Beta Jornalismo e webdocumentário
Acontece neste sábado a primeira edição do Beta Jornalismo. O evento anual é promovido pelo curso de jornalismo da PUCPR. O encontro reúne especialistas em narrativas digitais, webdocumentário e outros temas que tratam de comunicação em multiplataformas.
A Realité Filmes vai te explicar um pouco sobre webdocumentário e o palestrante Marcelo Bauer.
O termo webdocumentário foi utilizado pela primeira vez no Cinéma Du Réel Festival, ao se referir a todas as produções em formato documental, que em sua concepção e realização são intencionalmente feitas e reproduzidas para a web. Ao contrário de um documentário simplesmente filmado e divulgado na internet, o webdoc cria um mundo de possibilidades. A palavra que o define é interatividade. Similar a um vídeo game, o usuário está frente a enormes quantidades de informações, seja por meio de entrevistas, textos, links, imagens, vídeos, mapas, e pode fazer a escolha de qualquer uma das opções, sem ordem cronológica - o webdocumentário é referência para a quebra da narrativa tradicional.
Não há linearidade, o espectador agora interage, observa atentamente, já não é mais passivo. Cada webdoc possui características singulares, variando no tema ou na plataforma utilizada, fazendo com que cada produto tenha sua própria identidade.
Marcelo Bauer trabalhou durante 15 anos como jornalista, com jornais, revistas e textos para internet. Em 2001, co-fundou a produtora Cross Content, especializada em projetos cross-media, isto é, integração de diferentes canais de comunicação. Hoje, Bauer possui três webdocumentários produzidos, sendo dois autorais, "Filhos do Tremor – Crianças e seus Direitos em um Haiti Devastado", de 2010, e "Rio de Janeiro – Autorretrato", de 2011. No mesmo ano lançou "Petróleo, Combustível da Vida Moderna", produzido pela Cross Content para o portal iG. Bauer é um dos poucos produtores brasileiros a se especializar na criação de webdocumentários.
O país pioneiro no assunto é a França, contando com várias produtoras especializadas e apoio de canais televisivos para divulgação de seu material. Outros países se destacam pela grande produção de webdocs, como Canadá, Inglaterra, Estados Unidos, Espanha e alguns países sul-americanos, como a Colômbia. Porém no Brasil são poucos os que sabem do que se trata, de fato, um webdocumentário. Bauer acredita que a maior razão para isto é a falta de conhecimento sobre o que realmente caracteriza o webdoc. “Muitos elaboram um documentário e o lançam para a internet, acreditando que esta seja a definição de um webdoc, sem se preocupar com a interatividade ou a quebra com a linearidade”, comenta. A problemática se agrava com a pouca divulgação do material pronto, devido à falta de verba recebida pelos criadores para investir na propaganda do produto após seu desenvolvimento. Há um circulo vicioso: não se define o que é um webdocumentário, e quando se cria não se divulga. O termo, então, permanece desconhecido pela grande maioria das pessoas.
A relação entre o autor e o internauta se distancia daquela entre um diretor e seu espectador. Neste processo, o projeto final não existe, fica nas mãos de cada usuário escolher seus próprios caminhos e traçar seus objetivos. Há espaço para aprofundamento, para vários pontos de vista e imersão no assunto tratado. Apesar da interatividade e da participação democrática, o material ainda é pré-selecionado, as escolhas são feitas dentro de um ambiente relativamente fechado. “Quem elabora um webdocumentário não deve estar preocupado em passar sua mensagem sem se importar com a ideia dos outros. Deve-se ter o desejo de levantar uma discussão, de co-autoria”, comenta Bauer. Ele acredita que esta interação caracteriza-se pelo papel participativo do visualizador e pode acontecer em níveis, como a pessoa que simplesmente avalia ou comenta seu documentário, ou aquela que assiste e produz um conteúdo posterior, levando em conta o que foi assistido, ou mesmo que participa de fóruns online sobre o assunto. Outras principais características para o produtor são a não linearidade, que é um dos dogmas do cinema, e a interação (a possibilidade de percorrer dentro da obra, de interagir com a máquina). É importante salientar que estas características não são obrigatórias de todos os webdocs, mas são as mais recorrentes.
Em sua ideia fundamental, o webdocumentário baseia-se na realidade para retratar um processo, uma jornada, uma história, assim como o documentário tradicional. Porém em sua pré-produção e criação deve-se atentar a outros detalhes. “O processo de criação de um webdocumentário se assemelha a um documentário tradicional. Em sua concepção é elaborado um argumento, roteiro, entre outros. A diferença é o planejamento para a web”, explica Bauer. O material selecionado, assim como em um filme, passa por uma edição e juntamente se desenvolve o site no qual será vinculado o produto e a plataforma que será utilizada. Durante esta etapa de pós-produção, o criador do projeto seleciona todas as informações, imagens, vídeos, e qualquer outra mídia que lhe ajude a criar o visual, o conteúdo e, também, a ambientação. Felipe Vieira, sócio da Doctela, produtora de mídia e comunicação especializada em cultura e entretenimento, explica que para que haja a imersão do internauta no projeto é preciso tentar novas ferramentas. “Em nosso WebDoc Graffiti (2012), queríamos recriar a interação que o grafiteiro tem com a rua, e fazer com que o usuário a tivesse com a web. Nele, a pessoa podia colocar sua marca, simplesmente colocando um ponto no mapa”, comenta.
Luzimary Cavalheiro é uma das produtoras de Caminhoneiras (2012), um webdoc sobre quatro mulheres que relatam seu cotidiano em mundo dominado por homens. O projeto foi tema do TCC de Luzimary e Ailime Kamaia, e uniu a vontade das duas de criar um produto com multiplataformas midiáticas. O tema “caiu como uma luva”, diz Luzimary, já que permitiu que pudessem trabalhar com audiovisual, textos e fotos, junto ao conceito de não linearidade. “Nessa plataforma, descobrimos que acabamos por produzir algo totalmente inovador. Achamos que estes projetos são importantes quando se fala de interação. Em Caminhoneiras o internauta constrói o caminho que vai percorrer no site, escolhendo temas que chamem mais atenção”, comenta. O webdocumentário das garotas já atingiu mais de 10 mil visualizações de páginas, com 1.600 visitantes únicos. A duração média é de 10 minutos por cada internauta, um tempo elevado de permanência para um formato pouco conhecido no Brasil.
Edição: Francisco Mallmann