Chilling Adventures: Sun Montgomery and YoonOh Montgomery
Versão NYC daquele último scenario. Chorei igual, se não mais, mas o final ficou ó, uma merd*.
No dia que saí do aeroporto de Nova York, com destino único e certo pra Síria, meu jeito de tranquilizar a minha família e todo mundo que me achava doida varrida, era dizer que eu estava a uma ligação de distância.
Nova York e Alepo tinham tanta água e terra entre elas, umas tantas confusões políticas e sociais também, e me impedir nunca foi exatamente uma opção quando eu descobri o que queria fazer. Então era isso o que todos nós tínhamos.
Uma ligação.
— Vou ligar pra você todos os dias, eu prometo. — Dizia para YoonOh, que tinha passado os últimos cinco minutos grudado a minha perna e se debulhando em lágrimas, e eu esperava aquilo de qualquer pessoa. Menos da sua versão de quatro anos.
— Isso não é verdade! Não tem como você saber! — Respondia, a própria definição de puto da cara, com os dentinhos serrados e os olhos também, como se raiva fosse a única coisa que ele sentisse além de uma forma meio violenta de tristeza. — É muito longe, qualquer coisa pode acontecer.
— Mas não vai acontecer. — O assegurei quando pensei que aquilo tinha durado muito, muito mesmo, me abaixando e o pegando no colo, não reclamando dele estar ficando tão grande dessa vez. Sabia que quando voltasse, ele ia ser ainda melhor. — Eu vou voltar quando você menos esperar, e vou estar segura o tempo todo. Vai ser como se estivesse trabalhando na construtora ainda, mas…
— Agora construindo casas pras crianças que estão voltando e ainda não tem uma. — Recitava o meu próprio discurso, que tinha feito pra lhe explicar a situação semanas atrás. — Construir casas seguros, no Paraíso seguro.
— E você não precisa chorar, porque vai ficar tudo bem. — O tranquilizei, e em algum momento, ele mesmo desceu do meu colo, secando o rosto na roupa, e o beicinho se tornou sua cara de mau. Assim, do nada, fazendo que sim com a cabeça como se autorizasse que eu fosse.
Ficou tudo bem, mesmo, e ele usou todos os passes de ligação. Todos eles mesmo.
— Hoje um cachorro latiu pra mim e eu fiz carinho nele!
— Achei que tinha assistido todos os episódios de Naruto, mas descobri que quando terminar, vou ser tão velho quanto você.
— Hoje! Eu! Vomitei!
Se ele soubesse o quanto uma ligação pra zona de contenção de Alepo era cara e que meu pai ia sim botar na conta dele, ele não ia gastar as regalias assim, mas eu não reclamava. No começo, me ajudava a pensar que não estava perdendo tanto de seu crescimento em casa, mas não me impedia de ficar sentida por não estar perto quando ele tinha problemas mais sérios também.
— As crianças mais velhas me acham idiota porque eu gosto de violino. — Meu irmãozinho soltou o motivo de estar chateado de repente. Depois de dez minutos choramingando no celular.
— Não devia se incomodar com isso, você é ótimo tocando violino. — Fui sincera, tentando não achar graça e sim sentir empatia com a situação, enquanto andava pelo canteiro de obras com um sol de quase cinquenta graus na cabeça que me fazia sentir falta do clima de casa todos os dias.
— Mas não é legal. Eu não sou legal, e nem maneiro, e é tudo por culpa dele. — Ele insistia, a voz ficando mais fina com a raiva que eu sabia que estava crescendo.
— O Ferris toca violoncelo, é super conceituado e maneiro. — Achei importante comentar, abrindo um sorriso tanto pro meu irmão que não podia ver, quanto pras crianças brincando por ali.
— Você diz isso porque ele é seu namorado e você sempre diz que se alguém disser o contrário, é burro. — E eu podia até sentir ele revirando os olhos com força, um gemido de derrota passando por ele.
Eu ia me defender, juro que sim, mas droga, o garoto tinha razão, então tentei pelo menos usar isso a meu favor. E talvez dele, também.
— Então se alguém disser o contrário de você, também é burro. — Afirmei cutucando seu ombro com o dedo indicador, lhe mostrando como era simples. — Se algum bostinha te dizer que você não é legal ou maneiro só porque gosta de tocar violino, saiba que eles são burros. YoonOh, você já foi parar até no jornal. É o maior músico mirim nessa cidade com surdez progressiva, que consegue tocar um recital inteiro só calculando o tempo e sentindo as vibrações da música. Você é maneiro pra caramba e o que as outras pessoas pensam, não importa.
Sabia que ele só tinha cinco anos e talvez não fosse absorver aquilo tudo, mas era o que eu podia fazer, e queria mesmo acreditar que ele ia ficar repetindo aquilo pra si mesmo até entender.
— Isso foi… Legal. — YoonOh disse com uma risadinha. Sabia que as bochechas estavam vermelhas e que suas covinhas estavam aparecendo sem nem precisar estar la. — Violino pode ser muito legal! Eu sou legal! Eu sou maneiro!
— Muito legal. — Dizia, tentando soar mais alto do que os gritos dos oficiais pedindo pra todo mundo voltar pro abrigo quando o barulho de vários helicópteros se fez presente. E não era mais seguro ficar exposto ali. — Você é muito maneiro e tenho certeza que vai ficar bem.
O jeito que as coisas eram filtratadas pra chegar até ele também não parecia justo, mas era necessário. Não dá pra explicar pro seu irmão de cinco anos que você some por uns dias, porque rebeldes detonam os meios de comunicação e estão em constante instabilidade com o governo, e nem que eu não fazia só o que me cabia, mas tudo o que eu podia. E que às vezes… Eu não conseguia superar as coisas que eu presenciava tão bem quanto eu precisava, então tudo virava trabalho.
Tudo fazia parte do trabalho, e ele ainda não sabia de tudo pro bem dele.
— Papai disse que eu devia perguntar e que você esta triste por causa disso. — YoonOh começou a tagarelar, depois de falar sobre todo o seu dia e eu responder o mínimo que conseguia sem parecer que estava chorando do outro lado, vendo a equipe cavar todas aquelas covas. — Mas porque você… Por que está triste?
— Ele era meu amigo, ele me ajudava a… Bem, ajudar as outras pessoas. — Comecei a explicar pra ele, mais controlada do que tinha feito com meus pais mais cedo. — Estou triste porque ele não está mais aqui.
— Ele era um super engenheiro também?
— Não, ele era médico. Ele ajudava a trazer outras crianças pro mundo, e salvar outras pessoas pra morar nos prédios que estou construindo.
— E o que aconteceu com ele? — Conseguia ouvir uma certa curiosidade em sua voz, e meu pai o repreendendo no fundo também, o qual ele só respondeu um desculpe um pouco longe do auto falante.
— Ele tentou ajudar mais do que devia, e agora não pode mais ser um super médico. — Não podia dizer pra ele que ele tinha feito aquilo pra salvar aquelas pessoas, e nem eu mesma, e só o pensamento disso me fez ficar mais magoada do que já estava, pensando que eu ia ser a única dando a notícia pra família dele, caso ainda não tivessem visto na TV. — Ele só queria ajudar, muitas pessoas ao mesmo tempo, e não pudemos fazer o mesmo por ele.
— Papai disse que ele virou uma super estrela. — E eu não sabia porque, mas YoonOh parecia ter começado a chorar do outro lado também, menos discreto do que eu, os soluços quase se sobressaindo com sua última frase. — Você não vai, não é? Vai continuar aqui, todos os dias, e ligando todos os dias… E não vai virar uma super estrela também, não é?
Achava que ter que assegurar todos eles — meus pais, namorado, melhor amiga e meus amigos e familiares — era muito difícil, e piorava mais todos os dias, mas pareceu incrivelmente simples quando foi a vez dele, por que eu sabia que a resposta era sim ou sim. Não existia um meio termo quando se tratava dele.
— Eu vou ficar bem e voltar pra casa segura, custe o que custar. — Lhe prometia com uma mão no coração, e não precisava de sua confirmação pra saber que ele tinha a sua própria no seu também. — Vamos nos ver no ano novo como eu prometi, vou voltar pra casa quando todos estiverem seguros e vai ficar tudo bem. Você só precisa esperar.
E, eu juro, não sei como tinha conseguido sustentar aquela promessa por todos aqueles meses, mas estava lá no aeroporto no dia trinta de dezembro, correndo na direção dele com a mesma velocidade que ele correu pra mim, e a espera toda valeu a pena, e eu cumpri quase todas as promessas.
Fiquei um tanto apreensiva quando li que o governo de Nova York não ia banir os fogos de artificio com som, mesmo com todos os protestos de vários grupos sobre como era problemático, e passar a virada no centro com todo mundo foi um verdadeiro aviso de pesadelo, e eu só sabia que quando me escondi no closet do meu quarto na casa dos meus pais, não queria ser encontrada. Parte porque não me sentia bem, e parte porque eles ainda não sabiam que aquilo não me fazia bem, e eu não queria ser o problema de novo, e nem a garota que precisava ser cuidada e atendida o tempo todo.
— São só fogos de artifício, não tem nada a ver com bombas. — Dizia pra mim mesma, fingindo que não estava tremendo tanto que mal conseguia segurar meu celular pra ver os minutos restantes. — Você é melhor do que isso e vai passar por isso. Está em casa agora e nada pode alcançar você, é só respirar e…
Em um dia normal, ia ter tomado um belo susto vendo aquela pequena sombra se esgueirando pelos meus casacos e bolsas, um iPad na mão e fones de ouvido na outra minúscula, enquanto se sentava ao meu lado, nem parecendo que tinha tentado ensinar nosso sobrinho a escalar todos os cantos da casa com seu kit de alpinista. Nosso sobrinho recém nascido.
— O Disney XD vai passar uma maratona de desenho agorinha e ninguém quer ver comigo, ai eu disse que ia procurar você, porque você seeeempre assiste comigo. — Ia se explicando, conectando os fones e entregando um pra mim, antes de subir no meu colo e se aconchegar como fazia desde que nasceu, literalmente. — Os fogos fazem dodói e não são divertidos, você não acha?
Ele era sensível aquele tipo de barulho, meus pais faziam parte das pessoas que tinham assinado petições, então não tinha bem uma pessoa melhor pra me entender aquele momento.
— Eu concordo totalmente com você. — Dizia apertando suas bochechas, tentando me concentrar naquele episódio besta de Gumball. — É muito melhor ficar aqui com você.
Onde eu prometi que não sairia mais, naquele dia, também.
















