliente. Em 2021 tive uma perda da qual nunca vou me recuperar 100% e me dei conta de que vou viver assim, alguns serão melhores que outros e é assim que a vida segue; aprendi mais com isso, me tornei mais resiliente todos os dias até aqui, mas é uma dor que nunca vai, ela só cessa e reaparece.
E isso é a vida... a mudança constante de nós mesmos, como enxergamos o mundo e as pessoas nele e como observar coisinhas todos os dias nos mudam aos poucos e nos fazem pessoas diferentes a cada 24 horas.
E acho que quero seguir assim — que, na verdade, naturalmente seguimos assim — na sutileza das mudanças internas e das minhas perspectivas sobre o mundo, porque não é tudo na vida que é uma certeza. Quero ver mais do mundo, aprender mais e mudar o que é para ser mudado, constantemente para frente, nunca regredindo
Hoje vi e pensei algo que talvez não tenha percebido, talvez sim, e isso impactou algo em mim... na minha superfície ou numa parte mais profunda minha, alguma coisa observada/pensada me afetou, isso faz eu acordar uma pessoa diferente na manhã seguinte, e no dia de amanhã isso se repetirá.
Sei que amanhã já não serei a mesma de hoje, tampouco sou a mesma pessoa que era ontem porque a muito para ser visto e pensado, seja sobre o mundo ou sobre mim.
Tudo isso rende até uma piada com fragmentado, mas acho o texto compreensível... no mais, acho que talvez seja sobre isso mesmo: todo dia a gente fragmenta alguma coisinha e sobrepõe outra, só acho importante não se fragmentar no processo.
| tava pensativa demais...