Silvestre Pestana. Original produzido para a Caixa de Arte Pipxou, idealizada por Ernesto de Sousa para o TriploV. Fotografia, 20 × 25,5 cm, Lisboa, Galeria Diferença, 1985
Como era inevitável, a produção artística dos anos 70 — recordada e celebrada recentemente no Centro de Arte Moderna — foi, também ela, abalada pela revolução de 25 de Abril de 1974, que veio quebrar um ciclo de isolamento internacional em que Portugal mergulhou durante quase cinco décadas. Nos anos de festa e experimentação estética que se seguiram a 74, a exposição Alternativa Zero, realizada em 1977, constituiu o evento que marcou a transição e provocou mudanças profundas no contexto artístico nacional, aberto definitivamente ao exterior na década seguinte. Neste ambiente de ruptura e agitação criativa vivido entre nós desde o final dos anos 60, Ernesto de Sousa (1921–1988) emergiu como a figura que mais entusiasticamente aderiu às novas expressões, ideias e atitudes que, no campo da arte internacional, então se discutiam e experimentavam, num cenário de grandes contestações políticas, sociais e ideológicas, por movimentos de vanguarda, como o Fluxus. Ao longo da sua actividade de crítico, organizador de exposições, cineasta, teórico e “operador-estético”, alguns desses conceitos nortearam o pensamento e as acções de Ernesto de Sousa, como a ideia de acontecimento artístico, a valorização do efémero em contraposição ao objecto de arte, e a celebração festiva e colectiva.
Na década de 80, observou-se uma assimilação das novas concepções de arte pelos suportes tradicionais, como a pintura e a escultura, a par com a afirmação do individualismo do artista, a consciência das condicionantes culturais e ideológicas que se impõem à percepção da realidade e com a continuidade do que vinha das décadas anteriores, que muitos criadores continuaram a explorar. Generalizou-se a aceitação de que não há uma definição universal de arte, que ela é um território aberto e plural, campo de experimentações de todos os géneros, formas, materiais. A diluição das fronteiras, que os artistas desta década consagraram como cânone, parece incorporar, na sua essência, o desejo de superação da ideia hegeliana da morte da arte: libertá-la das esgotadas formas tradicionais. Em Portugal, em 1985, a constituição do grupo TriploV e a concepção da Caixa de Arte Pipxou por Ernesto de Sousa reafirmou a procura dessa superação. Nesse ano, na sequência da preparação do filme Almada, um nome de Guerra, com o apoio da Cooperativa Diferença, Ernesto de Sousa constituiu o grupo TriploV com o objectivo de desenvolver actividades de carácter inter e transdisciplinar. Será este grupo a lançar a Caixa de Arte Pipxou, concebida pelo próprio Ernesto de Sousa e organizada por Maria Estela Guedes e Fernando Camecelha. Com uma tiragem de 40 exemplares, a Caixa de Arte Pipxou continha 22 estampas e 8 postais da autoria de um conjunto de artistas de gerações, áreas e tendências estéticas distintas: Ernesto de Sousa, Pedro Calapez, Pedro Proença, Julião Sarmento, Fernando Calhau, Silva Tavares & CaLda., António Palolo, Helena Almeida, José Oliveira, João Vieira, Carlos Nogueira, Cerveira Pinto, Jorge Molder, Noémia Seixas, José Barrias, Mariette, Fernando Matos, Alberto Pico, Rui Castelo Lopes, Casanovas, Telectu — Jorge Lima Barreto e Victor Rua —, João Dionísio, Xana, Fernando Aguiar, António Inverno, Mário Varela, Irene Buarque, Wanda Ramos, Carlos Gentil-Homem, Ana Branca e Alberto Carneiro.
A Caixa de Arte Pipxou foi lançada na galeria Diferença, à qual estavam ligados muitos dos artistas participantes no projecto, no Inverno de 1985, na exposição Celebração. Maria Estela Guedes e Fernando Camecelha organizaram, em 1987, um segundo número da caixa Pipxou (Caixa de Arte Pipxou-2) para a retrospectiva dedicada a Ernesto de Sousa, intitulada Itinerários, realizada no Museu Nacional de Arte Antiga. Esta segunda caixa — uma embalagem de cartão dos CTT para o envio de encomendas, contendo objectos criados com materiais tão diversos como pedras, massas alimentícias ou areia — teve uma tiragem de cerca de 80 exemplares e nela se realizou novamente o cruzamento de gerações, áreas e tendências estéticas. Para além de Ernesto de Sousa e de alguns artistas que tinham já colaborado na primeira caixa, esta contou com os trabalhos de, entre outros, Nuno Teotónio Pereira, Caseirão, João Grosso, Miranda Justo, Rui Orfão, Ana Silva e Sousa e Alberto Pimenta. Objectos de arte híbridos, estas duas Caixas de Arte Pipxou pertencem à colecção de livros de artista do fundo documental da Biblioteca de Arte.
Ana Barata, «As Caixas de Arte Pipxou (Biblioteca de Arte)» in Newsletter FCG, jan 2016, p. 26.
↘︎ https://cdn.gulbenkian.pt/wp-content/uploads/2016/01/NL111.pdf ↘︎ https://triplov.pt/ernesto/pipxou/index.html
















