Conformismo e Resistência: Cultura Popular e Autoritarismo CHAUÍ, Marilena. Conformismo e Resistência. Aspectos da Cultura Popular no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1986. O texto de início tenta explicar o porquê a população brasileira ainda tem um pensamento arcaico e autoritário, ainda sofre com questões sociais que já são lidadas de formas mais amplas em outros países, mostrando como o discurso fundador propõe esses ideais. No mais, ao ponto de vista de muitos estudiosos, são uma herança colonial, ainda enraizadas após os mais de 300 anos de subordinação Ibérica. Adiante um pouco, vemos esses traços autoritaristas sendo reforçados na ditadura, as quais o cerceamento da liberdade exalava nos coturnos militares, e mesmo assim, por muitos ainda são chamados de “revolução”. O Governo Ditatorial então tomou medidas financeiras para mascarar a desigualdade, ao mesmo tempo que impunha a opressão ás pobres massas, diminuindo o salário e cortando direitos trabalhistas, fazendo com que a desigualdade se acentuasse nesse ponto, sendo auxiliado por intervenções internacionais em empresas, também se tornando dependente dessas intervenções por conta de seus empréstimos e de sua dívida externa. Segundo uma das memórias relatadas no texto, após o período da Ditadura Vargas, tivemos um breve suspiro de democracia, o que outrora contraditório, pois vários movimentos sociais foram proibidos nessa época e se mantiveram como ilegais, como as greves dos trabalhadores, a proibição do voto aos analfabetos, nos remetendo quase que ao voto censitário, pois a maioria da população brasileira era pobre e analfabeta, torna ilegal o Partido Comunista no país, e ainda cultiva os ideais racistas e machistas, estes que são por muitas vezes sustentados pela falha legislação. Já em 1975, com o início da abertura política na ditadura, que foi uma tentativa de “abrandar” os danos feitos ao país, que já não contava com o apoio popular e se encontrava economicamente deteriorado, os militares tentaram aos poucos uma transição para a democracia de um modo que não fosse tão abrupta, o que pouco depois resultou com o fim do AI-5, a anistia dos presos políticos (também aos militares torturadores), pluralidade partidária, o que de certa forma foi uma estratégia para tentar dividir os movimentos contrários a ditadura, fazendo com que esses perdessem força, as eleições diretas aos governadores e as indiretas para o Presidente, o que reafirma que ao mesmo tempo que o governo voltara a ter uma parte realmente do povo, ainda era subordinado aos ideais ditatoriais. Levando em conta esta memória, podemos entender o discurso com a ideologia do autoritarismo encrustado, pois o que se é lembrado dessa época em primeiro lugar é o todo poderoso Estado, e que a população e suas lutas e movimentos por muitas vezes é deixada de lado, em segundo plano. Desses, muitos estavam e foram ativos na luta contra o regime, os quais, desde a alta classe até o proletariado pobre tinham o intuito de resistir. Os empresários gostariam de menos interferência do Estado na economia, já o cidadão da classe média, buscava a liberdade aos presos políticos, a livre expressão com o fim da censura, da violência policial nas ruas, a reforma carcerária e tantos outros problemas como educação e saúde. Os trabalhadores buscavam a segurança de um trabalho digno, o direito a greve e o fim do imposto compulsório aos sindicatos, o que acabava por lhes tirar a força. Os movimentos das minorias, negros, mulheres e homossexuais também veio a se juntar, unindo forças no embate contra o autoritarismo. O brasileiro entende a cidadania como uma coisa que ele pode ver, e não como uma coisa que é ele, o que reforça esse pensamento de que “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, em um dos ditados populares mais classistas, o qual se tornou normal no dia-a-dia. É uma sociedade em que o público nunca será do público, e existe um abismo muito grande entre os “heróis”, os grande senhores da sociedade e o mero cidadão comum. Os valores são diferentes para diferentes classes e pessoas, os ricos sempre terão a razão e se sentirão vítimas das verdadeiras vítimas da sociedade, e terão o total respaldo da polícia, também parte das mazelas, mas que não se identifica com nenhuma, apenas vai se enxergar como a solução dos problemas, se tornando só mais um desses. As questões familiares são muitas vezes tratadas como se não fossem assunto do Estado, apenas no que lhes convém, fazendo com que a violência familiar, a falta de emprego, o vício em substâncias químicas, o trabalho infantil incentivado pela falta de comida e condições financeiras acabem sendo colocados como culpa dos próprios cidadãos e não do Estado, que não proporcionou condições suficientes para que essas famílias se estruturassem. A luta de classes no Brasil infelizmente tem um só lado armado, com os dominados sempre abaixando a cabeça e não se dando conta de que é a maioria, e os dominadores se aproveitando dessa situação, retendo todas a instituições para manter seu poderio, e a realidade é, pelas condições precárias e a falta de educação e cultura para a população pobre, a instrução nunca chegará a esses, e consequentemente esses nunca se tornarão informados o suficiente para sair dessa situação. Tudo faz parte do mesmo ciclo, os quais poucos conseguem ser exceção, sendo que esses ainda sofrerão vários empecilhos em sua jornada pós fuga, como o preconceito racial, classista ou machista. Dessa forma, tudo também que vai contra esses conceitos é repelido, e taxado de errado ou “não se encaixa” nos padrões. Quando esses padrões são quebrados uma espécie de desarmonia acontece, tirando essa classe dominadora da sua zona de conforto, fazendo ela acionar sua força tarefa para descobrir e culpar os culpados (ou inocentes?). A capacidade das classes pobres de se adaptarem ao cotidiano e sobreviverem mesmo com todas as dificuldades e obstáculos colocados pelas altas classes, pelos preconceitos, pela doutrinação trabalhista que faz com que estes tenham de abdicar de quaisquer desejos, sonhos, alegrias para servir e sobreviver tira essa classe alta do comodismo, apertando o cerco cada vez mais, para não perder nenhum de seus carneirinhos. Gabriel Pereira Rangel, acadêmico do curso de História pela Universidade do Vale do Sapucaí-Univás.









