seria lindo se a importância se estendesse à todos. se a vida dos índios importasse tanto quanto a burguesia. se a vida do negro importasse tanto quanto a dos brancos. tem gente que fala de meritocracia como se ela fosse justa, como se existisse resumida até o grau de entrar na faculdade, conseguir um emprego. falta empatia para entender que a meritocracia é falha a partir do momento em que negros morrem apenas por serem quem são.
às vezes, olhando pro teto do meu quarto, me pergunto qual motivo devo inventar para continuar existindo amanhã e se a minha arte continuará salvando meu corpo.
é triste, mas a verdade é que, de alma, morro todos os dias. sempre da pior forma. como se me torturassem, como se dessem pauladas na minha cabeça até o sangue jorrar. o que quero dizer é que ser negra é viver com a sensação de morte compartilhada. é assistir todos caírem e enxergar a covardia cada vez mais perto.
quando será a vez daqueles que conheço de perto?
a cada negro injustiçado meu coração despedaça e eu nem sei quantos cacos ainda restam. a garganta entala. dói. o choro vem. e a gente não tem chance.
queria carregar o medo comum pelas ruas. o de ser assaltada. o de roubarem meu celular. mas o medo que carrego é o de ir embora cedo – sem a oportunidade de realizar meus sonhos, de pegar o diploma, de chegar lá.
somos tantos e ninguém se importa. continuam nos rasgando, sugando nosso dinheiro, bancando o luxo através de nós.
desde pequena, luxo pra mim é sair na rua sem passar por ao menos um episódio de racismo. sair na rua sem receber um olhar torto, sem ser seguida dentro das lojas, sem repararem no meu cabelo, sem ter medo de morrer.
e eu nunca não tive medo de morrer.
deve ser por isso que dizem que a nossa alegria é rara. vem dos samba, dos dias de domingo, das melhores vozes, das melhores danças.
acredito que ela esconda bem a cruz que carregamos.
a cruz de não saber se será a última vez.
porque todos os dias é a última vez de alguns de nós.
porque todos os dias mãos brancas querem ser deus.
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