Discurso por mim proferido na primeira formatura institucional da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), ocorrida em 19 de janeiro de 2019, como orador da turma de Teatro-Licenciatura.
"Cumprimento o reitor, autoridades e todas e todos os demais presentes. E gostaria de destacar os nomes de 3 professoras do curso de Teatro que, pela grande competência do seu trabalho como docentes e por representarem muito bem os valores sobre os quais falarei mais adiante, foram escolhidas pela nossa pequena turma de formandos para receberem as devidas homenagens nessa cerimônia: Professora Marina de Oliveira, nossa patronesse; professora Fabiane Tejada da Silveira, nossa paraninfa; e nossa professora homenageada, Fernanda Vieira Fernandes.
Quero também agradecer aos meus colegas Kellen e Mário por terem aceito minha autoindicação para vir aqui falar em nome da turma.
Como alguém que está recebendo nessa cerimônia o título de professor de teatro, e estando diante de outros tantos formandos de cursos de licenciatura, além de professores e professoras que já exercem a docência há algum tempo, eu gostaria de centrar minha fala nesses dois temas: teatro e educação.
Ao longo dos últimos anos, tive a oportunidade de conhecer as diversas facetas do teatro, essa arte tão antiga, presente nas mais variadas culturas e que desde os seus primórdios tem possibilitado aos seres humanos realizarem reflexões sobre seus próprios comportamentos, suas histórias, práticas, costumes, tradições... Essa arte que se apresenta como uma importante ferramenta de ensino, como rica possibilidade de denúncia das injustiças sociais, dos abusos de poder, essa arte que acaba se constituindo como uma importante promotora de empatia: ao me colocar no lugar de outro, ao presenciar os colegas atores e atrizes representando a outros, eu acabo instruindo a mim mesmo a enxergar mais e melhor esse “outro”, a lançar um olhar mais compreensível, mais tolerante, mais acolhedor sobre esse “outro” e sobre as suas diferenças.
Paralelamente, ao longo desses anos de graduação, tive a oportunidade de estudar, de conhecer, de refletir sobre Educação. Reflexões possibilitadas em parte pelo estudo de importantes autores da área da pedagogia, de pensadores que dedicaram boa parte da sua vida à questão da educação, percebendo o seu poder transformador, que evidenciaram a importância de não apenas aprendermos a ler, escrever e fazer contas, mas também de ter senso crítico, de saber questionar o que parece óbvio, de saber pensar por conta própria, exercendo a autonomia. Falo, a título de exemplo, de pessoas como Paulo Freire, importante educador brasileiro, reconhecido mundialmente por seu trabalho em prol da educação e cuja obra merece ser mantida como exemplo, como inspiração para todos aqueles que se importam com educação.
Os problemas e desafios da educação no Brasil também estiveram entre as pautas recorrentes nesses anos de licenciatura: a constante desvalorização do trabalho docente, as tentativas de censurar o trabalho de professoras e professores, até mesmo de duvidar de sua capacidade de ensinar, de educar...
Enfim, os anos de formação em teatro-licenciatura, me possibilitaram compreender a quantidade de problemas que a educação, o teatro (e a arte em geral) enfrentam frequentemente em nosso país... entretanto, estes mesmos anos de formação me fizeram compreender também o poder transformador que o teatro e a educação podem ter.
Em atividades desenvolvidas ao longo do curso, tive a oportunidade de visitar diversas escolas de Pelotas e região e de encontrar alunos, alunas, professores e professoras claramente necessitados de arte, necessitados da riqueza de reflexões e experiências estéticas, de toda a alegria dos jogos e brincadeiras, das experimentações envolvendo o próprio corpo e suas possibilidades de expressão, de sensibilização, de tudo o que o teatro pode nos proporcionar.
Notei também, ao longo dessas idas às escolas e de outras atividades desenvolvidas no curso, a urgente necessidade de que jamais se deixe de lutar para que esses alunos, alunas, professores e professoras possam desfrutar de uma educação de qualidade, baseada no respeito ao trabalho docente, uma educação laica e livre de qualquer censura, uma educação que não crie nenhuma hierarquia desnecessária entre diferentes áreas de conhecimentos, e que saiba reconhecer o papel da arte na formação das pessoas, uma educação que não tenha como objetivo apenas a formação para um mercado de trabalho, mas que, associada à arte, associada ao teatro, possa promover esse senso crítico de que falei antes e celebrar a empatia, a alegria, a sensibilidade, a beleza...
Penso que, agora mais do que nunca, é nossa obrigação, colegas formandos do teatro (e, dentro de suas possibilidades, colegas dos demais cursos) fazermos a nossa parte para que os benefícios do teatro, da arte, da educação de qualidade se tornem disponíveis a todos, contribuindo assim para a construção de um mundo melhor.
Obrigado."













