Jean Piaget adrift on an ocean of books in his home studio in the 1970sl
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Jean Piaget adrift on an ocean of books in his home studio in the 1970sl
As pessoas farão qualquer coisa, por mais absurda que seja, para evitar encarar suas próprias almas.
Carl Jung
Há dias em que a vida parece estar diante de mim, inteira, disponível, e ainda assim eu a observo como quem olha uma vitrine fechada.
Vejo pessoas se movendo com entusiasmo. Começam cursos, criam projetos, aprendem instrumentos, descobrem novos caminhos, apaixonam-se por rotinas, acordam com planos. Eu as observo com uma mistura de admiração e espanto, como quem tenta decifrar um idioma estrangeiro.
Não é que eu não queira viver. Quero. E talvez queira até demais.
Quero sentir beleza nas pequenas coisas de que tanto falam. Quero acordar com vontade. Quero me interessar genuinamente por algo a ponto de esquecer o relógio. Quero me dedicar sem transformar tudo em esforço. Quero experimentar aquele estado em que a pessoa simplesmente vai, sem precisar se arrastar até si mesma.
Mas há épocas em que viver parece exigir um motor que não encontro.
Cumpro tarefas, compareço aos compromissos, sigo o roteiro esperado. Faço o que precisa ser feito. De fora, talvez pareça suficiente. Por dentro, porém, há uma pergunta silenciosa que insiste: é só isso?
Não faço essa pergunta por ingratidão. Faço porque sinto que existe alguma camada da existência que ainda não alcancei. Como se todos soubessem onde fica a nascente da água, e eu permanecesse tentando matar a sede com mapas.
Durante muito tempo, achei que o sentido viria pronto. Quem sabe em uma conquista. Em um reconhecimento. Em alguma certeza definitiva sobre quem sou e para onde devo ir. Esperei por revelações grandiosas, como se a vida precisasse se anunciar com trombetas.
Hoje desconfio de outra coisa.
Acredito que o sentido não chega vestido de destino. Talvez ele entre devagar, sem ser notado, quando regamos o que ainda está vivo.
Talvez esteja em terminar uma página. Em aprender algo lentamente. Em sustentar um vínculo bom. Em ouvir uma música até o fim. Em perceber a luz da tarde atravessando a casa. Em rir sem planejamento. Em começar de novo sem transformar isso em fracasso.
Hoje percebo que vinha procurando nos lugares mais altos, quando ele costuma morar rente ao chão.
Ainda não tenho respostas. Continuo, muitas vezes, me sentindo à procura.
Preciso aprender que viver não é encontrar um grande motivo de uma vez por todas, e sim cultivar pequenos motivos que sustentem o percurso.
Dentro de mim, a saudade insiste em te reconstruir todos os dias. Mas a razão, em sua frieza necessária, me recorda que já não sou o lugar onde teu afeto repousa. E é nesse conflito silencioso que vivo: entre a vontade de te manter e a necessidade de me libertar.