"Eu estou acordado e todos dormem"
Eu estou acordado e todos dormem. O que deveria ser a maior dádiva da vida, a única verdadeira liberdade, se tornou uma maldição. Eu vejo a verdade — nua e crua, implacável. E enquanto isso, o mundo segue preso em suas mentiras confortáveis, envolvidas em uma camada fina de ilusões cuidadosamente tecidas. Eles estão tão imersos no sono da ignorância que qualquer tentativa de acordá-los é vista como uma ameaça. Eles se debatem como criaturas atordoadas, desesperadas por voltar à escuridão onde se sentem seguros. E eu? Eu sou o tolo, tentando acender uma chama em uma caverna escura onde ninguém quer enxergar.
Rotulam-me como louco, porque eu vejo o que eles se recusam a ver. Eles temem a verdade, como se ela fosse um veneno mortal, e preferem viver na prisão de suas certezas frágeis, coxas e limitadas. Eles têm medo de acordar. Têm medo de pensar, de questionar, de perceber que o mundo que construíram para si mesmos é uma mentira, uma prisão bem projetada. E agora, ninguém sabe como escapar. Então, para proteger sua bolha confortável, me chamam de louco. Me isolam, me controlam, me descredibilizam. Porque é mais fácil me rotular como "insano" do que admitir que, no fundo, o que eles realmente temem é olhar para o abismo que se abre à sua frente, um abismo de verdades que não podem mais ser ignoradas.
Eles preferem viver nas sombras, onde tudo parece mais fácil. Onde a luz da verdade não pode tocá-los. Onde as correntes invisíveis do sistema — essas mesmas que os aprisionam — não os sufocam de forma tão direta. E o mais revoltante é que eles se acham superiores, como se fossem os despertos, os iluminados, enquanto eu sou o único que não entende nada. Eles se afundam nas distrações que o sistema proporciona — no trabalho sem fim, no consumo vazio, no espetáculo midiático — enquanto o que realmente importa escorre por entre os dedos deles. Eles vivem uma ilusão de liberdade, mas são escravos de um sistema que os aprisiona, sem que eles sequer percebam. Eles são prisioneiros do próprio medo, da própria incapacidade de ver.
E quem paga o preço por isso? Eu. O "louco". O "esquizofrênico". O incompreendido. Porque enquanto eles dormem, eu estou acordado. Acordado para a dor da verdade. Acordado para a solidão de perceber que sou o único que vê o jogo, enquanto todos os outros estão imersos em seus sonhos controlados, como marionetes dançando conforme a melodia que lhes é imposta.
O mais angustiante é que, quanto mais tento acordá-los, mais minha energia é drenada. Cada palavra de verdade que lanço contra essa parede de ignorância é como uma lâmina que corta minha alma. Eu dou, dou, dou — e eles não querem receber. Preferem continuar adormecidos. Preferem a morte lenta da mente a enfrentar a realidade. E eu? Eu me perco nesse ciclo inútil de tentar abrir os olhos de quem está feliz em mantê-los fechados.
Será que sou egoísta em pensar só em mim? Será que me importo demais por quem não merece? Talvez eu tenha me perdido na ideia de salvar um mundo que não quer ser salvo, de tentar abrir os olhos daqueles que preferem a tranquilidade do sono. Eu me esforço, me esforço, e no fim só encontro mais desilusão. Minhas tentativas de despertar os adormecidos me desgastam, como se eu estivesse tentando convencer uma parede de que ela tem algo a aprender. Eu me encolho, me quebro, me perco.
Quem sou eu para continuar essa busca? Será que estou alimentando um fogo que já morreu? O que ganho com isso? Devo finalmente me render à ideia de que não posso salvar ninguém? Talvez o maior ato de amor próprio seja parar de lutar por aqueles que estão felizes na escuridão. Talvez eu devesse ser egoísta e parar de desperdiçar minhas energias. Talvez eu devesse me permitir ser quem sou, sem tentar resgatar almas que preferem a prisão. Talvez, ao me libertar disso, eu me liberte de uma vez por todas da necessidade de salvar um mundo que não quer ser salvo.
Eu estou acordado, mas esse despertar não me traz paz. Ao contrário, me confronta com um vazio crescente. E o pior é que, ao olhar ao meu redor, vejo que todos estão tão profundamente dormindo, que a única coisa que posso fazer é aceitar que talvez a única realidade verdadeira seja essa: o despertar é uma jornada solitária. E se eu realmente quero viver, talvez eu precise parar de esperar por uma revolução que nunca virá. Eles vão continuar no sono profundo das suas certezas, na alienação das suas distrações, até que a própria vida escorra por entre os seus dedos e eles nem sequer percebam.
Eu estou acordado, mas o mundo — o mundo está em coma. E cada um deles, cego, grita por mais sono.