

#dc#dc comics#batman#bruce wayne#dick grayson#dc fanart#batfamily#batfam#tim drake

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These were all my entries for last year’s Inktober :} The theme was popular brazilian songs.
01 Amianto (Supercombo)
02 Velha Infância (Tribalistas)
03 Bom Dia Tristeza (Adoniran Barbosa)
04 Geni e o Zepelim (Chico Buarque)
05 Terminal (Tuyo)
06 Girassol da Cor do seu Cabelo (Milton Nascimento & Lo Borges )
07 Moon (Thiago Pethit)
08 A Vida é cheia dessas coisas (Dani Black)
09 Oração (A Banda Mais bonita da Cidade)
10 Infinito Particular (Marisa Monte)
(Suss Uhr - 2019)
E esse é o texto mais importante que vocês devem ler hoje. Conheçam o Thiago, mas conheçam também a irmã do Thiago:
“Há 18 anos algo determinante para minha vida e da minha família (e de certa forma para minha carreira), aconteceu na manhã do dia 05 de setembro. Acordamos com a notícia de que minha irmã Alessandra (que nasceu com uma síndrome genética rara de má formação) e que estava na fila para transplantes de rim, havia 'recebido' uma doação.
O caso já era bastante urgente naquele momento. Eu já havia inclusive me oferecido como doador (pois era o único compatível em casa) se não houvesse tempo suficiente - e ela estava longe do começo da fila de espera. Mas naquele dia, um bug tecnológico no sistema jogou minha irmã para o começo dessa mesma lista. E também naquele dia, um bug no sistema do cosmos, levou uma garotinha de 5 anos de idade, compatível com minha irmã, a falecer. Essas infos (que costumam ser privadas) foram contadas por um intermediário no hospital, não me lembro bem como.
Essa seria a décima quarta ou quinta cirurgia pela qual Alessandra passava desde que nasceu e talvez a mais grave. Era o começo da sua pré adolescência.
Deste dia, me lembro pouco. Foi tenso. O transplante aconteceu e terminamos sem terminar, aguardando as próximas horas que determinariam a aceitação do rim pelo organismo ou rejeição. Foi aceito, entre alegrias e choros.
Porém, poucos dias depois minha irmã estava novamente internada. No hospital ficaria por uns 3 meses seguidos (se não me engano). Não entendo muito disso - mas até onde me lembro - um citomegalovírus causou-lhe uma infecção grave. Foram meses muito muito intensos e tristes. Meses de vida e morte constante. Dias e horas de vida e morte constante. Os piores das nossas vidas. Ou talvez o começo dos piores.
Sei hoje que nunca mais fomos os mesmos. Que aquilo nos havia transformado de forma trágica - como quem vê e conhece o que não deve. Diz se dos heróis mitológicos que estiveram no submundo e voltaram, que nunca mais foram iguais. O conhecimento da morte em vida nos deixa uma mácula. Um rasgo transformador e trágico. E aquilo nos abalou de forma intrínseca à existência de cada um.
Alessandra se recuperou ao longo destes meses. Voltou para casa e para nossa tranquilidade. Mas nestes anos seguintes e no auge do seu amadurecimento e adolescência - quando a vida em sociedade se mostra cruel para além dos parâmetros de casa - minha irmã passou a sofrer cotidianamente por diversos transtornos psicológicos. Eram gritos constantes. Agressividade. Irritação. Dor. Uma dor inimaginável. Nossa vida particular se tornou a dor constante e permanente. Eu não costumo expor e contar - nem para amigos, muito menos publicamente - estas histórias. Nenhum de nós quatro costuma contar. Acho que sempre quisemos preservar a intimidade da minha irmã e a nossa. E dá muito trabalho contar essas histórias. Não porque nos envergonhe ou porque sejam doídas. Elas já me envergonharam quando eu era mais novo, mas já não doem há muito.
Dor e loucura são como camadas de roupa que vestimos. Podem parecer apertadas no princípio, mas se moldam. Às vezes, até nos aquecem. E quando ficam muito tempo nos nossos corpos, passam a ser parte de quem somos. Explicar, tentar fazer entender tudo o que foi e é, é bastante complicado. Eu sempre me perguntei por quê? Existem muitas histórias como a do cineasta Eduardo Coutinho que morreu em decorrência de uma crise do filho esquizofrênico. Um contador de histórias que nunca narrou esta própria. De certa forma, eu também sou um contador de histórias.
Mas como explicar para uma sociedade tão sadia e tão doente. Obcecada pela normalidade. Capaz até de eleger um fascista para manter uma ‘ordem’ que afague-os em suas mediocridades. Me pergunto se seriam então capazes de compreender? De ver? Se é que querem escutar. Se apenas nos julgariam a cada trecho? A dizer ‘graças a Deus não é comigo, por que eu sou bom e correto’.
O louco, a gente só conhece o de rua. Ouve historias do amigo do vizinho. O louco não mora em prédio de classe média. O doente a gente esconde no hospital, na casa de loucos. Onde seus gritos de lucidez não incomodem o almoço de família. O louco. O pobre. O preto. O gay. O sujo. O aidético. O que sofre de câncer 'coitadinho, o câncer é tão classe média. Pode acontecer a qualquer um'. Mas 'o resto' - sai pra lá ‘que eu sou bom e correto e sendo bom e correto, Deus (ou o presidente) é justo’.
Mas sabe, hoje vendo orgulhoso demais o amadurecimento - dela que se tornou a primeira pessoa com deficiência a se formar pedagoga pela PUC no mês passado - acredito que chegou a hora de começar a contar essas histórias. Sobretudo porque através dessa experiência que começa com o nascimento dela, eu, minha mãe e meu pai, tocamos algo raro e valioso. Cada um tem a sua dor que rasga o cotidiano. Somos uma família esquisitíssima. Unida? Não sei, talvez à nossa forma. Feliz? Não, mas quem é? Que bom!
Não acredito em coincidências. E sei que não a toa o tema do TCC apresentado por minha irmã ecoa de forma bonita e sem igual pela nossa história. ‘O teatro como forma de inclusão para pessoas com down’. E eu arrisco a dizer ‘A arte como forma de inclusão e compreensão e possibilidade de existência - para pessoas’.
Enquanto tudo isso nos acometia cotidianamente - gritos, dor, desespero. Machucados físicos e emocionais. Meus pais em agonia, minha irmã despedaçando-se. Vizinhos chamando a polícia. Vizinhos reclamando do barulho resultando em três casos de internação. Minha irmã sedada tal qual uma planta aquática. Minha irmã em surto, e eu segurando minha irmã. Levando ela para um canto, prendendo para não machucar ninguém, para não me machucar, para não se machucar. Segurando a força. Força, Thiago! Força Alessandra, vai passar! Vai passar! - eu fazia teatro.
Ela também fazia teatro. Meus avós fizeram teatro. Meu pai. Meu pai costuma dizer que quando ela nasceu, ele se perguntou ‘Porque comigo?’. Com os anos, aprendeu que a pergunta seria ‘Porque não comigo?’. Todos em casa crescemos instrumentalizados por arte. Porque não com a gente?
Pois a arte é capaz de aglutinar todos os desejos, sonhos, desvios. Todas as loucuras e subjetividades - coletivas e individuais.
Essa gente obcecada pela normalidade medíocre morre de medo de arte. Essa gente obcecada, medíocre e tão normal morre de medo de um dia descobrir que não é feliz. Que não está satisfeita. Que não goza. Que a vida não é ter dinheiro, comprar e se reunir no almoço de família para falar amenidades. Essa gente tão normal morre de medo de não ser tão normal assim. Porque, e depois? O que fazer com isso?
Mal sabem que a arte e a cultura são a única forma de tocar o abismo, sem afogar-se.
05/09/2019 à minha irmã a quem amo incondicionalmente.
P.S.: - aos meus pais, peço desculpas por não ter pedido permissão a publicar.”
- Thiago Pethit, via Facebook.
Sempre que ouço o novo trabalho do Thiago é como se eu tivesse curtindo a noite paulistana.
E eu aproveito.
Foto de backstage das gravações do disco novo (35mmfilm by Rafael Barion)
Nos meus sonhos eu fujo
Faço as malas e sumo
Vou andando devagar
Pra você me alcançar
Viro numa esquina e paro no mesmo lugar
Em que eu te conheci
Mas você não estava lá dessa vez
Para me dizer pra onde devo ir.
Thiago Pethit - Fuga N° 1