O que você fez esse ano? Desculpe, vai ter textão!
2016 não foi um ano fácil, de fato. O ano foi repleto de 7 a 1 na política nacional, as noticias trágicas pipocaram nos noticiários. Sem contar os problemas e dramas pessoais, que cada um passou. Todavia, foi um ano que marcou e MUDOU minha vida. Eu vivi um sonho. Durante 80 dias eu viajei pela América do Sul, sozinho, com uma mochila nas costas e com o peito aberto.
Durante esses dias, além de andar pelo Brasil e nossos países vizinhos, eu floodei a timeline de vocês no Facebook e no Instagram. Meu intuito nunca foi me exibir ou ganhar likes, minha intenção sempre foi provocá-los. Sim, provocá-los! Foi uma espécie de convite. Queria instiga-los a busca dos sonhos de vocês também e mostrar que é possível fazer aquilo que você tanto sonhou. A ideia de fazer um diário e divulgar os lugares que passei foi mostrar que sonhos existem para serem realizados e como é bom realiza-los.
Já fazia anos que eu queria pegar minhas coisas e mergulhar de cabeça nas veias abertas da América Latina. Todavia, sempre algo me segurava. Sempre havia uma desculpa, o emprego e obrigações me faziam adiar esse sonho. Me sentia de certa forma amarrado e inquieto. Até que eu cansei e peguei minhas coisas e FUI! E FOI A MELHOR DECISÃO QUE EU TOMEI NA VIDA.
Conheci Porto Alegre e um pouco das traduções gaúchas. Andei pelas terras de Mujica. Em Punta, me encantei com o Por do Sol em Casapueblo, os olhos ficaram marejados com a mistura do espetáculo natural do Astro Rei e com a poesia de Carlos Paez Vilaró. Respirei história pelas ruas de Colônia de Sacramento. Depois peguei minha primeira balsa dessa aventura e fui parar na terra dos hermanos.
Lá na Argentina, senti a alma revolucionaria latino americana expressa em cartazes, grafites, pichações e manifestações. pulsando nas “calles” de Rosário. Já em Mendoza, cidade tão Hermosa, me encantei com as montanhas e com as pessoas. Apreciei os melhores vinhos e degustei um bom fernet também. Fiz novos amigos, deixei um pedaço de mim e levei um pedaço deles. Ali senti vontade de ficar, mas como mochileiro vive de partidas e chegadas, segui meu caminho.
Parei no Chile, em Santiago e lá mergulhei nas poesias de Neruda e nas aulas de história e direitos humanos e acompanhei e caminhei junto em uma manifestação feminista. De lá dei um pulo em Viña Del mar e Valparaíso e conheci o tal do Pacífico, oceano que para mim só vivia no Atlas e no papel se transformou em algo real, formado de água e sal. Peguei um ônibus e cruzei o país, segui para o Norte.Nesta viagem tive a sorte de receber aulas de história chilena de uma senhora. Também pude apreciar a mescla de paisagens de montanhas e litoral. Era incrível vislumbrar da janela o diálogo entre os Andes e o Pacífico. Um dia depois, cheguei no meu destino: Atacama. O deserto que tem as paisagens mais incríveis, são vales e lagoas de tirar o fôlego, seja pela beleza ou pela altitude. Mas, como o “soroche” (mal de altitude) não me pegou, segui viagem sentido ao Salar de Uyuni.
Nessa parte ganhei 6 companheiros de viagem: um casal de espanhóis muito “buena onda”, um chileno sem papas na língua, um boliviano que era motorista, fotografo, cozinheiro e amigo. Além de duas brasileiras parceiras. E olha a coincidência, uma era da minha cidade e da cidade vizinha e eu não conhecia elas até então. É o mundo é tão grande e tão pequeno, cheio de encontros e desencontros. Com eles ingressei na Bolívia, e desbravei as belezas que a Pachamama formou nos arredores de Uyuni. Quando chegamos na pequena cidade boliviana foi triste a despedida daqueles que se tornaram companheiros de 24h por dia. Mais uma vez, o coração mochileiro se partiu em pedaços que iriam para o Chile, Espanha e para sua própria cidade natal.
Mas, o corpo e alma seguiram para La Paz, para quebrar mais paradigmas. Fui ter uma overdose de Museus. Visitando desde o Museu Etnográfico até o da Coca. Sem contar o Museu vivo nas ruas da caótica e inigualável La Paz. As ruas da capital boliviana exalam cultura, tradição e história. Exalam o delicioso odor da América Latina que tanto encantou e mexeu com meu sangue latino. De lá parti para Copacabana. Não, a Princesinha do Mar de Alceu, mas a Princesinha do Titicaca, outro personagem fantasioso e fantástico que tive o prazer de conhecer. Até ali, só conhecia pela boca da professora Divã de geografia. O Lago parece que tem um pacto sagrado com o Deus Inti, pois o Sol resplandece nas suas águas e encanta a todos os viajantes que estão ali para conhecê-lo. Ali tomei outras embarcações, mais rústicas, tive a honra de passear e atravessar pelo Titicaca para conhecer a Isla Del Sol e seu misticismo.
Todavia, como o lago é muito grande tive que ir até o Peru para conhecer outra parte de seus encantos. No lado peruano, foi a hora de subir nas embarcações de junco para conhecer as inigualáveis ilhas flutuantes e o simpático povo de Uros. Depois de conhecer o lago mais alto do mundo, lá fui eu conhecer o Canyon mais profundo do mundo. Assim, parti para Arequipa, a bela Ciudad Blanca que o centro mais parece um pedaço da Europa.
A Plaza de Armas e os monumentos ao redor formam um quebra-cabeça arquitetônico cinematográfico. Já o Canyon Del Colca que circunda Arequipa, tem uma beleza abissal que faz até a terra tremer e os condores planarem para vislumbrar as terras.
Em Arequipa também, tive aulas de lição de vida de um brasileiro que mostrou que para sorrir só precisa estar vivo e que tudo é possível. E foi com essas lições que segui para Cusco para ter minhas lições sobre os Incas. Eu que já era um admirador da cultura, virei um fã deles, a genialidade das técnicas incas é algo invejável. Sua cultura rica emana pelas ruas cusquenas, que mesmo com a invasão espanhola conserva muito dos ancestrais incas. Andei por todas as partes do “Puma” (formato de Cusco) e fora dele, invadi o Vale Sagrado e sítios arqueológicos e bebi conhecimento da fonte e cheguei no ápice do sonho: Macchu Picchu.
Subi a montanha a pé, e com fé. Pois, a caminhada é árdua, são escadas e mais escadas. Foi um sonho real, caminhar pelas ruínas e trilhas da cidadela. A energia que emana das pedras e da montanha é impossível descrever em quechua, espanhol, ou em português. Me emocionei e me conectei com o lugar. O corpo parece que entrou em outro estado de espírito, levitava, voava para outras dimensões. Aproveitando o embalo, fui voar de verdade lá em Nazca, ver umas linhas famosas. Confesso o vôo não me saiu bem, passei mal, mas sorri. Sobrevivi e ganhei certificado e uma aula de espiritualidade, inesperada, com o recepcionista do hostel. Com o espírito renovado, atravessei um deserto para chegar no Oásis de Ica. Lá me senti criança de novo, andando de buggy e sandboard e voltei a sorrir de orelha a orelha.
E de parada em parada parei em Paracas. Parada obrigatória para viajantes no Peru. Lá foi mais um show do Pacífico que mostrou os seus belos habitantes, lobos marinhos desfilando nas Islas Balestas, acompanhados de Pinguins e aves de todos os tipos.
Das belezas de Paracas parei no transito caótico de Lima, mas encontrei um refugio em Miraflores. Um pedaço de beleza natural e harmonia no meio da selva de pedra e barulho infernal das ruas de Lima. Assim, decidi voltar para as montanhas. UAL Huaraz! Que beleza é essa? As lagoas de águas cristalinas com montanhas ao fundo formavam cenários hollywoodianos de dar inveja aos melhores editores de efeitos especiais. Já estava pensando em voltar, porém decidi seguir viagem e chegar no Equador. Todavia, antes de cruzar mais uma fronteira parei em Trujillo para conhecer as culturas Chimu e Moche. Logo, descobri que o Peru é muito mais do que só a cultura Incas. Visitei huacas de todos os tipos e tamanhos e templos surpreendentes.
Depois de quase um mês em terras peruanas, cheguei no Equador, caminhei por malecons, parques, morros e vi iguanas em Guayaquil. Me banhei no Pacífico ,em Montañita. Me balancei no infinito e me projetei no mundo no Balanço da Casa na Árvore em Baños. Visitei um Palácio presidencial por dentro, conheci profundamente o Equador e andei sobre a Linha do Equador em Quito. A saudade bateu e comecei a voltar. Passei de novo pelo Peru, país que encanta todos os viajantes, conheci as Tumbas do Senhor de Sipan em Chiclayo. Antes de voltar para o Brasil ainda tive um encontro mágico com a Amazônia. Lá em Puerto Maldonado, peguei mais uma dessas embarcações rústicas e até remei pelo Lago Sandoval no coração da Amazônia Peruana. Apreciei a mescla incrível de fauna e flora, um quebra cabeça perfeito da natureza. Cruzei a última fronteira física, voltei para o Brasil, por onde ninguém imaginava.
O Acre EXISTE e eu fui lá. Andei pelo estado de Chico Mendes e conheci um pouco mais da história do seringueiro e dos seringais. De Rio Branco peguei a estrada, mas foi pegando uma balsa para atravessar o Madeira que cheguei em Porto Velho. Lá encontrei um rosto conhecido depois de 2 meses só de caras novas. Um veterano que deu aula de história sobre o Estado e sua cidade. Aprendi e enchi minha bagagem de cultura e conhecimento. Porém, antes de ir embora quis encher a memória também com um passeio no Madeira para ver o ballet dos botos nas águas do rio.
Com essa imagem me despedi e devorei concreto e asfalto para chegar em Cuiabá. Viagem longa que dá para fazer até amizade no ônibus e ouvir as mais diferentes historias. Ali no Mato Grosso a natureza brasileira deu show de novo. No Pantanal, com seu jacarés bocejantes e preguiçosos, e tuiuiús grandiosos e na Chapada dos Guimarães com seus paredões e cachoeiras curtas e cumpridas e com as araras coloridas.
Desci mais um pouquinho e parei em Campo Grande no Mato Grosso ... DO SUL. Vi mais um rosto conhecido, um amigo de faculdade. No Parque das Nações e nos cantos da cidade era evidente a influência indígena. Os nossos povos ancestrais donos dessas terras, que hoje sofrem por estar a margem da sociedade. Bateu saudade. Voltei.
Foram 80 dias de estrada, todos os trechos feitos de ônibus. Mas, andei de van, moto, trem, carro, taxi, metro, avião, balsa, barco, canoa e a pé. Nossa, como usei meus pés. Usei tanto que até tive que jogar no lixo os 2 tênis que usei na jornada. Desci ao nível do mar e subi a mais de 5 mil metros de altura. Enfrentei calor de Cuiabá e do deserto e também senti o frio de MENOS 13 graus. Conheci monumentos, montanhas, mares, florestas que só sabia da existência pelos livros. Visitei palácios e casas de palafita.
Aprendi e MUITO. Destravei o espanhol e o inglês, arrisquei umas frases em francês, aprendi algumas palavras em coreano, quéchua e outras línguas. Me tornei mais LATINOAMERICANO. Me senti vivo e humano, como a muito tempo não me sentia. Mesmo sozinho sempre estava acompanhado dos meus pais, namorada e amigos no pensamento e no coração. Além é claro de que a cada dia conhecia muitas pessoas de todos os lados da América Latina e do mundo.
Cruzei fronteiras, ultrapassei meus limites, quebrei paradigmas e desconstruí pré-conceitos. Levei 2 mochilas, carreguei muitos quilos nas costas. Doei roupas voltei com a bagagem física mais leve e com a cultural bem mais cheia. Chorei de alegria e de saudade de quem estava aqui e quem deixei na estrada. Voltei cheio de marcas e memórias. Tatuei a minha alma com as cores, paisagens, frases, lugares e aprendizados adquiridos por pessoas queridas que o Mochilão me trouxe de presente. Tive um sonho, realizei. Por isso, 2016 que tinha tudo para ser um ano trágico, para mim foi mágico. Sai de casa com muitas dúvidas, voltei com algumas certezas e muito mais perguntas. Pois, assim é a vida. É de uma pergunta que iniciamos uma jornada. Por isso, nunca paro de me questionar para continuar caminhando. E você, quando vai realizar seu sonho? Você PODE, ACREDITE!