Vilão ou anti-herói: a vilania nossa de cada dia.
Vilão: Personagem de uma obra de ficção que
representa a maldade ou o lado mau.
Rústico, grosseiro. Abjeto, baixo, sórdido, vil.
Que ou quem nasceu ou habita em vila.
Que ou quem habita uma zona rural.
Que ou quem não pertence à nobreza.
Que ou quem tem qualidades morais negativas.
Que ou quem é desprezível.
(Dicionário Aurélio)
De olhos frios, gargalhadas exageradas, gestos caricatos, discursos megalomaníacos e o referencial absoluto de tudo aquilo que é negativo na sociedade eles tem equilibrado a balança do senso de justiça por milênios. Des da minha infância, assistindo desenhos na extinta rede manchete, desenhos que faziam os intervalos da escola se tornar mesas de debate sobre os próximos episódios desse ou daquele desenho uma coisa era certa! Não havia problemas em diferenciar o bem do mal. Era uma estrutura bem definida sem necessidade de justificar muita das vezes o agir não ético de determinado personagem, bem antes do que qualquer moleque ali soubessem definir o que era ético em seus termos mais próprios. Entretanto atualmente alguma coisa mudou na estrutura que definia os papeis. Seria então uma mudança na estrutura ou na ausência das estruturas “maniqueístas” que fez do antigo vilão, hoje um personagem com mais afeição do público do que os heróis luminosos?
Bendito inferno! – Para cometer seus mais
obscuros pecados os demônios
começam celestiais, como eu agora.
(Iago, Willian Shakespeare)
Uma coisa que o cinema e as demais mídias captaram com muita propriedade sobre o público desse século é que buscamos nos personagens uma proximidade, alguma coisa que traga aquele sentimento de reconhecimento entre a ficção e a realidade. E é nesse ponto que o maniqueísmo que dominou a literatura, música, religião e sétima arte começa a se diluir em uma nova mistura menos atenuada no preto e no branco. O vilão, o herói agora deveria ter inúmeras camadas para poder ter um peso no subconsciente do público ou pelo contrário seria descartado quase automaticamente como num cartoon episódico. Afinal acabamos reconhecendo que diferente do que nossos avós pensavam nada aqui é tão preto no branco quanto podíamos deduzir. O efeito de humanização do que era necessariamente mal, aproxima a ficção um dia tida como referencial de valores superiores, à nosso mundo, à nosso cotidiano. Sim alguma coisa em nós mudou drasticamente.
Lembro-me bem quando encontrei a alguns anos um exemplar magnifico do Dracula de Bram Stoker, (do jeito que eu sempre sonhei em ter uma edição em capa dura, bem diagramada uma beleza para uma estante!) Conhecia o personagem principalmente pela adaptação feita por Francis Ford Coppolla, entretanto quando comecei a ler a obra original para meu espanto o Drácula do livro não tinha todo aquele romance e sedução que tinha visto nos filmes. Era uma criatura extremamente maligna, sem muitas justificativas para ser o que era. Tal com um caçador não tem muita justificativa para dar a caça no entre um disparo e outro. Ele era assim por que era assim, era grotesco, era perverso uma criatura que refletia para a mente de um homem do sec XIX o que era de mais sombrio na humanidade. Sim! Esse foi o primeiro abalo. O monstro que essencialmente era mal nas páginas do clássico, era para o cinema e para a cultura pop, um homem injustiçado e amaldiçoado que conheceu no amor a redenção para sua maldição.
E então se entende um pouco o pensamento de nosso tempo, onde a essência não diz muito sobre como fulano é, e não é preciso nem me demorar muito para trazer a referência a memória da colaboração dos existencialistas e freudianos para a desconstrução da solida ideia de destino para cada mortal. A cada dia nós sentimos mais dificuldades em sentir empatia por personagens que reflitam essências elevadas e quase divinas, nos, nós identificamos com o que é terreno, em crise, incerto essa é a natureza presumo do nosso tempo. E é nessa pluralidade de camadas que entramos no segundo abalo que o mundo da sétima arte disponibilizou para seus espectadores: A era dos heróis caídos.
Nas décadas onde os heróis nasceram as épocas de ouro personagens como Superman, Batman, capitão américa eram retratados ainda como símbolos de uma conduta inspiradora para a sociedade. E quanto mais alto e elevado fosse esse símbolo que era ostentado pelo herói, mas distante ele acabou ficando da empatia do grande publico atual. Por esse motivo que os heróis caíram tornaram-se personagens plurais, quebrados emocionalmente, incertos e repaginados para se adaptarem ao novo olhar do grande público. Os vilões deram lugar a personagens com motivações e camadas cada vez mais profundas, em vários aspectos humanizados. Nada era mais preto no branco, bem contra o mal agora era mais palpável para o grande público. E talvez seja esse o maior impacto que temos na cultura pop. Temos personagens completamente indiferentes a vida e a valores como no caso de Rick, um cientista genial, completamente niilista, egocêntrico e narcisistas.
E por fim a aproximação da clássica vilania com os dilemas dúbios da pós-modernidade ganhou sua mais recente personificação nas telas THANOS, o icônico vilão da Marvel comics chegou depois de anos de espera dos fãs, gerando impacto catastrófico na era dos heróis, grande parte por dispensar todos os clichês da vilania, e demonstrando uma personalidade profunda e que conquista a empatia rápida do público. Sim ele quer resolver o problema com genocídio. Sim ele quer destruir metade do universo, mas a bagagem do personagem é tão profunda que qualquer um compraria o plano, torceria por ele e acabaria chegando no fim da história concordando que a solução para escassez de recursos é o genocídio indiscriminado.
A linha que delimitava os personagens agora é mais sutil. Bons personagens devem reter em si, a essência do seu próprio tempo. Refletindo a persona de seus espectadores para assim poderem em última análise desenvolver um julgamento critico de se próprios.
Seria o genocídio, a dominação mundial, a violência indiscriminada justificada por uma motivação comum? Por uma boa retorica e personalidade marcante?