A Culatra meets Les Bons Vivants
(site aqui)
"Somos um casal apaixonado não só um pelo outro, mas também pela comida, pela aventura da descoberta, pela terra e pelas gentes."
Este blog surgiu-me como sugestão no facebook e fui ver o que se passava por lá. Esta introdução simpática é enganosa, falamos de um casal viajante que anda de restaurante em restaurante a elaborar críticas amadoras e perigosas; a última coisa que os funcionários e proprietários precisam é de dois caramelos (sim, caramelos, lidem com isso) a exigirem atenção e mimo. Claro que quando se vai a um restaurante o atendimento é bastante importante, mas por aqui, nota-se um irritante snobismo e necessidade de afirmação.
"Assim que entrámos no Tanite perguntei ao empregado: “diga-me uma coisa, estas são só as melhores francesinhas de Lisboa, ou também são as melhores do país?” (Tanite)
Imagino a cara do empregado a olhar para o casal de nabos (vá, não é muito agressivo e é uma referência gastronómica), a recordar o seu ordenado e a chorar por dentro.
"A resposta, seca, rude e antipática não tardou: «normalmente o chíli é picante» - dito com o maior ar de desprezo e superioridade do mundo, como se fossemos dois imbecis." (Great American Disaster)
Depois pedimos duas coca-colas, com o devido «se faz favor». Qual foi a resposta? «Pepsi». Assim, sem mais nem menos, sem um «não temos Coca-cola, pode ser Pepsi?». (Great American Disaster)
De facto, o empregado esqueceu-se de ler o livro "Como Atender Snobs".
"Por fim, resta o atendimento, que pode ser classificado de suficiente. Nem mais, nem menos." (Sushi Café)
"O atendimento podia ser melhor, não pela falta de simpatia ou eficácia, mas pelas demoras em noites de casa cheia (o espaço é pequeno, pelo que facilmente enche)." (Artis)
Portanto, mais pessoas, mais trabalho, menos tempo possível para disponibilizar carinhos ao casal. Isto nem sequer é uma crítica, é simplesmente uma constatação de factos lógicos com tom negativo, um pouco como "demorei mais tempo na fila porque estavam muitas pessoas também à espera"
"O atendimento é simpático e nada demorado, caindo um pouco na informalidade e à vontade, que parecem estar na moda em locais do género." (Taverna do Palaio)
"Fica apenas a recomendação de colocarem repelente, se lá forem à noite, porque em dias de menos vento, as melgas também gostam do restaurante!" (Pézinhos n'Areia)
Desnecessário e fácil demais para fazer piadas.
"A cereja no topo deste bolo foi a perfeita indiferença que a nossa presença causou nos empregados, pelo que após dez minutos sem que nos fosse sequer entregue uma ementa, fez com que nos levantássemos e fossemos embora." (Solar Moinho de Vento)
O excesso de visionamento de programas de televisão e leituras de blogs sobre comida infectaram a escrita no blog, limitando-a a uma série de lugares comuns repetitivos (sim, pleonasmo). Nota-se pouco cuidado em procurar alternativas ao adjectivar e, em análise mais profunda, uma escrita preguiçosa. Em quase trinta críticas, acontece isto: A palavra pequeno/a é repetida 18 vezes (com um "polvos muito pequeninos à mistura) e simpático/a é repetida 16 vezes. Dando algum desconto, porque supostamente o alvo é a comida e a sua definição, "sabor" é repetido 21 vezes. Vá, paladar também era aceitável, são sinónimos, nem que fosse para as críticas não parecerem todas iguais.
Há um maneirismo condescendente constante e, aliado a isso, uma fuga frequente para o corriqueiro pueril.
"Estão a um passo de serem muito bons e memoráveis, o que torna tudo mais frustrante. 'Falta-lhes um bocadinho assim...' "
"Começámos por pedir coelho em conserva, nada de especial, demasiado oleoso, praticamente não deixando sentir o sabor do coelho (à Raquel soube-lhe a bacalhau...)!"
É mesmo isto que queremos numa análise de um restaurante, alguém que come coelho e sabe-lhe a bacalhau.
"The Great American Disaster: o nome deste restaurante não podia ser mais certeiro... um desastre, dos grandes."
"Já foi leiloado um atum por um preço mais alto que um Ferrari...!"
"De seguida comemos uma carne de porco com enchidos, que era macia (o João achou seca, mas eu como sou pouco dada a gorduras, achei óptima)"
ó João, cresce lá um bocadinho vá. "Ah a minha carninha é seca", a sério? Aparentemente o casal está maravilhosamente bem estruturado, são ambos queixosos e projectam o tédio do seu relacionamento na comida. "Remember, they're just food; they're not love", dizia um personagem do Friends.
Claramente baixei o meu nível porque uma coisa é a crítica gastronómica, onde o objecto observado é avaliado consoante uma série de factores. Neste caso é um pouco mais macro-analítico, o casal banana (é a última, prometo) observa também o restaurante e o seu funcionamento; tudo fica, na verdade, muito aquém, é uma série de infrutuosas afirmações de "ah a conjugação do prato" e "ah a minha carninha não está tenra" e depois o espaço "ah que isto não combina" ou os empregados "ah que não me fizeram uma massagem". Todo este tom queixoso é dispensável, mas presente e constante.
Depois há a outra perspectiva, a exterior, a que acha que, na verdade, o Les Bons Vivants fazem um agradável trabalho e até têm alguma razão no que escrevem, e identificam-se com um "ah isto também me aconteceu uma vez". Se assim for, não leiam A Culatra, por favor, estou a julgar as críticas e conteúdos, não a generalizar a situação da restauração em Portugal, nem a apelar à vossa empatia. Tirando estes pormenores da secção da crítica, devo admitir não ser um mau blog no resto, a parte do receituário está bem construída e lê-se bem. De resto, haja alguma consciência do que se escreve, e alguma modéstia não faria certamente mal.
- Sr. Antero












