o conceito de “cisgeneridade” como desenvolvido por viviane v. em seu trabalho de dissertação “Por inflexões decoloniais de corpos e identidades de gênero inconformes: uma análise autoetnográfica da cisgeneridade como normatividade”
“’[o] primeiro passo que devemos dar em direção ao desmantelamento do privilégio cissexual é eliminar de nossos vocabulários aquelas palavras e conceitos que promovem a ideia de que os gêneros [de pessoas] cissexuais são inerentemente mais autênticos que os [de pessoas] transexuais’. O conceito de cisgeneridade, em si, é parte deste exercício, no sentido de problematizar as hierarquias de autenticidades e inteligibilidade entre corpos e identidades de gênero, através de uma proposição conceitual.” (p. 47)
“O termo, embora possa parecer bastante evidente - especialmente por conta de seu uso nas ciências, ‘campo de atuação no qual os prefixos ‘trans’ e ‘cis’ são usados rotineiramente’ (SERANO, 2009) -, teve e tem seu uso contestado ou ignorado a partir dos dispositivos de poder que constroem os gêneros inconformes como os únicos demarcáveis, em comparação às identidades de gênero cisgêneras naturalizadas, fazendo do silêncio descritivo a fundação da cisgeneridade. Assim, ‘[e]sse silêncio se dá ao mesmo tempo em que produz coerências e inteligibilidades às identidades dos sujeitos cisgêneros e interdições à plena identificação de gênero aos sujeitos transgêneros’ (BAGALI, 2014).” (p. 51)
“A genealogia deste conceito expressa, assim, algo muito além de sua elegância analítica: a cisgeneridade tem, como um de seus elementos constitutivos mais importantes, a consciência crítica de pessoas cujas existências são constrangidas e brutalizadas pro conta de seus corpos, identidades e expressões de gênero. Consciências que são atravessadas por muito sangue de cissexismos, e por um desejo, cada vez mais presente e articulado, de rompimento com os silêncios diante das violências gênero-colonizantes.” (p. 51)
“Sendo assim, ‘desnaturalizar tanto a homossexualidade quanto a heterossexualidade não significa minimizar a relevância destas categorias, mas propor que elas sejam contextualizadas e historicizadas ao invés de presumidas como termos naturais e meramente descritivos’ (JAGOSE, 1996, 18). Este é um exercício que estará bastante presente, pro exemplo, nas reflexões sobre identidades de gênero deste trabalho, pensando nas identidades de gênero inconformes - entre elas, as identidades travestis, trans, transexuais, transgêneras - em relação às identidades cisgêneras naturalizadas.” (p. 54)
“[...] ao definir as identidades de gênero ininteligíveis [...] como ‘aquelas em que o gênero não decorre do sexo e aquelas em que as práticas do desejo não ‘decorrem’ nem do ‘sexo’ nem do ‘gênero’‘, e a identidade de gênero como ‘uma relação entre sexo, gênero, prática sexual’ [...] percebemos que definições possíveis da cisgeneridade se situam nas ‘decorrências normativas’ entre ‘sexo’ e ‘gênero’, nas supostas coerências pré-discursivas, binárias e permanentes entre ‘macho+homem’ e ‘fêmea+mulher’ [...].” ( p. 57)
“Em outros termos, considerar a cisgeneridade em relação às diversidades corporais e de identidades de gênero pode se apresentar como criticamente relevante de formas semelhantes a como reflexões sobre branquitude permitem ‘identificar as maneira em que a branquitude se reafirma sem menção a cor ou raça’ (SOVIK, 2005,168)”. (p. 58)
“A utilização destes conceitos em relação a termos mais popularizados a partir de ativismos - como transfobia e homofobia - tem o objetivo de enfatizar as formas institucionalizadas e ‘os processos culturais mais amplos’ que produzem marginalizações e exclusões de diversidades, em um contraste ao termos transfobia, na medida em que este ‘representa o ódio e medo irracionais e individuais’ (KENNEDY, 2013).” (p. 69)
“O problema mais profundo da transfobia (incluindo a que parte de “““feministas”“““) não é a ausência de valores e ética. Bem ao contrário: é o fato que o discurso transfóbico encontra ressonância em valores morais amplamente arraigados na nossa sociedade.” (p. 70)
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