Abusus, usus, fructus
Os latinos tinham 3 definições para o direito de propriedade de um bem. Abusus seria o que hoje chamamos de privatização. O bem seria explorado para um propósito "particular", privando a coletividade de seu bem. Usus é o aproveitamento do objeto para o Bem Comum, que traz bom proveito para a comunidade segundo alguma utilidade. Fructus é o uso singular do bem pelo bem, que o potencializa e abre seu modo de existência para outras possibilidades que a noção de utilidade comunitária não dá conta. O fructus torna frutífero e frutuoso o bem, criando a partir dele outros bens. Ab-usus e usus são antônimos, opostos, mas pela figura do Usufructus, foi possível conciliar numa mesma noção o uso frutuoso do bem com sua ideia coletiva, no conceito ainda contemporâneo do usufruto.
O capitalismo substituiu a conceituação triádica latina pela díade de valor de uso e de troca. Pela noção de propriedade particular, o uso privado é apenas abusus, pois a propriedade é o que dá ao proprietário o direito de abuso do bem. Já o uso comum é apenas seu valor de troca, valor suspenso entre dois ab-usos. Já o fructus foi "estetizado", transformado em fruição estética. Pelo conceito de "criatividade" a noção de fructus foi atualizada esteticamente num domínio "extraordinário".
Não está na hora de valorizar a concepção de usufruto, já presente no direito em concessões marginais? Atualmente a noção de abuso ganhou um peso ecológico de espoliação ou de consumo, desgaste do bem. O capitalismo é um sistema de abuso dos bens comuns. Precisamos banir tal ideia do abuso e se concentrar numa economia do usufruto, que conjugue o uso e a fruição como demonstração de respeito ao Bem Comum. Substituir a noção de propriedade como privação pela de posse como usufruto do bem. Seria uma boa ideia de Comunismo a ser apropriada ao novo século.

















