Em seguida, deixamos o testemunho de mais alguém que teve uma experiência de trabalho no número 293 da Rua Duque de Saldanha, no Porto. Desta vez, a jovem não foi contactada pela Dragão Porto, pela Scenario Group DP ou pela FreeStyle, mas sim pela Trabuca (que no Facebook se chama Trabucaqui). Pode parecer o que em psicologia se chama de Transtorno Dissociativo de Identidade, mas não é. Esta gente está bem ciente do que faz.
"A minha situação começa quando me decidi candidatar ao cargo de “coordenador de equipas” de uma empresa portuense denominada Trabuca. Pediam “mentalidade empreendedora”, “capacidade de solucionar problemas”, “experiência” e “disponibilidade para formação em Lisboa”. Contactaram-me a um Sábado, pedindo que me apresentasse na Segunda-Feira seguinte.
A entrevista foi conduzida por uma rapariga jovem (as gerentes, ao que me pareceu, eram três ou quatro, uma de nacionalidade espanhola e duas portuguesas) que me entrevistou a mim e um rapaz ao mesmo tempo. Devíamos ter os três sensivelmente a mesma idade, entre os 25 e os 30 anos. Horas mais tarde informaram-me de que tinha sido seleccionada para uma segunda entrevista, que teve lugar no dia seguinte e que duraria todo o dia de trabalho, entre as 11h e as 20h30.
Nesse dia cheguei ao escritório e encontrei mais seis candidatas, exactamente na mesma situação que eu. A selecção pareceu-me ser muito rigorosa: apresentaram-nos os “líderes”, cujo trabalho iríamos acompanhar durante o dia inteiro e que tinham o objectivo de avaliar se o perfil dos candidatos. Explicaram-nos que aquele trabalho era um “programa” criado para ser feito em 12 meses, em que as pessoas começavam como promotores/distribuidores, a fazer angariação de fundos em campanhas residenciais e outros eventos (fundraising), passando a “supervisores” e a “assistentes da gerência” até chegarem a “gerentes” (indicaram o tempo que, em média, cada uma destas etapas durava, mas não explicaram como se passava de uma para a outra). Ao mesmo tempo, aliciavam-nos com a ideia de que cada fase estava associada a formação contínua.
O dia de observação consistiu numa ida até uma zona residencial do Porto e no acompanhamento de dois líderes que iam bater à porta de pessoas e tentavam vender o “cartão solidário”, da Associação Sorriso Solidário. Ao mesmo tempo, eu e mais duas candidatas, tínhamos blocos de apontamentos onde devíamos solucionar problemas, criar conceitos para empresas fictícias, definir “marketing” ou “técnicas de marketing directo e indirecto”.
Manifestaram muito interesse nos nossos percursos pessoais, académicos e profissionais e, finalmente, chegadas as 20h30, descobri que ainda tínhamos uma última entrevista nos escritórios. No final, informaram-me de que tinha sido seleccionada (de entre 800 currículos, 200 entrevistas e 20 candidatos) e que começava a trabalhar no dia seguinte, às 10h30.
Nesse meu primeiro dia houve uma formação dada por um espanhol, vindo de Barcelona, e foi aí que descobri que os “supervisores” (isto é, aqueles que trabalhavam há mais de um mês numa campanha de angariação de donativos) não tinham os conhecimentos suficientes para estar a fazer aquela campanha e eram precisamente quem dava “formação” aos angariadores. Portanto, as formações não seriam dadas por formadores credenciados/capacitados para transmitir tais conhecimentos.
Ensinaram-me a ter um discurso breve, eloquente, algumas técnicas de marketing directo e uma ideia do que era aquela campanha e assim segui a minha líder durante todo o dia. Havia também um léxico próprio do grupo, que reforçava o sentimento de pertença e os laços (gritos chave, muitos termos em inglês, uma espécie de seita ou de culto, se é que me entendem). Às 20h30 saímos do terreno e só saí do escritório após as 21h45.
Dias depois, o contrato de prestação de serviços que me chegou às mãos, a ser realizado entre mim e a empresa, tinha como primeiro outorgante a “Capital Prodigy, Lda.” (e então o que eram a “Trabuca” ou a “Trabucaqui”?). Assim sendo, eu seria trabalhadora independente e não trabalhadora da empresa. Comecei a ficar com dúvidas:
Não seria, então, uma situação de falsos recibos verdes? Estaria a trabalhar a full time, em horários definidos verbalmente pela gerência e em locais atribuídos pela mesma;
Não havia um salário base, os ganhos dependiam das angariações que fizesse. Para tal, o contrato fazia-se acompanhar de uma tabela, em espanhol e pouco esclarecedora, que fazia corresponder os donativos à Unicef aos rendimentos dos angariadores. Mas como é que eu, angariadora, saberia se as pessoas que tinham assinado os formulários não desistiriam de efectuar os donativos? Em suma, no final do mês poderia não ganhar nem um cêntimo, ou porque as pessoas desistiriam de fazer os donativos ou porque a Unicef atribuiria à gerência o valor correspondente pela angariação e eu, no fundo da pirâmide, nunca saberia de nada.
Informaram-me de que a remuneração era semanal, mas o contrato (renovável mensalmente) sublinhava que nas primeiras três semanas não se recebia;
Propuseram-me uma forma de “crédito” informal, para que me pudesse aguentar e evitar que passasse dificuldades;
Numa das “formações”, dada por uma angariadora que tinha sido distinguida pelo seu número de vendas na semana anterior, fiquei estupefacta quando ela revelou que aliciava as pessoas perguntando se eram “católicas” (numa campanha da Unicef, que é peremptória neste aspecto da identificação de credos, ideologias políticas, entre outros.);
Todos os dias entravam novos candidatos, portanto, com a mesma frequência deveriam sair muitos outros – não admira, o trabalho é extenuante, fisicamente exigente, sem seguro/protecção, não há salário base nem a garantia/controlo do que vamos receber pelo nosso trabalho;
Para saber como é que os gerentes ganhavam entre 1500 a 2000€ semanais (!) explicaram-me que ficam com uma percentagem das vendas de cada angariador. Ou seja, os gerentes, que não dão formações, que estão nos escritórios ao começo do dia para nos “motivar” a vender mais e ao final do dia para escreverem os nossos números, ganham pelas vendas dos que estão na base da pirâmide;
Tínhamos de trabalhar aos feriados e sábados, perfazendo mais de 10 horas diárias, cerca de 60 horas semanais.
Gosto de trabalhar – adoro trabalhar – mas o que estas empresas fazem não é oferecer trabalho, estabilidade e prosperidade. Alimentam-se de desempregados, de pessoas com pouca formação, desesperadas para ganhar algum dinheiro, e exploram-nas à força toda. Isto não pode continuar assim, nem eu, nem qualquer pessoa se devia sujeitar à exploração laboral para poder comer e pagar a renda no final do mês."